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sexta-feira, 28 de abril de 2017

GRATA PELOS ANJOS


Por Noribel Reis
“Porque a Seus anjos Ele dará ordens a seu respeito, para que o protejam em todos os seus caminhos”. Salmo 91:11.

Aquele era o momento mais emocionante e pleno de toda a minha vida. Estava com minha filha em meus braços. Eu havia acabado de recebê-la, após 15 horas de trabalho de parto. Deus havia me concedido um lindo parto e esse momento era inexplicável. Estar com ela em meus braços, sentido seu aconchego em meu peito, enquanto mamava, era a mais pura emoção.
Em meio a muitos sentimentos que inundavam minha mente, tive uma impressão marcante. Não sei precisar quanto tempo após o parto. Mas, uma certeza inundou meu coração: Deus havia enviado um anjo para guardar minha filha do mal. Lembrei-me da promessa - "O anjo do Senhor acampa-se ao redor dos que O temem, e os livra." Sl 34:7
Sim! Eu creio nos anjos e nas suas ações para nos guardar e proteger. Tenho um apreço muito grande por histórias de pessoas que são salvas por anjos. Agora, sentir que minha filha tinha um anjo enviado do céu para protegê-la foi algo incrível.
A Bíblia dá algumas informações sobre os anjos. Ela fala que aqueles que servem a Deus, amam a Jesus e guardam seus mandamentos possuem proteção especial.
Em Mateus 18:10 temos um texto específico dito pelo próprio Salvador sobre os anjos e os que creem no Senhor: “Cuidado para não desprezarem um só destes pequeninos! Pois eu lhes digo que os anjos deles nos céus estão sempre vendo a face de meu Pai celeste”.
Os anjos são enviados para protegem os justos do poder maligno. Essa proteção acontece nos lares cristãos, na vida familiar; ao saírem de casa e pedirem a proteção de Deus; ao tomarem decisões importantes e estarem em contato com outras pessoas. Veja o que diz no texto de Parábolas de Jesus, p. 341-342: “Quando inconscientemente estivermos em perigo de exercer influência má, os anjos estarão ao nosso lado, orientando-nos para um melhor procedimento, escolhendo-nos as palavras, e influenciando-nos as ações.” Mesmo quando não estamos vendo, os anjos de Deus estão nos protegendo e nos guardando.
“Os anjos de Deus, milhares de milhares, [...] nos guardam do mal, e repelem os poderes das trevas que nos estão procurando destruir. Não temos nós motivos de ser a todo momento agradecidos, mesmo quando existem aparentes dificuldades em nosso caminho?” (A Ciência do Bom Viver, p. 253-254)
Você já agradeceu a Deus por tanto cuidado e amor? Lembre-se que em nossa vida sempre haverá dificuldades, pois vivemos em um mundo de pecados; porém, Deus enviará anjos para estarem ao seu lado, ajudando-a a passar por todas as provações.


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sexta-feira, 21 de outubro de 2016

