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quinta-feira, 1 de junho de 2017

AS VEZES


DES FOIS
Encontro em Jesus sempre uma expressão de afeto
Não limitada ao meu momento mais tranqüilo,
Quando a fé dobra a dúvida; há, quando vacilo,
A mesma aceitação como quando sou reto.
Meu Deus cumpriu na cruz o primordial decreto
De estender a mão para o pária. O amparo, o asilo
Recende a vaporoso hortelã. Descobri-lo
É ter presente no redil líder concreto.
Minha entrega de amor, morte temida do erro,
É flor de submissão deixando o chão do enterro,
É grão que morre para aparecer o trigo.
As vezes em que por avidez de glória ouço
Desbotado argumento e volto ao calabouço,
Nem por isto Jesus recolhe a mão de amigo.
1ª São José do Rio Preto (SP), 18 de Julho de 2002, às 10:35h.
2ª Guarulhos, 22 de Outubro de 2004, às 24:40h.

Últimas alterações: Guarulhos, 3 de Novembro de 2004.     

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sexta-feira, 5 de maio de 2017

O OLHAR DO CÉU


Sendo a insolência de um rei abusiva,
Um Deus Insone aciona o seu profeta:
Parte o homem de Ramá. Nas mãos, a meta
De tocar o hálito que o Céu motiva.
A compleição de Eliabe, orvalho em gotas!
Deus quer o odor de ovelhas junto às mãos,
E há perfumes demais nos sete irmãos
– Qual filho de Jessé traz vestes rotas?
Em criança, ouvira Deus sem discernir;
Falta-lhe outra vez discernimento.
Samuel vê reis à mesa. Deus, Atento,
Não tem entre eles a quem possa ungir.

Do campo um salmo se ouve: e bem ali
Deus pousa o olhar e a alma – Ele quer Davi.

São Paulo, 30 de Setembro de 2005, às 11:10h.

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terça-feira, 17 de janeiro de 2017

ITINERÁRIO DOS JUSTOS



O homem honesto, distante dos pais e longe do país, se aparta dos deuses falsos
  E até no palácio, cercado por luxo acima do comum, mantém o caráter reto.
    Deus segue com ele – não foge de seu propósito de servir, ainda que os céus se abalem.
  Assim, terá honras e os reis lhe farão sentar-se e governar, ao ver nele um homem justo;
Assim, exilado, por sonhos verá as coisas que virão, e o Deus Vivo mais dará.


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domingo, 9 de outubro de 2016

RESTAURADO



Rompe-se a paz do lar: o homem sem roupas no Éden
Sente a rispidez do ar, que lhe raspa as entranhas.
Rapidamente, os dois olhos de Eva lhe pedem
Para repor a paz nestas horas estranhas.

Tudo quanto se fora, ao fim nos será dado
– O Éden há de voltar! Gramas grassando agora
Mais verde vão por todo o jardim restaurado,
Onde a beleza cobre cada grão que aflora.

Perante o esplendor vivo em cada planta e ser,
Há outra luz que flui do trono altaneiro:
Ali, mesmo anjos, com estatura e poder,
Dão glória, glória, glória ao Senhor e ao Cordeiro.

E a glória de Deus é doar-Se à criatura,
Com materno olhar, um olhar que, ao amar, reluz;
Para espanto do cosmo, o amor em forma pura
Demonstrou seu extremo ao assumir a cruz.

Por isso, os vinte e quatro anciãos dão louvor:
Tudo novo se fez! Adeus à nódoa rubra.
Em estatura e graça, homens crescem no amor
E veem no mundo mais para que se descubra.

Enfim, a paz! Enfim, a perene certeza
Da harmonia entre Deus e o homem. Enfim, a vida
Como se planejou em seu princípio. À mesa,
Deus Se assenta ao redor da família reunida.


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En

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

BÊNÇÃO OUVIDA


Seu coração domou medos, em ritmo
De início apaixonante, som de vida
Em preparação, força desprendida,
Equação não expressa em algoritmo.
Seu coração lhe ultrapassa em dimensão
E agrilhoa meus olhos nessa espera;
Coração que se faz própria atmosfera
– Se respiro, respiro coração.
Os dias. O futuro, névoa ainda,
Como todo croqui, nasce mistério,
Até o traço ter contorno sério,
Sendo possível ver: que forma linda!

