sexta-feira, 14 de junho de 2013

FAZ DIFERENÇA SER RELIGIOSO?



Ramona[1] senta-se na cadeira, em frente à minha mesa. Antes de abrirmos a Bíblia, ela fala sobre seus dezesseis anos loucamente vividos. Seus amores perdidos, seus complexos, a conturbada relação com o pai – tudo passa diante de mim num atropelo eloquente e doloroso. Mas ela precisa contar para descarregar o peso de tantas dúvidas e cicatrizes.

Estudar a Bíblia com Ramona, uma adolescente inteligente e sem qualquer cultura religiosa, é sempre desafiador, porque ela faz perguntas que parecem inocentes, porém demandam reflexão cuidadosa – embora em geral, sua atenção se fixe de um ponto a outro com velocidade tal que, na metade da resposta, ela já tem outra pergunta. Uma das preocupações de Ramona: qual a diferença de se crer ou não em Deus? Por que temos de ter fé?

A fé sobrevive?

Se pretendemos falar sobre crença, esse é um bom ponto de partida: para que serve uma fé?

O papel diminuído da religião deve ser bem entendido. Por um lado, há a perda de sentido religioso, fruto da modernidade. A confiança na estrutura social, dentro de uma mentalidade capitalista e no contexto do racionalismo, leva à visão de que Deus seja um conceito desnecessário, fantasioso e até nocivo.

Vários países são estados laicos declarados. Até mesmo pessoas religiosas temem a imposição religiosa. Logo, o medo “de imposição de visões religiosas frequentemente evoca medidas por uma supressão de vozes religiosas da praça pública.”[2]

O outro lado da moeda da perda de sentido religioso chama-se pós-modernidade. No pensamento pós-moderno, as religiões se equivalem. As crenças são despidas de seu formalismo e da ligação com instituições tradicionais. Cada comunidade pode selecionar aspectos religiosos de diversas crenças e reorganizá-los para expressar uma crença própria. Nesse jogo, vale tudo, até reformular indefinidamente as próprias crenças.

O experimentalismo pós-moderno reaproxima as crenças, enfatizando aspectos comuns de forma mais superficial. Vivemos em “zonas de fronteiras”, onde não há limites, mas tudo se mistura; “linhas [divisórias] são traçadas sobre a areia movediça apenas para se apagar e ser traçadas no dia seguinte.”[3]

Apesar de tudo o que dissemos, cada vez mais pessoas creem em Deus ou assumem uma religião. Por quê?

Motivos para ser religioso

Há um paradoxo entre a perda de sentido religioso e um sensível aumento de toda sorte de crentes. Talvez isso se explique pelo entendimento geral da religião. As pessoas são religiosas, contudo as crenças são relegadas a uma subcategoria, abaixo de questões mais práticas do dia a dia. Deus não faz parte do processo decisório de muitos que alegam crer nEle. Urge que retomemos a questão formulada no início: para que serve uma religião?

Há muitas respostas, mas quero propor dois pontos:

(1) A religião ideal provê o fundamento metafísico, o qual confere um senso de origem e propósito. Céticos tentam estabelecer a possibilidade do próprio homem criar seu destino, sem que uma divindade o referencie. Eles opinam que o homem se tornaria um fantoche nas mãos da divindade, perdendo sua liberdade. Vale mencionar que a visão racionalista não conseguiu produzir um substituto à altura da cosmogonia religiosa. O pensamento secular é insuficiente para equilibrar a tensão entre interesses pessoais e coletivos, ainda mais tendo em vista a perda do senso de propósito maior, fundamento da ética, em todos os âmbitos.

(2) Uma religião provê a necessidade de conhecer e se relacionar com a divindade. O cristianismo, em especial, é uma religião de revelação, apresentando um Deus que Se interessa tanto pela humanidade que criou a ponto de tomar a iniciativa. Sim, Ele não esperou que tentássemos conhece-Lo (até porque nossa razão tem seus limites); Deus veio mostrar quem é, para todos desfrutarmos de Sua presença. Inclusive eu, Ramona e você.



[1] Para preservar a identidade, o nome foi trocado.

[2] Miroslav Volf, A public Faith, A public Faith: how followers of Christ should serve the common good (Grand Rapids, MI: Brazos Press, 2011), p. X.