DO CONTO DE FADAS AO PESADELO


O sonho de sua infância não era ir à lua ou jogar no Real Madri. Nunca foi brilhante ou ambicioso. Apenas queria o mesmo que qualquer um, sem buscar destaque entre a multidão.
Subitamente, o caipira com mato no canto da boca recebia os aplausos de empresários. Da carroça para o interior de limusines e iates. Não ganhara em nenhuma loteria, nem sorteio da televisão. Sequer fora descoberto por uma agência de modelos (embora as mulheres sentissem o frissom que sua presença causava!). Mas sob seu cabelo desgrenhado e lavado com sabão pousou a coroa real. O menino brejeiro tornou-se o mandatário da nação, quem diria!
Naturalmente, ninguém se assustara mais do que ele próprio! Para quem jamais sonhara com coisas tão espetaculares, o sonho assumia uma forma assustadoramente maior – e real! Quando você ganha algo sem merecer, dado por quem o ama, chega a ser ofensivo mesmo o menor esboço de recusa. O mínimo a se fazer é aceitar, tentando corresponder ao presente.
O menino pobre se tornou rei, sem ter sangue azul ou ser diplomado em ciências políticas em Havard; ele não merecia aquilo, diriam os críticos com razão. Porém, ele poderia ter correspondido à escolha divina.
Poderia.
A tragédia maior das ascensões meteóricas é a dificuldade em lidar com o sucesso quando ele chega sem aviso ou antes do pretendido. E quando falamos em sucesso espiritual, ainda se corre o risco de apressar a derrocada, quando atribuímos as glórias a coisas como esforço, talento, habilidade e merecimento. Ao nivelar as bênção divinas com conquistas humanas, nos desabilitamos à posição em que Deus nos pôs.
Saul, o rei que chegou ao poder como um matuto, logo se sentiu à vontade no trono. Passou a tomar decisões sem se importar com conselhos de sacerdotes, profetas ou mesmo do próprio Deus. Governar se tornou algo que ele sentia depender de seu instituto nato de líder. E quando Deus o rejeitou, escolhendo um homem melhor para liderar Israel, o pior de Saul veio à tona: invejoso, rancoroso, capaz de armar ciladas e matar quem quer que ficasse entre ele e o seu reino. Você já viu essa história, certo?
O ciclo se repete, mesmo entre o povo escolhido por Deus. Afinal, é próprio do ser humano amar o poder e se apegar a ele com um carinho que brota do egoísmo enraizado em nosso coração. Se você duvida, basta assistir uma típica reunião eclesiástica. Desde a igreja local, até os níveis superiores de nossa organização, parece sempre haver indivíduos que amam mais o poder que sentem possuir do que o Deus que lhes oportunizou servir com seus dons a Sua causa.
É fácil nos esquecermos de onde Deus nos buscou e reconhecer que os dons vieram de Seu Espírito (1 Co 12:11). Em algum momento, passamos a ocupar o centro, empurrando aos poucos Deus para a preferia da vida cotidiana (deixe Ele continuar sendo o Senhor do sábado apenas). Tragicamente, enquanto disputamos o poder, Deus escolhe representantes humildes com os quais consiga Se comunicar sem barreiras. E a obra dEle será concluída por pessoas cujo nome continue desconhecido em todos os círculos do poder.
O problema não está na liderança em si, nem poderia estar, uma vez que Deus usou grandes líderes em momentos-chave da história, como Abraão, José, Moisés, Josué, Gideão, Sansão, Samuel, Daniel e Neemias, para citar alguns nomes. Liderança nunca foi sinônimo de desonestidade, corrupção ou opressão. Entretanto, o fato de alguém ser chamado para servir a Deus de modo especial demanda mais íntima comunhão com Ele e uma vida à altura do serviço. Somente líderes espirituais se acham prontos para servirem em assuntos espirituais. Se o talento, a habilidade de planejar, a coragem para executar e força de vontade não forem devidamente consagrados a Deus, a liderança se converterá em um jogo de poder com um verniz eclesiástico.

Deus chama a todos para usarem seus dons a fim de semear o evangelho, apressando o regresso de Jesus. Na luta com o orgulho e atitudes carnais, podemos aprender com o exemplo de Saul, o primeiro rei de Israel. Esse livro foi escrito especialmente para a atual geração de adventistas, que muitas vezes é tentada a desanimar em face de tantos conflitos que existem em suas igrejas locais ou tenta achar um caminho para renovar a fé adventista. Lembre-se de que Deus conduz essa igreja. E, se seguirmos os métodos dEle, buscando reavivamento e reforma pessoais, veremos uma melhora nos relacionamentos entre cristãos, além de um caminho que permita viver o evangelho em sua plenitude, incluindo o uso de nossos dons para cumprir a missão.

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quarta-feira, 7 de setembro de 2016

TODOS TEMOS UM PAI


Todos temos um pai – um modelo gerador de perspectivas. Se nosso pai, nosso referencial, aquilo que origina nosso filtro para interpretar a realidade, não for Deus, certamente teremos alguém ocupando a lacuna. Mais do que uma denúncia da hipocrisia dos judeus, João 8:38 ensina que há a presença do conflito cósmico por trás daquilo que usamos para determinar o que é a verdade. Nossos pressupostos não se limitam a tentativas humanas, mas possuem a influência do mundo espiritual. Isso implica que o resultado final, aquilo que escolhemos ser e a forma como atuamos no mundo, nos identifica com Deus ou com o diabo (Jo 8:41-42).

