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domingo, 23 de julho de 2017

O LAR CRISTÃO E OS MODELOS DIVERGENTES



Os desafios conjugais se refletem na vida espiritual do casal e de seus futuros filhos. Por vezes, boas intenções e mesmo princípios cristãos não são suficientes para contornar as crises, porque muitos sequer estão maduros para admitir a possibilidade de que elas surjam. E elas surgirão, inevitavelmente.
A cultura popular dá uma ênfase exagerada ao namoro, destacando-o como época da paixão. Os filmes relatam relacionamentos casuais, crises e a resolução por meios de discursos espontâneos e românticos. Na vida concreta, namoros são oportunidades para conhecimento mútuo. E as crises (sempre no plural, é preciso frisar) não são atenuadas por palavras sentimentais.
É preciso reconhecer que todo o amor do mundo não fará duas pessoas concordarem em absolutamente todos os assuntos. Em uma classe de escola sabatina, ouvi um participante opinar de forma que me intrigou. A pergunta proposta pelo moderador da discussão era: “dentro de um casamento, marido e mulher sempre pensarão do mesmo modo?” O rapaz respondeu que se ambos tivessem o Espírito Santo seriam concordes em todos os assuntos. Não me contive e cochichei com o professor: “tenho certeza de que ele é solteiro!”
A unidade no casamento não é sinônimo de uniformidade. Somente existirá uniformidade em uma relação quando uma parte se anula perante a outra, o que, obviamente, não constitui um modelo saudável de matrimônio. Lidar com os conflitos no casamento implica no reconhecimento de que duas pessoas possuem bagagens diferentes.
Por bagagens me refiro à criação, educação e experiências de vida, que junto com o temperamento, influenciam o modelo de pensamento de alguém. Uma simples discussão sobre quem deve realizar as compras do mês ou a maneira de se temperar o feijão é suficiente para revelar substratos culturais, valores e modelos estabelecidos. Uma discussão dessa natureza, em geral, esconde abaixo da superfície os seus reais motivos. Gasta-se esforço e argumentação discutindo de quem é a responsabilidade pela limpeza da casa sem discutir os modelos pré-estabelecidos. Marido e mulher ganhariam se conversassem sobre o que aprenderam de seus pais, explicando cada qual ao parceiro o porquê de pensar como pensa.
Quando se reconhece que, para além dos modelos vistos nos pais ou simplesmente idealizado, existem outros modelos, é possível reconhecer que há outras maneiras de se fazer as coisas. Cobra-se menos, porque se passa a entender melhor o outro. As cobranças surgem quando um cônjuge quer encaixar o outro no padrão que possui, sem levar em conta que seus padrões não os únicos que existem.

Relações maduras são aquelas em que os cônjuges repensam juntos os modelos herdados e os reconstroem com o tempo, ajustam-se por meio do diálogo. Se as crises não somem totalmente nesse processo, ao menos elas se tornam menos frequentes e menos graves. E isso dá espaço para que o casamento se torne o ambiente ideal para cultivar o ingrediente que os filmes restringem (erroneamente) ao período do namoro: o amor. Quando o amor frutifica, a vida espiritual agradece.


quinta-feira, 20 de julho de 2017

A IGREJA DEVERIA MUDAR PARA ATRAIR OS JOVENS?


Em seu e-book, Present Truth revisited, Reinder Bruinsma, administrador jubilado, teólogo e escritor adventista reivindica mudanças. Em geral, a tendência é que os europeus tenham uma visão mais liberal do cristianismo. Bruinsma se destaca por se preocupar com o papel do movimento adventista no mundo contemporâneo. Sua tese de doutorado – Seventh-day Adventist Attitudes Toward Roman Catholicism, 1844-1965 – já tinha certas doses de revisionismo e polêmica. Não foi muito diferente com seu livro The Body of Christ: A Biblical Understanding of the Church, que, entre outras coisas, defendia a controversa ordenação de mulheres ao ministério. Ele mesmo admite no prefácio de Present Truth que editoras adventistas recusaram-se a publicar o material e lamenta que a denominação esteja hoje mais preocupada em manter a identidade do que adaptar aos novos tempos.
Que tipo de adaptação seria necessária? E por quê? Bruisnma trata, de maneira intencionalmente não-técnica, do advento da pós-modernidade. Sua apresentação é concisa e didática. Todavia, à semelhança de muitos teólogos e administradortes, o autor sugere que o zeigeist pós-moderno seja uma mudança cultural quase moralmente neutra, apenas uma outra mentalidade. Assim, as novas gerações são o que são e a igreja adventista necessita ser o tipo de igreja que atinja essa mentalidade.
O perigo com esse tipo de raciocínio é a subversão da ordem das coisas: por melhores que sejam as intenções (e não duvido sequer por um segundo das intenções de Bruinsma e seus pares), o movimento adventista não foi chamado para se adaptar a cada nova geração. A tática de se adaptar à cultura, de se misturar com outras tradições como meio de exercer influência soa como prática católica – os jesuítas são mestres na arte de parecer o que não são para conquistar território. Colocar a cultura como referência ao invés das Escrituras é sempre uma estratégia perigosa, porque desloca o verdadeiro fundamento da igreja de seu lugar.
Além disso, sendo a cultura pós-moderna fluida, alheia a rótulos, em constante mutação e multiforme, seria um contrassenso estabelecer um modelo de igreja pós-moderna, simplesmente porque não existe um modelo de pessoas pós-modernas! Dizer “os pós-modernos pensam assim” ou “os pós-modernos gostam de tal coisa” é desconhecer que na pós-modernidade a regra do jogo é “não há regras fixas”. Logo, uma igreja para pós-modernos teria de ser mutável e adaptar-se constantemente. Ora, o processo de adaptação do pensamento cristão à sociedade não-cristã (que, em suma, me parece o que Bruinsma e tantos outros propõem irrefletidamente) chama-se secularização.
Uma igreja secularizada pode ser até um sucesso em atrair pessoas (há denominações que crescem espantosamente, muito além do que os adventistas vêm crescendo); entretanto, falhará em formar, instruir e manter em sua comunhão cristãos com uma experiência espiritual impulsionada pelo Espírito e pelas Escrituras. Geralmente, igrejas secularizadas são como bolhas: inflam assustadoramente, estouram repentinamente.
A igreja deveria mudar para atrair os jovens? Ou os pós-modernos? Ou os ricos? Ou qualquer etnia, tribo urbana ou grupo humano? Sim, a igreja deve mudar! Deve ser mais bíblica, mais espiritual, mais cheia do Espírito, mais semelhante a Jesus. Se mudar da maneira certa, atrairá mais pessoas. Cumprirá a obra com poder e do modo como Deus intenciona.