Seu coração – presente do Deus Santo,
Para quem suplicou por isso tanto!

segunda-feira, 27 de julho de 2015

MÁSCARA E SUB-MÁSCARA


Reconhecido como um dos melhores poetas contemporâneos em Língua Portuguesa, Fernando Pessoa demorou a se adaptar ao idioma materno, devido ao tempo passado na Inglaterra durante os anos de formação. Os primeiros versos de Pessoa foram ainda escritos em inglês. Aqui apresento uma tradução de um dos sonetos escritos pelo luso, o de número 8, bastante conhecido. Aparece em versos decassílabos e mesmo esquema de rimas.

How many masks wear we, and undermasks,
Upon our countenance of soul, and when,
If for self-sport the soul itself unmasks,
Knows it the last mask off and the face plain?
The true mask feels no inside to the mask
But looks out of the mask by co-masked eyes.
Whatever consciousness begins the task
The task's accepted use to sleepness ties.
Like a child frighted by its mirrored faces,
Our souls, that children are, being thought-losing,
Foist otherness upon their seen grimaces
And get a whole world on their forgot causing;

And, when a thought would unmask our soul's masking,
Itself goes not unmasked to the unmasking.

(trad. Douglas Reis)

Quanta máscara e sub-máscara para
Sobre o nosso semblante da alma, e quando
Por jogo a alma a si mesma desmascara,
Reconhece o disfarce e o rosto brando?
Nada a máscara real sob outra sente,
Mas vê por meio de olhos mascarados.
Assim que a consciência à obra se apresente,
A obra aceita traz sonos encadeados.
Qual teme a criança as faces espelhadas,
Nossa alma, que é criança e ideia ida,
Põe diferença em caretas observadas,
Pondo ao mundo todo em causa perdida.

Se vem a ideia máscaras tirar
Não sem máscaras vem desmascarar.

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quinta-feira, 16 de julho de 2015

ORNITORRINCOS E PAPAGAIOS



Ávido de obter quietude
Nesta Babilônia de afetos
Tão inoportunos. Corrompo
Pés sofisticados na lama
– Minha condição impensada.

Ranjo os dentes. Eu, torturado,
Vulto ciclotímico nas ruas,
Parte do mosaico de ferro;
Nada se parece com o antes
– Minha infância sob o concreto
Perde o colorido. O que resta?

Uma sensação histriônica,
Digna de maníacos, surge
Quando me deparo com prazos.
Sempre a trajetória das horas,
Vindo ineludível contra a alma.

Penso. Consternado. Penso alto.
Penso em espiral. Logo esqueço.

Ouço ornitorrincos em pânico,
Todos afogados. E eu vendo
Ônibus atrás de dezenas
De outros. Irritado, desabo.
Quando anoitecer, dormirei
Perto da lareira, na praia
Ou na cordilheira dos Andes.

Tenho a sensação de que estou
Dentro do viveiro, cercado
Pelos papagaios do asfalto.

Com coloração destacada,
Quais tagarelices imitam?
Sem ineditismo aparente,
Fazem narrações repisadas,
Vasto vozerio de cópias.

Há infiltração nos pulmões
– Pobre ornitorrinco esquecido
Longe do cortejo de sósias
Presas à aparência vivaz.

Acho que domingo retorno
Para me esquecer de mil caos.
Para me irritar em parcelas
Menos repetidas de tempo,
Ávido de obter quietude
– Quando anoitecer, dormirei.

Mas se demorar a dormir,
Posso ornitorrincos contar
(Contem os demais seus carneiros!).


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Passos noturnos
Um ato de risco
Delido

domingo, 1 de março de 2015

PASSOS NOTURNOS



I.
Bota apertada. Pego a blusa que pusera
No sofá marrom –  mais pareciam unidos
Como um corpo sem viço. Avanço e eis os ruídos.
O hálito aquece as mãos. Valsa a chuva severa.

Silva o tempo e o atravesso avulso.  Persevera
 Uma vontade em tons ocres. Os destemidos
Não me olham como igual. Os dedos do fé feridos.
Sou um servo: Deus minera a alma em áspera espera.

A madrugada draga o esforço. Enquanto fito, 
Ardem as vistas e então se perdem. Mas Alguém
Ordena as nuvens e abre as portas do Infinito.
                                      
Pesa o calçado ou pesa a vontade egoísta?
A árvore cinza prova a inconstância do bem,

Em um mundo em que o belo é um item na lista.