De forma similar, o apóstolo Paulo afirma que o “deus desta era cegou o entendimento dos descrentes, para que não vejam a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus.” (2 Co 4:4). Segundo o texto, descrer é o resultado da cegueira provocada pelo diabo. A declaração é complementada com a ideia de que Deus “mesmo brilhou em nossos corações, para a iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo.” (v.6). Assim, da mesma forma como no texto de João, crer ou descrer não depende simplesmente de argumentação lógica ou exposição da verdade de modo proposicional (ainda que Paulo aluda à “clara exposição do evangelho”, v. 2); para além dos elementos cognitivos e racionais há o poder de pressuposições, influenciadas pela atuação de poderes espirituais. Cremos mediante nossa escolha espiritual em nos “filiar” a um lado do embate cósmico. Depois disso, criamos uma rede de ideias pré-concebidas contra ou a favor da verdade. Por essa razão, Jesus sabia da inutilidade em realizar sinais diante de uma geração incrédula (Mt 12:29; 16:4). E novamente Paulo postula que as coisas espirituais se entendem de modo espiritual, ou seja, por pessoas relacionadas com elementos espirituais (1 Co 2:13-14), sem excluir a atuação do Espírito do processo de decodificar a mensagem divina aos homens (a Verdade, na linguagem joanina).

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domingo, 15 de março de 2015

CONTRA A ACOMODAÇÃO


A vida cristã não pode capitular diante da rotina mundana

"Quando porém vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra?” (Lc 18:8). A conhecida sentença de Jesus se parece com um preciso relatório de autópsia. A autópsia da mentalidade egoísta e mundana, tão disseminada no mundo contemporâneo. Não me refiro à sociedade secular. Infelizmente, a profecia antecipa a situação espiritual dos servidores de Seu autor.
Temos de olhar para as palavras de Jesus como um chamado à vigilância no contexto de Sua segunda vinda. Se a fé seria artigo escasso em época de promessas de fartura consumista, não seria por falta de disponibilidade do produto: Deus continua dando fé a quem solicita (Jd 1:3). A crise se relaciona com a falta de demanda. Poucos cultivam a insistência na oração, como a viúva pobre da parábola – história que antecede a afirmação de Jesus e lhe serve de moldura (Lc 18:1-8).
Para o senso comum, fé se parece com um sentimento de pessoas idosas, com pouco estudo e desassistidas pelos serviços públicos. Porém, não se iluda com as aparências: fé não é um sentimento, mesmo sentimento religioso, do tipo que é atribuído a algumas poucas pessoas – por serem mais intuitivas ou dotadas de sensibilidade apurada.
Tampouco a fé se opõe à razão. Ouvi um palestrante que fez a infeliz afirmação de que, ao dispormos de evidências, não precisamos de fé. Nada mais contrário ao sentido etimológico da palavra grega pistis, muito frequente no Novo Testamento; traduzida como fé, transmite a ideia de confiança, crer em algo fidedigno, que se mostre bem estabelecido e digno de crédito. Definitivamente, fé cega nunca foi sinônimo de confiança absoluta!
Por último, fé não se refere aquela esperança que consola os desajudados. Fé não é o consolo fictício dos sem recursos, mas o recurso real dos inconsoláveis pelo pecado e maldade do mundo. Ter fé leva a atuar no mundo em obediência à vontade divina, mesmo quando isso requer atitudes e comportamentos que expressem recusa e negação do status quo.
É preocupante a dissociação atual entre fé e estilo de vida. Devemos nos perguntar se o discurso de que basta "ter Jesus no coração" não chegou ao povo remanescente. Como se sabe, por baixo desse slogan cativante, há toda série de escusas para se manter comportamentos bem diferentes da vida de obediência resoluta que a Bíblia oferece como modelo ao cristão.
Há sempre o risco de deixarmos gostos e preferências definirem, como critérios últimos, nosso curso de ação. Agindo assim, a tendência será a acomodação. E se acomodar constitui o tipo de experiência diametralmente oposta à dinâmica da vida cristã.
Ao permitir que a fé se aproprie da graça transformadora, somos moldados dia após dia à semelhança de Jesus (Rm 12:2). Deixamos de ser quem usualmente éramos (Gl 2:20). Também passamos a ignorar os reclamos do mundo, com tudo o que ele oferece – séries de TV com seus enredos violentos e sensuais; músicas estimulantes (mesmo aquelas de alegado cunho cristão); frequência a casas noturnas, cinemas e shows (alguns até promovidos por cristãos, que, na pratica, pouco diferem das vertentes seculares); relacionamentos sexuais sem compromisso; alimentação à base de fast food e tantos outros itens.
Seria impossível enumerar as atrações que existem e parecem comuns. Mesmo as listas criadas pelo apóstolo Paulo são sugestivas (cf.: Gl 5:19-21; Ef 5:3-8; Cl3:5-11), mencionando praticas bem conhecidas, as quais deveriam ser denunciadas por aqueles que aceitassem a nova vida em Cristo (Fl 2:14-16).
O ponto principal: sem uma fé viva, fundamentada na Bíblia e exercitada em uma vida dependente do Espírito Santo, seremos cristãos reféns de fenômenos culturais que nos submetam a um processo de acomodação em relação ao mundo. E surgirão as mais poéticas desculpas: "não podemos nos alienar das pessoas"; "por que ser tão radicais?"; "vamos nos parecer com o mundo para evangeliza-lo"; "são apenas questões culturais sem importância". Entregando, munidos da Palavra de Deus e dos testemunhos de Ellen G White, a igreja remanescente possui luz suficiente para não se acomodar ao mundo. E, fazendo assim, manterá suas principais características: guardar os mandamentos de Deus e ter a fé de Jesus (Ap 12:17; 14:12)!