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quarta-feira, 14 de junho de 2017

O POLITICAMENTE INCORRETO JESUS


A crítica de cinema Isabela Boscov, ao tratar do filme Z – a cidade proibida, reagiu contra a caracterização de sua personagem principal. O explorador Percy Fawcett, que, na vida real, procurou pela lendária El Dorado, estaria retratado na trama muito diferente da pessoa que realmente foi. Nas palavras de Boscov: “É uma representação politicamente correta do personagem real, agudamente preocupada com os ditames do que hoje se considera ser de bom tom.”
Se isso é um fator de frustração em um filme, imagine quando a personagem histórica é Jesus, alguém cuja importância e papel na construção do Ocidente transcende não só a figura de Fawcett, como a de qualquer outra personalidade. No dizer do historiador George Knight, o Jesus dos cristãos contemporâneos aparece como um cavalheiro do século XXI, em uma tentativa politicamente correta de reconstruí-lo à imagem e semelhança da cultura pós-moderna.
Há muito o fundador do cristianismo é tratado como um símbolo vazio (tomando a expressão de Schaffer), encarnando os valores de cada época. Atualmente, Ele é associado às minorias, como seu defensor, uma espécie de Robin Hood ou Che Guevara da Palestina. Jesus é associado à aceitação irrestrita, alguém incapaz de fazer julgamentos, sensível e totalmente aberto a outros.
Como na fábula dos cegos que tateiam o elefante, é fácil que a miopia de perspectivas culturalmente condicionadas enxerguem somente os traços da personalidade de Cristo que lhe sejam convenientes. Todavia, uma representação apropriada de quem Jesus foi de fato não pode negligenciar a principal fonte de testemunhos oculares sobre ele: os evangelhos.  
Uma simples análise do Jesus retratado nos evangelhos mostra o quão firme Ele era em suas convicções, a ponto de não se preocupar em perder simpatizantes em nome de uma mensagem impopular (Mt 15:12-14; Lc 4:24-30; 8:19-21; 18:22-29; Jo 6:60-64). Jesus podia sentir ira, verdadeira indignação diante de injustiças (Mc 3:5, onde ocorre a palavra ὀργῆς, geralmente usada para se referir à ira de Deus, em contexto de julgamento; cf.: Rm 2:5; 9:22; 1 Ts 1:10; Ap 6:16-17; 14:10; 16:19; 19:15). Jesus não se omitia diante de injustiças, não tolerava o erro ou aceitava visões religiosas que induzissem à uma concepção incorreta sobre Deus (Mt 15:3-9; Jo 2:13-17; 3:10). Ele pronunciou julgamentos severos (Mt 12:21-24, 36-37, 40-42; 23:34-36). É comum que Jesus usasse linguagem forte para denunciar a hipocrisia religiosa de seus dias (Mt 12:33-35, 39; 23:13-27; Jo 8:38-44).
Definitivamente, a personalidade de Jesus possuía traços controversos. Ele conseguia viver de forma autêntica, mas sem aquela autenticidade autoproclamada de quem deseja apenas chocar as pessoas. Ele agia com um senso de justiça que desafiava convenções sociais. Não temia levantar a voz contra o erro, embora isso o tornasse impopular em alguns ciclos. Era firme e proferia discursos enérgicos, exigentes – os séculos de distância e as mudanças culturais obliteram muito da ironia, sagacidade e provocação das parábolas de Jesus. Além disso, a familiaridade com o texto bíblico impede mesmo a muitos cristãos atuais de perceberem a condenação e exclusivismo próprios do Mestre em mensagens como a que se acha em João 14:6.  
Nenhum desses traços enfraquece a bondade de Jesus, mas a complementam, impedindo que sua mensagem de amor seja alvo de uma releitura que o transforme em uma espécie de hippie ou pregador ingênuo. Nele aparece um tipo de amor sem conivência, uma misericórdia que funciona em conexão com o julgamento, nunca à parte ou contra ele. Jesus não era politicamente correto. Isso não o torna um sujeito boçal, mal-humorado ou um político da ultra-direita. Avaliado com justiça, Ele não pode ser usado apropriadamente como símbolo de nenhuma ideologia atual – e, me arrisco a dizer, em muitas situações, pouca compatibilidade há entre Jesus e a postura de muitos de seus professos seguidores, moldados mais pela cultura consumista e entretenimento midiático do que pelo seu suposto compromisso religioso. O Jesus bíblico representa um lado: o lado dele, o lado da verdade (Jo 8:32, 36). Como é mais fácil trazê-lo violentamente para o nosso lado do que nos submeter pacificamente ao lado dele!…


