terça-feira, 15 de dezembro de 2015

UM FAROL PARA QUAL DIREÇÃO?: OU “NOTA DE RODAPÉ NA HISTÓRIA DA SECULARIZAÇÃO DA MÚSICA ADVENTISTA"


Para quem conhece o Heritage Singers, uma apresentação do grupo não seria completa caso a música The Lighthouse fosse excluída do repertório. Gravada em 1976, a canção já era sucesso absoluto no meio do Southern Gospel. Isso porque a gravação original pertence ao famoso Stamps Quartet, um dos grupos evangélicos mais populares da época.
Naqueles idos, J. D. Sumner, um dos baixos mais graves da história do gospel, fazia parte do quarteto, assim como seu sobrinho, Donnie Sumner. Donnie era o lead do grupo. O lead é conceito diferente do que havia nas músicas adventistas da época, especialmente graças à influência do arranjador Wayne Hooper. Nos arranjos tradicionais de quarteto, geralmente alguém cantava a melodia da música, harmonizando com as demais vozes. Hooper fez a melodia “passear” por entre as vozes, rezando-a e mudando os acordes dentro de uma mesma música. Já o conceito de lead se ressume a dizer que esse cantor será o solista, explorando graves e agudos em uma mesma música, como um showman, enquanto os demais componentes harmonizam em função dele.
As versões de The Lighthouse gravadas pelo Stamps Quartet e pelos Heritage Singers diferem nessa concepção. Donnie canta como um lead, atingindo em alguns trechos agudos impressionantes (especialmente quando não era comum ter registros tão agudos no período). Seu solo é rasgado e a interpretação muito próxima dos cantores seculares de então.
Na versão do Heritage, os solos são divididos e a melodia é cantada por naipes diferentes. Os cantores empregam uma técnica mais próxima à da música erudita (embora, a rigor, não sejam propriamente líricos). A percussão forte na gravação do Stamps, que lhe dá um tônus emocional, é bastante suavizada pela versão do grupo, que aposta em cordas e interpretação suave. E o Heritage introduziu o famoso trecho narrado pelo baixo (na época, Jim McDonalds o gravou).
Um rápido olhar pela discografia do Heritage, de seus momentos iniciais à sua popularidade máxima, entre as décadas de 1970 e 1980, e mesmo na atualidade, fará perceber que o grupo permanece como o grande catalizador que sempre foi: o que Gaither Vocal Band e demais expoentes da gospel southern music gravarem hoje, amanhã será regravado pelo Heritage.

Isso levanta alguns questionamentos bastante importantes. Destaco alguns: (1) será que toda música antiga é realmente melhor do que se produz hoje? Não melhor em termos técnicos, quanto aos detalhes de gravação (isso não seria mesmo!) ou capacidade dos cantores (ponto difícil de aquilatar), mas no que toca à orientação, à filosofia da música em si. Muitos exaltam o passado, mas seria apenas nostalgia ou estamos falando de princípios? Em consequência desse ponto, (2) não deveríamos avaliar a qualidade (novamente, referente à filosofia) musical pelos princípios que temos como adventistas, independente da época em que foi composta/produzida/gravada? E, por último, (3) o fato de que algumas músicas já foram controversas (e o Heritage Singers coleciona algumas polêmicas!), não deveria nos fazer refletir em como o tempo apagou tais controvérsias? E o que diremos disso? Simplesmente apontar, como alguns liberais adoram fazer, que música é simplesmente questão de época e o escandaloso hoje se torna o tradicional de amanhã? Ou deveríamos pensar que temos sido coniventes e brandos, agindo inicialmente desconfiados com a influência evangélica sobre nossas músicas, para capitular paulatinamente a ela tempos depois?

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