[3] Zygmunt Bauman, Ensaio sobre o conceito de cultura (trad.: Carlos Alberto Medeiros; Rio de Janeiro, RJ: Zahar, 2012), p. 75-ss.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

OS TEMPOS DE UMA CANÇÃO


Cá estou eu, sentindo o chocolate itinerante escorrer sobre minha barba enquanto ouço uma gravação dos Heralds (Arautos do Rei americanos). Com figurino com cara de 1970s, embora fosse 1985, eles cantam Milky White Way, um dos hits mais marcantes na voz de Jerry Patton. Durante a apresentação na Austrália, o segundo tenor do quarteto realmente esbanja técnica e potência vocal, além de dar uma “canja” para Jim Teel, o pianista do grupo, responsável pelo arranjo instrumental.
Quem for curioso encontrará outras versões de Milky White Way: a entoada na despedida de Patton dos Heralds (ops, na época, eles já haviam voltado a ser The King’s Heralds), em 2004. A formação que acompanha o lead é a que gravou a versão original a capela (no arranjo de Wayne Hooper), com John Ramsey fazendo o primeiro tenor e Jim McClintock no baixo (substituídos na turnê australiana por Don Scroggs e Jim Ayars, respectivamente). Os ex-integrantes se reuniram para a despedida em uma versão bonita da canção.
Esse mesmíssimo grupo aparece em outro vídeo mais recente, onde estão visivelmente mais velhos (todos passam dos sessenta anos). No vídeo mais novo, a qualidade é sensivelmente menor: embora Patton seja um grande intérprete, seria injusto esperar dele o mesmo desempenho que teve há trinta anos.
Aliás, por isso os vídeos de 1985 (não só a da canção Milky White Way especificamente) maravilhavam os amantes de quartetos: mostram um quarteto em forma, com seus integrantes no auge e acompanhados por um inventivo Jim Teel, que notabilizou ousadas incursões por novos mares. Era uma época diferente: separados de A Voz da Profecia (desde 1982), o grupo adotou o nome de The Heralds e passou a cantar música mais contemporânea, enquanto gravava, por outro lado, CDs a capela de extremo requinte.
Vê-los e ouvi-los é voltar no tempo e conhecer outra geração. Ou se lembrar da sua mesmo (dependendo da idade do leitor). Fico me imaginando na época quando penso nas datas dos vídeos: em 1985, eu não tinha barba ainda (acho que ninguém tem antes do cinco anos de idade!…).
O último vídeo com Milky White Way que assisti tem uns dois anos e foi gravado pela nova formação, de forma bem caseira e despretensiosa. Eles estão em um quarto de hospital. Deitado na cama, bastante debilitado, está o homem da canção, Jerry Patton. Em alguns momentos, temos a impressão de que o idoso tenor tenta balbuciar a canção: sem dúvida, ela não está da mesma forma – comparar o lead atual, Joel Borg, com o Patton em sua melhor forma é desleal: Borg é competente, Patton, excepcional. Todavia, a homenagem e o carinho ao tenor debilitado até nos fazem esquecer esse detalhe e cantarolar junto com o quarteto, como fez a enfermeira que aparece na filmagem. Aliás, ao seu lado está Jack Vezea, barítono que acompanhou Patton por 30 anos. Algumas coisas parecem não mudar…

sexta-feira, 26 de abril de 2013

BOM DIA, SENHOR



Confesse: que tempo você reserva para Deus? Por favor, o objetivo não é acusar – quero apenas que você reconheça que todos temos dificuldades para colocar em prática o básico.  O que seria o básico? Ler a Bíblia todos os dias, por exemplo. Não é somente ler, entende? A coisa toda tem que ver com querer ler, gastar um tempo delicioso fazendo isso.
Comunhão com Deus sem dúvida envolve esforço. Mas se trata daquele esforço do namorado que economiza para comprar flores ou do pai que faz hora extra pensando no estudo dos filhos. É esforço motivado por amor.
“Mas mesmo assim, continua sendo esforço”, você protesta. É verdade. Contudo, já viu alguma coisa na vida que seja compensadora e que não tem um preço? Um rapaz luta para conquistar a menina dos sonhos. Você provavelmente lute para continuar estudando. Ao longo dos anos, acumulamos conquistas. E ficamos nos lembrando depois o quanto tivemos de fazer para realizar determinadas coisas.
Se por um lado a salvação não dependa de seus esforços, por outro, é necessário constante luta para se manter em comunhão – um paradoxo curioso! É como um bebê que tem fome no meio da noite. Por mais que se esforce, não pode se levantar do berço, abrir a porta e ir à cozinha para esquentar o leite que ficará na mamadeira. O seu esforço consiste em chorar bem alto, para que pais bondosos – e cheios de sono – resolvam alimentá-lo.
Você não conseguiria se salvar, mesmo dependendo de cada fibra de seu ser. Porém, há algo que está a seu alcance: clame a Deus, chore diante dEle, suplique. Ele o ouvirá. Jesus prometeu jamais rejeitar quem quer que se aproximasse dEle (Jo 6:37).
Se você pedir, Deus, o Senhor do universo, estará em comunhão com você. Falta você clamar por isso!