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segunda-feira, 1 de maio de 2017

JOSÉ E A TENTAÇÃO



José, vendido pelos irmãos, é adquirido por Potifar “oficial de Faraó e capitão da guarda” (Gn 39:1). Provavelmente, a intenção era que José desempenhasse funções domésticas. Apesar da condição cruel, por duas vezes é afirmado que o Senhor estava com José (Gn 39:2, 3). Como resultado, o jovem hebreu obteve a simpatia de Potifar (Gn 39:4), que reconheceu as habilidades do novo serviçal. Assim, José recebe a incumbência de administrar (Gn 39:4). Na sequência, outra característica de José é enfatizada: sua beleza física (Gn 39:6). Outros homens nas Escrituras são igualmente louvados por seus atributos estéticos, como Saul, Davi e Absalão. No relato sobre José, esse elemento serve para introduzir uma mudança de foco: é a beleza de José que desperta a atenção da esposa de Potifar. Como consequência, José foi tentado em pelo menos três diferentes formas.
Em primeiro lugar, José sofreu a tentação de forma direta e pontual. “‘Venha, deite-se comigo!’” (Gn 39:7), disse a mulher sem muita sutileza. A seguir, a situação passou a se repetir. O convite ousado agora ressoava pelo cotidiano (Gn 39:10). Por último, surgiu a tentação se apresentou de modo extraordinário:

Um dia ele entrou na casa para fazer suas tarefas, e nenhum dos empregados ali se encontrava. Ela o agarrou pelo manto e voltou a convidá-lo: "Vamos, deite-se comigo! " Mas ele fugiu da casa, deixando o manto na mão dela. (Gn 39: 11-12).

A trama dos acontecimentos colocou José diante de um problema capaz de vencer a vontade dos mais extraordinários homens. Comumente, vemos políticos renunciando a cargos devido a escândalos extraconjugais. Recentemente, um ator famoso teve afastamento decretado por uma emissora de televisão após ser acusado de assédio. Jogadores de futebol são constantemente forçados a realizar exames de paternidade ou envoltos em divórcios milionários. A maioria dos homens enfrenta grandes dificuldades em lidar com tentações sexuais. Quando se examina a história de José, além dos tipos de tentação que ele sofreu, pode se verificar sua reação a elas, o que é extremamente útil para os cristãos da atualidade. Se José foi capaz de vencer a tentação mais apelativa e insistente, a vitória se acha à disposição para aqueles que seguirem seu exemplo.
Quando a tentação veio de modo direto e pontual, José respondeu afirmando audivelmente seus princípios:

Mas ele se recusou e lhe disse: "Meu senhor não se preocupa com coisa alguma de sua casa, e tudo o que tem deixou aos meus cuidados. Ninguém desta casa está acima de mim. Ele nada me negou, a não ser a senhora, porque é a mulher dele. Como poderia eu, então, cometer algo tão perverso e pecar contra Deus?" (Gn 39:8-9)

O texto apresenta que José era fiel em seu serviço porque ele sabia a quem prestava contas. Momentaneamente, ele servia a Potifar. Mas sua lealdade última era voltada a Deus, a quem era responsável por todo seu procedimento. Justamente o senso de estar na presença divina motivava José a um procedimento reto. A vida cotidiana, com suas demandas instantâneas veiculadas à conexão virtual, rouba o tempo para quase todo tipo de introspecção, reflexão e meditação na Palavra de Deus. A prática da oração, confiança no poder invisível, fica obliterada pelos atrativos exteriores. Entretanto, é o cultivo da presença do Senhor – pelo exercício diário da oração, do estudo fervoroso das Escrituras, pela decisão de permitir ao Espírito que influencie a mente a obedecer e prática consciente das verdades reveladas (pelo poder de Deus em sua vida) – que torna um cristão disposto a abdicar de prazeres para manter seus princípios.
Quando a tentação se tornou cotidiana, frequente, José estava preparado para enfrenta-la. Ele sabiamente evitava o objeto de sua tentação (Gn 39:10). Isso caracteriza a prudência que acompanha a quem teme a Deus. José não insistiu em seus argumentos e, se o tivesse feito, por certo teria tido pouco resultado. O tempo de argumentos já passara: era a hora de afugentamento.
Finalmente, José se viu em uma cilada: a tentação lhe sobreveio de modo extraordinário. Toda uma cena foi elaborada para que ele e sua senhora estivessem sós. Ninguém os veria. E, seguindo seu perfil, a esposa de Potifar tomou a iniciativa, agarrando seu manto (Gn 39:12). José certamente não poderia recorrer às estratégias já usadas: ele não poderia simplesmente evitar a mulher ou ignorar sua presença e provavelmente seria totalmente despido antes de terminar qualquer discurso! Mas o filho de Jacó tinha outro recurso: ele tomou a decisão radical de se afastar da tentação. Ele literalmente fugiu, deixando nas mãos de uma mulher furiosa o seu manto. Uma decisão corajosa, a qual lhe cobrou um alto preço.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

GRATA PELOS ANJOS


Por Noribel Reis
“Porque a Seus anjos Ele dará ordens a seu respeito, para que o protejam em todos os seus caminhos”. Salmo 91:11.