II.
Coisas distintas são chegar e chegar perto.
Em desarme anormal; sem ar me arrisco: arisco!
Há momento em que quero o pé livre,  o que é risco!
Ao redor, pedras tão pardas, destino incerto.

Mas Alguém preparou a mesa no deserto
Para que eu não perdesse o tempo com petisco.
No chão há folhas como hulhas – temo e não pisco.
Não consigo correr! O rumo não acerto.

Falo e escapa fumaça.  Engrossa-me a garganta
Por retroceder, sou como um corpo sem viço.
Tudo escuro na rua. O vendo espanta.

Persevera a vontade acima, que me guia:
Se o amanhã não vem, vou. Reaprendo a andar submisso,
Pois ao chegar será totalmente belo o dia. 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

"ONDE O SOL NÃO CABE": POEMA VISUAL


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quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

50 APENAS



Quando soube de ti, subiu o chão
Para perto do Céu. Súbito e doce
Foi dizer que virias, ainda fosse
Demorar para ver nosso grão.

E havia tanto amor à tua espera!
Dois pares de olhos com aquela pressa
De quem ama e na ação amor expressa…
O que mais belo foi, já não mais o era,

Que o belo em ti brilhou na luz de um sonho:
Eras maior do que outra bênção do ano
Ou da vida. Foi quando o nosso plano,
Não se sabe por que, ficou medonho:

Perdemos nosso grão. Em desalento,
As lágrimas nos cobrem. Rastro rubro
Te recolhe dos pais. Em dor descubro
Que sempre amarei quem foi um momento!


segunda-feira, 26 de maio de 2014

ALHEIO A OUTRO CUIDADO


Para Rubens Lessa

Alheio a outro cuidado, envolto em prova,
Contemplo o santuário que há acima;
Graça e auxílio acha ali quem se aproxima,
E o Espírito à alma sem foco renova.

Como Jesus, eu me ergo e deixo a cova:
Liberto do mal, sem mais quem me oprima,
A graça me constrói como obra-prima,
Porquanto o poder dela em mim desova.

Sendo Jesus o meu representante,
Eu tomo assento nas regiões celestes,
Além de ter mudadas minhas vestes.

Posso ser tentado e, em outro instante,
Sorrir com um punhado de luz forte,

Pois meu intercessor venceu a morte.

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domingo, 2 de fevereiro de 2014

MUITAS ESCOLHAS A FAZER


Reinvenção constante ou falta de rumo?
Consumo compulsivo ou consciente?
Seguir valores ou abrir a mente?
Ler o livro ou buscar algum resumo?

Abstinência ou tragar de leve o fumo?
Desculpar-se com flores ou presente?
Ter uma poupança ou conta corrente?
Deixar ao filho a opção ou manter o prumo?

Ter férias em Roma ou poupar dinheiro?
Pedir que abaixe o som ou ignorar?
Concordar com Platão ou Heidegger?

Aposentar-se ou seguir o ano inteiro?
Tomar chá ou jogar cartas na praça?
Preparar tudo ou deixar que outro o faça?


sábado, 25 de janeiro de 2014

NOBREZA






“–Cada olho mofe na órbita e, ambos baços,


Tornem-te inútil, para que dependas


Da caridade alheia em meio às sendas,

E inválido, ao apoiar-se em outros braços;


Entre os pares, teus bens sejam escassos,

Posto que à porta vás perdir-lhes prendas,

E, não obtendo, teus poucos bens vendas,

Conseguindo não pães, tão só seus traços;


Outro usufrua em teu leito as carícias,

A outro seus filhos honrem como pai,

E outro colha em teu campo as primícias;


Nenhum dos dias aqui seja bom,

Que o choro caia como a chuva cai;

E desejes morrer por fim!” “– Shalom!”.


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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

OPORTUNIDADES DEIXADAS...


Lentes lentas e lamentos

O elefante vermelho assopra a chama
Que alguém lhe pôs na cauda. O elefante alça
A curvatura de marfim e exclama
Algo sobre uma dama a andar descalça.

A um fotógrafo causa pena a trama
E ele dá chocolate à mulher. Valsa
Até perder a pose esparsa a dama
E se despede, pois lhe espera a balsa.

Com sua lente em mãos, ele a retrata
Sob o céu turvo e as águas na cor prata,
E o aperto da saudade e perda vem.

O elefante sumia aos poucos, mas
Como anjo que era, ainda foi capaz
De ao idoso dizer: “Não foste também?”

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