terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

OS TRÊS MAIORES PROBLEMAS QUE OS ADVENTISTAS ENFRENTAM HOJE


Estudar se relaciona com a vida. E envolve reflexões para a experiência, o que inclui aspectos bem práticos. Fazendo o mestrado, tenho desfrutado disso. Hoje, para o exame de uma matéria (Problemática contemporânea), fomos questionados sobre os três maiores desafios ao movimento adventista na atualidade. Compartilho meu texto sobre o assunto. Trata-se de uma introdução e, certamente, o número limítrofe de aspectos impõe uma eleição arbitrária (outros podem ter eleito aspectos diferentes). Contundo, acho que a reflexão pode ser útil.
Creio que os três maiores problemas seriam: (a) polarização teológica; (b) diversidade de conceitos litúrgicos e (c) ordenação da mulher.
Sobre eles, pode-se brevemente tecer as seguintes considerações:

(a) A polarização é fruto de metodologias distintas, que, por sua vez, resultam de pressupostos distintos para o fazer teológico. Obviamente, a teologia por si permite, mesmo quando há a adoção dos mesmos pressupostos, diversidade em questões pontuais. Mas tal diversidade encontra seu limite em marcos bem definidos da herança adventista, o que envolve não apenas doutrinas, sejam distintivas ou não, como a postura hermenêutica adotada pelo movimento. Desde o princípio, os adventistas procuravam firmar um sério compromisso com a Bíblia. Assim, foi se desenvolveu o princípio hermenêutico chamado sola-tota-prima Scriptura (i.e., encara-se a Bíblia como sendo somente a única regra de fé; considera-se a Bíblia em toda a sua extensão e como possuindo a primazia sobre opiniões, tradições e experiências humanas). Por falta de desenvolvimento e aplicação mais cabal desse princípio, o adventismo recebeu a influência evangélica, o que se agravou pelo consumo de literatura cristã em áreas técnicas, para as quais nada da perspectiva adventista se produzira (e que, em muitos caso, não se há produzido até hoje). Metodologias evangelísticas e estilos de culto evangélicos também contribuíram para o agravamento do processo. Assim, a ortodoxia adventista convive com pensamentos voltados ao liberalismo, corroendo a unidade de pensamento do movimento adventista. A proposta de escritores liberais, como Alden Thompson e Fritz Guy consiste na aceitação dessas diferenças em um espírito democrático e de contribuição mútua. Se levada a cabo, a tensão teológica aumentará ou, na pior das hipóteses, ocorrerá a completa perda de identidade adventista.
(b) Segundo Holmes, desde a década de 1960 há influxos de cultos e práticas litúrgicas na igreja adventista (ele se refere ao contexto norte-americano). Em outros partes do mundo, há um sincretismo com religiões nacionais ou outras expressões cristãs. Em todos os casos, há a tendência de a cultura substituir as normas bíblicas quanto aos critérios para a adoração. Por outro lado, é evidente que tais critérios, encontrados na Bíblia e nos testemunhos, não descartaram todos os elementos culturais, o que seria virtualmente impossível, considerando que idiomas e vestimentas fazem parte de cada cultura. Porém mesmo a diversidade justificável não fornece base suficiente para dizer que tudo é permitido. No demais, a relativização de conceitos ligados à adoração poderia sugerir uma consequência lógica, que seria entender outros princípios bíblicos como igualmente relativos, incorrendo em uma base para a polarização teológica mencionada anteriormente.

(c) A ordenação da mulher é uma discussão longa que ilustra bem como a cultura pode exercer pressão sobre a agenda da igreja. Embora um tema sensível e que mereça a atenção da igreja mundial, não poderia monopolizar as atenções e esforços teológicos, em detrimento da missão da igreja. Em complemento, há de se notar que se trata de um assunto periférico, jamais claramente definido na Bíblia ou nos testemunhos de Ellen G. White. Sendo periférico, o que justifica seu crescente destaque é a tendência contemporânea de igualar os direitos de homens e mulheres, o que não deixa de ter seus muitos méritos. Entretanto, apontar a falta de um ministério feminino como fruto de machismo por parte da igreja não esgota a questão, principalmente no seu aspecto bíblico. Como o problema é fruto de questionamentos da cultura atual, as argumentações, tanto favoráveis como contrárias à ordenação, seguem igualmente argumentos de origem mais cultural, filosófica e sociológica do que bíblica. Se a tendência se consagrar, outras questões poderão ser encaradas da mesma forma, o que forçaria o adventismo a abrir mão do sola-tota-prima Scriptura em questões de natureza mais prática, aumentando o processo de secularização que se vive no movimento.


5 comentários:

Levi de Paula Tavares disse...

Na verdade, lendo as descrições dos três problemas, parece-me que tudo se resume e se converge para o primeiro ponto.

douglas reis disse...

Oi, Levi,

sim, poderíamos dizer que o primeiro seja o mais sério e gerador de outros grandes problemas.

Anônimo disse...

Acho que o problema mais sério não tem a ver com quesitos posturais da hermenêutica ou mesmo com a perda de raízes históricas. Antes de sermos adventistas somos cristãos,e é a frieza, a falta de amor, de sensibilidade,no âmbito individual, acompanhado do institucionalismo burocrático emperrado da igreja nos seus diferentes escalões, é que tem atrasado a nossa missão.

douglas reis disse...

Anônimo,

o texto foi escrito de uma perspectiva teológica. Claro que os elementos que você mencionou tem certa relação com a teologia. Mas lembre-se que apenas receptividade, amor e tolerância não substituem a Verdade - há de se cuidar de uma coisa, sem deixar a outro do lado (afinal, há muitos cristãos amorosos que creem em doutrinas erradas, por exemplo).

Abraços.

Cláudio Hirle disse...

Olá Douglas Reis! Tenho apreciado suas matérias pela consistência e erudição com que são escritas! Parabéns! Também sou pastor e tenho feito minhas leituras acerca de algumas tendências teológicas atuais em nossa amada igreja. Que o Senhor nos use para dar à "trombeta" o sonido certo!