Aquele era o momento mais emocionante e pleno de toda a minha vida. Estava com minha filha em meus braços. Eu havia acabado de recebê-la, após 15 horas de trabalho de parto. Deus havia me concedido um lindo parto e esse momento era inexplicável. Estar com ela em meus braços, sentido seu aconchego em meu peito, enquanto mamava, era a mais pura emoção.
Em meio a muitos sentimentos que inundavam minha mente, tive uma impressão marcante. Não sei precisar quanto tempo após o parto. Mas, uma certeza inundou meu coração: Deus havia enviado um anjo para guardar minha filha do mal. Lembrei-me da promessa - "O anjo do Senhor acampa-se ao redor dos que O temem, e os livra." Sl 34:7
Sim! Eu creio nos anjos e nas suas ações para nos guardar e proteger. Tenho um apreço muito grande por histórias de pessoas que são salvas por anjos. Agora, sentir que minha filha tinha um anjo enviado do céu para protegê-la foi algo incrível.
A Bíblia dá algumas informações sobre os anjos. Ela fala que aqueles que servem a Deus, amam a Jesus e guardam seus mandamentos possuem proteção especial.
Em Mateus 18:10 temos um texto específico dito pelo próprio Salvador sobre os anjos e os que creem no Senhor: “Cuidado para não desprezarem um só destes pequeninos! Pois eu lhes digo que os anjos deles nos céus estão sempre vendo a face de meu Pai celeste”.
Os anjos são enviados para protegem os justos do poder maligno. Essa proteção acontece nos lares cristãos, na vida familiar; ao saírem de casa e pedirem a proteção de Deus; ao tomarem decisões importantes e estarem em contato com outras pessoas. Veja o que diz no texto de Parábolas de Jesus, p. 341-342: “Quando inconscientemente estivermos em perigo de exercer influência má, os anjos estarão ao nosso lado, orientando-nos para um melhor procedimento, escolhendo-nos as palavras, e influenciando-nos as ações.” Mesmo quando não estamos vendo, os anjos de Deus estão nos protegendo e nos guardando.
“Os anjos de Deus, milhares de milhares, [...] nos guardam do mal, e repelem os poderes das trevas que nos estão procurando destruir. Não temos nós motivos de ser a todo momento agradecidos, mesmo quando existem aparentes dificuldades em nosso caminho?” (A Ciência do Bom Viver, p. 253-254)
Você já agradeceu a Deus por tanto cuidado e amor? Lembre-se que em nossa vida sempre haverá dificuldades, pois vivemos em um mundo de pecados; porém, Deus enviará anjos para estarem ao seu lado, ajudando-a a passar por todas as provações.


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terça-feira, 25 de abril de 2017

DESCOBRINDO O QUE IMPORTA (QUANDO HÁ TANTA FUTILIDADE ONLINE)



A cultura pop, expandida a partir do advento dos meios de comunicação em massa, surgiu com a função básica de entreter, seguindo algumas premissas comerciais. O foco dessa cultura é claramente o público mais jovem, havendo uma supervalorização da adolescência. É comum que se diga que enquanto o cinema europeu trata seu expectador como adulto, o americano se dirija a adolescentes. A observação vale para músicas, quadrinhos, entre outros produtos da cultura pop.
Essa infantilização é vista por diversas características: a ênfase na espontaneidade (observe que todo julgamento em um tribunal nos blockbusters são interrompidos de alguma forma); o rompimento com convenções sociais (Hollywood é a terra das noivas que desistem do casamento praticamente diante do altar para correr para os braços do amor verdadeiro); quebra de convenções sociais (sempre há uma personagem que obedece às regras e aprende a se “soltar”); isso além de diálogos rasos, roteiros ilógicos e ações inconsequentes.
Os conceitos da cultura pop influenciaram valores sociais ao longo de décadas, diluindo a herança protestante – do trabalho duro, da economia quase estoica, do propósito maior da vida consistir em servir a Deus, etc –, legado comum tanto aos Estados Unidos, quanto aos diversos países europeus. O ethos contemporâneo reflete muito mais características do hedonismo do que a mentalidade dos pais pioneiros.
Zygmunt Bauman sempre apontou a insegurança, volatilidade e infantilismo do capitalismo ocidental. A sociedade de consumo muitas vezes se parece com um passeio que as crianças de uma creche fizessem à seção de brinquedos de uma loja de departamentos.
Claro que quando se pensa na Web 2.0, a segunda fase da virtualização que se caracteriza pelo advento das mídias sociais, a mesma superficialidade, vulgaridade, boataria, humor raso e mensagens pseudo-espirituais marca forte presença. Seria injusto dizer que todo material compartilhado entraria nessas características, mas é inegável que isso se aplica à grande maioria do que se vê. Há muito que poderia ser dito sobre a depressão associada ao Facebook ou à ansiedade gerada pelos comunicadores instantâneos. Especialmente a pesquisa de Nicholas Carr é digna de nota, por revelar como o uso excessivo da internet desfavorece o aprofundamento intelectual necessário para a leitura de um livro, por exemplo.
Nessa época de superficialidade, cristãos podem tomar algumas atitudes para evitar de se tornarem igualmente superficiais:

(a)  Estudar a Bíblia: o estudo exaustivo da Palavra, além de representar um poderoso tonificar espiritual, contribui para uma percepção acurada da realidade, provendo uma moldura para interpretar os acontecimentos. Essa estrutura é o tema do embate cósmico entre Cristo e Satanás. A Bíblia ainda fortalece o intelecto, ao exigir que a mente humana sistematize as informações que ela fornece de forma propositadamente esparsa;

