quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

A PERDA DA ESSÊNCIA


Desde a década de 1950, os adventistas passaram a assimilar pressuposições da teologia evangélica, deslocando o aspecto central da vida cristã, que se fundamentava na visão bíblica do santuário celestial/santificação, passando a advogar a fundamentação na visão evangélica do sacrifício de Cristo/justificação.
O primeiro binômio se refere à experiência presente do cristão, bem como à atuação presente de Cristo em favor do cristão. Experimentar a salvação como santificação implica em ter aceito a justificação como experiência passada e prosseguir crescendo em graça, rumo à maturidade (Hb 6:1). Entender a atuação de Jesus no santuário celestial é receber força de Seu trono de graça para resistir à tentação (Hb 4:14-16). Em contrapartida, o segundo binômio se refere à experiência passada do cristão, bem como à atuação passada de Cristo em favor do cristão. Experimentar a salvação como justificação faz com que o crente volte sempre ao mesmo ponto, sem poder avançar – não há crescimento, apenas o ciclo de pecado-retorno-perdão. Restringir a atuação de Jesus à morte na cruz e Sua ressurreição implica no entendimento parcial de Sua obra – aceita-se a vitória que Ele conquistou em nível pessoal, sem perceber a aplicação dela no escopo do grande conflito universal e Seu direito de, mediante o sacrifício, atuar na vida de Seus filhos por meio do Santuário celestial.
Ao substituir a visão bíblica do santuário celestial/santificação pela visão evangélica do sacrifício de Cristo/justificação, alguns autores adventistas deram os passos lógicos, eliminando a essência do adventismo e defendendo uma visão evangélica do adventismo. Na visão evangélica do adventismo, as doutrinas bíblicas que constituíram marcos do adventismo são descartadas. É elucidativo o caso de Desmond Ford, que provou em sua teologia uma crise imensa. Ford viu a incompatibilidade entre adventismo e teologia evangélica. Logo, passou a eliminar a essência do adventismo e defender uma visão evangélica do adventismo. Na versão evangélica do adventismo advogada por Ford, não há necessidade da obra de Jesus em Seu santuário (muito menos que isso tenha ocorrido a partir de 1844). Afinal, a justificação pela fé acontece agora e não se preciso um juízo investigativo. A santificação ou crescimento em graça fica praticamente descartada. Infelizmente, Ford não foi o único a defender uma versão evangélica do adventismo.
Quanto mais se estuda o assunto, fica mais fácil perceber que o adventismo das últimas décadas carrega as influências da teologia evangélica. Alguns fatores são evidências atuais do mesmo fenômeno, que se prolonga na atualidade. Para registro, mencionamos apenas algumas das evidências atuais da abrangência da versão evangélica do adventismo: (1) falta de ênfase no estilo de vida adventista; (2) a desconexão entre o ministério de Jesus no santuário celestial e a vida cristã; (3) poucas abordagens sobre santificação; (4) abundância de sermões, músicas e mensagens diversas com foco na salvação, restringida ao processo de justificação.
Enquanto o adventismo do presente não superar a visão evangélica do sacrifício de Cristo/justificação como aspecto central da vida cristã, estará sujeito ao processo de fragmentação, secularização e carismatização que ocorre no movimento evangélico. Em outras palavras, se o adventismo não recuperar a visão bíblica do santuário celestial/santificação, ele perderá sua essência.
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2 comentários:

Anônimo disse...

Olá, Douglas,

Não espero convencê-lo através deste comentário (se quiser, sinta-se livro para apagá-lo). Também sei que o que vou dizer não fará o menor sentido para você.

Sobre esta série de textos, eu diria o seguinte, em poucas palavras. Você tem a convicção de que possui as respostas que salvarão o adventismo. Mas a grande e triste ironia é que, na verdade, a visão que você está defendendo não é apenas equivocada; não é apenas uma grande heresia; é um completo paganismo e uma completa blasfêmia. Se as ideias que você propõem forem seguidas pelos adventistas, não perderemos apenas a essência do adventismo, mas a essência do cristianismo.

Graças a Deus, o Espírito guia a igreja. No final, a mensagem que proclamaremos será a mensagem bíblica, não o (pseudo)conservadorismo que você defende (as ideias de Butler-Smith), nem as ideias de Desmond Ford, nem os modismos dos adventistas 'modernosos'.

douglas reis disse...

Olá, anônimo.

Não costumo postar comentário de anônimos. Acho que uma pessoa deve ser corajosa o suficiente para se identificar - já que teve a iniciativa de colocar suas ideias, deveria ao menos assumi-las.

Minha série não tem pretensão. Não passa de alguns rascunhos, os quais talvez eu retome e desenvolva. Aliás, a ideia não é minha. Outras já a desenvolvem há tempo. Meu primeiro insight veio com a leitura de uma frase de Canale: "Os pioneiros adventistas experimentavam a salvação como santificação". Dai passei a pesquisar o assunto de uma perspectiva bíblica, que ainda está em sua fase de construção.

Se você soubesse um pouco de história da igreja, saberia que Butler e Smith não concordavam (inicialmente) com a ideia de justificação pela fé, ao contrário do que eu já defendi nesses textos (talvez você conheça a história e só não saiba interpretar um texto simples de um blog!...).

Afirmar que vincular santuário ao processo de santificação seria paganismo, que isso constituiria blasfêmia e heresia, é um comentário interessante. Seriam os pioneiros hereges? Seria E. G. White uma autora pagã? Queria ver sua argumentação bíblica sobre o assunto. A minha está aí, em fase rudimentar e ainda carente de maior desenvolvimento. Mas está.

Você não foi capaz de mostrar em que consiste meu erro. Os versos que citei estão fora do contexto? As conexões que fiz foram inadequadas? Por quê? Apresente a contra-prova e talvez, à luz da Bíblia, eu vejo meus equívocos. Por enquanto, a única coisa que você disse, com alguma lucidez, foi "sei que o que vou dizer não fará o menor sentido para você." Acertou na mosca: não fez o menor sentido...