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sábado, 3 de janeiro de 2015

POR QUE SENTIMOS FASCÍNIO PELOS ANIMAIS SELVAGENS?

Acho que eles gostam de um cafuné

Os grandes felinos são animais que exercem fascínio sobre todos os que apreciam a natureza. Por fascínio temos que entender tanto profunda admiração como medo. Afinal, tigres, leões, leopardos, onças e animais semelhantes possuem pelagens fabulosas (as quais, infelizmente, atraem a indústria da moda). Ao mesmo tempo, são animais agressivos, predadores robustos e insuperáveis. Mesmo ante o sonho de se aproximar deles, a sensatez e instinto de preservação não fariam com que alguém chegasse a tanto.
Mas será mesmo? Ali estava eu perante três tigres (que não me pareciam tristes, como aqueles do famoso trava-língua infantil). Aliás, um deles estava mais agitado, movendo-se bem perto de mim. Estanquei. Ao olhar dos lados, percebi que meus acompanhantes, curiosos para ver as feras tanto quanto eu, já haviam dado alguns passos para trás. Apenas outra mulher, que já se submetera à experiência continuava ali, imóvel como eu e ainda mais exultante.
Finalmente, recebi permissão para ficar atrás dos tigres e acaricia-los. O que parecia um sonho se materializou em uma foto comprobatória, senão de coragem, ao menos de que é possível admirar o fascínio que os felinos exercem mais de perto.

  Chegar perto dos filhotes é mais fácil!