(b)    Ler livros cristãos profundos: tanto alguns clássicos cristãos, quanto livros que realizam estudos de temas bíblicos de forma séria são importantes para a formação espiritual e para conhecer melhor diversos aspectos e implicações da própria fé cristã. Evidentemente, há muito material descartável publicado por editoras cristãs e isso precisa ser evitado;

(c)  Cultivar hábitos saudáveis: a mensagem cristã pressupõe uma antropologia holística, admitindo que o homem não possui uma alma separada do corpo, como ensina a filosofia grega. Por isso, cuidado com a saúde faz parte de uma vida cristã equilibrada. Considerações sobre hábitos alimentares, separar tempo para exercícios físicos, tomar a quantidade ideal de água, dormir de forma adequada, entre outros tópicos igualmente fundamentais, são ações que evitam que a vida seja gasta de forma passiva, sedentária e vitimada pelo apego excessivo às mídias (como as famosas “maratonas de séries”, para ficar com um exemplo);

(d)    Interagir com pessoas reais: a ficção domina muitas mídias e até nas redes sociais pode-se criar uma existência fictícia; falta encarar a vida como ele é, cheia de perdas e dores, marcada pelos fracassos e sonhos. Sobretudo, falta uma perspectiva de realismo bíblico – que consiste em enxergar a vida não como um parque de diversão, mas um campo da batalha espiritual, no qual somos chamados a atuar como agentes do Reino do Senhor Jesus Cristo;

(e) Cultivar a experiência espiritual comunitária: aprofundamento de pessoas, desenvolvimento de talentos e crescimento espiritual são elementos que interagem entre si dentro da comunidade da fé. Daí a importância da frequência e participação em uma congregação local. Firmar-se na fé e no ensino também são outros dos benefícios providos por essa experiência coletiva.

Seria muito bom que os cristãos se destacassem como pessoas equilibradas, bondosas, inteligentes e diferenciadas em um mundo quase que completamente submerso na superficialidade…


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sexta-feira, 21 de abril de 2017

A CRISE DA RELIGIÃO NA ERA DA INFORMAÇÃO INSTANTÂNEA



Se é verdade que as mudanças trazidas pela liquidez dessa época afetam a questão da identidade individual, não é menos verdadeiro dizer que grupos religiosos sofrem com a perda de identidade. Como se adaptar a uma sociedade diversificada e em constante mudança? Como oferecer um contrapondo sólido, quando aquilo que é sólido soa como resquício da modernidade? Como alimentar convicções tradicionais entre os adeptos de uma comunidade, quando o mundo virtual os reloca para um oceano de outras convicções, de outras comunidades?
O cristianismo certamente viveu diversos períodos de adaptação, como lembra o teólogo Stanley Grenz, autor de diversas obras sobre a necessidade de se adaptar à presente época. Obviamente, não seria justo afirmar que todas as mudanças pelas quais o cristianismo passou foram no mesmo nível. Ou que foram realmente necessárias ou benéficas.
Muitas igrejas, endossando o cristianismo liberal das primeiras décadas do século XX, passaram simplesmente a atuar como agências humanitárias. A igreja alemã, por volta da segunda guerra, foi incorporada pelo partido nazista, dando origem a uma simbiose descaradamente pouco cristã em seu produto final. Nesse aspecto, vale lembrar que, se o assunto é viver o cristianismo, a melhor resposta se encontra no exemplo dos anabatistas. A princípio surgidos de um pequeno grupo de estudos da Bíblia, incentivado e liderado por Ulrich Zwínglio, aqueles que viriam a ser chamados de anabatistas não tardaram em romper com o reformador. Achavam que Zwínglio não estava disposto a reformar o suficiente a igreja. Aliás, nem ele ou Lutero, ou mesmo Calvino estavam, pois mantiveram muitos dos paradigmas da escolástica medieval. Os anabatistas, não. Ambicionavam reformar tudo à luz das Escrituras. Viver o cristianismo consistia em refletir a vontade de Deus em todos os aspectos, conforme a Palavra expressava.
Em um mundo acelerado, com mídias de alcance global, que possibilitam a milhões expressarem suas opiniões em canais de grande alcance, sem a mediação de conglomerados de comunicação, muitas vozes disputam um lugar ao sol. A saturação da informação chega a intoxicar! O que se tornou um verdadeiro banquete para o pluralismo religioso, também trouxe a necessidade de diluir a religião, de apresenta-la em uma moldura não agressiva. Alguém comentava de uma declaração feita por alunos de determinada universidade cristã, na qual constava a luta pelo direito de todos, inclusive de casais homossexuais.
Novas propostas surgem para renovar o conceito de igreja, como a igreja líquida – constituída de grupos afins que se reuniriam esporadicamente e, em certas ocasiões, haveria a reuniam desses diversos grupos. Eis um dentre muitos exemplos de como cristãos sentem a necessidade de se adaptar à pós-modernidade, de reinventar a roda. Não se pode jogar a água da banheira com o bebê; certamente, há boas contribuições que merecem ser analisadas. Entretanto, quanto dessas novas propostas partem da Bíblia, não da experiência ou necessidade? Mais do que reinventar a roda, é hora de fazê-la girar, porque para isso ela serve; a igreja foi concebida por Deus para ser igreja, com uma função específica no mundo. A igreja viva é a que se apoia no fundamento redescoberto pelos anabatistas. Fora disso, o cristianismo se colocaria em uma posição delicada e pouco confortável: fazer girar um quadrilátero.


