quarta-feira, 9 de julho de 2014

COMPRE AGORA O SEU ADVENTISMO PASTEURIZADO, ESTÁ EM PROMOÇÃO - parte 2



Indubitavelmente, há espaço para diversas contribuições sobre as questões relativas à situação do adventismo. Em virtude de nosso espaço limitado, sugiro algumas linhas de ação para revitalizar o adventismo:

•         Adoção de uma hermenêutica biblicamente sadia como condição preliminar para Reavivamento e Reforma (RR): A crise de identidade adventista possui diversas causas, todavia sua causa mais elementar é de natureza espiritual. Reconhecer a Deus como solução não é superficializar o problema, mas lançar mão do poder acima das limitações e hesitações humanas. Por isso, não se deve considerar RR um programa denominacional; trata-se de um chamado à vida, por meio de uma ligação com a sua fonte, Deus e Sua Palavra (Jo 15:7). Tal ligação inicial permitiu ao adventismo veicular sua base à Bíblia somente, adotando uma perspectiva profética. Os pioneiros construíram progressivamente sua hermenêutica, a qual dependia de forma radical do texto. Ao contrário do que se defende popularmente, voltar à Bíblia não é algo a ser reduzido ao compromisso de ler o Livro Santo todos os dias, porque existem modelos conflitantes de se interpretar a Bíblia (toda forma de leitura pressupõe uma interpretação). Ao longo dos últimos três séculos, surgiram modelos de interpretação racionalistas, que partem do pressuposto de que a Bíblia é um livro condicionado pela cultura humana, e que os profetas tiveram uma experiência mística não racional com Deus, expressa em termos meramente humanos. Assim, não há nada de realmente sobrenatural na Bíblia! Mais recentemente, surgiram outros modelos, que adotam a postura de que o significado das coisas é cambiante, mudando a cada época. Consequentemente, o foco está no leitor, pois é ele quem define o significado do texto para si, sendo este o único significado que se pode de fato alcançar. Ler a Bíblia a partir destas perspectivas limitadas não conduzirá a qualquer reavivamento e muito menos a uma reforma! Infelizmente, ideias erradas sobre revelação e inspiração afetam o entendimento das Escrituras e dividem os círculos adventistas eruditos há décadas (por influência dos evangélicos liberais e neo-ortodoxos). Tais ideias se acham popularizadas e largamente aplicadas tanto à Bíblia como aos testemunhos de Ellen G. White. Por isso, as discussões entre adventistas, que um dia se resolviam com um simples “Assim diz o Senhor”, atualmente não se resolvem com a mesma facilidade. Todos recorrem à Bíblia, porém para chegar a diferentes posições sobre o assunto. Não que a Bíblia apresente um caráter dúbio; o problema está com as pressuposições adotadas. Enquanto tais questões dividirem os adventistas, ler a Bíblia será parte do problema, não a solução. Entrementes, a condição preliminar para o RR é assumir que a interpretação da Bíblia só pode ser correta quando parte de pressupostos transmitidos pela própria Bíblia. Dito de outra forma, depende-se de Deus até mesmo no auxílio para interpretar Sua Palavra, por intermédio do Espírito Santo (Jo 16:13) e seguindo o modelo presente na própria Palavra. O processo não é simples, pois exige uma reordenação do que cremos, à medida que somos moldados pelas ideias presentes no texto inspirado. Essa reordenação mental conduz à interpretação correta, entendendo o que Deus disse não com a cabeça de quem vive no século XXI, mas como Ele pretendeu que Suas palavras fossem interpretadas em qualquer período da História. A verdade de Deus não muda em essência. Por conseguinte, é necessário um compromisso que se traduza em obediência concreta a tudo quanto Deus exige – o que é a verdadeira reforma. Nada menos do que santidade é exigido de todos nós. Diante das batalhas pela interpretação correta, muitas delas restritas aos bastidores e quase nunca enunciadas de modo esclarecedor, torna-se inócuo ressaltar o estilo de vida adventista; ainda mais porque, sem colocar a Bíblia no patamar que Deus pede, pouco se tem experimentado o processo de RR que leva à obediência na prática. Crentes sem conexão com a Palavra se sentem ofendidos pela pregação do estilo de vida, enquanto aqueles que adotam leituras liberais da Bíblia procuram alternativas para se escusarem de obedecer o que está incluso no mesmo estilo de vida. A melhor argumentação bíblica não pode convencer uma geração acostumada a não pensar biblicamente, mesmo quando lê a Bíblia. O reavivamento só ocorre quando aceitamos quem é Deus e que Ele Se comunica pela Palavra, a qual possui preceitos normativos acima da cultura humana, o que nos leva a reavaliar e descartar ideias herdadas das diversas tradições humanas e mesmo o que a experiência nos ensina;