sábado, 13 de abril de 2013

ANTI-INTELECTUALISMO: INIMIGO ÍNTIMO DOS ADVENTISTAS




O cristianismo se depara com desafios em diversos campos do saber. Suas reivindicações de exatidão histórica e da confiabilidade de seu registro são postas em xeque não apenas por setores da mídia – afinal, quando algo é veiculado nos principais órgãos da imprensa, é porque já conquistou os círculos acadêmicos há algumas décadas. Essa batalha intelectual recebe pouco destaque nos púlpitos e mídias religiosas. Fica mais fácil rotular os ataques à fé como “obra do diabo” ou “enganos dos últimos dias”. Infelizmente, os rótulos pouco ajudam aqueles que estão na linha de frente.
O que fazer com os jovens cristãos em ambiente universitário impregnado de correntes filosóficas atraentes pela sua lógica e racionalidade? Dizer para eles que devem ler a Bíblia e estudar as lições bíblicas é insuficiente. Eles precisam de alicerces para crer. Necessitam de alternativas aos argumentos sedutores que ouvem quase diariamente. Do contrário, como alcançarão uma formação superior – indispensável para uma vida profissional e até quanto ao crescimento pessoal – sem terem a fé “contaminada”? Afinal, o risco de sincretismo entre cristianismo e outras cosmovisões é tremendo.
Desafortunadamente, os evangélicos possuem grande tradição anti-intelectual. Os adventistas não são exceção. Nossos púlpitos estão, na melhor das hipóteses, carregados de mensagens que tocam aspectos tradicionais do estilo de vida ou apresentação doutrinária. E isso tem enorme valor, apesar de representar apenas um ponto de partida. Mas, tristemente, também se pode divisar uma linha de mensagens que se resumem a algo como autoajuda cristã: a membresia houve alternadamente histórias cômicas e comoventes, verdadeira montanha-russa emocional. Alguns versos bíblicos são apresentados de forma descontextualizada e voilá: o entretenimento está garantido. O perigo reside aí: a pregação se resume a entreter os ouvintes, evitando as responsabilidades da vida cristã e passando por alto dos desafios do mundo intelectual, que afetam uma parcela significativa de jovens adventistas.
Mesmo entre líderes, pastores e administradores cresce a opinião de que temos de nos concentrar nos “aspectos espirituais”, sem levar em conta as necessidades holísticas das pessoas. Ora, espiritualidade não brota no vácuo. Como posso crer na Bíblia, quando nas aulas de filosofia o professor foucaultiano me leva a questionar toda interpretação definitiva, como expressão de um grupo dominador? De que modo confiar no Criador, quando o evolucionismo é apresentado como referencial a todo instante?  
Geralmente, o jovem nessas circunstâncias acaba separando em sua mente o espaço das coisas “da igreja” e outro, para o “mundo acadêmico”. Porém, a divisão continua, e durante o percurso dos anos surgem espaços como “vida profissional”, “entretenimento”, “vida familiar”, etc.  Assim, o cristianismo (e especificamente o adventismo) se restringe ao espaço religioso da vida, sem jamais influenciar as demais áreas. Isso porque não foi desenvolvida a mente cristã, de que falava Harry Blamires.
Como via de escape, os adventistas em geral costumam responder aos desafios com subterfúgios, sem construir alternativas. Por que ninguém escreve sobre epistemologia de uma perspectiva cristã? Ou estrutura uma filosofia política sob a ótica da cosmovisão bíblica? Se você estiver se afogando, ignorar a água não impedirá que ela inunde seus pulmões. É melhor se preocupar em nadar. O anti-intelectualismo é uma boia furada que não está ajudando ninguém a chegar à praia. A despeito disso, parece mais cômodo permanecer como estamos…

quarta-feira, 27 de março de 2013

RETOMANDO A CAMINHADA

O Vaticano escolhe o víeis do carisma para retomar a caminhada rumo à liderança global

No dia 13 de março de 2013, os jornais do mundo inteiro noticiavam a nomeação de Jorge Mario Bergoglio como o 266ª papa. De origem argentina, com 76 anos de idade, é o primeiro jesuíta e o primeiro latino-americano a ser eleito papa.
Analisando a reação dos meios de comunicação a respeito da nomeação do pontífice Francisco, verificou-se uma forte tendência por parte da mídia em supervalorizar suas habilidades carismáticas como simplicidade, informalidade e devoção. Examinando acuradamente essa inclinação midiatica, percebe-se a intenção do Vaticano em querer retomar a sua marcha rumo à lidernaça global pelo viés do carisma. A espectativa é que essa ferramenta proporcione-lhe, de forma mais eficaz, o aumento da sua influência sobre os países e, como consequência, ocorra-lhe a restauração definitiva do seu domínio global, há muito desejado.

