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quinta-feira, 11 de junho de 2015

ADVENTISTAS E A PARÁBOLA DA LARANJA


O subcomitê preparou o I Fórum de discussão sobre a carência de vitamina C no município de Andorinhas. O salão paroquial da cidade abrigou o evento, que foi divulgado pobremente no único jornal de toda a região. Pobremente porque a situação emergencial requeria uma medida extrema, rápida, sem tempo para maiores planejamentos. E o prefeito Juca recebeu exaustivas advertências da Secretaria de Saúde Pública de Andorinhas.
Juca não fazia o tipo preocupado com nenhuma questão envolvendo saúde (quer pública ou mesmo particular, dado o número de cartelas de cigarro consumidos diariamente por ele), ou algo tão ínfimo quanto a carência de qualquer vitamina que fosse. Entretanto, se chegara ao cargo máximo de administrador público do município, isso se devia a seu faro para potencializar problemas e oferecer soluções miraculosas. Às vésperas do último ano de um mandato pífio, far-lhe-ia bem à pretensão de sucessão resolver algo urgente.
 O fórum recebeu a atenção integral de seus assessores, incumbidos de alarmar a cidade com o novo problema. Apesar de notar a pobreza da divulgação, ao menos no número de veículos envolvidos, é preciso retificar e admitir o sucesso da propaganda, posto estar cheio o ambiente. Algum adivinho quiçá o tenha visto no globo de uma bola de cristal e tido tempo de comunicar os assessores municipais, o que explicaria as centenas de cadeiras de plástico locadas para garantir mais gente assentada ou detalhes como os ventiladores extras trazidos. Juca sorria como quem imaginasse não demorar muito a voltar para a cadeira no gabinete que ocupava.
Diante de milhares de eleitores, ou melhor, cidadãos de Andorinhas, Juca abriu o discurso na melhor tradição política – falou muito, não disse coisa com coisa, mas impressionou as pessoas. Seguiram-se vozes de especialistas, que mostraram os baixos índices de vitamina C prognosticada na média da população, os riscos disso e algumas possíveis medidas. Ao fim, o vereador João Lobo convidou à frente o empresário Klefetis Capitioso. Caso nos leia alguém que não logrou a sorte de ter em Andorinhas sua terra natal, é necessário apresentar um tipo conhecido por todos: o Sr. Capitioso, dono da maior – talvez seja necessário comentar, da única – fábrica de Andorinhas, responsável pela equilibrada economia da cidade. A Accommodatio, fábrica de refrigerantes bastante popular, empregava, ao todo, mesmo nesses nossos tempos de crise, 108 pessoas. Desse modo, a mera presença de Klefetis Capitioso em uma reunião como aquela gerava tensão e expectativa.
O sr. Klefetis parecia-se com um desses gurus da neurociência, falando de um modo calculado, com as devidas pausas e muitos olhares dirigidos diretamente ao pública. Juca sentia profundo alívio em se certificar que aquele homem de roupas modernas, cabelo curto e alinhado e que transpirava eficiência não tivesse qualquer ambição política. Afinal, todo poder que Klefetis queria, o poder dos revolucionários, dos idealizadores, dos grandes solucionadores, disso ele já gozava. Em poucos minutos, todos sabiam e aprovavam seu plano:
“Amigos, dizia na arrematadora conclusão, vamos usar, para combater esse problema da vida pós-moderna, uma abordagem mais arrojada, porque as novas gerações não querem mais saber de laranjas. Vocês sabem, se o consumo de laranjas aumentasse, toda essa epidemia jamais existiria”, disse olhando para baixo e deixando um curto e surdo suspiro ecoar, para retomar com novo ímpeto: “Mas o que precisamos agora é contextualizar a laranja para o consumidor atual, que não possui interesse em comer frutas. Uma nova embalagem, um novo sabor, propagandas em outdoors pelas cidade, no jornal, na rádio.” Olhava para cima, quase que vendo, ou fazendo a gente ver, o que dizia, “New Orange – é cítrico, é legal, é para você”. A reação foi imediata: palmas e vivas se seguiam, mães abraçando os filhos que não morreriam sem vitamina C, o prefeito sabendo que, se as pessoas estavam felizes, não haveriam razões para descontinuar sua administração; tudo parecia perfeito.
Os meses que se seguiram trouxeram a materialização do plano. A New Orange ganhou o mercado mais com aura de elixir milagroso do que mero produto comercial. Professoras faziam campanhas para que as crianças trouxessem o refrigerante-sensação da Accommodatio para o intervalo das aulas. Em diversos locais públicos, como biblioteca, museu, rodoviária e praças, instalaram-se máquinas com latinhas de New Orange. Dada a posição oficial que o novo produto ganhou, quase que tendo simultaneamente o status de lei e patrimônio público, poucos se atreviam a criticar a criação de Klefetis Capitioso. Mesmo para aqueles que, por alguma razão ou intuição pessoal, a New Orange não era a solução, impunha-se o silêncio, muitas vezes até auto imposto, porque ali estava, se pensava, um mal necessário ou, em um juízo mais positivo, a melhor solução possível. Mas as coisas mudaram com o tempo.
Primeiro, demorou alguns meses até que uma jovem médica, chamada Aleteia, começasse a perceber carência de vitamina C em muitos de seus pacientes, sobretudo os mais jovens. “Doutora, isso é impossível, eu tomo tanta New Orange que devia ter vitamina C acumulada até os netos!” Aleteia escutava coisas assim com tanta frequência que seu senso científico começou a fabricar perguntas. Aleteia resolver, discretamente, fazer algumas pesquisas. Os resultados a perturbaram: nenhuma evidência encontrada de que a New Orange suprisse a falta de vitamina C.  Aleteia refez os testes. E outra vez, e uma última. Sempre resultados consistentes com os da primeira pesquisa.
Ela e um amigo farmacêutico publicaram os resultados em uma revista acadêmica da região. Depois veio um artigo para um jornal de outra cidade. Finalmente, a notícia chegou voando (com perdão do infame trocadilho) em Andorinhas.  Era o caos: protestos na rua, manifestações em favor da New Orange com gente vestida com camisetas laranja (a cor), acusações de que produtores de laranja (a fruta) em outro munício estavam por trás da pesquisa ou que outra empresa de refrigerantes estava usando Aleteia como laranja (na gíria) para minar a New Orange. Não deu outra: a pobre médica se mudou. Aleteia temia pela vida em uma cidade em que não era bem vinda.
Depois dessas conturbações, a fama da New Orange se espalhou e ela passou a ser importada. Klefetis Capitioso sonhava em expandir seu produto por todo país. Ocorre que em um mundo globalizado os referenciais não são locais, mas globais. Não tardou para que pessoas mais esclarecidas começassem a acusar a Accommodatio de ter copiado refrigerantes de outros países. A New Orange era vista não mais como o produto revolucionário, apenas uma reprodução em terreno nacional do que havia lá fora. A partir daí, outras críticas se seguiram: quem bebe do refrigerante, não possui interesse pela fruta, que é a verdadeira portadora de vitamina C; a New Orange faz mal para os ossos e é prejudicial para os diabéticos; alguns dos produtos de sua fórmula são cancerígenos. Até a população de Andorinhas se alarmou escutando tantas coisas ruins sobre a New Orange. Quem não se alarmou foi Capitioso, porque sabia que poderia sustentar a fama de seu produto com silêncio diante das críticas e propaganda agressiva. Tampouco, Juca se alarmou: já estava no meio do seu segundo mandato.
  
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terça-feira, 17 de dezembro de 2013

HEROÍSMO EM VÃO?

Jorge acordou sobre o plástico da cama, com o braço que ele mesmo havia costurado e sob o efeito do anestésico que tomara. A frequência da polícia informava que muitas viaturas seguiam para o hotel em que ele estava escondido. Finalmente, os federais seguiram suas migalhas: a cada carro localizado, eles tinham uma pista. Chegaram a uma região e, finalmente, um dos atendentes de hotel informara receber um hóspede com sua descrição física. Os detetives pediram reforços e em poucos minutos, Jorge se veria cercado.
Levantou-se de súbito, com o braço dormente. Lavou o rosto e pôs a dentadura postiça, a peruca roxa. Da sua caixa de emergências, ainda buscou uma “prótese de adiposidade” – espécie de almofada anatômica que ele prendia à cintura para que aparentasse ser mais gordo. Em poucos minutos e com roupas escuras, tornara-se outro homem, bem diferente daquele que fizera o check-in às pressas, com a urgência de extrair as balas do braço.
Jorge limpou o quarto, embrulhando a roupa antiga e vestígios pessoais no plástico com o qual forrara o quarto. Colocou em uma sacola grande – a mesma com a qual entrou, mas que, uma vez colocada do avesso, parecia outra.
Desceu as escadas assoviando um pagode, enquanto ouvia os policiais do saguão se reunindo para invadir seu apartamento. A confusão era tamanha que nem deram atenção ao senhor idoso e corpulento que descia, sem saber que ali estava quem eles buscavam.
Em um beco há poucos metros do hotel, pôs gasolina na sacola com o plástico e a viu queimar, apagando tudo que poderia levar a ele.  Logo estaria no metrô. O braço doía enquanto Jorge dava seu último olhar, esperando não ter sido seguido.
Assentado no banco do metrô, ele se lembrava de como aquela loucura de invadir escritórios de políticos corruptos e pressionar traficantes começara, há uns vinte anos. Jorge era um policial idealista, com bom preparo físico e um senso de justiça aguçado. Cansou de ver injustiças. A lei parecia uma colcha de retalhos e suas brechas eram sabiamente explorados por criminosos sempre mais espertos do que os policiais.
O metrô interrompeu seu som aveludado parando em uma estação movimentada. Jorge abriu os olhos – dormira por três ou quatro estações. Desceria na próxima. Ao seu redor, poucas pessoas: uma senhora obesa, de pele clara e olhos de um azul esperançoso. Ao seu lado, um sujeito magro, com cara de universitário, ouvia som tão alto em seu fone que parecia incomodar todos. Ao fundo, outra menina, presa na leitura de um livro. O cabelo tingido de vermelho caía por sobre sua testa cheia de espinhas.
Jorge andou três quarteirões até chegar em casa. Sua rua fora uma das mais perigosas do bairro. Seu trabalho intenso afastou os traficantes e trombadinhas. Aquele era seu motivo de orgulho. Após fechar o portão, o senhor de meia idade se dirigiu à oficina. Em uma espécie de porão secreto, cujo acesso se dava por uma escada de madeira localizada abaixo de um sofá aposentado, Jorge cumpriu o ritual de toda noite.
Ele sempre entrava, usando lentes ultra-violetas. Afinal, o local tinha de permanecer escuro para não ser notado. Jorge conferia as chamadas da ploícia e acompanhava por meio de um computador gasto os noticiários. Chegou bem a tempo de ver a reportagem sobre a luta do Colante Negro com vendedores de carros roubados. A repórter se perguntava se o herói sobrevivera ao confronto com traficantes armados, informando que fontes extraoficiais indicavam que a polícia estivera ao encalço do vigilante a noite toda.
Jorge engolia a última xícara de café enquanto pesava sua atuação. Sentia-se mais lento e em desvantagem em face do armamento pesado dos criminosos. Pensara em recrutar alguém, para ser treinado e assumir o uniforme do Colante Negro, nome que a mídia lhe dera há tanto tempo que não podia mais protestar (ele sempre quis que o chamasse de Morcego Destemido, o que faria com que duas companhias de Histórias em quadrinhos o processassem!).
A cada dia, Jorge sentia estar fazendo pouca diferença. Não dava conta de enfrentar tantas coisas erradas e ajudar a todos os que sofriam com as injustiças. Antes de subir, ele conferiu, como fazia habitualmente, um quadro de seus maiores feitos. As gravuras, em tinta que poderia ser detectada apenas com sua lente especial, falavam de quando ele resgatou o prefeito (há cinco anos), salvou doze tripulantes de um naufrágio (há dezessete anos), recuperou informações sigilosas de uma multinacional (há doze anos) e tantas outras coisas.
No chuveiro, Jorge não parava de pensar em quantos tiros tomara nessa noite por pura imprudência. A polícia quase o capturou. Era sempre assim: toda vez que mudava o comissário, o novo oficial decretava caça ao Colante Negro. Isso até aprender que os homens da lei precisavam dele e a parceria se formar. Agora um policial prestes a se aposentar e realizando funções administrativas, Jorge tinha mais tempo para salvar a cidade – e menos energia também.
Deitado ao lado da esposa, pensou em como explicaria para ela os curativos no braço. Aquilo ainda doía. A velhice parecia desmotivar o mascarado. Por quanto tempo mais conseguiria viver daquele jeito? Por mais que tentasse, nenhuma solução humana lhe surgia à mente para vencer o que estava de errado na sociedade. Jamais se imaginou pensando isso, mas aquilo era luta perdida.