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segunda-feira, 17 de abril de 2017

A ACELERAÇÃO DO COTIDIANO


O cotidiano é muito mais do que a rotina estabelecida, o número de atividades que cabe em um dia: trata-se, principalmente, de como se percebe o tempo. A vida cotidiana na contemporaneidade é marcada pela dispersão. Dispersão de propósitos, em meio a tantas opções de modelos de vocação; dispersão de identidade, em meio à possibilidade de se reconfigurar e assumir diversos papéis; dispersão do próprio tempo, com a valorização engajante do momento presente – a vida, entendida como um processo, uma série de etapas, fica reduzida ao momento presente, ao agora. Isso é o que importa.
Em contrapartida, pela ótica bíblica, até as atividades cotidianas fazem parte da providência divina (Ec 3:12-13), porque cada atividade humana encontra, na forma ilustrativa do sábio dizer, um tempo determinado (Ec 3:1-8). Todas as atividades elencadas são realizadas dentro do tempo; aliás, são mencionados recortes, momentos da existência humana, os quais são vislumbrados da perspectiva finita – deve-se notar a expressão “debaixo do céu”, um marcador usado no livro de Eclesiastes quando se fala do ponto de vista secular, para formar um contraste com a vontade de Deus, geralmente apresentada em seguida.
As atividades humanas são logo confrontadas com as atividades divinas, insondáveis e misteriosas (Ec 3:11), eternas e perfeitas (Ec 3:14). Em Eclesiastes, embora a vida pareça cíclica (Ec 1:4-11; 2:12; 3:15), ou, ao menos, aborrecidamente repetitiva, é preciso dizer que o foco do livro não é a apresentação de uma filosofia da história. O que se pretende é discutir o propósito da vida (Ec 1:3, 14; 2:11; 12:1-7); a solução final do livro constitui um retorno à sabedoria bíblica (Ec 2:26; 7:12, 19; 8:1; 9:18; 10:10) – portanto, o que se vê em Eclesiastes é um modo não convencional de apresentar o ensino tradicional. A sabedoria ganha expressão no fim do livro diante do horizonte desenhado por Deus – preparar-se para o julgamento divino por meio de uma vida de obediência (Ec 12:13-14). Diante de realidades inexoráveis como a morte (Ec 12:1-7) e o julgamento, nada melhor do que uma vida sábia e comprometida com os mandamentos.
No Novo Testamento, Jesus também trata da adoção da perspectiva correta para o cotidiano. Se a vida gravitar essencialmente na aquisição de roupas ou provisão de alimentos (Mt 6:25), isso não seria evidência de que o dinheiro ocupa o lugar de Deus (Mt 6:24)? Os dois versos são ligados pela preposição grega Διὰ, que, entre vários significados, pode ser traduzida como “através de”, “devido a”, “de outra feita”, “eficazmente”, “de forma adequada”, “por causa de”, etc. Assim, Mateus 6:25-33 seria uma continuação de Mateus 6:19-24. A impossibilidade de “servir a dois senhores” (Mt 6:24) seria uma conclusão inicial da atitude de ajuntar riquezas (Mt 6:19), ecoando na observação de que a vida é mais do que o que se têm (Mt 6:25) e na instrução de tornar o Reino de Deus uma prioridade (Mt 6:33) – o que implica em escolher servir a um só Senhor de forma integral e comprometida.
A excessiva preocupação em conseguir as coisas básicas da vida, resumindo o cotidiano ao imediatismo, é assinalada como maneira de viver pagã (Mt 6:32, ou, literalmente, dos gentios). Uma vida sem Deus leva a um cotidiano ordinário, sem a devida confiança na providência. Não é possível reconhecer o cuidado divino sobre os seres mais simples, o extraordinário sustentando invisivelmente o ordinário; ao contrário, Jesus apresenta o cuidado detalhista de Deus sobre as aves do céu (Mt 6:26) e os lírios do campo (Mt 6:28-30). Jesus termina Seu ensinamento afirmando que Seus discípulos não deveriam se preocupar “com o amanhã, pois o amanhã se preocupará consigo mesmo. Basta a cada dia o seu próprio mal.” (Mt 6:34). Evidentemente, deve-se ter cuidado para não interpretar isso como total falta de planejamento ou descaso contra o futuro. Preocupar-se aqui (greg.: μεριμνάω) significa estar dividido, mostrar-se distraído ou, diríamos, sem foco. Isso apresenta uma interessante ligação com o coração divido entre dois senhores (Mt 6:24). As preocupações quanto ao futuro não podem levar à dependência de recursos próprios, enquanto se olvida o foco espiritual e se deixa de enxergar a providência divina.
Seja no Antigo ou no Novo Testamento, o cristão encontrará incentivo para entender que a vida é mais do que o agora. A vida não é usufruto constante de prazeres imediatos, sem responsabilidade. O que os sentidos humanos percebem não esgota a existência. As Escrituras conclamam a todos a gastarem seu tempo com responsabilidade, enquanto confiam na providência e se preparam para o julgamento. O cotidiano humano não é algo isolado da esfera em que Deus atua. Ele Se faz presente no tempo e atua em favor de todos, o que é efetivamente aproveitado por aqueles que reconhecem Seu cuidado e correspondem com Seus planos.