Por mais incrível que a descrição soe, não é incomum. No zoológico de Lujan, na Argentina, os visitantes podem interagir de forma intensa, entrando na jaula dos animais, inclusive. Entretanto, há uma polêmica em torno de Lujan: muitos afirmam que os animais sejam dopados, mal alimentados e recebam tratamento cruel. Outros argumentam serem os felinos animais de hábitos noturnos, razão pela qual passem sonolentos boa parte do dia (quando ocorrem as visitas).
Uma peculiaridade de Lujan pode explicar a docilidade dos animais: eles são criados em cativeiro e na presença de cães (presentes em todas as jaulas abertas à visitação), o que ajudaria a torna-los mais “sociáveis.” Além disso, o tratamento que eles recebem é duro em alguns momentos. Durante nossa visita ao tigre-branco, ele e outro tigre estavam bem agitados, o que não causou boa impressão em quem estava na fila para vê-los. Em algum momento, o tigre branco recebeu um forte golpe do funcionário responsável, para espanto dos presentes. O rapaz simplesmente jogou o balde por cima da cabeça do animal, o que fez com que ele se aquietasse.

    Esse aí não estava muito simpático, o que explica a distância

Visitas mais tranquilas fizemos ao urso e ao elefante (que apenas comeram de nossa mão). No momento em que eu e minha esposa resolvemos almoçar, alguns patos se intrometeram, em um bando inconveniente. Alguns da gangue até batiam o bico, pedindo nossas bolachas. Acabamos cedendo à pressão, o que foi um erro: quando recebiam comida, insistiam por mais. Resolvemos ignorá-los por um tempo. Depois subimos na mesa, a fim de evita-los. Foi quando uma llama, animal raríssimo, quase extinto, nos surpreendeu pelas costas e chegou perto de pôr o focinho no pacote. O jeito foi procurar um lugar menos frequentado para concluir a refeição…

Tão dócil que quase levamos para casa...

O momento mais emocionante foi o contato com o leão. Acariciar sua juba áspera, esparramada pelas costas descomunais traduziu o paradoxo em torno do fascínio. Se tirar fotos com filhotes de leões e tigres se revelou algo tranquilo e prazeroso, não se pode negar que o encontro com leões adultos seja mais prazeroso, embora nada tranquilo. Apesar da presença de cuidadores do zoológico, o medo ainda está ali, latente, perpassando a admiração que o rei dos animais causa em qualquer um.
À saída, eu e minha esposa observamos a reação das crianças na parada de ônibus, dando folhas verdes na boca de gamos do outro lado da cerca. Pareciam feitas para aquilo, para aquele tipo de contato com os bichos. Aliás, como será ver animais novamente depois de Lujan? Sem poder interagir e se limitar a vê-los por trás das grades, parece que não será o mesmo. Que bom seria usufruir de um contato mais puro com animais silvestre, sem o risco que os seres selvagens nos oferecem.
Muitas fábulas e histórias fictícias apontam homens e animais juntos, muitas vezes até retratando seres irracionais personificados, os quais adquirem trejeitos humanoides. Ao contrário disso, a Bíblia, livro sagrado dos cristãos, apresenta diferenças qualitativas entre homens e animais, afirmando que apenas os primeiros foram criados “à imagem e semelhança” de Deus (Gn 1:27). Recebendo o domínio sobre toda a criação, o que incluía os demais seres vivos, os seres humanos exerciam a função de zelar por eles, em uma espécie de domínio benevolente. Afinal, a primeira função do homem foi nomear os animais (Gn 2:19-20), o que, na cultura hebraica, indica que ele os comandava (Gn 1:28). Dominar com responsabilidade: um excelente paradigma para o homem do século XXI, envolto em tantos dilemas ambientais.

  Quase ela se esqueceu da comida e levou minha esposa...

Se a interação entre homens e animais era perfeita no Éden bíblico, parece que o fascínio que os animais ainda mantém sobre nós é um resquício disso. De igual modo, o medo que temos de alguns deles é herança dos primeiros homens: mais precisamente, o medo é resultado do pecado, que quebrou a dinâmica existente entre humanos e natureza. Ao invés de respeito e harmonia, haveria medo, matança e morte por toda a Terra (Gn 3:17-19).
Para aqueles que acreditam na promessa bíblica, a história não acaba aqui, precisamente onde nos encontramos. Há uma esperança: a restauração de todas as coisas (Is 65:17-18), promessa reafirmada e ampliada no Novo Testamento (2 Pe 2:13; Ap 21:1-4). E, quando todas as coisas voltarem ao equilíbrio idealizado pelo Criador, poderemos nos aproximar de animais e interagir com eles! Não mais entre grades e cercados por cuidadores, porém de forma espontânea e natural. Observe como o profeta descreve a cena futura:

O lobo viverá com o cordeiro, o leopardo se deitará com o bode, o bezerro, o leão e o novilho gordo pastarão juntos; e uma criança os guiará. A vaca se alimentará com o urso, seus filhotes se deitarão juntos, e o leão comerá palha como o boi. A criancinha brincará perto do esconderijo da cobra, a criança colocará a mão no ninho da víbora. Ninguém fará nenhum mal, nem destruirá coisa alguma em todo o meu santo monte, pois a terra se encherá do conhecimento do Senhor como as águas cobrem o mar. (Is11:6-9)

O lobo e o cordeiro comerão juntos, e o leão comerá feno, como o boi, mas o pó será a comida da serpente. Não farão nem mal nem destruição em todo o meu santo monte", diz o Senhor. (Is 65:25)


Sem dúvida, um mundo como o que Deus promete compensa toda espera. Além de despertar um outro tipo de fascínio, cheio de admiração e gratidão.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

JESUS, O SERVO SALVADOR


Se alguém predissesse, por ocasião do descobrimento do Brasil, que a primeira presidente tomaria posse apenas quinhentos anos depois, isso seria fantástico! Alguns mal conseguem pensar na possibilidade, por sua inverossimilhança.
Entretanto, os profetas da Bíblia foram capazes, pelo Espírito Santo, de prenunciar eventos nacionais ou de escopo universal com séculos de antecedência. Isaías foi um desses profetas. Não à toa, é conhecido como “profeta messiânico”, pois determinadas profecias que escreveu anunciam o que Jesus faria com cerca de setecentos anos de antecedência!
A primeira seção do capítulo 49 de Isaías faz parte da coleção de poemas proféticos sobre Jesus. Neste segundo poema[1], o Servo de Deus é visto como Salvador. Olharemos mais de perto o que nos ensina o profeta em seu texto.

I.     Jesus, o modelo de Servo (v. 1-3): Isaías apresenta um retrato majestoso de Jesus. Aqui vemos nosso Salvador assumir a condição de modelo da humanidade. Muito embora não possamos, pelas próprias forças, reproduzir o caráter imaculado do Filho do Homem, pela fé temos de nos dispor a permitir que o Espírito nos leve à semelhança com Ele.
Se a vida cristã se resume a servir a Deus, a motivação para fazê-lo certamente deve ser considerada. Afinal, Deus não pode aceitar um serviço que não encontre no amor Sua propulsão mais genuína. Ao mesmo tempo, em Sua atenção para com as necessidades dos pecadores, Deus destinou Cristo como modelo que deve ser imitado, a fim de oferecermos a Deus serviço aceitável. Mas o que Isaías diz sobre Jesus como Servo? Vejamos:

1. Um Servo escolhido desde o nascimento (v. 1): O Servo possui um senso de vocação, em razão do Seu chamado feito por Deus.[2] Apesar de o texto chamar o Servo de “Israel” (v. 3), Ele se distingue do povo infiel.[3] De modo semelhante, somos chamados para uma vocação, que consiste em servir a Deus não porque a intuição nos conduziu a isso; ao contrário: somente servimos porque ouvimos Seu convite.  
2. Um Servo preparado para a missão (v. 2): O poder do Servo reside no efeito de Sua palavra. A comparação da pregação com a espada se repete no Novo Testamento em relação a Jesus (Ef 6:17; Hb. 4:12; Ap 1:16). [4] O Servo é apresentado como instrumento decisivo nas mãos divinas, além de gozar da proteção do Altíssimo. Se Jesus, o perfeito Filho de Deus, sujeitou-Se dessa forma à vontade do Pai, muito mais nós devemos abrir mão de ambições e opiniões humanas para que o Senhor faça de nós o que Lhe parecer melhor.
3. Um Servo que traria glória a Deus (v. 3): Enquanto o Israel literal falhara em sua missão abraâmica de ser uma bênção para as nações, o Servo faria exatamente isso: seria a “luz para os gentios” (v. 6), semeando a glória de Deus por toda parte.
 II. Jesus, o modelo de confiança (v. 4-5): Assim como os melhores laços humanos se desgastam em circunstâncias adversas, o relacionamento entre homem e Deus igualmente se enfraquece sob determinadas circunstâncias. Embora isso ocorra com frequência, não é algo inevitável. Se aprendermos com Jesus a confiar em Deus, podemos ser vitoriosos em todo o tempo. Ele é nosso modelo de confiança. Observe as considerações do profeta:

1. Jesus confiou quando o trabalho parecia em vão (v. 4a): Antecipando (ou mesmo inspirando) o magnífico texto de Filipenses 2:5-11, Jesus já é retratado por Isaías como Se despindo de Sua glória, ao passo que assume na Terra vida de labuta e controvérsias.[5] Saem os anjos do Seu lado, e entram os delinquentes juvenis de Nazaré. As ruas de ouro são trocadas pelo pó da Palestina. A adoração merecida dá lugar a insultos. A vida de Jesus foi dificultosa, em diversos aspectos.
Faz bem lembrar dessa verdade quando nos achamos tentados ou desanimados. Talvez nenhum outro hino contraste a insignificância de nossas queixas em comparação com aquilo que o Mestre sofreu como o faz A Senda do Calvário (HA 66). Ao cantar a sós essa melodia, quantas vezes me dei conta de que nenhum esforço meu ou aparente sacrifício poderia se igualar ao que Jesus teve de viver.
2. Jesus confiou quanto à sua recompensa (v. 4b): Apesar do sofrimento a que Se submeteu, o servo suspira aliviado: Ele está seguro de que mesmo enfrentando a rejeição, Deus lhe guiará ao sucesso.[6] Para nós, privilegiados por viver em um tempo no qual tantas promessas se acham cumpridas, torna-se até mais fácil olhar para o passado e confiar que Deus continuará no presente assegurando nosso futuro.
3. Jesus confiou quanto aos recursos para a missão (v. 5): quantos de nós se consideram sem talento ou incapazes? Se por um lado devemos ser humildes, não podemos desprezar os dons dados por Deus, ou rebaixar o chamado que nos fez. Para mim, sempre foi desafiante lidar com eventuais elogios após uma pregação ou palestra.
A princípio, tentava desconversar, dizendo que “a mensagem era apenas uma coisa simples” ou que eu não falara “tão bem assim”. Porém, há alguns anos, percebi que seria impróprio diminuir a mensagem transmitida. Tampouco, deveria me sentir constrangido diante de elogios. Se tudo provém de Deus, é a Ele que a glória deve ser levada. Desde então, se sou elogiado, respondo francamente: “Deus seja louvado”. A Palavra é dEle, não minha. E onde a Palavra é ensinada, coisas maravilhosas ocorrem. Se confiarmos em Deus, não nos sentiremos tentados a supervalorizar nossa contribuição em Sua obra ou mesmo nos achar ineptos. O próprio Senhor Jesus depositou Sua confiança (enquanto homem) em Deus e descansou nEle. Sua força agora provinha do alto. E o mesmo pode se tornar realidade com respeito a nós!
III. Jesus, o modelo de missão (v. 6-9): John Wesley tornou-se célebre, entre muitas coisas, pela afirmação de que sua “paróquia era o mundo”. A grande comissão (Mt 28:18-20) não é menos abrangente do que a frase do fundador do metodismo. Recentemente, a Igreja Adventista admitiu em um documento     que jamais conseguirá terminar sua missão, humanamente falando. Abandonamos o triunfalismo de outras eras para confessar que precisamos de reavivamento e reforma.[7] Quando olhamos para Jesus, encontramos o resultado glorioso de nosso envolvimento missionário.