Acordou pela manhã ao som de um programa evangélico que a esposa sempre ouvia. A leitura de Apocalipse 21 capturou sua atenção…

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terça-feira, 6 de março de 2012

INTRUSÃO


Os assuntos terminaram antes da tarde e Carlos buscou seu Ford no estacionamento. Já tinha feito as entregas e tencionava voltar para casa. Passaria novamente pela serra de Curitiba, sem pegar todo o trânsito da vinda. “Para baixo, todo santo ajuda”, dizia para si mesmo, aliviado.

Carlos já estava dirigindo a tempo quando sentiu o banco movimentar-se. Estranho. Olhou para trás, procurou. Claro, não havia ninguém além dele. O próprio pensamento soava absurdo. O movimento continuou. O que fazia o banco se mover daquele jeito?

A resposta estalou: ele não podia crer. Seu pé acelerada pelas largas ruas arborizadas. Já escurecera e a sensação cresceu dentro da cabeça. A mulher vira um camundongo no quintal. Carlos mesmo não chegara a topar com o roedor, mas até comprara veneno granulado, na esperança de que ele não chegasse a entrar em casa.

Carlos era homem, sem medo dessas coisas. Apenas não gostava de ratos. Se tivesse de matar o bicho, no momento em que ele surgisse a sua frente, seria tranquilo. Como nos velhos filmes de faroeste, ele seria o primeiro a sacar uma vassoura e arrebentaria a criatura. O problema era o jeito tinhoso do bicho. Ele se escondia entre móveis, subia prateleiras e se embrenhava nas sombras. Como achar o nocivo?

Carlos começava a descida. As janelas do veículo ficaram abertas na hora do almoço, para arejar. E se o tinhoso do quintal houvesse resolvido pegar carona? Pensamento horrível! O motorista se preocupava. E o banco mexia.

Que foi isso, algo lá atrás, um barulho fino, seria o animal? Carlos estremecia, olhando pelo retrovisor. Em vão – estava escuro à beça! O farfalhar continuava, e o estado de alerta aumentando…

A cada curva, Carlos suava mais. Tentava ver, e… escuro. O próprio console tilintava e ele pulava do banco, o mesmo que continuava a se mover. O rapaz já não sabia o que pensar. Sua tensão crescia, junto com a velocidade. As curvas eram feitas de modo desesperado. Carlos já vislumbrava a batida, quem sabe na próxima curva, com direito a informes na televisão e tudo! Seria mais um desses motoristas idiotas a aparecer no noticiário por uma dita imprudência, até o chamariam de bêbado – mal sabiam que tudo não passava de fruto do pânico que vivia. As mãos gotejavam, os olhos tentando captar figura do temível. E a descida frenética. Noite escura.

Lá pela metade, uma luz: parar em um posto. Acharia um? E o que diria, afinal? Pensou. Diria que tinha um bicho daquele naipe no carro? Se fosse assim, não poderia se expor. O que pensariam dele? Conjecturas assim lhe acorriam na hora em que sentiu um leve fisgar na perna.

A pressão foi demais. Carlos gritou, horrorizado. Como mataria um camundongo a 120 km/h ? E se a criatura encostara realmente nele? Ajeitou-se e tentou agir pela razão. Ufa!, não fora o monstrengo, não. Apenas a barra da própria calça lhe tocara a perna. Antes do pedágio, avistou um posto. Encostou o carro.

Enquanto o frentista abastecia o automóvel, Carlos, com a postura falsamente masculina esbravejou (quase à toa) que deveria haver algum bicho em seu carro. Abriu todas as portas e, aproveitando a iluminação do posto, olhou o interior do veículo.

Viu um amontoado de papéis no banco traseiro, que deveriam ter voado com as janelas abertas, provocando os ruídos que lhe pareceram os de um furtivo carona. No console repousavam justamente algumas moedas separadas para o pedágio – o tilintar delas na viagem se assemelharam a guinchos e chiados. Quanto ao banco inquieto, decerto faltava alguma regulagem nele. Carlos chegou a respirar aliviado. Enfim, nada indicava que qualquer roedor estivesse descendo a serra com ele. Pagou pelo abastecimento e seguiu viagem.

As mãos suavam menos, o pedal do acelerador não recebia tanta força e o escuro não tornava o motorista tão angustiado. Se bem que, nunca se sabe; o banco ainda balançava e alguns ruídos…

quarta-feira, 22 de junho de 2011

A CHEGADA DE ENOQUE


O êxtase, a exatidão de um sentimento de flores e cânticos, num rodopio inusitado, e – a chegada!
Sua chegada colhe os abraços de seres luminosos, enquanto outros, atentos e expectantes, acompanham-lhe as passadas deslumbradas.
Por séculos, nossas almas têm se entrelaçado, ambas
Usufruindo de uma comunhão que outras
Desconhecem em sua rotina de egoísmo.
O facho fecha as retinas acostumadas à penumbra das manhãs terrenas, algo estranho testemunha, o anil dos lábios saudando não a ele, senão ao Motivo de seu aportar.
Filho, finalmente hoje conheces minha casa,
Sendo que, em tua casa, sempre estive como hóspede!
Adão lhe contara. Sobre a presença, a harmonia, o esplendor, a voz, o sorriso, o poente, a mensagem, o divino, toda a teia, toda! E ele ouvira seu ancestral e o júbilo lhe penetrava.
Ainda ouço no vagido
De meu pequeno filho
A pequenez do homem na terra
E sua necessidade de Deus.
Poderosos ministros da região que o veem acompanharam-no quando dizia, chama sem açúcar, anúncio de trovão no interior dos corações:
Silenciai vossas obras,
Aquietai vossos desejos perversos;
O Senhor caminha,
O Criador é chegado;
Ele será o juiz de todos os ímpios,
Com seus anjos acompanhando-O em Seu julgamento.
Deus finalmente o encontra e o abraço fraterno é dado. O fim do conflito é chegado, ao menos para um dos filhos da Terra. Há esperança para a semente do bem, se o isolamento conservar acesa a fé, livre dos obstáculos sensuais.
Para ele, há este primeiro abraço. E há o sempre…

sexta-feira, 17 de junho de 2011

DEPOIS DA HERANÇA, O GOLPE

Eustáquio chegou, olhos excitados com a novidade. Zeferino mal pode crer nas palavras atropeladas do colega: uma herança. Riam juntos. Eustáquio fazia planos mirabolantes, divertindo o amigo mais jovem.

“O que você acha de uma picape Mitsubish? Sempre quis dirigir uma, para impressionar aquelas meninas do colégio Francisco de Assis, que esnobam a gente…”

“Ah, seria uma boa. Elas iriam se arrepender, aquelas patricinhas. Umas metidas, isso sim!”

Riram mais um pouco e se despediram. Era tarde e os dois acordariam cedo na segunda. Zeferino quis contar para o mundo a sorte grande que o amigo tirara. Mas como Eustáquio era um rapaz cauteloso e de bom senso, solicitou-lhe que fizesse boca miúda.

Na tarde seguinte, Zeferino voltou do banco cansado. A nova função o estava exaurindo. Ainda sonhava em ser gerente; apenas percebia que o caminho era mais complicado do que imaginara! Deitou-se no sofá com um prato de bolachas e um copo de leite. Adormeceu antes do fim do filme que assistia sem interesse genuíno.

Nem chegou à noite, quando a campainha tocou. Zeferino saltou assustado, pensando ser sua mãe. Dona Francisca detestava quando seu menino (alcunha que ele detestava) sujava a sala com farelos de comida. Por isso, antes de aberta a porta, um prato e um copo foram parar às pressas sobre a pia da cozinha.

Zeferino quase perguntou se a mãe tinha deixado a chave na bolsa velha, quando se assustou ao girar a maçaneta. Eustáquio de novo? Convidou o amigo para entrar, tentando disfarçar o susto que a surpresa lhe trouxera. “Sabe a picape?”, “Qual picape, cara?”. Eustáquio permaneceu observando o dono da casa, na espera de que se lembrasse. “Claro, claro. Puxa! Que distração a minha. Decidiu mesmo levar a mitsubish para a sua garagem?”. “Sim, mas tive uma ideia. É bem divertida, você vai gostar de ouvir isso.”

Amanheceu um dia tranquilo. A concessionária Mitsubish da pacata cidade estava sem muito movimento. Os veículos eram vistosos e modernos, mas além do poder aquisitivo da média da população. Luís Cláudio, um dos vendedores da empresa japonesa, esperava próximo ao rol de entrada por algum cliente em potencial. Procurava conter-se, a fim de mascarar o nervosismo, elemento mais perceptível do que ele estava disposto a admitir.

Para a surpresa de Luís, um cavalheiro distinto surgiu, trajando um terno sóbrio, risca-de-giz. Como um urubu, o vendedor se aproximou do jovem, que pediu para ver uma picape. “Excelente”, disparou Luís Cláudio. “E o senhor tem alguma preferência quanto ao modelo?”, “Quero ver o que você tiver de melhor!”. Ambos começaram a percorrer o salão, passando pelos mais exóticos esportivos e carros de luxo. O jovem cliente olhava maravilhado aquelas máquinas, detendo-se às vezes diante de um modelo que lhe interessasse.