sexta-feira, 31 de março de 2017

A CONEXÃO PARA ESSE TEMPO



Vivemos o tempo final da história do mundo, quando a inspiração previu o advento dos enganos mais bem elaborados. Não se trata apenas de escolher entre o que é claramente correto ou o escandalosamente malévolo. Satanás agiria para nos entreter, viciar e desequilibrar: “‘Tenham cuidado, para que os seus corações não fiquem carregados de libertinagem, bebedeira e ansiedades da vida, e aquele dia venha sobre vocês inesperadamente.” (Lc 21:34). E ele o faria por meio do transtorno do cotidiano.
Uma das coisas mais certas sobre a realidade distorcida pelo pecado é a transitoriedade. O pecado se interpõe no próprio curso da vida, interrompendo-a com a chegada da morte. Mas não só isso. Ao transmutar os preceitos divinos, os quais geram estabilidade, o mal trouxe a constante mudança, a passagem das épocas como conhecemos. Tais mudanças ao longo da história são marcadas por guerras, catástrofes, perseguições e revoluções tecnológicas.
É difícil imaginar como seria o mundo criado por Deus sem ter como parâmetro o mundo como o conhecemos, o qual é manchado pelo pecado. Certamente, o tempo é um elemento criado por Deus. Não é admissível uma realidade dicotômica, como os gregos faziam, ao imaginar a ausência de tempo como ideal de perfeição. Mesmo na Terra restaurada teremos a passagem dos dias e a contagem das semanas (Is 66:23). Por outro lado, é possível inferir que o plano divino implicava em progresso, crescimento, aperfeiçoamento:

Enquanto permanecessem fiéis à lei divina, sua capacidade para saber, vivenciar e amar, cresceria continuamente. Estariam constantemente a adquirir novos tesouros de saber, a descobrir novas fontes de felicidade, e a obter concepções cada vez mais claras do incomensurável, infalível amor de Deus. (EGW, PP, 23).

O texto sugere que, sem a presença do pecado, haveria um fluxo contínuo de desenvolvimento dentro das mesmas bases – obediência à lei divina. Com o pecado, temos degradação, ruptura, mudanças e violência. Logo, é de se esperar que a instabilidade seria a marca do mundo.
A instabilidade se instaurou no cotidiano e logo passou a ser o novo cotidiano. O mundo interconectado aceita a instabilidade, faz dela seu capital mais valioso. Se há mudança, há movimento. Ainda que movimento desordenado. Real e virtual se confundindo, se mesclando. O que os analistas sugerem ser um novo período humano tem de ser visto em sua devida perspectiva profética.
O caos das nações – caos de informações, insegurança política (crises migratórias, terrorismo, guerras em potencial) e a perda das bases éticas (com a rejeição do modelo bíblico de pensar) – é o aprontar das últimas cenas. Já estamos próximos dos eventos descritos na profecia.
Mais do que nunca, o conselho de Jesus é valioso: “‘Tenham cuidado, para que os seus corações não fiquem carregados de libertinagem, bebedeira e ansiedades da vida, e aquele dia venha sobre vocês inesperadamente.” (Lc 21:34). Justamente aqui temos de ficar atentos. Há distrações por toda parte. O entretenimento chega a nós a cada momento, via Whats’app, redes sociais, serviços de streams. Em meio à instabilidade, somos convidados pela tecnologia a desconsiderar a vigilância e dar maior valor à diversão. Somos convidados à grande festa online, à orgia digital, ao amar o lúdico, o prosaico, o fútil. Assim, quando chegarem as provas, estaremos desapercebidos e sonolentos. Conectados com esse século, estamos nos desconectando com as advertências que nos preparariam para o futuro.
Obviamente, o problema maior não está com a internet, mas com a forma como a usamos, o tempo que dedicamos a ela e ao tipo de participação que temos com as coisas que ela oferece. Quer online ou na vida off-line, somos desafiados a compartilhar a certeza de que Jesus voltará. Isso implica em uma vida sóbria, cautelosa, sábia, regrada e piedosa. Implica em comunhão autêntica com o “Pai das luzes, que não muda como sombras inconstantes.” (Tg 1:17). Por meio de nossa esperança nEle, podemos nos conectar ao governo de Deus, algo que será plenamente cumprido para aqueles que vencerem no grande conflito, especialmente em sua crise final (Ap 3:21).
Deus nos dê o entendimento correto acerca do tempo presente, uma sólida apreciação por aquilo que Ele realizou nos tempos passados e uma viva esperança para aguardar o tempo que Ele trará!


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quarta-feira, 15 de março de 2017