O FENÔMENO CARISMA
A busca do carisma parece ter sido o fator preponderante na eleição de novo pontífice. O que parece é que foi uma escolha acertada, pois os meios de comunicação enfatizaram exatamente isso. No programa é notícia da redeTV[1], por exemplo, Leonardo Boff entrevistado por Kenedy Alencar, chegou a afirmar que o novo pontífice liderará a igreja romana de uma forma diferenciada especialmente porque a sua política se centralizará no povo e não na instituição. Isso porque Bergoglio primeiro pediu ao povo que o abençoasse, fato incomum no primeiro pronunciamento de um papa. Ele ainda destaca as primeiras atitudes de Bergoglio ao falar de improviso e não discursar em latim. Atitudes, essas, novas e inesperadas.
Outro exemplo dessa tendência de prestigiar o novo pontífice com atributos excepcionais é encontrado no artigo Um papa que anda a pé publicado no site do Estadão dia 16 de março, por Christian Carvalho Cruz. O articulista ressalta, citando o teólogo jesuíta Jesus Hortal da PUC-SP, que Bergoglio “será o papa da linguagem do povo, da proximidade e da familiaridade”, habilidades extracotidianas num pontificado romano. No site da BBC Brasil, do dia 15 de março, também se verificou a valorização das habilidades extracotidianas de Francisco. David Willey, nessa matéria, dá ênfase à recusa do papa em usar a limusine blindada. Ele preferiu fazer o percurso de ônibus com os outros cardeais. Ainda é dito que ele pagou a conta do hotel em que ficara hospedado com dinheiro do próprio bolso. Já no jornal Zero Hora[2], a ênfase foi na simplicidade dos gestos. Esse jornal até mesmo destaca que essa simplicidade pode mostrar lições essenciais para o mundo empresarial.
Além dessas instituições jornalísticas, várias outras também direcionaram sua atenção às habilidades extracodidiana do novo pontífice. Não resta dúvida que o carisma se tornou o meio pelo qual o Vaticano deseja mostrar-se ao mundo. Se a via do carisma for a trilha que a igreja percorrerá daqui para frente, surgem algumas inquietações que precisam ser observadas.

CARISMA E SUAS IMPLICAÇÕES TOTALITÁRIAS

Em primeiro lugar, de acordo com o arrazoado sobre o carisma de Maurizio Bach[3], existe um objetivo último que se pretende com a utilização desse artifício no processo político ou religioso. Ele argumenta que para se caracterisar, por exemplo, uma pessoa genuinamente caristmática é necessario “por parte de um círculo limitado de pessoas, a crença nas qualidades extracotidianas do pregador ou na personificação de novas ideias de valores” (2011, p. 55). É o que presenciamos de forma nítida na cobertura midiática da eleição de Bergoglio: ênfase exagerada em suas atitudes carismáticas.
Em segundo lugar, Bach salienta que o resultado último desse fenômeno é o poder quase que autoritário, por parte do líder carismático, sobre aqueles que reconhecem as suas virtudes. Para esse pesquisador, a magia carismática produz “uma força poderosa capaz de exercer tamanho fascínio sobre as pessoas ... reforçada ... pela pretensão autoritária de liderança de uma personalidade considerada extraordinária” (2011, p. 58). Como resultado do fascínio do carisma, os dominados exercem uma obediência quase que irrestrita ao líder excepcional, fruto de sua devoção ao absolutismo ou ao extraordinário. Bach assevera ainda que o “carisma ‘força’ a ‘sujeição’ como consequência da lealdade aos valores, [se transformando] em um recurso de poder e passa a constituir, ao mesmo tempo, uma relação de dominação” (2011, p.56).
Diante disso, é preocupante o ressente fascínio produzido pela mídia em relação ao carisma do novo papa. Sabendo que a igreja não renunciou em nenhum momento de sua trajetória política as pretensões de liderança mundial, o discurso carismático manifestado pelo novo pontífice pode anteceder um comportamento totalitário por parte do Vaticano, que seria um processo natural do fenômeno carisma. Assim como ocorreu com indivíduos emblemáticos da história como Hitler, Lenin, Napoleão Bonaparte e muitos outros, o início da caminhada política deles foi marcado por uma forte manifestação carismática, arrebatadora e extracotidiana, semelhante às manifestadas nas ações do novo papa. Porém, ao crescer o poder de influência deles sobre as massas, o que era carisma resultou em totalitarismo exacerbado.