•         Integração da fé bíblica com a experiência de forma relevante em um contexto secular: Há mais de meio século, o Ocidente vive um processo de secularização responsável pelo enfraquecimento da religião como referência para as diversas áreas da vida. Pessoas religiosas sofrem os efeitos disso; sempre se corre o risco de compartimentalizar a experiência cristã, limitando-a ao mero conhecimento bíblico dissociado do cotidiano ou simplesmente como algo místico, capaz de proporcionar êxtase emocional. Entretanto, o adventismo surgiu como uma espiritualidade prática, não desvinculada das demandas intelectuais ou exigências práticas do mundo real. Por isso, o adventismo propôs um sistema educacional diferenciado, adotou uma dieta saudável, incentivou evangelismo via colportagem, preocupou-se com as relações familiares e se dispôs a enviar missionários para o mundo. Nunca houve adventismo sem um estilo de vida adventista. Entretanto, a onda de revisionismo pós-moderno deixou a sala de reunião dos catedráticos para se manifestar em uma enxurrada de comentários em fóruns pela internet, reivindicando liberdade para construir sua própria experiência espiritual e ressignificar a tradição religiosa. Quando isso aconteceu com cristãos tradicionais, foi assustador; quando passou ao seio do movimento adventista, calamitoso! Que se questione coisas básicas como criacionismo, a relevância da data de 1844 e a importância destas coisas para o adventista hoje, é sinal de estarmos em maus lençóis! Isso não representa um progresso no adventismo, no sentido de torna-lo relevante ao mundo secular pós-moderno. Relevância implica em traduzir algo para um contexto diferente, tornando-o compreensível, mas sem alterar sua essência. A forma como relevância se tornou um paradigma para a evangelização leva ao risco da assimilação. Assimilação é a adaptação de algo a conceitos alheios à sua natureza, alterando a sua essência. Muitos ardorosos defensores do evangelismo relevante se tornam, na prática, promotores do evangelho assimilado pela cultura contemporânea. O adventismo não recebeu a incumbência de pregar um evangelho assimilado pelo mundo, mas de pregar o evangelho eterno (Ap 14:7) buscando fazer isso de forma relevante. A pregação ao mundo (Ap 14:6) se torna pregação contra o mundo, no sentido de anunciar um juízo universal, de consequências eternas contra os pecadores impenitentes (Ap 14:8-11), conquanto seja, simultaneamente, a pregação da salvação, convidando à saída de Babilônia (Ap 18:4). Nesse sentido, a compreensão adventista de que todos as demais denominações cristãs faziam parte de Babilônia os conduziu, desde as primeiras décadas do movimento, a buscar evangelizar mesmo aqueles que já eram cristãos praticantes, comunicando a eles o evangelho eterno, em sua pureza bíblica. O retorno à Bíblia, que tratamos no item anterior, assim como a experiência de RR, levam a integração ideal entre ensinos bíblicos e vida prática, tornando o povo de Deus a testemunha para esta época. Qual a relevância da mensagem adventista em um mundo pós-cristão e secularizado, onde há muitas “verdades”? Como sempre, as pessoas precisam da salvação, quer cônscias disto ou não. E se a salvação for oferecida por pessoas que a experimentam de forma substancial, conquanto não sejam isenta de falhas, tanto maior será seu efeito sobre quem tiver contato com a mensagem;


•         Resgate e desenvolvimento do pensamento dos pioneiros: o pensamento dos pioneiros adventistas precisa ser redescoberto. Cada adventista deveria conhecer, à luz da história do desapontamento, a construção teológica revolucionária que surgiu após o evento. A partir das propostas iniciais dos primeiros adventistas, a geração atual deveria prosseguir construindo, eliminando influências teológicas evangélicas que são incoerentes com a mensagem do remanescente. Alguns parecem ter urticárias à palavra “pioneiro”, temendo que, com isso, esteja implícito um idealismo em relação a nossos primeiros teólogos. De fato, os pioneiros do adventismo possuíam limitações e a história revela algumas delas. Se a compreensão básica da fé adventista se formou até 1850, alguns pontos controversos permaneceram por décadas, mostrando que, mesmo entre os pioneiros do movimento, não havia total unidade de pensamento. Ocorre que muito do revisionismo liberal que existe dentro do adventismo prefere focar as divergências, tentando assim justificar que outras divergências mais profundas na atualidade seriam saudáveis e mesmo necessárias ao adventismo como um todo. A tese cai por terra quando somos levados a considerar que, ainda divergentes em questões secundárias, os primeiros partícipes do movimento punham em patamar indisputável o que consideram como os marcos do adventismo – justamente aquelas doutrinas que, na atualidade, os liberais costumam questionar com frequência! Ademais, a compreensão da verdade é sempre progressiva, o que se verifica no desenvolvimento das doutrinas adventistas. Negar essas doutrinas hoje, sob a alegação de que compreensão progressiva equivale a espírito progressista, equivale a agir de má fé! Os progressivos avançam dentro de certas linhas de trabalho, como no caso dos pioneiros adventistas; os progressistas retrocedem porque ignoram as linhas de trabalho e as modificam constantemente, em muitos casos, por orgulho acadêmico. O exemplo vivo disso está entre os mais reputados estudiosos adventistas do livro de Apocalipse, muitos dos quais vêm abandonando (sutilmente) o historicismo por outras interpretações mais aceitáveis academicamente, o que lhes permite publicar em revistas de prestígio e receber elogios do mundo erudito. Retornando à questão, quando se promove um retorno à ênfase dos pioneiros, tem-se em mente que o que eles descobriram deve ser posto como ponto de partida para novas descobertas bíblicas ou aprofundamentos daquilo que já se aceitou. O ponto é: não podemos nos contentar com o que os pioneiros disseram. Temos de seguir e avançar, com o mesmo espírito e metodologia, sempre apaixonados pela verdade bíblica. Especialmente, muitas das implicações da Verdade revelada precisam ser exploradas, complementando a proposta teológica que o povo remanescente lançou em seu início;