Quanto finalmente chegaram ao espaço onde as picapes estavam expostas, viram alguns modelos, mas o jovem já estava cansado de tanto tempo em pé. Luís Carlos deu-se conta do fato e levou o cliente a um local em que pudesse sentar-se. Ofereceu-lhe chá e biscoitos. Perguntou se queria mais alguma coisa, cercou-lhe de muitos mimos, tantos quanto pode. Enquanto bajulava o rapaz de terno, alguém se aproximou. Era outro moço. Esse trajava uma camiseta furada que fazia um par de mal gosto com sua calça jeans desbotada. Trazia à mão uma pasta de couro surrada. “Oi, você pode me atender?”.

O vendedor olhou o estranho de alto a baixo, sem dizer palavra. Como o jovem insistisse em ser atendido, retrucou: “Você não vê que estou ocupado, atendendo o senhor aqui?” Deu as costas para o maltrapilho e foi mostrar o catálogo de preços para o primeiro rapaz.

Enquanto seguia o atendimento, o homem de jeans surrado percorria a concessionária, em busca de quem o pudesse atender. Todos lhe viravam o rosto. Pareciam convencidos de que dele nada se podia esperar – afinal, se não possuía dinheiro para roupas adequadas, como esperar que tivesse condições para adquirir um ícone do mercado automobilístico?

Desanimado, o rapaz se dirigiu ao guichê de entrada. Perguntou à recepcionista quem era o vendedor com menos experiência. Apontaram-lhe uma moça sardenta na ala esquerda, que atendia por Rose. Sem aparentar ansiedade, ele caminhou até a vendedora. Perguntou-lhe como estava seu trabalho. “Ah, é bem difícil, né? Ainda sou nova e nem sempre encontro clientes que queiram mesmo comprar nossos carros”, disse Rose, com toda a sua sinceridade.

Caminharam até a picape que o estranho queria ver. Ele examinou o veículo e perguntou: “Qual é o valor?”. Rose lhe falou o preço como quem dá uma informação à toa. Quase caiu de costas quando ouviu seu interlocutor falar: “Fechado! Eu fico com ela.” A moça pensou, a princípio, que se tratava de um mal entendido – decerto, ele não prestara a atenção no valor que ela informou. Porém, antes que ela a corrigisse, viu a bolsa velha ser aberta e muitas notas sendo contadas. Estupefata, ela pensou jamais ver tanto dinheiro junto (em geral, seus clientes pagavam com cheques).

A loja parou para ver a cena. Luís Carlos mal pode crer em tudo aquilo. Antes que pudesse se recuperar, o vendedor recebeu outra revelação bombástica: Zeferino tirou o casaco do terno, aproximou-se dele e lhe falou ao ouvido: “Desculpe-me, mas meu horário de almoço já está acabando; como meu amigo já comprou o carro que ele queria, acho que irei aproveitar a carona e voltar para o trabalho…”

sexta-feira, 20 de maio de 2011

DESORIENTAÇÃO


Ainda no parque. Ainda? Como fora parar ali, perguntava-se, procurando instintivamente o maço de cigarros no paletó amarrotado. Não achou nem cigarros, nem respostas. Olhou fixamente para as crianças correndo, andando no gira-gira, no balanço, no escorregador… Deixou-se absorver pela cena, ao mesmo tempo em que bloqueava o engarrafamento típico da avenida mais próxima.

Coçou os cabelos ralos, ao se levantar com indecisão – iria embora? Sentia que algo faltava… Uma chave de carro em sua mão aguçou a curiosidade. Mirou em várias direções, apertando o botão de alarme. Um carro utilitário prata soou o alarme. Então viera com ele?

Caminhou poucos metros e abriu a porta do veículo. Era espaçoso e sugeria uma família numerosa. Analisando atentamente o banco traseiro, viu o estofamento gasto. O carpete possuía farelos de bolacha e partículas de chocolate. Ah, meu Deus!, o menino!

Voltou às pressas para o parque. Olhava para todos os cantos, procurando o filho que não se lembrava como era. Uma forte dor de cabeça o perturbava, enquanto se tornava consciente de sua incapacidade de identificar, entre tantas crianças, aquela que viera com ele. Seria um pesadelo?

Procurou a carteira. Mas não havia fotos. Retornou ao carro, olhou o porta-luvas, tentou achar uma mochila ou algum caderno no porta-malas… Nada. Sem fotos, sem nomes, sem referências. Sequer possuía um número para o qual ligar.

A noite sacudia as últimas poeiras de luz. Pais vinham buscar seus filhos, que os abraçavam felizes. Que pensaria seu filho, negligenciado pelo pai? Onde estaria a criança, que não vinha até ele? Olhava-as a todas, procurando um traço, uma voz, um jeito de andar.

Uma mulher passou por ele, vestida como uma professora, trazendo pela mão uma menina ruiva, de ar esperto e traquinas. A menina lhe sorriu dispersamente. Levantou-se para acompanhá-las, com alívio no sorriso. Mas elas passaram por ele, entretidas com suas confidências familiares, sem perceber que ele quase as abraçara afetuosamente.

Uma a uma, as crianças deixaram o parque, o que só serviu para aumentar a desolação do homem. Quando fazia meia hora em que estava reinando no parque, decidiu sair. Andou sem rumo pelas ruas, passando por lugares que lhe despertavam algum resquício de lembranças. Olhava os bares, lojas e pessoas, com o desejo de gritar, de pedir ajuda. Alguém deveria conhecê-lo, saber onde morava e lhe dizer por que o filho não o esperara no parque.

Até pensara em ir a um posto policial. E dizer o quê? Comunicaria o desaparecimento de uma criança intuída e não vista, pressuposta e talvez nem existente de fato? Por mais que tentasse se concentrar, nada lhe vinha à mente. Nem filhos, ou qualquer outra memória.

Já exausto, entrou no estacionamento do hospital. Tomou o ticket, estacionou e seguiu para a ala de internação. Seus pés tinham vida própria e sua mente era ativada pelos passos. Chegou à ala de pacientes traumáticos. Ao longe, viu uma mulher segurando um urso, em uma posição de ingenuidade. A cena era idílica e pueril, apesar da dor presente muito aquém da superfície.

“Ellen?…”, balbuciou, inseguro. “Oi, Teófilo”. Respondeu ela melancolicamente. Reunindo forças, ela se levantou. “Sinto muito a falta de Jenifer!”. “Eu também, meu amor, eu também.” Choraram ao se abraçarem longamente.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O RODA-RODOPIO



Todos saem da cama aos pulos, fazem fila para lavar o rosto em uma tina larga e se assentam à mesa, enquanto a mãe tira do forno os pãezinhos de batata, levemente impregnados com cheiro de fumaça, algo que provoca o interesse dos agitados garotos, que, entre risos, cochichos, se banham à luz sorrateira e crescente vinda da janela.
Josenoíno pisca para Joseantônio, em confirmação do pacto. No momento em que oram pelo pão, Joseantônio tem de conter seu riso traquinas. Aquelas ideias do primogênito sempre lhe rendiam alguns momentos de deleite imaginativo, daqueles que acometem as crianças antes de aprontarem. Josemaria, ao lado de Josenantônio ficou cutucando o irmão, rindo com ele. Às vezes, Josenoíno censurava os dois cúmplices, olhando-os do outro canto da mesa, para que o plano alcançasse êxito. Ao lado do mentor do grupo, Mariacândida aproveitou o fim da oração para comer seu pão coberto de manteiga produzida em uma fazenda vizinha. Ela era a segunda mais velha da casa, mas pouca ascendência possuía sobre os meninos. Seu gênio brando contrastava com a índole enérgica da mãe, cujas palavras saíam severas, como as das demais mães de outrora, quase sempre a sobrepor disciplina à candura.
Ao lado da mãe, Mariazeferina pensava na trama dos irmãos. Queria tanto ser amiga deles, mas, nas horas em que brincavam pelo campo, a mãe exigia que ela ajudasse carregando a bacia com roupas para o rio. Mariazeferina já estava na idade em que sua inteligenciazinha percebia que a mãe a treinava para ser moça responsável apenas porque ela não era tão bonita quanto Mariacândida. A evidência? A mais velha realizava sempre as tarefas mais leves. Anos mais tarde, Mariacândida formou-se em direito e chegou a se tornar uma famosa advogada – aliás, a única entre todos os irmãos que chegou a graduar-se em nível superior. Nunca se casou.
Na outra ponta, entre desconsertado e alienado, estava Joãojerônimo, que vinha depois de Mariacândida. Os vizinhos diziam que ele deveria ter algum probleminha, embora o assunto jamais chegasse a ser comentado muito próximo da fazenda em que o garoto morava com a família. Tabu de outros tempos. Joãojerônimo sai logo após o desjejum com os irmãos, fato inédito. Foram para uma colina, na extremidade das terras do pai. As árvores eram sisudas, o rio lá embaixo translucidamente enrugado pelo vento. Os meninos piscavam entre si, rindo tão desenfreadamente que Joãojerônimo ria com eles, sem saber que ele era o motivo da graça toda. E tudo tinha que ver com um pneu, ali perto, não casualmente depositado na véspera sob o comando de Josegenoíno. Bastava um sinal…
Trouxeram o pneu, um baita exemplar de um caminhão Ford. Estava coberto por limo recente e cheirava borracha queimada. Os irmãos ouviam empolgados Josegenoíno contar da brincadeira que inventara – chama-a “roda-rodopio”. Perguntou se havia alguém dos irmãos que teria coragem de entrar na roda com ele. Seguiu-se um silêncio ensaiado. Inocentemente, Joãojerônimo levantou a mão, extasiado. Todos os irmãos o aplaudiram, com malícia e galhofa (não que ele percebesse). Todos se ofereceram para ajudá-lo a se acomodar no interior do pneu. Josegenoíno, este mal continha o riso.
Em poucos instantes, as crianças empurraram o pneu ladeira abaixo. Todos viram seu irmão descendo vertiginosamente. Era algo muito gozado ouvir os gritos de Joãojerônimo, que somente agora percebia estar só no pneu. No fim da ladeira havia uma curva acentuada à direita, a qual era interrompida por uma árvore enorme. As crianças esperavam ver o pneu fazer a curva e trombar com o tronco da árvore. Seria cômico, daquelas coisas que faz a gente rir por muitos anos. Mas algo deu errado…
Ninguém combinou com o pneu que ele teria de acompanhar a curva. Como descia embalado, ele continuou em linha reta, atravessando um cercado, e indo finalmente parar em um lago. Nesta hora, os risos se tornaram gritos de desespero. Os meninos desceram desesperados a ladeira, e chegaram no lago, a ponto de ver o pneu boiando. Joãojerônimo conseguira sair e estava longe do “roda-rodopio” dos irmãos. Poderia nadar até o pneu e boiar com ele. Poderia, se soubesse nadar. Seus gritos passaram a exprimir um pânico gigantesco.
Ninguém sabia o que fazer direito. Alguns tentavam incentivar Joãojerônimo a nadar para a margem, mas seus gritos mais o faziam desesperar-se! Josegenoíno estava quase aos prantos, pensando no que aconteceria com ele quando a mãe soubesse de quem partira a ideia do “roda-rodopio”. Naquele momento, Josemaria tirou a camiseta e se lançou às águas. Com braçadas firmes de menino de sítio, logo alcançou o irmão, que, desde a entrada súbita no lago, bebera água por um mês inteiro!
Os outros irmãos conseguiram um galho seco. Estenderam-no a Joãojerônimo e seu salva-vidas quando os viram mais próximos da margem. Ao passar o susto, voltaram para casa. Ninguém dava um pio.

