domingo, 15 de novembro de 2015

2 BOBS, & JERRYS: OU “NOTA DE RODAPÉ NA HISTÓRIA DA SECULARIZAÇÃO DA MÚSICA ADVENTISTA"



O ano era 1968. Por volta de uma década, a Chapel Records trazia o melhor da música adventistas em LPs. Organistas como Paul Carson, Les Barnett, Brad Braley, Helen Lange e muitos solistas, como Charles Turner, John Webb, Jerry Dill e Del Delker. Claro, havia os quartetos de então, sendo os mais conhecidos The Faith for Today e The King’s Heralds, ambos de alta qualidade. Todavia, em 1968, dois grupos distintos gravaram seus respectivos álbuns, marcados por coincidências. Vamos a elas: além de mesma gravadora, os grupos eram masculinos – um era trio, o outro, quarteto –, tendo dois componentes com os nomes Bob e Jerry cada um! Além disso, a história de ambos começa em um internato.
Os King’s Heralds, quarteto oficial do programa radiofônico The Voice of Prophecy, iniciara suas atividades em 1927, sendo apenas depois convidados a fazer parte do programa (que ainda nem existia). Entretanto, o afamado evangelista H.M.S. Richards propôs a troca do nome do quarteto formato por ex-estudantes do Southwestern Junior College (agora Southwestern Adventist University).
Ao longo de décadas, o quarteto passou por algumas formações. Em 1968, os componentes eram: Bob Edwards (primeiro tenor), Jerry Patton (segundo tenor), Jack Vezeay (barítono) e Jim Mcclintock (baixo). O novato era o segundo tenor, Jerry, enquanto o outro tenor, Edwards, cantava há 21 anos no quarteto! Tanto Vezeay como Mcclintock haviam se unido aos King’s Heralds em 1962, com a saída de Wayne Hooper e Jerry Dill.

Justamente naquele ano, os King’s Heralds gravaram We Worship Thee, um álbum de música sacra que tinha algumas peças bem eruditas. A formação da época regravou Go To Dark Gethsemane, Lost In The Night (que tem uma versão em português chamada Só e sem luz, gravada pelos Arautos do Reis) e Holy, Holy, Holy ((Schubert). Quase todo à capela, We Worship Thee traz a marca do quarteto, com incrível equilíbrio de vozes.
Do outro lado, haviam outro Bob e outro Jerry, curiosa coincidência: Bob Summerour, Jerry Hoyle e Don Vollmer, estudantes do New Bold College (na Inglaterra, embora os três fossem americanos) formavam o The Wedgwood Trio, que gravava seu primeiro LP: Country Church. O Wedgwood trazia uma mistura de pop/country com bluegrass, um estilo surgido praticamente na década de 1940, com Bill Monroe, Earl Scruggs, Lester Flatt, Chubby Wise e Howard Watts, que se popularizava bastante adotando violões (ou banjos), violinos e celos/baixos. O Wedgwood gravaria álbuns pelas décadas seguintes, alcaçando formidável sucesso. Eles mantém a mesma formação até hoje, sendo que Vollmer deixou o grupo de 1969 a 1992, retornando para uma apresentação em Long Beach, California, e permanecendo com o grupo desde então.



