segunda-feira, 5 de novembro de 2012

TIETAGEM NA ADORAÇÃO



Chega o momento no congresso em que o cantor se apresentará. Mal ele (ou ela, ou ainda, eles) sobe no palco e uma legião de teens se levanta. O séquito, munido de tabletsiPhones e coisas do gênero, se avoluma em pé, em frente ao palco. Enquanto cantam junto a música, filmam a apresentação, que em poucos minutos será compartilhada por meio de canais no Youtube ou pelo Facebook.
O que está acontecendo? Tem-se a impressão, diante do quadro, que se está em um show secular. Sei que a crítica soará exagerada. Afinal, perguntarão alguns, que mal faria compartilhar músicas cristãs nas redes sociais? Talvez a atitude reflita um sinal da mudança dos tempos. A espiritualidade hoje ganha contornos de entretenimento e celebrização das pessoas usadas por Deus. Isso seria essencialmente negativo?
Temos de nos lembrar que o culto coletivo possui diversas expressões e ênfases. Entenda-se por culto coletivo um agrupamento de pessoas de determinada confissão religiosa, reunidas para expressar publicamente sua fé. Nas denominações cristãs, é comum a divergência na compreensão do culto – desde aspectos relacionados à liturgia, ao tipo de participação do adorador. Na igreja Adventista, o culto parte de uma reflexão bíblica, influenciado pelas orientações da escritora norte-americana Ellen G. White, tida como a voz profética do movimento. Assim, em todo culto, os adventistas entendem que há momentos para se vivenciar louvor, gratidão, instrução, contrição, comunhão e entrega. Esses e outros espectros constituem a adoração.
Torna-se arriscado no ato de adoração devotar atenção exagerada a qualquer pessoa que desempenhe uma função específica, seja no cerimonial, oração, música ou exposição da palavra. Dentro de uma perspectiva adventista, tratar músicos como celebridades midiáticas é substituir o espaço da adoração pelo do entretenimento, correndo-se ainda o risco de dar lugar a um exagero de devoção próximo à idolatria! Não é o caso de demonizarmos a gravação de cultos ou a admiração por músicos e músicas: essas coisas têm seu lugar legítimo. Porém, o modus operandi do ritual que se vê em camporis e congressos ultrapassa os limites aceitáveis.
De quem é a culpa? De músicos? Dos organizadores de eventos e retiros espirituais? Dos líderes da igreja em geral? É cômodo realizar uma caça às bruxas e acusar sem tentar orientar. Em primeiro lugar, creio que precisamos orientar os adolescentes a pelo menos serem discretos, ponderados e comedidos ao filmar algo que lhes agrade. Em segundo, tirar o enfoque das habilidades do artistas cristãos, enfatizando que a Deus cabe toda glória (uso o termo “artista” no sentido original, de alguém que produz ou apresenta algum tipo de arte, sem a intenção do soar pejorativo). É necessário igualmente evitar a formação de uma mídia cristã alternativa, pautada pelo exibicionismo e voyeurismo da mídia secular, o que poderia contribuir para o sentido de que há uma distância entre cantores famosos e o povo comum. Além do consequente desejo de tentar se aproximar do artista com histeria e comoção frenética.

Acima de tudo, precisamos escolher não os músicos populares, mas os comprometidos; não os que apresentam músicas questionáveis, resultado de hibridismo entre o sagrado e o secular, mas dar lugar a quem realmente quer louvar o Senhor e o tem feito em espírito e verdade (Jo 4:23-24), preocupações que hoje são escassas, mesmo entre nós, adventistas. Em contrapartida, enquanto medrar o raciocínio de que para o evento ter procura requer-se convidar “cantores consagrados” (nesse caso, consagrados por terem apelo midiático, não consagrados a Deus), a legião de adolescentes – e mesmo de marmanjos – continuará se levando para filmar seus artistas favoritos. Se nós tratarmos os músicos como celebridades, não devemos lamentar que se formem fãs ao seu redor...

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4 comentários:

Álvaro Martinho da Silva disse...

Texto forte, mas que reflete uma postura de líderes coniventes com várias exigências de "artistas consagrados", tais como, passagens aéreas caras, hotéis, camarins, seguranças, cotas de CDs/DVDs, etc.
Douglas Reis, parabéns pela sensibilidade e ousadia ao revelar tais problemas que existem no meio de nós, e que se agigantam, engolindo a genuína adoração em espírito e em verdade.
Maranata!
Seu pastor

Mateus disse...


Texto pontual.Muito de acordo,trouxe a essência real do culto e sua liturgia e isso produziu o contraste para enxergarmos o que deveria ser e o que é. Gostaria de fazer uns comentários e espero, sinceramente que pelo tom crítico deixe de ser aprovado para publicação.
1. Essa tietagem não se restringe a cantores, pastores também são tietados em congressos, encontros e etc;
2.Concordo que um "caça as bruxas" é não é o melhor. Mas convenhamos que a postura de quem está "por cima" influencia muito, principalmente a juventude. A postura dos pastores e cantores, numa cultura de massa e de entretenimento que funciona em alta velocidade, fica difícil.E isso é visível nas redes sociais.Não estou afirmando categoricamente que a culpa deste comportamento é dos "artistas", mas é inegável a forte influência.
3. MODÉSTIA CRISTÃ, há alguns dias atrás a DSA publicou um documento oficial posicionando-se quanto a conduta do cristão, reafirmando muitas coisas já ditas desde sempre, e reforçou a questão da modéstia...e faço a pergunta, o que é modéstia na cabeça dos nosso líderes? O que se vê, são pastores, cantores postando fotos de viagens, da sua comida, do seu banheiro, das suas compras...esbanjamento total(numa igreja que é formada por muitos pobres),não estou dizendo que eles ñ podem, nem devem usar instagram, facebook e outros, mas eles são VISADOS, observados e são acima de tudo exemplos pra toda igreja, então precisam saber dosar o uso e a forma como usam essas redes Voltando a modéstia , sem forçar, na pratica, nas igrejas se resume as jóias, bijouterias e calça...e o uso destes insumos enquadra-se no quesito "MODÉSTIA CRISTÃ"? E as exuberantes viagens que os pastores, cantores (irmãos tb) fazem e esbanjam isso nas fotos pelas redes sociais, ñ seria um cultivo dessa cultura de tietagem de mostrar a todo o que como, o que bebo, aonde durmo, o que visto...? acho que essa tietagem é fruto desse comportamento vindo dos nossos "artistas", não é só culpas deles. Afinal, o fenômeno das redes sociais e a vida de todos virando Big Brother vai além dos muros da igreja, mas reforço que a liderança, ao meu ver precisar orientar melhor os ícones da igreja, sejam eles pastores ou cantores.Desculpe se fui repetitivo.Só quis ser veemente com esse comportamento. :-)

Espero que seja aprovado.

parabéns pelo blog.

hernandes lima chaves disse...

A culpa? De quem abriu a igreja para esse tipo de entretenimento (Sim, a natureza dessas apresentações é entretenimento), transformou o talento artístico em fonte de lucro dentro da igreja, promove tal comercio e ainda denominou o mesmo de "ministério".

Ana Mara disse...

Concordo plenamente senhor Mateus,parece que as pesssoas em geral na igreja, aprecia estar em evidencia! Mas do que mesmo elas sentem falta?