No zênite, Mariazeferina veio correndo, avisar Joãojerônimo que o almoço estava servido. Ele se acorara perto do pasto, achando paz na contemplação dos bovinos. “Você já soube?”, ele quis saber. “Já”. Depois de alguns instantes, Mariazeferina sentou-se ao lado do irmão, ainda encharcado. “Não liga, não. Agora, você faz parte do grupo deles. Quem me dera me jogassem no lago…”

domingo, 16 de janeiro de 2011

BONS TEMPOS!

A menina voltando para casa, atrasada e com a sensação de estar sendo seguida, basta que olhe para trás e – ah!, bem que suspeitou, lá vem ele, o tipo suspeito, ela corre, primeiro de forma disfarçada, depois sem se dar com as aparências, atravessa a rua, na tentativa de despistar o pulha, mas ele corre como um maratonista, se não fosse a adrenalina dela funcionando como um propulsor e ele a alcançara, já que ninguém na rua parece se importar com o drama urbano da adolescente até que – ufa! – a casa de uma amiga, aquela na esquina, com um jardim desmazelado e grades alaranjadas.

Bate. O pai da colega. Traja um pijama, sonolento. Que horas? Ouve a moça com atenção. O bandido à espreita. A garota trêmula. Um fusca “baratinha”. É a polícia. Ela acena. Passam. O homem entra para pegar a chave. Nisso, chega a Rota.

Num aceno da jovem, uma manobra arrepiante e o camburão para. A vítima explica o que lhe sucedera pelo caminho. O bandido se apavora e, pelos muros de uma fábrica a poucos metros, lança algo que conservara em mãos. Para seu desconforto eterno, os policiais captaram a cena.

A Rota cerca o meliante. Eles o revistam, socam, perguntam, socam, sacodem, socam, viram de ponta cabeça… em poucos instantes, a guria fica frente a frente com o perseguidor. “É esse safado que perseguia você?” Ela coça a cabeça, confusa. Afinal, como reconhecer alguém naquela pasta que um dia fora um rosto? Um roxo aqui, um hematoma ali, muito sangue coagulado e se poderia ter matéria para dois episódios do CSI!

Os rapazes da Rota, gentilmente, levam a pequena em casa, mostrando-se atenciosos pelo caminho. Chegam na casa de seus tios, ela muito assustada ainda. Os oficiais explicam aos parentes dela o ocorrido, que se aterrorizam a medida que ouvem. Depois de agradecerem o trabalho dos policiais, o senhor mulato e de boa voz, fala aos homens fardados, apontando para o documento que tem em mãos: “Olhe, eu sou militar também e queria pedir um favor para vocês – posso dar um soco nesse canalha?” Mais uma vez, a polícia demonstra sua gentileza: o rapaz é retirado do camburão, seguro e… eis que um soco cheio de vontade lhe atinge o rosto já tão sovado!

A senhora, diante de tamanha violência, se aproxima do pobre criminoso e, sem o menor aviso, cospe-lhe direto no rosto. “Depravado!”. Em clima de tantas cortesias, a Rota conduziu o prisioneiro ao carro e saiu cantando pneu. Dizem que o criminoso não apareceu mais pelas bandas; na verdade, ninguém nunca mais o viu. Bons tempos aqueles!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

É MEU, É MEU, É MEU

Estênio a chegar suado, vida de pedreiro, andando de coletivo e exposto às agruras do verão, lá vem ele, chegou, vejam só! Entra apenas para ver a Rosinha, enrolada em uma toalha gasta, recém saída do banho, com um sorriso confuso e olhos reveladores. “Oi”, ela disse encabulada e estridente. Estênio resmungou uma resposta, inteligível. Foi direto para o quarto. O lençol havia sido trocado e notara algo diferente, uma bagunça camuflada. Estênio deixou cair água no corpo, encheu o prato de feijão e carne e foi para a sala. Rosinha ficou ali com ele, fazendo um cafuné suspeito enquanto ele assistia o jornal.

Dois ou três dias transcorreram, e Estênio voltava do trabalho. Viu situação semelhante. Rosinha estava vestida desta vez, mas os cabelos ainda úmidos e o rosto corado. O calor era muito e Estênio abriu a porta da geladeira. Uma, duas, três… epa! “Rosinha, você tomou minha cerveja?”. “Ô homem, tem tanta cerveja aí… acho que você deve ter contado errado, né? Mas que diferença faz também, amor?”. Ele ficou mudo, pegou a cerveja e se assentou em frente à televisão, mal prestando atenção no jornal.

E as coisas andavam neste pé (manco). Em uma dessas semanas, Estênio voltava da obra e vinha sem fome. Sentou-se em frente à velha vitrola, que ganhara do pai. Olhou entre os LPs, buscou, sem sucesso. Levantou-se furioso, batendo a porta.

Dali a pouco, estava ele a entrar afoito na casa de Julião, o vizinho da frente. O outro falava ao telefone com Rosinha, que o apavorara. Sentiu a garganta seca, um friozinho nas mãos e ouviu os passos de Estênio se aproximando.

Parado diante de Julião, que quase ia se explicar, Estênio foi logo mandando: “Dá aí meu O inimitável”. “Você só quer isso?”. “O resto, o tempo vai apagar!”.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

SEGURA



A noite assoviava. Folhas secas decoravam seu cabelo. Chegou. Esperou. Entrou no ônibus, desânimo.

O serão na fábrica quase não teve fim. A coluna moída pelas horas em pé. Mas ela se acostumara ao trabalho duro, nas plantações do norte de Minas Gerais, de onde a família viera. Via seu rosto no reflexo da janela do coletivo. Ainda jovem, embora sua juventude não fosse motivo de orgulho ou contemplação autoindulgente.

Acordou no ponto final. Deveria voltar algumas quadras até chegar em casa. Prenúncio de amanhecer cintilando na esquina. Uma ladeira, poucos metros. Passos além dos seus. A malícia parece um vento rival, invadindo seus ouvidos, infundindo-lhe mal-estar e fazendo-a mais ligeira, precavida. A proximidade assustadora. Solta um grito seco, apavoradíssimo.

O homem em seu percalço, ainda mais ousado. Olha para trás, acompanhando a chegada do intruso. E tromba com outro homem. Uma forma inteiriça, sólido como o bronze. Antônio, o marido. Vinha para se encontrar com a mulher. Na mão, um caniço, usado para afugentar os cães.

Entendeu o medo da mulher. “Fique aqui”, falou sem rodeios.

Ela só podia sentir o peso de sua própria respiração, concisa e sob medida. Ouviu os passos rústicos do marido. E os deboches do perseguidor. Congelada no silêncio da penumbra interior, mal detinha seus pensamentos tumultuados.

Alguma coisa atrás dela quebrou-se. Um arrepio lhe percorreu. De repente, uma mão em seu ombro.

“Vamos para casa”.

A noite voou e o sol ocupou o ninho. Tomavam o desjejum sem conversa. Até que a voz de Antônio percorreu a distância. “Acho que matei aquele homem”. Não havia muito a ser dito.

O dia galopou, irrefreável. A mulher arrumava as cortinas, quando o viu na rua. O mesmo homem. Claustrofóbica, sentiu um desatino, um aperto. Vinha ele, olhando de casa em casa. Procurava quem lhe acertara o rosto. Tinha marcas profundas, sangue pisado, o nariz torto. Mas agora, ela estava segura. As marcas naquele rosto apenas faziam crescer essa sensação.

domingo, 21 de novembro de 2010

QUANDO O AMOR ACONTECE...


Estacionou, desceu e aguardou o advogado pegar a pasta. Ambos correram para a delegacia. Antes, tiveram de acotovelar repórteres. “Urubus!” Identificou-se e foi para a uma sala, no fundo do corredor. O advogado ficou na entrada, sem fazer perguntas constrangedoras. Em dois minutos ela apareceu à porta.

Os cabelos morenos escorriam pelos ombros desnudos, o corpo magro, o rosto sereno e sinistro. Uma sombra se projetava sobre o rosto baixo, aprofundando as olheiras que a envelheciam. Sentou-se relaxadamente. Ele a estudou antes de cumprimentá-la. Demorou até que ouvisse um “Oi, papai”.

Era difícil, mais para ele, que mal sabia como perguntar. Torcia as mãos, nervoso. Há muito custo, soltou um “por quê?”, tão desencontrado quanto intimidado. “Eu o amo, pai! Você não entende, não é? No fundo, é como os outros. Quer saber? Eu não dou a mínima para o que vocês pensam. Eu estou pensando em mim. Eu o amo, pode escrever.”

Ele se recusava a acreditar. O desconforto ficava nítido em suas sobrancelhas. “Jade, isso é completamente… imoral!” “Imoral? Imoral? Pai, os tempos mudaram! Nós somos animais cujo propósito é alcançar a felicidade. Palavras como “verdadeiro” ou “justo” só querem dizer alguma coisa: nossa busca pela felicidade. E ninguém pode julgar a felicidade do outro.”

O senhor de meia idade procurava aquele cinismo que leva os jovens a debocharem de seus pais – não encontrou. Jade era sincera. Falava sem desviar o olhar. Tinha convicção e conservava o tom de voz brando.

“Um dia, papai, os homossexuais foram considerados pessoas doentes, pecadores sórdidos. Demorou para que as pessoas reconhecessem seus direitos. Depois, os pedófilos passaram pelo mesmo dilema. No fundo, qual a diferença entre pederastas e homossexuais? Lembra-se da sua amiga de faculdade que foi presa por estupro? E daí que o namorado dela possuía 13 anos e ela já era uma trintona? Você mesmo me ensinou que aquilo era um absurdo e ela queria apenas ser feliz. É o que eu mais quero”, terminou Jade e começou a chorar de forma incontida.

Seu pai ficou impassível, sentado na cadeira. Mordia descontroladamente os lábios. Mil coisas lhe passavam pela mente. Sacou um maço do bolso e ascendeu o cigarro. Ficou por dois minutos fumando, diante da jovem em prantos. Não queria parecer frio, mas simplesmente não tinha palavras.