A PRÁTICA DA ORAÇÃO NO MUNDO MATERIALISTA


Desde o Iluminismo, passando pela teologia liberal e adentrando no século XX, a presença divina passou a ser escamoteada, gradativamente diminuída e, finalmente, rechaçada. Hoje se fala no espaço dado à espiritualidade. Porém, tudo isso em nível pessoal. Na esfera particular, no fórum íntimo.
No “mundo real”, a opulência material garantida pelo progresso econômico que se seguiu ao fim da Segunda Guerra Mundial despertou a cobiça. Produtos feitos para durar pouco. Propagandas pensadas para vender sentimentos, aspirações e valores veiculados a quase qualquer produto – até propaganda de banco faz chorar! A toda hora, somos convidados a ter o último smartphone, o perfume recém lançado, o xampu de eficácia cientificamente comprovada. Para tudo isso, é preciso gastar tudo, porque gastar significa desfrutar. O materialismo consumista é uma expressão da confiança humana nos bens como veículos de desfrutar não apenas da “vida melhor”, prometida pelo século XX; hoje está à disposição a “vida para ser curtida”, com coisas inúteis, mas divertidas, ao alcance de todos.
Não há espaço para Deus nesse espiral pós-moderno de sensações, nesse looping de barganhas midiáticas e promessas de pote de ouro aqui e agora. Tudo está concentrado não mais nessa vida, mas no agora. Tudo o que importa é o agora. Temos de ver, ouvir a resposta, tocar as coisas, viver a sensação. Como confiar em um Deus além, invisível, que, pior!, nem sempre responde (quase nunca responde) as orações no exato momento em que são feitas?
Confiar nas respostas de Deus é algo que precisa, como nunca, ser exercitado a cada instante. Do contrário, fica fácil que mesmo cristãos conscientes vivam como ateus em sua semana de trabalho. O sábado bíblico (Êx 20:8-11) não é simplesmente um dia para ter um encontro com Deus, o que, de fato, deve ser algo diário. O sábado é a renovação do propósito da aliança com o Criador, a preparação para Seu juízo em favor de Seus santos (Ap 14:6-7) e a dedicação exclusiva do tempo para Aquele que é Senhor do tempo e da vida. O sábado serve para se desconectar com os apelos consumistas de um mundo que se acostumou com aquilo que é imediato. Na calma do dia santo, pode-se renovar o propósito de servir o Deus que estabeleceu cada coisa para seu próprio tempo (Ec 3:1-8).
Uma vez renovados, é preciso que empreguemos o tempo dos outros dias para nos conservar em espírito de oração. Não se trata da regularidade nas orações pontuais, sempre necessária. Mas o cultivo de uma mentalidade que a todo tempo converse com Deus e reconheça a necessidade de Sua presença. Afinal, em meio ao conflito cósmico no qual estamos inseridos, a grande questão não é em que gastaremos nosso dinheiro ou qual diversão estará à nossa espera. A salvação está em jogo em cada decisão importante – mesmo naquelas que não se percebem importantes.
Oramos porque não estamos seguros em um mundo dominado pelas trevas. Oramos porque há um Deus que, como um Amigo sempre presente, sente interesse por nós e deseja nos amparar. Oramos porque Deus é totalmente amável e benevolente, cheio de misericórdia, amor e paciência. Oramos porque é nossa maneira de amá-Lo por tudo o que Ele é e tem feito.


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segunda-feira, 13 de março de 2017

A MULHER QUE NÃO CONHECIA BRUCE WAYNE


Estávamos em um restaurante de um shopping, aguardando o pedido chegar. Stephanie, nossa bebê, se distraía com músicas cristãs e livrinhos de plástico contendo histórias bíblicas. Saí da mesa à caça do banheiro, quando cruzei com os mascarados. Iam excitados, em grupos, falando coisas que não consegui ouvir. Claro que me indaguei a razão de tanta gente usar roupas e máscaras tirados da série Star Wars. Acabei reencontrando outras pessoas vestidas a caráter no corredor próximo da área em que ficavam os cinemas e minhas dúvidas foram esclarecidas. Não sei dizer se era exatamente a estreia, mas vi que Rogue One se achava em cartaz. Logo voltei para a direção em que ficavam os banheiros (localizados do lado oposto em que eu havia me dirigido).
O famoso bordão "que a força esteja com você" seria reconhecido por quase qualquer pessoa que cresceu na década de 1980. Menos pela minha esposa Noribel. Ela não sabia quem era o Peter Parker ou Bruce Wayne. A cultura pop era um terreno (quase) completamente desconhecido para ela. Minha esposa foi criada como adventista desde os dois anos de idade (um colportor estudou a Bíblia com os meus sogros; o pai da minha esposa decidiu-se ao fim do estudo, mas minha sogra demorou ainda dois anos para se batizar). Noribel cresceu aprendendo com a lição da Escola Sabatina, participando de acampamentos com os desbravadores, desejando ir para o internato (o que se realizou na faculdade e graças à colportagem) e participando dos cultos e programas da igreja.
Se eu pudesse, daria um doutorado honoris causa em educação para os meus sogros. Ou em evangelismo voltado às novas gerações. Como duas pessoas simples souberam criar seus filhos com tanta ênfase no espiritual? Eu não tive esse privilégio – minha família passou a frequentar reuniões adventistas quando eu tinha quinze anos (graças a um curso de desenho que eu fazia). Por isso, eu e minha esposa crescemos com referenciais diferentes. E sabe qual o prejuízo de crescer com a mínima influência da cultura pop? Nenhum. Isso não impediu que Noribel se tornasse uma pessoa sociável, inteligente e divertida. Ela e muitos adventistas que conheci, vindos de lares realmente cristãos, se destacavam por terem enraizado em seu caráter conceitos que são a base do adventismo.
Quem forma a base para uma nova geração são os pais. A mídia somada com outros fatores, como as revoluções sociais e tecnológicas, exercerá influência limitada pela atuação de pais cristãos. Quando nos perguntamos "O que fazer para alcançar as novas gerações?", estamos mostrando preocupação na direção equivocada! A pergunta deveria ser: "O que diz a Bíblia?" Quando pais ensinam seus filhos a pensar biblicamente, eles formam jovens que servirão como representantes de Cristo entre outros jovens. E o que alcançam pessoas não são os métodos, mas outras pessoas. A vida transformada prega com eficácia sobre o evangelho que a transformou.
Fico feliz quando o culto familiar acaba e a Stephanie folheia sozinha sua Bíblia ilustrada. Sem saber ler ou falar, ela já é uma investigadora das Escrituras. Em meio à geração de pessoas confusas, que não aceitam a Verdade única e abraçam o experimentalismo pragmático para escolher sua espiritualidade, estou criando uma testemunha. Deus me dê a sabedoria que meus sogros –  e tantos outros adventistas fiéis – tiveram.


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