O VATICANO E TOTALITARISMO

Por mais que possa parecer exagero, no século passado, alguns analistas religiosos já denunciavam as diversas tentativas por parte do Vaticano em retomar o domínio totalitário mundial perdido nos períodos da Reforma Protestante, Renascimento e, sobretudo, na Revolução Francesa. Desde o Tratado de Latrão[4] assinado pelo Vaticano e pelo governo italiano em 11 de fevereiro de 1929, no qual Mussolini restaura certos poderes à Igreja Romana, os pontífices romanos subsequentes deram início a marcha de recuperação do poderio perdido.
O interessante é que essa retomada da caminhada rumo à liderança mundial, foi, de forma pioneira, denunciada pela escritora norte-americana Ellen Gold White, há mais de cem anos. No livro O Grande Conflito[5], sua obra mais difundida, ela assevera de forma contundente que o Vaticano fará de tudo para recuperar o domínio exercido no passado. Pois faz parte da política da igreja assumir o caráter que melhor cumpra o seu propósito.
Dentre às várias denuncias que essa escritora faz, a que se refere aos trejeitos piedosos (marca do fenômeno carisma) apresentados pela Igreja Romana, hoje, como meio de atingir os seus objetivos é de suma relevância. White afirma que “a Igreja de Roma apresenta hoje ao mundo uma fronte serena, cobrindo de justificações o registro de suas horríveis crueldades. Vestiu-se com roupagens de aspecto cristão porém, não mudou”. Mais na frente ela assevera que “todos os princípios formulados pelo papado em épocas passadas, existem ainda hoje. As doutrinas inventadas nas tenebrosas eras ainda são mantidas. Ninguém se deve iludir” (2007, p. 571). Ela ainda declarou veementemente que o Vaticano “emprega todo expediente para estender a influência e aumentar o poderio, preparando-se para um conflito feroz e decidido a fim de readquirir o domínio do mundo e restabelecer a perseguição” (2007, p. 566).
Portanto, diante do que foi exposto, infere-se que a escolha do carisma por parte do Vaticano como meio de recuperar o prestígio perdido requer um olhar mais inquiridor sobre as implicações mundiais desse comportamento. Não seria mal observar com mais rigor os passos que a igreja romana vem tomando nesses últimos dias. Pois os efeitos naturais do fenômeno carisma é conduzir quem quer que o utilize ao fortalecimento do seu poder sobre as massas. Redundando como consequência, num domínio totalitário. Será esse o real objetivo da Igreja Romana? Hoje, pode parecer fundamentalista raciocinar dessa maneira. Porém a resposta eficaz e segura para essa pergunta, só futuro nos revelará.

Fonte: http://wandervs.blogspot.com.br/
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[1] Essa entrevista foi veiculada no ar no dia 17 de março às 00:30hs.
[2] Sâmia Frantz. Propostas para Igreja Católica sinalizam o lado gestor do papa Francisco. Zero Hora, 16/03/2013.
[3] Carisma e Racionalismo na Sociologia de Max Weber:In Revista de Sociologia & Antropologia, v.01.01: 51 – 70, 2011 (http://revistappgsa.ifcs.ufrj.br)
[4] MOORE, Marvin. Apocalipse 13: isso poderia realmente acontecer?. 1 ed. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2013, p. 57.
[5] WHITE, Ellen G. O grande conflito. 1 ed. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2007.

terça-feira, 19 de março de 2013

JOSÉ, O GUARDIÃO: ANÁLISE DA PRIMEIRA HOMILIA DO PAPA FRANCISCO


Jorge Mario Bergoglio teve o nome anunciado ao mundo todo, após a fumaça branca sinalizar a escolha de um novo pontífice no dia 13 de Março. O cardeal argentino foi eleito papa, assumindo o nome de Francisco. O próprio cardeal se revelou surpreso e declarou que o conclave se dignou a ir “até o fim do mundo” para escolher um novo papa.
Ontem, quase uma semana depois da escolha, Francisco debuta em sua primeira missa como suposto representante do apóstolo Pedro, tido pela Igreja católica como o primeiro papa. A premissa, tomada da declaração de Jesus a Pedro – “E eu lhe digo que você é Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja […]” (Mt 16:18, NVI) –, desconsidera uma análise mais detida do texto: há um trocadilho na declaração do Mestre entre o nome Pedro (petrós, pedregulho) e a Pedra (petra, rocha) sobre a qual se edificaria a comunidade cristã. O próprio Pedro não entendeu que seria ele a rocha; afinal, o apóstolo registrou: “À medida que se aproxima dele, a pedra viva – rejeitada pelos homens, mas escolhida por Deus e preciosa para ele […]” (1 Pe 2:4, NVI).