Foi quando um uivo dolorido percorreu o corredor. “Fred?!”, Jade sobressaltou-se e correu à porta. Queria seguir o uivo, mas um policial a deteve à saída, segurando-a enquanto ela se debatia e gritava. O pai a seguiu com cautela, envergonhado por aquela cena e ainda abatido. O advogado da família se acercou dele. “Irão sacrificá-lo”, falou ao pé do ouvido. Ele saiu dali, cabisbaixo, envergonhado de ter de encarar os comentários maldosos de policiais e seus olhares ao mesmo tempo sisudos e acusadores.

Ainda tomou ar antes de deixar a delegacia e enfrentar a imprensa lá fora. Suas palavras “nada a declarar” ecoavam em sua mente como um xingamento para a mãe de cada um dos bisbilhoteiros. Saiu a tempo de não ver os cartazes de manifestantes “bestialidade é crime horrendo”. Seria o amor algo acima da moralidade e capaz de criar sua própria moralidade? Foi para casa consolar-se nos braços de Tony, para não ter que pensar no assunto…

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A ÚLTIMA ESTAÇÃO



A poucas estações do fim. Alguns liam morosamente o jornal. Um garoto alienado em seu MP alguma coisa. Senhoras conversando sobre os netos. Gente voltando de diversos escritórios. Sobretudo, o cansaço de quem esperou o metrô esvaziar para voltar para casa.

Em uma parada, entram duas crianças. O mais velho não teria mais do que seis ou sete anos. Os tufos voláteis davam um contorno impreciso à sua cabeleira. Chegou numa torrente de gritos e gestos. Semelhante a ele, um outro menininho. Mais roliço, o maxilar menor e o nariz arrebitado. Com palavras inteligíveis, copiava o vozerio do irmão.

Atrás dos perturbadores, um homem, testa larga, cenho decaído. Quem o visse, diria que fosse legítimo palerma. Sentou-se numa prostração de condoer. Parecia alheio às crianças, que, desde a entrada, voavam pelo corredor do vagão sob os olhares enviesados dos passageiros.

As senhoras mudaram de tema. Cochichavam sobre a educação de hoje e frouxidão dos pais. Dois estagiários, visivelmente aborrecidos, faziam caretas. Com sarcasmo, caçoavam dos meninos, fazendo rir duas moças próximas a eles. Até parecia que os garotos inquietos serviram de mote para a paquera.

Uma funcionária pública, vestindo um terninho surrado, indignou-se. Com veemência, passou a reclamar em voz alta, imaginando que inflamaria alguém. Aquilo era o cúmulo: ela não trabalha seis horas por dia?, como, pois, teria de aguentar aquilo? Por que alguém precisava dizer àquele pai que as pessoas estavam cansadas; ele que tivesse mais pulso com as duas pestes, oras!

Aos poucos, os resmungos se materializaram em desconforto generalizado. Os meninos continuavam intensos. Crescia o descontentamento. Todos lhes dirigiam caretas e ameaças veladas – ou nem tanto disfarçadas. Foi quando senti que os olhares se voltaram para mim.

Até então, estive incógnito. Claro que estava exausto, porque cruzara a cidade pela manhã e o fazia novamente. Apenas queria estar em casa e com a esposa. Pensava, diante dos monstrinhos no metrô, em novamente adiar a paternidade. Olhei duas ou três vezes para o homem, sentindo raiva pela sua fraqueza e simpatia pela sua impotência.

Talvez fosse isso. Perceberam que eu estava ao lado dele e lhe dirigira olhares solidários. Foi suficiente para que eu fosse escalado, naquele momento, como porta-voz dos demais passageiros. Mas o que dizer? Como abordar um desconhecido e lhe censurar a falta de disciplina para com os próprios filhos? Situação incômoda.

Hesitei. O homem concentrara-se mesmo no jornal. Queria ter começado por aí. Mas as primeiras palavras não saíram exatamente como planejei…

– Parece-me que seus filhos estão agitados, né?

Um momento de silêncio. O homem parecia distante, glacial. Mas me ouvira, sim.

– Eu não os culpo. Depois de tudo o que lhes ocorreu, é melhor assim.

Tive medo de saber o resto da história. Mas ele prosseguiu:

– Ontem, fomos ao hospital visitar a mãe deles. Era a primeira visita dos meninos. E foi também a última.

Foram pesados quinze minutos que se seguiram. Logo os meninos desceram. O pai foi logo atrás, opaco. Todos esperaram as portas se fechar. Seguiram-se caçoadas, risos e tudo voltou a normalidade. Mais uma estação e seria o fim. Para a maioria de nós. Para aquele homem, e seus filhos que não tinham maturidade sequer para compreender a perda, a última estação já chegara.

domingo, 25 de julho de 2010

CORAGEM, MAGNO!


Ele percebeu quando o segurança o acompanhava com os olhos. “Morra de inveja”, chegou quase a dizer. Magno saía do estacionamento do banco, manobrando confiante. Poucos tinham um uno novo. Ele, que economizara tudo por aquele carro, agora arrancava olhares de todos.

Ao entrar na via, Magno olhou para a sua esquerda e, como o movimento estava favorável, arrancou. De súbito… ainda atordoado, sem saber o que lhe ocorrera, ele se volveu para a frente. Uma Kombi, uma maldita Kombi!

Verônica estacionava quando o Uno, saído do estacionamento do banco, pegou-a desprevenida. Ela nunca batera o automóvel. O que o marido diria?…

“Sua maluca, não enxerga, não? Tirou a carteira por telefone?” antes que Verônica conseguisse esboçar qualquer desculpa, uma enxurrada de impropérios voava do desconhecido. Em sua timidez, ela virava para os lados, reparando em quantos transeuntes paravam para ouvir o dono do Uno brigar com ela.

Desconcertada, Verônica recobrou ainda a fala. “Olha, moço, me desculpe, Já? Eu juro que não vi…” Parecia que a garota houvesse recém chegado da China para um intercâmbio. Baldados eram seus esforços, pois Magno, espumando, por pouco não lhe atacava.

Verônica começou a chorar. E não tinha quem lhe oferecesse um sudário ou pano que fosse! Magno, a princípio, conteve-se. Começou a rondar seu carro, num ritual próximo ao da “dança da chuva”. Porém, ao tocar no para-choque torto, sentiu subir-lhe nova onda de raiva.

Sentindo-se desconsolada e incompreendida, Verônica resolveu tirar o celular da bolsa. Falou rapidamente com o marido. Enquanto Magno lhe atacava com maior veemência, ela só retrucava: “Calma, moço! Meu marido já vem para acertar as coisas com o senhor”.

Dali a dez minutos, Magno só conseguia bufar. Perdera a voz. Rouco e contrariado, montou guarda no veículo amassado. Foi nesta hora que um Fusca estacionou atrás de seu carro. Desceu dele um senhor, compleição macia. Aparentava quinze anos a mais do que a moça. Ela não era nenhum espécime raro, uma modelo ou mulher-fatal, mas tinha seus encantos. O nariz arrebitado dava um ar non-sense, justamente o que faltava ao marido. Seus olhos pareciam conhecer os palmos do globo e as rotas do ponteiro infatigável do relógio.

“Oi, amor”. Veio e abraçou Verônica. Era, agora, quase como um pai consolando a menina arteira. Fê-la entrar no carro. Magno sentiu-se ignorado. E correu até o homem.

“Um momento!” Deteve-lhe o distinto marido de Verônica. Depois, encarando-o de frente, inquiriu: “Então, minha mulher bateu no seu carro novo?” Magno concordou, surpreso pela paciência do senhor. O homem tirou da valise um talão de cheque. “E quanto é esse seu carro?” Magno deu-lhe o valor. Já começava a se queixar, quando um cheque, no valor do veículo batido, pousou em sua mão. “Seu carro agora é meu, rapaz.”

Magno, visivelmente senhor de si, já se preparava para sair. “Mais uma coisa, antes que você se vá.”

Magno se aproximou. Agora, era ele quem assumia o aspecto de uma criança prestes a ouvir a reprimenda paterna. “Homem valente como o senhor é o que eu preciso lá no meu sítio. Homem que encare essa gente dos sem-terra e os vagabundos que invadem minhas propriedades. Sabe como é, não faltam destes maconheiros por aí, que passam as noites nos meus galpões.”

“Como assim? Acho que o senhor está entendo mal… Eu trabalho em uma loja, sabe?”

“Entendo, você só sabe gritar com mulher, não é?” Magno não sabia o que responder. Mas não foi preciso: o homem saiu na Kombi com a mulher e ele, arrostando o cheque, caminhou até sua casa.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

POR AMOR



Estacionou o caminhão, desceu, o corpo ainda rijo por causa das horas na autoestrada. A mulher o recebeu sem maiores demonstrações. Com uma cerveja na mão, abandonou-se aos afagos do sofá. Quase às vinte e duas, levantou-se, cochilara? Dormia agora na cama, o corpo levemente oval sobre o lençol. Três horas mais tarde, acordara com o choro. Revirou-se, resmungando qualquer coisa para a mulher. Isso ocorreu por duas vezes.

Finalmente, coçou os poucos fios da nuca e se assentou. A mulher nem o encarava. Perguntou-lhe que tinha. Percebeu somente ali que ela nem dormira. Pondo os chinelos trocados, dirigiu-se ao quarto vizinho. A menina chorava, desconsolada. Um tom assustado fremia sobre aqueles olhos da filhinha do papai. Sentou-se e quis saber se era doença ou manha. Não parecia nem um, nem outro.

“Samanta, ou você fala ou vou ser obrigado a pegar a vara.” O incentivo soía funcionar. Insistiu um pouco mais, com a mãe estacionada na porta do quarto da filha. Sem resposta imediata, caminhou até os fundos da casa. Sacou um facão e limpou alguns galhos secos da árvore do quintal. Voltou para o quarto com a tirinha de madeira.

Repetiu a ameaça. Samanta apenas chorava, com um grito contido, uma dor sem caminho para expressão. A essa altura, a mãe segurava sua mão, e suplicava ao pai com a boca tremente.

“Onório, vamos dormir, amanhã…”

O marido corpulento afastou a mulher com o braço, sem que ela lhe oferecesse maior resistência. Deu a mão à criança e levou-a até o quintal.

Bateu uma, duas, três vezes. Depois, se ajoelhou diante de Samanta e disse que queria saber a verdade.

“Papai, eu não posso contar; o senhor é muito bravo.”

Onório gelou. O que havia acontecido? Insistiu, dessa vez com uma brandura firme, deixando a vara no chão da área de serviço. A lua escorria sobre eles, permitindo que pai e filha vissem o brilho do olhar do outro.