O vocal dos Wedgwood é bem limpo, sem impostação lírica que marcava os King’s Heralds desde o início da década de 1960. Escutar a gravação de Way Beyond The Blue, faixa do álbum de estreia, nos remeterá à música pop da época, com um ar despretensioso e com aquela inocência dos primeiros grupos de rock, como Beatles e Beach Boys. O grupo também usou sua competência vocal inegável para gravar música secular, mas sem mudar o seu estilo característico.
Pelas décadas seguintes, veríamos outro grupo gravar pela Chapel, seguindo a tendência dos Wedgwood de associar música religiosa com ritmos populares: The Heritage Singers. Vocais harmônicos bem executados e incorporação de elementos culturais já presentes na música gospel do período, fizeram do Heritage um influente catalizador de tendências no meio adventista. Sua influência extrapolou a do Wedgwood trio, chegando a proporcionar uma revolução na música adventista em escala mundial! Embora não tenha tempo de tratar em detalhes isso, basta lembrar a influência do Heritage na discografia dos The King’s Heralds na década de 1970 (quando Bob Edwards já sido substituído pelo tenor John Ramsey) e sobre os próprios Arautos do Rei (sim, o Heritage passou por aqui na década de 1970, dividindo opiniões).
Os King’s Heralds passariam pelo processo de aproximação com as músicas seculares na década de 1980, sob a direção de Jim Teel. Teel, multi-instrumentista e arranjador formidável, conseguia produzir álbuns a capela com arranjos incrivelmente elaborados e também álbuns que pendiam para o country ou adaptavam canções cristãs populares. Ao sair da direção musical do quarteto, ele aceitou ser ministro da música e pastor de jovens na igreja adventista de Simi Valley, California. E esteve envolvido com o controvertido movimento Celebration das décadas de 1980 e 1990, que pretendia usar músicas contemporâneas, liturgia informal e pregações tratando de assuntos do interesse do público (autoestima, divórcio, como ser feliz, etc). Nada se cria, não é…
O que se pode perceber dessa pequena parte da história da gravadora Chapel? Somos forçados a admitir que música religiosa não deveria ser caracterizada como antiga e nova, ou clássica e contemporânea. A tendência de mesclar música religiosa e popular é antiga. E possui forte relação com a secularização, porque diminui a barreira entre santo e profano, admitindo que qualquer gênero musical é aceitável a Deus e pode ser usado em seu louvor, embora a linguagem musical de determinado gênero não exista com a finalidade de louvar a Deus e, por suas características, transmita uma mensagem bem diferente daquelas que são próprias para adoração: submissão, entrega, reverência, santidade, reconhecimento, gratidão, etc. A secularização da música adventista teve seu grande catalizador no grupo Heritage Singers, mas o processo continua e já está em fase muito mais adiantada. Não à toa, para muitos ouvidos as músicas do Heritage são mais santas (menos secularizadas, diríamos com acuidade) do que a atual produção fonográfica adventista. A diferença é que eles plantaram a semente; hoje, colhemos os frutos. 
A música depende, como toda arte, da perspectiva de quem a cria. Criar um modelo único, alinhado com uma teologia bíblica ou adaptar o que a cultura produz são decisões importantes, que influirão nos paradigmas musicais adotados por músicos ou congregações inteiras. Por isso, advogo que essas questões, sugeridas dos exemplos da Chapel, nos levem a uma busca consciente dos paradigmas musicais adequados à nossa mensagem.
Para encerrar, algumas palavras sobre música sacra e cultura. Há diversas interações possíveis, as quais tentei condensar em modelos para tornar o assunto didático e sugerir suas linhas principais: 


1. Contextualização: nesse modelo, há área de contato entre princípios bíblicos e elementos da cultura.  Os princípios revelados levam os envolvidos na criação da música (compositores, produtores e intérpretes) a selecionar criteriosamente características de uma determinada cultura (por exemplo, a tonalidade média das canções populares brasileiras) para criar um padrão novo, que expresse adequadamente diretrizes que Deus deixou para a adoração em Sua Palavra (Bíblia e testemunhos). Aqui se forma uma tradição, que estará sujeita à manutenção e atualização, criando um desenvolvimento pouco influenciado pela música popular;




2. Aculturação: diferente da contextualização, aqui os elementos da adoração bíblica se tornam reféns da cultura, sendo influenciados decisivamente pela música popular e desejo de produzir em função do público externo (uma visão de evangelismo que não se coaduna com o que os testemunhos apresentam). Assim, a música sacra será tão cambiante em seus ritmos quanto a música popular, sujeitando-se igualmente a demandas comerciais. Entretanto, ainda haverá uma tênue diferenciação entre sacro e popular (e justamente aqui, sugiro, se encontra o ponto em que a produção fonográfica adventista se encontra no momento);




3. Isolamento cultural: nesse caso, a produção musical se vale de uma tradição própria, completamente à parte da cultura como um todo. A música religiosa muçulmana e o cantochão católico são exemplos dessa tendência. Aqui a tradição sofre pouca ou nenhuma renovação, apenas emulação: a mesma música, cantada da mesma forma, passada de uma geração a outra. Vale ressaltar que esse isolamento não é o ideal, porque se funda em uma ideia monástica de separação radical do cristão com a sociedade, o que não é bíblico. Ademais, corre-se o risco, na prática, de se aderir a uma adoração transcendentalista, mística mesmo, que entenda Deus como Alguém tão superior que Seu contato com a humanidade seja remoto ou mesmo impossível, necessitando-se de mediação (daí a relação da espiritualidade católica com o canto gregoriano, exemplo de como música e teologia andam juntas, para bem ou, nesse caso, para o pior);



4. Nivelamento cultural: dentro do processo de secularização, esse seria o último estágio. Nele, os princípios de adoração (e quase já não se pode mais falar em adoração bíblica) equivalem e se correspondem completamente com as expressões culturais existentes. A adoração se torna espiritualizada, descompromissada com a teologia, desvinculada de um estilo de vida cristã e completamente descaracterizada em relação a como os cristãos praticaram a adoração ao longo da história. Pode-se falar em um misticismo cristão renascido, como na Igreja Emergente, por exemplo. Estamos perto disso? Cabe ao tempo revelar.
A guisa de conclusão, defendo que estudar a história da música sacra e de nossa própria produção, em conjunto com os princípios revelados, nos ajudariam a conter o presente processo de secularização (via negativa) e voltar a produzir música sob o paradigma da contextualização (via positiva). 






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