 Na homilia proferida em sua entronização, Francisco escolhe a personagem José, pai humano de Jesus e o santo da ocasião. Seu papel é destacado como o de alguém que seria o guardião tanto de Jesus, quanto de Maria. Um desempenho, portanto, mais passivo de José parece perpassar a compreensão do pontífice, acompanhando a tradição católica que destaca a figura de Maria. Aliás, ainda seguindo a tradição, José é mencionado como guardião da igreja, prefigurada em Maria. Essa relação entre Maria e a Igreja também não é bíblica. O único texto que, se mal compreendido, favoreceria essa concepção está em Ap. 12:5. A mulher que dá à luz ao menino, nesse contexto, representa o povo de Deus, que permanece ao longo do capítulo, e em diversas eras, continuamente perseguido por Satanás (o dragão) e seus agentes. Se a mulher fosse literalmente Maria, como os católicos, que acreditam em sua perpétua virgindade explicariam Ap. 12:17, que menciona “o restante da descendência da mulher”? Vale ressaltar que a Bíblia apenas afirma que Maria e José não se relacionaram sexualmente antes que Jesus nascesse. Ainda assim, o contexto de Ap. 12 não dá espaço para interpretarmos que a mulher se refira à Maria.

 Francisco discorre sobre o sentido mais amplo desse cuidado do qual José seria o exemplo: “Entretanto a vocação de guardião não diz respeito apenas a nós, cristãos, mas tem uma dimensão antecedente, que é simplesmente humana e diz respeito a todos: é a de guardar a criação inteira, a beleza da criação, como se diz no livro de Gênesis e nos mostrou São Francisco de Assis: é ter respeito por toda a criatura de Deus e pelo ambiente onde vivemos.” A menção ao cuidado da criação se alinha com preocupações ecológicas e com a tendência romana de tomar parte em iniciativas como o dia da Terra. Ao mesmo tempo, a referência a Francisco de Assis justifica a escolha do nome do novo papa (que não pertence à ordem que leva o nome do santo, mas que é, em verdade, um jesuíta).

Continuando na linha de seu antecessor, Francisco apela por mudanças político-econômicas. Ouça seu apelo: “Queria pedir, por favor, a quantos ocupam cargos de responsabilidade em âmbito económico, político ou social, a todos os homens e mulheres de boa vontade: sejamos ‘guardiões’ da criação, do desígnio de Deus inscrito na natureza, guardiões do outro, do ambiente; não deixemos que sinais de destruição e morte acompanhem o caminho deste nosso mundo!” Outro ponto de contato com Bento XVI está na ênfase na esperança, que deve ser oferecida “perante tantos pedaços de céu cinzento”, onde “há necessidade de ver a luz da esperança e de darmos nós mesmos esperança.”

 Finalmente, o líder da Igreja Católica reflete sobre o significado do pontificado, que seria um poder dado por Jesus, “um poder para servir”. E conclama a todos para se unirem à sua jornada: “Guardar Jesus com Maria, guardar a criação inteira, guardar toda a pessoa, especialmente a mais pobre, guardarmo-nos a nós mesmos: eis um serviço que o Bispo de Roma está chamado a cumprir, mas para o qual todos nós estamos chamados, fazendo resplandecer a estrela da esperança: Guardemos com amor aquilo que Deus nos deu!”

 Sem dúvida, as afirmações do novo papa são surpreendentemente alinhadas com a tradição católica, o que frustrará os setores mais progressistas. Além disso, o potencial ecumênico de seu discurso mostra que ele se enquadra mais na linha de João Paulo II, o líder carismático, do que na de Bento XVI, o papa emérito. Resta saber como seu pontificado se encaixará no quadro profético (Ap 13:3-8).
O discurso do papa pode ser lido na íntegra aqui.
Leia também:

segunda-feira, 18 de março de 2013

SEMPRE PELO CERTO

A academia onde eu tinha aulas de Judô havia se mudado para o centro da cidade, em um teatro. Pessoas novas e velhos conhecidos se encontravam ali. Principalmente, tia Hilda continuava lá. Ela era tanto a dona da academia, como a faixa preta mais simpática da história do esporte! Ela me conhecia desde os meus quatro anos.
Tia Hilda sabia de meu gênio forte e, ao mesmo tempo, da minha reputação de fazer as coisas de modo correto. Meus pais me ensinaram isso – evitar problemas e ser honesto. Mas eu estava agora na adolescência e tinha algumas coisas para “provar”.
Lembro-me de uma tarde em especial. Eu e outro colega estávamos conversando na fila, esperando chegar nossa vez para realizar a atividade. Foi nesse momento que ele me desafiou. Apontou para um menino e disse que eu seria incapaz de derrubá-lo. Tratava-se de um lutador novato, magro, um faixa-branca. Eu já devia ser faixa laranja, cheio de moral. Logo, derrubá-lo seria moleza!
Fui até o menino e, sem muito aviso, apliquei-lhe um golpe que o levou ao tatame. Simples assim. Voltei para a fila e eu e alguns colegas rimos daquilo. Infelizmente, o que eu não esperava aconteceu.
Nem sempre tia Hilda estava conosco. Justamente naquela tarde, ela acompanhava os exercícios, quando o rapaz que eu derrubei foi se queixar com ela. Lembre-se de que ela sabia da minha reputação. Tia Hilda não teria nenhuma dificuldade em me defender. E ela fez isso. Falou para o rapaz na minha frente que eu jamais faria aquilo, a não ser que fosse provocado.
Ouvir aquela declaração poderia ter me enchido de orgulho – no entanto, fez o contrário. Eu me senti arrasado e confessei que não houve motivo para aplicar aquele golpe. Senti-me envergonhado com a expressão frustrada no rosto de tia Hilda. Ela comentou algo, mas já não me recordo das palavras que ela usou. Mas o sentimento, a cor, o jeito como ela disse, isso ficou gravado. Eu a havia decepcionado.
Sempre corremos o risco de desanimar a outros, por não correspondermos às expectativas. Mas esse não é o problema. Devemos manter a consciência tranquila de estarmos sendo justos e fazer o que é o correto. Às vezes, fazer apenas uma coisa errada destrói a boa imagem que as pessoas tenham de nós. Principalmente, devemos ser bons pensando que é essa é a vontade de Deus para nós: “E não cansemos de fazer o bem, pois no tempo próprio colheremos, se não desanimarmos.” (Gl 6:9, NVI). O mais importante, é fazer o que é certo e agradar ao nosso Senhor.

quarta-feira, 13 de março de 2013

A VIDA SEM SUBSTITUTOS SERIA IGUAL?


Não me perguntem quando foi. Ou a minha idade na época. Só consigo me lembrar de que a passagem que ligava a casa dos meus pais à da vizinha não havia sido fechada. Afinal, a casa ao lado era dos meus tios, dois irmãos que moravam juntos – tio João e tia Bia. Meu irmão Daniel e eu estávamos lá todos os dias.

Quando atravessávamos a passagem, o varal de tia Bia ficava à frente, próximo ao outro muro lateral. Na época, não havia o quartinho que tio João construiu depois de alguns anos e que ainda está lá. Mesmo assim, era um espaço estreito para duas crianças brincarem.
Certo dia, corríamos. Meu irmão, quatro anos mais novo, esbarrou no estepe do varal; as roupas que secavam caíram no piso rústico. Dali a alguns minutos, tia Bia apareceu.
Vendo as roupas no chão, ela se ficou furiosa! Como meu irmão estava ali perto, tomou bronca. Mas algo aconteceu, nem sei explicar direito o motivo.
Interrompi Bia. “Fui eu quem derrubei as roupas.” Era mentira. Porém, surtiu efeito. Minha tia automaticamente mudou – sua zanga agora possuía novo alvo. Ela passou a brigar comigo, enquanto se desculpava com meu irmão – “pobrezinho do bichinho”. Senti-me entre injustiçado e satisfeito.
Altruísmo faz a diferença. Claro que em muitas circunstâncias eu deixei de agir em benefício de outrem. E houve casos nos quais eu fui o beneficiado. Agir com altruísmo significa se colocar no lugar do outro. É pensar na pessoa e atender as necessidades dela na frente da sua. Mas existe algo maior no altruísmo.
Ele não se limita à experiência humana, porque o próprio Deus é tanto fonte de altruísmo, como Ele mesmo deu o maior exemplo de altruísmo. Ao morrer em uma cruz, assumindo a culpa da humanidade, Jesus Se fez nosso Substituto. “Para isso vocês foram chamados, pois também Cristo sofreu no lugar de vocês, deixando-lhes exemplo, para que sigam seus passos.” (1 Pe 2:21). Jesus foi nosso substituto. Agora, ele quer que nos tornemos substitutos das outras pessoas, no sentido de ajudá-las em suas lutas. Afinal, o que seria da vida sem substitutos?