Dona Marina inferia na sala o teor da conversa. Agitara-se, ora levantando e rodeando o tapete, ora quedando-se sobre o sofá, num aspecto de infartada. Ela própria possuía algumas suspeitas, mas nunca investigara nada. Por medo. Às vezes, a verdade é um parente que, sem convite, invade nossa casa, não age com bons modos e se recusa a sair. Por isso, feliz quem não lhe abre a porta.

Quinze minutos se passaram. Onório voltou como um tufão. Passou pelo quarto e remexeu as coisas. Marina sabia o que ele procurava. Queria impedí-lo. No entanto, a filha chegou, olhar de alívio e tristeza. Correu para a mãe como os navios tendem para os portos. Chorava baixinho, contagiando a mãe. Até que disse:

“Eu contei tudo para o papai.”

“Contou, contou o quê?”, perguntou afastando subitamente a filha de seu ombro e encarando-a com tal desespero que só lhe aumentou o desconsolo. “O que você disse ao seu pai?”

Onório vinha do quarto, expressão chocada e austera. “Estou saindo.” A mulher se levantou, arremessando a filha a um canto do sofá. “Onório, não vá fazer besteira…”. “Pois é bem isso que vou fazer.”

Ele saiu sem espaço para palavra. A mulher olhou o bolso traseiro e notou o volume. Derrotada, sentou-se no sofá com a filha. Toda a conversa lhes fugiu dos lábios. Eram somente duas almas enclausuradas em pensamentos aleatórios.

Onório dirigiu sem pausa. Parece que pressentira tudo quando estacionou o caminhão longe da garagem. Assim, pode tirar rapidamente o velho Corcel. Chegou até a casa de Chico, amigo da família. Pulou o portão e forçou a porta. Sabia em que quarto Chico estava, e mesmo assim a escuridão lhe confundiu. Seguiu pela esquerda. Abriu a porta. Viu o despertador marcando três horas. Seu vulto acordou o casal. A Vânia ligou o despertador. Diante dela e do marido, ambos sonolentos demais para estarem estarrecidos, estava Onório, arma em punho.

Ele mirou a cabeça de Chico. Gritou com violência. À medida em que os donos da casa entendiam que aquilo não se tratava de um sonho, o pânico aumentava. Onório agiu rapidamente. Arrancou Chico da cama e aplicou coronhadas e tabefes nele. Xingou o amigo e o forçou a seguí-lo. Ainda encontrou tempo para dizer para Vânia porque estava ali. Mas o fez de forma tão truncada que a mulher apenas ficou confusa, sem reação.

Chico apanhou bastante até chegar ao carro. “Safado”, “sem-vergonha”, “aproveitador” foram as expressões mais sutis que ele ouvia. Então, Onório sabia! O que dizer? Era difícil explicar. Ele dirigiu o Corcel segundo as orientações do sequestrador, que mantinha o revólver colado em sua têmpora. Muitas voltas depois, estacionaram.

Chico marejava. Tremia todo, sem esconder seu pavor. Pensava na família, na casa nova, na esposa grávida… com alguma dificuldade, olhou para o companheiro enfurecido. Havia pouco a dizer, mas resolveu encará-lo nos olhos. Com a voz amanhecida, conseguiu falar: “Onório, o que fiz foi por amor.”

Onório esqueceu-se da arma. Segurando Chico, passou a espancá-lo com brutalidade. “Seu… seu doente!” Quando terminou, o outro estava uivando, a mandíbula fraturada, e lesões assomando pela face. Sem dúvida, pelo menos uma costela fora quebrada. O revólver voltou a ser empunhado. O gatilho acionado, ao som da ladainha “por favor, não me mate, não, por favor”, Onório puxou o gatilho. Subiu no carro e voltou dirigindo.

Chegou em casa pelas cinco. As viaturas o esperavam. Alguns vizinhos desafiaram o sono para ver o porquê do movimento. Estacionou tranquilo. Ficou no carro, distante, alheio às vozes de policiais. Até erguer o braço, e ser escoltado. Em meio ao tumulto, afirmou: “Não matei o infeliz”. Algemaram-no. Antes de ir preso, voltou-se para Samanta, sem ver nela inocência ou alegria. Ele a deixava na hora de maior sofrimento. Porém, fizera aquilo por amor, repetia para si mesmo, até se dar conta de que já ouvira a frase naquela madrugada…

segunda-feira, 28 de junho de 2010

GERENCIANDO ESCOLHAS

Enfim, em companhia do segurança. Os frenquentadores, ouvindo dos limites da própria fisiologia, eram obrigados a repousar. Passava de uma da manhã. Os que teimavam em resistir a Morfeu conversavam no balcão. Bebiam em clima antecessor à ressaca. A noite arquitetava Copacabana.

Cavalcante, o gerente. Há trinta e seis anos Ourinhos, no interior de São Paulo, lhe concebera, para aos dezoito sofrer sua partida. A afeição se naturalizara carioca. E quem não conhecia o rapaz, com olhos castanhos ajeitados no cenho moreno? A barriga por pouco passava a linha da cintura, em leve posição de impedimento, daqueles que o bandeirinha tem que estar atento para marcar. Ainda assim, o talhe elegante.

Cavalcante dava duro. O lugar era bem localizado e atraía tanto moradores como quem estava de passagem. Só depois da uma ele se sentava e conversava com seu Jorge, o vigia. Esfriava o movimento.

A princesinha do mar comporta gente de toda cor e inclinação. E Cavalcante, o gerente, aprendeu a tratar bem a todos. Dona Lourdes, que não saíra de Ourinhos, morreria três vezes ao saber que as prostitutas saíam da calçada, passavam no bar e pediam para usar o banheiro. Teria uma síncope se lhe informassem que até (audácia desta gentalha!) conversam com seu filhinho. Logo, o gerente, mesmo sem dar moleza às madalenas, evita, com muita jinga, de contar à mãe sobre os frequentadores do fim do expediente.

Por sua educação, o rapaz sentia um não-estar-à-vontade. não seria grosseiro ou distante. Tentava se convencer de que certa política de boa vizinhança integrava seu trabalho.

Principiava a noite, a casa enchendo-se. Um homem com camisa polo, estatura mediana e pele indígena entrou sucintamente, numa discrição notória pela não notoriedade. Pedia um chope, enquanto puxava assunto, em algo similar ao Português:

“És o gerente?” Almodóvar possuía voz grave, útil no seu encargo de representante comercial. A empresa alimentícia que o empregara crescera graças ao Mercosul. Agora, Almodóvar conhecia o Brasil, em passagem durante um simpósio. Ele e Cavalcante falaram por alguns minutos.

“E por que você gosta do Rio?, aliás, você já conhece bem aqui?”

“Oh, sim. Eu conosco a Ilha do Governador, a Barra da Tijuca, Ipanema, Neblon… Es isto.”

“E as mulheres daqui, gosta delas?”

“Ah, son bellas as muchachas.”

No dia seguinte, Almodóvar trouxe um pedido:

“Cavalcante, você conhece las muchachas daqui?”

“Algumas passam aqui depois do expediente. A gente conversa, sabe até o nome, é, de algumas, as que são mais frequentes…”

“Entoces, me consiga o telefone de uma, mas tem que ser hermosa!”

Cavalcante disse, ofendido, que era casado (frisou este ponto mostrando a aliança, da mesma grossura da do boliviano, pela marca que estava em seu anelar esquerdo), pai de família e coisas do gênero. Mas, como o cliente tem sempre razão… Acabou por pegar o número de celular do boliviano em um guardanapo.

Fim de noite. Ele se aproxima da moça loira, recém rechegada, com decotes exagerados e perfume barato.

“Quero falar com você.”

“Comigo?”, provoca a moça, que não deve passar dos vinte e dois anos.
“Não é nada do que você está pensando! É, mas não comigo, quer dizer, com outra pessoa; era isso, se você pensou que eu…” Cavalcante suava frio. Estava no papel que jamais desejou representar. Nem olhava a moça nos olhos, o constrangido! Conseguiu, a muito custo, dizer-lhe tudo.

“Disse a ele em torno de US$ 150,00.”

“Você disse? Mandou bem…”

Foi para casa cúmplice. Estacionou cerimoniosamente. Entrou e nem quis assistir a reprise do Fla-Flu. Trocou-se e deslizou pelo colchão. Não demorou para que surgisse na grande tela de cinema a mão da Muchacha receber da sua um guardanapo com um número de celular. Faces cheias de neón riam, ao redor, enquanto ele servia um drinque duplo a homens acompanhados por meretrizes. Acordou. Que fizera?

Por duas noites, seguiu a rotina reticente, tentando entrar nas rodas de conversa para se esquecer de que haviam profissões e pessoas não-ortodoxas. Tentava naqueles momentos revestir a cidade de Copacabana de uma aura purificadora, olvidando a existência dos pecados a que se acostumara. Tudo era oniricamente litúrgico, monástico como nos colégios onde as freiras lhe ensinavam Matemática e Pecados Capitais.

Ao fim do terceiro dia, uma figura andina surgiu do horizonte para lhe arrancar o coração, como num ritual ao deus Quetzacoatl.

“Amigo, que bom ver usted!”

Estático, Cavalcante recebia o abraço olhando em derredor, como quem procura agentes da PF à paisana.

“Bela muchacha! Maravilhosa! Sirva uma rodada para nuestros amigos no balcon. Sirva, é por minha conta.”

Ninguém deu muita importância, ou esperou nova chamada: bebia-se, sem questionar o que ocorrera ao gringo. Não que isso os interessasse, naturalmente. Tão só Cavalcante permanecia na perturbação de um criminoso descoberto, um parêntese de descompostura em meio à bebedeira carnavalesca.

Naquela mesma noite, a loira também se aproximou de Cavalcante, entusiasmada.

Rispidamente, ele a repeliu; que não o abraçasse, ele era o gerente e a casa merecia respeito (a última parte saiu com entonação vacilante).

“Desculpe, desculpe… Passei para agradecer. Lembra do cara, o boliviano? A gente saiu…”

“Tá, tá, não precisa me contar os detalhes, não.”

Logo, ela acenou e voltou para a rua, chamando Cavalcante de “meu gerente”. Aquilo o derrotou. Olhou-se no espelho. Notou insinuar-se no rosto um bigode. Seu aspecto decomposto, o suor vergando pelas têmporas, o calor empapando a pele… sentia-se ordinário, um cafajeste.

A esposa o encontrou pela manhã na pia, com os lábios ensanguentados, pois pela terceira vez passava a gilete pelo bulço.

quarta-feira, 31 de março de 2010

RECOMEÇANDO O GUARDA-ROUPA

O colorido esverdiado do bolor subindo pelas paredes brilhava à luz que vinha da cortina recém-aberta – suspirou. Quanto tempo não frequentara ali? Oscar contou as horas no celular. Decidiu agir rapidamente. Abriu a porta do guarda-roupa. Tirou o primeiro cabide.

