terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

UMA GERAÇÃO QUE DESCONHECE O SANTUÁRIO


Graças às mudanças de ênfase que foram se acumulando, algumas gerações de adventistas não tiveram a oportunidade de se conectar com as raízes do movimento. Isso significa que o que essas gerações conhecem e experimentam se restringe à versão evangélica do adventismo. Obviamente esse ponto precisa ser bem compreendido para se evitar equívocos ou dar margem a discursos polêmicos.
O primeiro passo é recapitular a descaracterização da mensagem do santuário. Em grande parte, a igreja já havia se aproximado do mainstream evangélico na década de 1920, durante o ápice do fundamentalismo. O fundamentalismo tenciona voltar ao cristianismo tradicional, em uma época em que o liberalismo crescia nos estados Unidos, ganhando o controle de muitos seminários. A aproximação do fundamentalismo era desnecessária ao adventismo. Isso porque enquanto o mundo evangélico convidava a retroceder à tradição, o adventismo convidava a ir mais longe, voltando para os ensinamentos bíblicos, que antecediam a tradição. A tradição cristã é, em realidade, composta por elementos híbridos dos preceitos bíblicos com a filosofia grega. Seja como for, os adventistas acabaram se aproximando do evangelicalismo. Essa aproximação cresceu quando, para qualificar as instituições de ensino, muitos professores adventistas continuaram seus estudos em instituições cristãs. Ao fazer isso, esses acadêmicos assimilaram pressuposições não-bíblicas, correntes na teologia e pensamento evangélicos. Por esses fatores, a crise da justificação pela fé, na década de 1970-1980, que culminou com o caso Ford, apenas deflagrou uma crise que se desenhava internamente nas fileiras adventistas.
Embora a erudição adventista se preocupasse em solidificar as bases de nosso pensamento, o que se tem intensificado desde a década de 1980, em nível popular a mensagem de justificação pela fé ganhou terreno no adventismo. Devidamente compreendida, essa mensagem faz parte da obra do terceiro anjo de Apocalipse 14. Os pioneiros adventistas custaram para alinhar a ênfase justificação pela fé com a validade da lei divina. Em realidade, não há conflito inerente; quando se aplica a estrutura de salvação em três tempos, cada etapa do processo de salvação pode ser alinhada, formando um todo coerente. Entretanto, a teologia evangélica opera sob a visão evangélica do sacrifício de Cristo/justificação. Essa visão desequilibra o plano da salvação, reduzindo-o ao plano da salvação pessoal, subtraindo a estrutura macro-hermenêutica do conflito cósmico e dispensando o sistema agrupador do santuário celestial. Com a força dessa mensagem, o adventismo se viu diluído.
Isso não significa que a igreja tenha alterado suas crenças. Oficialmente, o santuário segue como parte da mensagem adventista. Entretanto, em nível popular, ou, mais propriamente, no nível da igreja local, a crença no ministério de Jesus e a compreensão da vida cristã como estando focada na santificação passou a ser ignorada. A demonstração mais evidente disso são as infindáveis discussões sobre estilo de vida. Por que elas ocorrem? Por que tantas questionam os princípios básicos do estilo de vida adventista? Porque eles não são compatíveis com a visão evangélica do sacrifício de Cristo/justificação. Evidentemente, considerações sobre estilo de vida adventista pertencem à outra estrutura: são parte integrante da visão do santuário celestial/santificação. Discutir princípios de estilo de vida à parte dessa estrutura é como discutir as orientações de Maomé à parte da cosmovisão islâmica.
Como toda uma geração de adventistas (ou mais de uma, para ser exato) desconhece a visão do santuário, não se pode esperar que a igreja viva, cante, se vista, testemunhe e ensine como seus pioneiros.  Obviamente, precisamos de um processo de busca baseada nas Escrituras, semelhante ao que vivenciaram nossos pioneiros, para sermos reconduzidos ao coração da mensagem que Deus nos deu. Creio que o Espírito está nos guiando para isso. É tempo de atendermos ao Seu chamado.


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4 comentários:

Tomé White disse...

excelente artigo!

pastor e que livro o você recomenda para jovens como eu, estudarmos de maneira profunda o santuario?

Mayara Flores disse...

Muito verdadeiro, realista!!

Lucio Freitas disse...

Tome White leia o livro de Ellen White - Cristo em Seu Santuário disponível no app. EGW Writings.

erivaldo disse...

Finalmente, nossos ministros começam a reconhecer a raiz de todos os problemas de nossa amada igreja adventista. Se outros se juntarem ao Pr. Douglas, há esperanças de que venha logo o tão esperando reavivamento final da Igreja de Deus, a chuva serôdia, o alto clamor e a maravilhosa eternidade na presença do Salvador.