domingo, 20 de janeiro de 2013

GERAÇÃO Y NA REVISTA KERIGMA


A revista Kerigma, publicação da Unaspress, trouxe em sua última edição meu artigo intitulado Os desafios de evangelizar a Geração Y. O texto procura identificar os indivíduos dessa geração, explicar sua mentalidade e apresentar os desafios missiológicos que eles representam para o evangelismo da IASD. Faz-se um alerta para o risco de seguirmos as tendências da chamada Igreja Emergente, na tentativa de alcançar as gerações mais recentes. Tais tendências descaracterizariam o movimento adventista, tornando-o apenas mais outra igreja evangélica pós-moderna. O artigo está disponível em pdf aqui.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

ALDEIA INDÍGENA RECEBE MISSIONÁRIOS DO IAP

Estudantes do IAP realizam o primeiro contato adventista com os javaés
Por Paloma Lopes
Colaboradora

A Escola de Missões do Instituto Adventista Paranaense (IAP) iniciou no último dia 5 projeto “Missão Javaés”,com ações sociais na área da saúde, pedagógica e, acima de tudo,levando a mensagem de salvação à comunidade indígena Boto Velho localizada na Ilha do Bananal, Tocantins. O projeto, que reuniu um grupo de 12 voluntários, foi idealizado pelo capelão do IAP, Pr. Douglas Reis, em parceria com o Ministério Nativo do Tocantins, liderado pelo Pr. Miraldo Fág Tanh.
Tratou-se do primeiro contato de um grupo adventista com a aldeia dos Javaés. Houve atividades para crianças, tais como teatro, pintura, brincadeiras e contação de histórias bíblicas, coordenadas pela pedagoga Marta Balbé, doutora em Educação e Coordenadora de novos cursos na Faculdade Adventista Paranaense (FAP), vinculada ao IAP. Além disso, ocorreu orientação odontológica, aferimento de pressão e ações preventivas na área da saúde sob supervisão do enfermeiro Davisson Gonçalves, professor da FAP.
O IAP, que receberá em breve o curso de Teologia,oportuniza por meio da Escola de Missões que os jovens ingressem no campo missionário. O trabalho do grupo gerou resultados como a confiança do povo nativo,bastante acanhado a princípio. Despertou-se o interesse dos adolescentes da aldeia sobre a Educação Adventista.
As atividades do grupo se estenderam no local até domingo dia 20 de Janeiro. Sem dúvida, esse foi o primeiro de muitos outros projetos missionários realizados pelo IAP.

Veja outras fotos da Missão Javaés:

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

AMOR NUNCA DISTANTE


O ano de 2013 começou com muita correria! prosseguimento na carreira acadêmica, últimos preparativos para o livro novo (faltam dois capítulos e outros ainda sofrerão pequenos ajustes) e envolvimento em um projeto da escola de missões. Atualmente, estou em Lagoa da Confusão, pequeno município do Tocantins, próximo de Gurupi. A cada dia, nosso grupo tem realizado um trabalho social e evangelístico na aldeia Boto Velho, a 50 Km da creche municipal que se tornou nosso QG. 

Em meio a tudo isso, não posso me esquecer do dia de hoje, uma data marcante e marcada pela saudade. Completam-se nessa data sete anos que essa mulher da foto resolver desafiar as probabilidades e fazer o impensável: passar o restante de sua vida ao meu lado. Sete anos de matrimônio e outros quatro, entre namoro e noivado (foram três anos de relacionamento à distância!...).

Muitos momentos ficaram na memória. Não somos uma casal perfeito, mas posso dizer que somos muito felizes. Minha esposa é uma legítima bênção para mim como pessoa e também no aspecto ministério. Passamos por inúmeros desafios juntos. Mudanças de cidade e circunstâncias. Perdemos contato com amigos queridos e ganhamos a companhia de outros. Acima de tudo, continuamos tendo o que mais importa: um ao outro. Definitivamente, não preciso de mais!

Gostaria muito de estar com minha esposa e dizer-lhe pessoalmente que a amo. Mas, no momento, tenho de me contentar em esperar pelo dia do regresso, com o qual tenho me ocupado nos últimos dois dias. Mal vejo a hora de rever aquela que me faz tão feliz, o presente que Deus me concedeu de forma tão graciosa. Louvo a Deus por estar envolvido na missão e tenho a certeza de que as saudades somente aumentarão um amor que só tem crescido em mais de uma década. 

Nori, eu amo você!