Pendurado nele, um vestido verde. Servia como recordação, ela não usara há décadas. O tecido luminoso, como a manhã em que se conheceram na empresa. Coçava o bigode ralo e se lembrava do sorriso da menina, que passaria o almoço reclamando da falta de molho no macarrão.

Logo mais, estava um blaser e uma saia, de tonalidade azul-escuro. Ah, quantas saudades evocavam! De mãos dadas, entrando juntos no cartório. As palavras do juiz-de-paz soavam distantes, num tom monocórdio e formal, que pouco condizia com alegria e os temores da decisão que pensaram.

Oscar senta-se na cama, de lençois gastos e embolorados. Aonde estaria o quadro?… bem, veria isso depois. Tinha de terminar com o serviço.

Removeu mais um cabide, com roupas comuns, de momentos variados. Foi quando, bem ali, o amarelo desbotado do macacão lhe fisgou, resgatando o passado. Lembrou-se de que ela o vestia ao sair da maternidade, com Júlia nos braços. Vieram em um Fiat 147,surrado e barulhento. Mas muito felizes!

Quantas outras peças haveria? Suas mãos percorriam vestidos de festa, calças jeans escuras, taileurs, vestidos com pregas e suéteres desbotados. Por fim…

A última veste. A camisola larga e amassada. Estava cheia de pó e alguns respingos. O sangue seco resistira ali, por todos estes anos. Oscar tomou a camisola nos braços como a bandeira do país ou como um símbolo sagrado. Por um instante, não soube o que fazer. Apenas chorou. Recompôs-se e terminou de colocar aquelas coisas na mala. Pronto. O guarda-roupa vazio. Poderia, enfim, encaixar a vida na rotina.

segunda-feira, 8 de março de 2010

A PRIMEIRA VEZ DE DALVA

A menina de quase dezesseis anos saíra do chuveiro com uma dúvida. Andava de roupão pelo quarto, procurando de cabide em cabide algo que a deixasse à vontade, mas que não parecesse muito vulgar. Seria uma noite e tanto! Quando finalmente se decidiu por uma calça não muito justa acompanhada pelo seu suéter preto, borrifou o melhor perfume pelo pescoço e pulsos. Logo, Mailcon viria.

“Dalva, telefone”. Ouviu a mãe chamar-lhe. Sobressaltou-se: ninguém poderia saber de nada. Seus pais não entenderiam. Ela já estava grande e tinha que andar com suas pernas. “Alô?”. Ufa!, era a Juli, da mesma sala em que estudava. A outra adolescente queria saber se Dalva topara o convite de Mailcon. Ela balançou afirmativamente a cabeça antes de falar, esquecendo-se de que a amiga não podia vê-la. Confessou que estava nervosa, e não era para menos: seria sua primeira vez.

As duas conversaram por uns dez minutos e Juli lhe desejou que aproveitasse muito bem aquela noite. Estaria rezando por ela. Dalva subiu os degraus antes que a mãe viesse perguntar por que sussurrara no telefone. Passou a chapinha nos cabelos, pôs uma maquilagem discreta e se olhou no espelho. “Acho que estou bonita”, confessou em voz audível.

Dali a uns poucos minutos, um monza de cor metálica parou na porta da casa. Dalva olhou pela janela e foi ligeira abrir a porta. Já dissera à mãe que sairia com o pessoal da escola. Não era exatamente uma mentira, já que Mailcon, um homem charmoso, de uns quarenta anos, trabalhava na biblioteca da instituição. Os dois se conheceram ali, e se falaram muitas vezes. Naquela noite, ele comprimentou Dalva, que se mostrava visivelmente nervosa.

Como estava cedo, pararam em uma lanchonete.
“Você quer mesmo ir?”, perguntou Mailcon, após uns cinco minutos, com sua voz de barítono.

“Bem, eu sempre tive curiosidade… Acho que vou gostar.”

“Farei tudo para que você se sinta tranquila; o ambiente é muito apropriado para a gente estar em paz.”

Falaram de outras coisas, até que Mailcon, olhando o relógio percebeu que já era a hora.

Pelo caminho, Dalva realmente se empolgara, pensando em como seria aquela noite. Na última semana, até sonhara com isso. Não queria esperar até o casamento para entrar lá. Tinha que aproveitar a oportunidade.

Chegaram. Dalva observou as letras luminosas do letreiro. Sentiu um calafrio. Quase retrocedeu; mas, depois do convite de Mailcon, e com toda aquela “produção”, não poderia desistir.

Foram chegando, passando pela entrada, mudos, estudando o momento. Até que uma senhora, de terno bege se aproximou de Dalva e, sorridente, lhe estendeu a mão: “Bem-vinda à nossa igreja!”

domingo, 28 de fevereiro de 2010

TOCANDO EM FRENTE

Sabe quando as pessoas têm vergonha de olhar para você? Sabe quando todos lhe devem em silêncio, e ficam com medo de reviver seus erros a cada vez que seus olhares encontram com o seu? As pessoas têm vergonha de olhar Dolores. Hoje é domingo e a vergonha do católico cresce ainda mais.

Esse domingo boceja luz. Dolores saiu vagarosamente pelo portão de ferro. Ligou o ipod. Maria Betânia lhe aconselhava a conhecer as manhas e as manhãs. Dona Lourde fitava de longe a menina em sua peregrinação à padaria.

Era 7:30 e o pãozinho cheirava a pronto. Seu Dimas, com toda a vergonha do mundo por vê-la, e ela sorrindo, num bom dia sem reservas. Ela esperava o troco, quando ele quis se desculpar; algo na atitude dela lhe dizia que não precisava, que ele fez o melhor para consolar o amigo, sem prever que o convite para uma cervejinha se tornaria causa de um acidente tão cruel. Dimas sorri, sem graça, e acompanha a moça, que sai com dificuldade. O que ele poderia dizer mais?

O caminhão de Jorge está encostado na garagem. O senhor de cabelos grisalhos e ombros rotundos estuda deixar a preguiça e jogar uma água na Scania. Quando ele se voltou para a rua, Dolores passava por ali. Jorge baixou os olhos, mas já era tarde. Não poderia fingir distração ou agredí-la com seu descaso. Olhou timidamente e balançou a cabeça, querendo parecer seguro.

Dolores estava graciosa e serena. Via-se uma alegria no seu cumprimento, sem que ela ousasse falar algo. Já passaram por isso antes, bem na época em que a família fez pressão para que Jorge se tratasse nos Alcoólicos Anônimos antes de voltar à estrada.
“Bom dia, Dona Lourdes”. Com essa sim Dolores falava sem prejuízo. “Oi, meu anjo. Como você está?” “Tocando em frente, sempre tocando em frente…” Lourdes não conseguia sequer sentir pena, tão digna a menina se portava.

“Sabe, você é especial, garota”, reencetava a dona-de-casa, com a voz que pigarreava para anunciar suas quase oito décadas de vida. “Não sei como consegue, verdade. Já tentei entender. Como olha para estas pessoas? Quer dizer, você não deixou de ir à padaria e sempre passa na frente da casa do bebum. Qualquer outro teria ódio, cuspiria neles, xingaria, sei lá. Mas você, você não faz nada disso. Até os cumprimenta, valha-me-Deus!”

Dolores sorriu, purinha e sem contrariedade. “E por que eu deveria odiá-los?”
“Ora, porque é natural. Eles fizeram isto com você; tinham que pagar sofrer. Não é justo que vivam normalmente.”

“Sabe, Dona Lourdes, se eu fechar a cara para eles, não muda nada. E, pelo que vejo, eles já sofrem o sufiente. Aliás, suspeito que eu seja a única dos três que pode dizer que possui uma vida normal.”

“Eu não compreendo…”

“Bem, preciso ir. Meu pai gosto do pão quente. Até outro dia.”
Dona Lourdes olhava estarrecida para Dolores, enquanto ela empurrava sua cadeira de rodas, sempre tocando em frente.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

POR TRÁS DA CARTA



Charlote voltava da academia com alguma frustração no olhar esverdeado. Seus lábios tremiam. “Não vou chorar na rua”, prometia-se enquanto caminhava. Passou em frente a uma loja e viu sua imagem na vidraça. Olhou-se de alto abaixo, tentando imaginar como um homem a veria. Já não era mais aquela estudante universitária, com sardas no rosto e cintura “de pilão”. Ajeitou os longos cachos do cabelo tingido de loiro. Pôs a mão na cintura e ficou concentrada. “Que papel ridículo. Por que estou parada aqui?” resolveu-se ir para o ponto de ônibus. “Justo hoje o motor pifou! Que me falta acontecer?”
Duas chamadas não atendidas. Não retornaria agora. Em dez minutos, estava pagando o cobrador e tomando assento ao lado de uma janela. Ainda seus lábios tremiam, os olhos cheios de lágrimas. Tirou, então, a carta amassada da bolsa. Leu-a duas, três vezes. Havia quase decorado suas palavras, lido suas denúncias. Será que teria coragem de ir a fundo naquela história?
Desceu num cruzamento, pondo-se a caminhar no mesmo ritmo frenético de antes – a raiva queimara em seus pés e seus rastros tornavam-se chispas esvoaçantes. Olhou da esquina o consultório de advocacia, com seu ar high tec e o movimento costumeiro. Fez esforço para enxergar além de suas paredes, observar quem estaria lá dentro, o que estariam fazendo. Queria poder ter certeza, mas, não tendo, seguiu em outra direção.
Passou pela portaria e cumprimentou um casal de idosos, que voltavam de sua caminhada vespertina. O sro E a sra Kirsche. Pareciam doces e amáveis, sempre unidos, de mãos dadas, como namorados eternos. Chegou mesmo a invejá-los, como nunca antes. Por que eles eram tão felizes e esperançosos?
Subiu para seu andar ainda pensando no casal de idosos. Parecia que a velha Kirsche lhe sorrira de modo estranho, quase irônico. Ela saberia? Girou a chave e pronto! Estava em casa. Despencou no sofá e pôde, enfim, chorar.
Como que saída de um sonho, Charlote levantou-se de súbito, com seu rosto inchado e seu corpo amolecido. Conseguira amassar sua camiseta e parecia ainda mais feia! Leria a carta uma última vez? Abriu a bolsa e hesitou… mas aquilo lhe consumia, como um entorpecente, criando uma necessidade doentia, que a deixava fora de si, como uma louca, completamente desnorteada e embriagada. Ela precisava beber as amargas palavras relatadas. Seu marido pensaria serem fatos concretos, mera boataria ou maldade de alguém? Como investigar e apurar tudo?
Rodrigo logo voltaria do escritório e brigaria com ela. Aliás, ele não suportaria novamente ser submetido a tantas perguntas. Queria esquecer aquele assunto, e até tentara rasgar a carta (Seu espírito pragmático ignorou a missiva, indispondo-se a dar crédito ao que de depreciativo houvesse sobre a esposa). Isso é que não, resistia Charlote. Estavam no olho do pior furacão que atravessaram em seus quinze anos de casados. Sorte que não puderam ter filhos!
Antes do poente, Rodrigo entrava, depositando seu paletó desajeitadamente na mesa de jantar, enquanto exibia o corpo atlético, o que sempre levava Charlote à amargurada constatação de que os anos para as mulheres costumam ser mais ingratos. Ela fingiu saudades e boa disposição. Ele, conforme seu ritual em fim de expediente, estourou pipoca e sentou-se em frente ao televisor para assistir o futebol internacional. A esposa não ousaria interromper a dedicação do advogado, que, pela frieza demonstrada em quase tudo, mal parecia o mesmo. Rodrigo pulava e vibrava, a cada drible e cruzamento; as defesas eram saudadas por ele com espasmos e gritos frenéticos. Sabia o nome de cada jogador como se fora um cliente antigo. Era realmente difícil não se contagiar pelo entusiasmo daquele torcedor.