•         Ênfase na mensagem distintiva do adventismo: não somos evangélicos, se entendermos o termo da forma genérica como é aplicado no Brasil (ou no contexto norte-americano, no qual mesmo os evangélicos tradicionais têm uma base mais filosófica do que bíblica). De fato, os reformadores do século XVI agiram com coragem ao se apartarem de Roma; contudo, eles não chegaram à uma compreensão mais acurada, porque não era tarefa simples se libertar da influência escolástica do romanismo. Os seguidores de Lutero e Calvino mantiveram muitos de seus erros doutrinários: ainda concebiam Deus como um ser eterno e atemporal (conceito da filosofia grega completamente estranho à Bíblia), a própria alma era imortal (outra herança pagã) e a justificação pela fé não passava de um decreto eterno da parte de Deus (ligada portanto com a predestinação, entendida como uma escolha soberana de Deus independente da vontade humana). Se muitos adventistas tradicionais elogiam a pregação dos reformadores é porque desconhecem o quão pouco bíblica ela era! Evidentemente, os reformadores se ergueram para defender uma volta às Escrituras, redescobrindo verdades obliteradas por séculos. Dentro da luz que alcançaram, revelaram fidelidade ao chamado divino. Aqueles que lhes sucederam não deram continuidade em examinar a Bíblia. Por outro lado, a chamada reforma radical, de menonitas e anabatistas, seguiu com mais coerência a mensagem de um retorno às Escrituras, originando o espírito que depois levaria à formação do movimento mileritas e, por conseguinte, ao movimento adventista sabatista. A mensagem adventista é tanto o fruto dessa outra tradição, que detém o melhor dos reformadores, quanto o resultado de contribuições de outros fiéis das épocas posteriores, como metodistas e batistas do sétimo dia. Deus despertou indivíduos e grupos ao longo da História para, finalmente, estabelecer o remanescente dos últimos dias. A restauração da Verdade não aconteceu de maneira mágica; o processo exigiu o esforço e a colaboração de homens santos de diversas épocas. O movimento adventista não possui méritos isolados, porém é grande devedor de reformadores, puritanos, metodistas, batistas, conexistas, mileritas e muitos outros. Manter a identidade adventista não significa rejeição a priori de contribuições de estudiosos evangélicos. Contudo, deveríamos ser seletivos quanto à teologia e cultura (estilo de culto, gêneros musicais, shows, etc) evangélicos, julgando-os a partir de nossa compreensão bíblica. Acima de tudo, já é tempo quando as grandes verdades descobertas e suscitadas pelo estudo dos cristãos fiéis que constituíram o adventismo devem ser transmitidas ao mundo com urgência e propriedade. Os adventistas não foram levantados para apresentar uma versão genérica do evangelho, nem se conformar com o presente século (Rm 12:2). Somos servos do mundo, os seres que mais precisam sentir o peso da responsabilidade de pregar a Verdade presente (Rm 10:14);

•         Participação integral na missão: são notórios e bem vindos os diversos incentivos à participação na obra missionária. A promoção dessas atividades, bem como sua diversidade, são marcas tipicamente adventistas, ainda que estejam desaparecendo em algumas geografias (especialmente na Europa). Há maravilhosas oportunidades para quem se sente vocacionado a servir como voluntário, ajudando em programas sociais e evangelísticos. Entretanto, redescobrir a missão envolve (a) incorporar conscientemente a missão, (b) refletir biblicamente sobre a missão e seus métodos e (c) verdadeiro amor pelos pecadores.



Certamente, se poderiam apresentar medidas complementares para impedir que a adventismo continue se diluindo. Aliás, o assunto mereceria um livro à parte. A despeito de nossas limitações de espaço e consequente necessidade de concisão, acredito que as medidas citadas ajudarão a impedir que nos tornemos esse tipo de sopa rala que se vê no seio do movimento evangélico. Afinal, Deus despertou um povo para ser Seu remanescente e não uma denominação cristã qualquer, anunciando pobremente a salvação em uma esquina.


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