Charlote deixou a sala entre frustrada e apreensiva. Na solidão de seu quarto, pegou a carta mais outra vez. E pensou em voz alta: “Da próxima vez que a Carla escrever, vou pedir a ela que invente nome e endereço para o meu amante!”

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

PRAZO VENCIDO

A cada semana, temos publicado uma história Acompanhe hoje o relato de Carlos.

A noite desnudava seus milhões de sorrisos, invariáveis sobre a escuridão. Apenas um apartamento no bloco tem luz. Não que se esquecesse de apagá-la. Carlos Z precisa dela, desesperadamente. Debruçado, ele aproveita a luminária para conferir a arte-final. Não, o braço não está parecendo humano, mas apresenta o aspecto de uma massa disforme, como um macarrão que cozinhou demais. Com a curva-francesa em mãos, define melhor e – pronto, temos um braço! Suas mãos suam, espreme os olhos, que negócio cansativo, minucioso ao extremo até, embora faça parte de um processo necessário, principalmente tendo em vista o resultado final e o prazo.

Com o outro estúdio teve problemas. A bem da verdade, ele ainda atuava como um amador, estava “verde” demais. Queriam algumas sequências para uma animação em molde tradicional. Ele e o Manda-Brasa pegaram o trabalho com prazo apertado. E não deram conta. Quando quiseram negociar uma nova data de entrega, o estúdio já contratara outros free-lances.

Desde aquela época, restara ilustrar livros infantis: dragões, elfos, animais e escolas… Faltava algo grande.

A luz da luminária dava indícios de que queimaria em breve. Procurou na escrivaninha da sala a lâmpada reserva. Hum… onde estaria? O carpete não está limpo, dá para sentir o pó subindo, o que não chega a combinar com sua rinite. Ei, o que é isto?

Um álbum? Deu uma olhada superficial. Abriu, finalmente. Fotos dos amigos. De quando eram? Via e lutava para se recordar. Na verdade, as fotografias vinham de várias épocas e lugares, formando um mosaico de fases e afetos, de vivências e convivências. Campings, feriados passados na casa dos tios, em Mogi Mirim, aquela ida ao parque de diversão com os amigos, passeios de formatura na escola, e tantos outros acontecimentos. Parou alguns minutos, disperso. Algumas fotos estavam distantes, sem foco ou escuras demais. Outras estavam em boa condição. Se soubessem, não teria gasto tanto tempo buscando referências para seu trabalho em revistas. Alguma coisa poderia aproveitar dos próprios álbuns pessoais. Gastou um tempo olhando outros na mesma estante. Quando olharia o terceiro, acabou se deparando com a lâmpada que fora procurar há vinte minutos.

Voltou para o estúdio improvisado. À esquerda da porta, um quadro solitário lhe chamou a atenção. Lia-o sempre, ao entrar ali, e parecia se encher de motivação. Ele mesmo o desenhara: constituía-se de uma mão segurando um pincel, enquanto desenhava sobre a prancheta. Abaixo, a frase: “cada um deve ocupar-se na cidade de uma única tarefa, aquela para a qual é mais bem dotado por natureza". Trocou a lâmpada queimada e voltou à labuta. Eram três horas.

Terminou a menos de uma hora para a alvorada. O sable da noite se banhava de tons pastéis e de um grená discreto. Adormeceu ouvindo Josh Groban cantando Vincent.

O relógio despertou-o às nove e meia. Um zumbido lhe incomodava o ouvido e a respiração era dificultosa. Tomou banho enquanto pensava em tirar um tempo para aspirar o pó do carpete. Saiu com uma torrada dormida na boca;a matisgação se revezava com os instantes que assobiava Aquarela, de Toquinho.

Sentia-se estranho. Usava uma camiseta branca, na qual uma Monalisa multicolorida se estampava, quase de todo encoberta pela jaqueta de couro. Usava uma calça de couro, que a Pamela lhe dera. Por onde ela estaria agora? Ficou pensando nas fotos com a moça, vistas no segundo álbum; seu rosto redondo coberto pelos cabelos desfiados, de um preto bem brilhoso. Não conseguia se lembrar desde quando cultivava pela garota aquele tipo espontâneo de afeição. Provavelmente, passou a sentir isso quando a conhecera. Meditava nas recordações associadas com Pamela, se esqueceu do acanhamento inicial, causado por seu figurino inadequado a um dia de sol.

Depois de sair do metrô, Carlos Z andou três quarteirões até chegar ao estúdio. Ao passar pela imponente porta de vidro na entrada, o ar condicionado refrescou-o. O lugar estava abarrotado de gente. Mesmo assim, não precisou ficar por muito tempo sentado no banco de espera até que o recebessem.

O diretor artístico, Seu Paiva, apareceu sorridente, dando-lhe um abraço. Seu Paiva tinha um currículo invejável como desenhista de pôsteres e capas de revistas. “Tudo certo com o material, né?”, iniciou o diretor, com sua voz roufenha. “Claro, claro. Terminei as últimas cenas durante esta madrugada. Só um momentinho…” Carlos abriu uma imensa pasta de plástico, contendo diversas folhas de papel vergê, exibindo o history-board de um filme. Era o próximo lançamento de um grande estúdio hollywoodiano. A história se passaria em São Paulo. Depois de acertarem as locações com as autoridades da cidade, os produtores pensaram em convidar um artista brasileiro para desenhar history-board. Dali a um mês começariam as filmagens.

Seu Paiva tirou os óculos do bolso e examinou as páginas em silêncio. Não era um homem muito expansivo. Porém, os músculos de sua face pareciam indicar aprovação. Foi bem sucinto: “Perfeito!” Deixou o trabalho sobre a mesa e conduziu o artista até o setor financeiro. Carlos saiu dali feliz pela recompensa da noite insone. Teria que retornar ao metrô e voltar para seu apartamento. Poderia até escolher um daqueles restaurantes do centro e almoçar bem, para fugir da rotina de penúria. A ideia perambulou pela cabeça dele, até que se decidiu por uma visita a uma lanchonete nas cercanias, o que era, infinitamente, mais econômico.

Entrou em certo estabelecimento, localizado em uma esquina movimentada. As mesas eram brancas e laranjas e a decoração tinha imagens de super-herois. Até mesmo os nomes de lanches e bebidas remontavam às histórias em quadrinhos. Carlos gastou um tempo maravilhado, parecia voltar aos cinco anos, contemplando atentamente a riqueza dos detalhes dos personagens. Reconhecia o estilo dos desenhos, muitos decalcados do trabalho de artistas de renome. Quando a garçonete apareceu, pediu um duende verde para beber e um Mutano sem cebola, acompanhado por batatas fritas. Seus olhos estavam vermelhos e tinha uma leve tontura. A noite mal dormida parecia tê-lo debilitado. Quando trabalhava desenhando um fanzine com Manda-Brasa e André J, ficara muitas vezes acordado por madrugadas a fio, sem dormir antes de concluir as páginas da história. Tinha vontade de ligar para o Manda-Braza, um amigo com quem aprendera tanto! Mas perderam o contato há uns dois anos, e diziam que ele estava na França, publicando suas histórias em uma conceituada revista. Na França – quem diria! O velho parceiro comendo escargot e curtindo a sombra da Torre Eiffel! Como a trajetória das pessoas ganha contornos inesperados, parecendo fugir daquilo que elas estavam destinadas a ser – isto é, se de fato existe um destino.

As considerações ainda lhe perseguiam, ao adentrar novamente no Metrô. Sentou-se à esquerda, na frente de uma senhora elegantemente uniformizada. Tomou um bloco de desenho e passou a rabiscar. Adquirira o costume de fazer croquis dos passageiros a partir de quando lera que o desenhista Katsuhiro Otomo tinha esse costume. Ficava intrigado com todas aquelas pessoas. As secretárias, de mangas puídas e sapados besuntados. Os estudantes, que viajavam o tempo todo com fones de ouvidos. Os aposentados, com aquele ar distraído, a ler um jornal, conversar ou simplesmente contemplar o trajeto pela janela. Quantas pessoas se encontravam ali todos os dias, sem travarem qualquer conhecimento com quem se assentava no banco ao lado. Como diferiam em assuntos como política, religião, futebol, tendência sexual, jeito de se vestir, e em tantas outras áreas. Para onde iriam elas agora? Que fariam daqui a trinta minutos? Viveriam até o final do mês? Como às vezes sentia vontade de pesquisar a vida de algumas pessoas! Aquela senhora ali na frente: porque uma mulher já de cãs esbranquiçadas haveria tatuado um dragão no ombro? Quem seria ela: uma roqueira convertida a alguma igreja evangélica? Uma professora radical? Ou ainda, uma dessas pessoas excêntricas, que sai por aí viajando, atrás de experiências inusitadas? Quantas possibilidades surgiram por causa de um detalhe curioso – mas o que dizer das centenas de pessoas que estavam ali, no mesmo transporte? Seria impossível encontrar um professor universitário, um vendedor bem-sucedido, uma escritora de suspenses, um filósofo ou uma jogadora inveterada?

Carlos sentia-se oprimido quando tais curiosidades lhe sobrevinham, porque não podia responder nada daquilo. Mas tinha a impressão de que a vida não diferia muito de um grande roteiro, escrito sabe-se lá se por Deus ou pelo próprio homem, ou até mesmo pelos dois, por que não? Um roteiro com orçamento curto, pouco tempo de filmagem e com muitos atores. Essa concepção suscitava outro pensamento: para que viver? Apenas em nome de um espetáculo, ou por alguma causa mais nobre, como ajudar as crianças pobres da Índia ou os desabrigados na Ásia?

Coçou os olhos. Cochilava entre as dúvidas. Olhou com cautela para o cheque, dobrado e posto na carteira. Estava ali, sorrido para ele. Talvez a vida lhe acenasse, ou poderia ser esta mais uma oportunidade frustrada. Como saber? Era mais fácil traçar alguma coisa com lápis do que esboçar o próprio futuro. Estava quase chegando sua estação. Pegou o celular e discou. Atende, atende. Finalmente, estava falando com Pamela!