1. Jesus é salvação para todos (v. 6): Conforme notamos anteriormente, Israel se fechou em seu casulo de santidade cerimonial, ignorando o dever de apresentar a metamorfose espiritual aos seus vizinhos pagãos. Agora o Servo messiânico restauraria não apenas o próprio Israel (em uma antecipação de Isaías do exílio que o povo sofreria cerca de dois séculos depois); Jesus viria ser “luz para os gentios”. Em nome dEle, cada um de Seus discípulos precisa anunciar a mensagem de esperança. Mesmo em um contexto pós-moderno,[8] as pessoas do século XXI precisam conhecer a Verdade que Ele representa, a única Verdade.
2. Jesus receberá o reconhecimento de todos (v. 7): Paulo nos informa que a rejeição do Messias por parte de Israel é que acarretou que o Evangelho fosse pregado até os confins da Terra.[9] E o mesmo apóstolo assevera que, um dia, “todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra” se dobrará e “toda língua” confessará que Jesus é o Senhor (Fl 2:10-11, NVI). Jesus será o vencedor no conflito. Decidindo permanecer ao Seu lado, já partilhamos desde agora dessa vitória nEle.

Jesus disse que Seus discípulos fariam uma obra maior do que a sua. Ele se referia ao alcance da obra deles, não limitados aos limites geográficos e ao escopo curto de Seu ministério. Em todo caso, seria a obra dEle através dos discípulos (cf.: Jo 15:5).
Se olharmos o modelo de obediência dado por Jesus, teremos uma base segura para servirmos a Deus. Embora nos seja impossível sermos exatamente como nosso Mestre, ao comungar com Ele, nos aproximaremos ainda que imperfeitamente de Seu caráter perfeito. Deus nos chama para servi-lo com inteireza de coração e propósitos.




[1] Os chamados cânticos do Servo se acham: Is 42: 1-7; 49:1-9; 50:4-11; 52:13-53:12.
[2] James E. Smith: The Major Prophets (Joplin, Mo.: College Press, 1992), edição eletrônica – comentário sobre Isaías 49:1-13.
[3] Luder G. Whitlock; R. C. Sproul; Bruce K. Waltke; Moisš Silva, The Reformation Study Bible: Bringing the Light of the Reformation to Scripture : New King James Version (Nashville: Thomas Nelson, 1995), edição eletrônica – comentário sobre Isaías 49:1.
[4] Earl D. Radmacher; Ronald Barclay Allen; H. Wayne House, Nelson's New Illustrated Bible Commentary (Nashville: Thomas Nelson Publishers, 1999), edição eletrônica – comentário sobre Isaías 49:2.
[5] David McKenna; Lloyd J. Ogilvie, The Preacher's Commentary Series, Volume 18 : Isaiah 40-66 (Nashville, Tennessee: Thomas Nelson Inc, 1994), p. 127.
[6]John MacArthur Jr., The MacArthur Study Bible (Nashville: Word Pub., 1997), edição eletrônica, comentário sobre Isaías 49:4.
[7] O documento foi votado no Concílio Anual da Associação Geral, em 11 de Outubro de 2010.
[8] Sofre os desafios do pós-modernismo à fé adventista, consultar Douglas Reis, Marcados pelo futuro: vivendo na expectativa do retorno do Senhor (Niteroi, RJ: ADOS, 2011). A Divisão Sul-Americana da Igreja Adventista do Sétimo Dia também preparou uma série especial de estudos bíblicos, voltada para universitários e pessoas de mente secularizada. Consultar: Michelson Borges (Ed.), O Resgate da Verdade (Brasília, DF: DSA, 2012).
[9] J. Vernon McGee, Thru the Bible Commentary (Nashville: Thomas Nelson, 1981) vol. 3, p. 303.


sexta-feira, 2 de maio de 2014

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

ELE MERECIA ISSO?


Olhe para esse exemplo. A barba esverdeava no rosto esquálido. Olhos esbugalhados, ouvindo cítaras alegres ou alaúdes festivos – sons de um mundo que ria enquanto sua crença era pisoteada. Você consegue ler a linha de dúvida insinuando-se em sua testa franzina? Consegue distinguir a boca balbuciar a prece sentida, desconjuntada? Esse é um homem confuso, questionando seu Deus sobre até quando ele terá de suportar a prova, sem aparente socorro. Tudo lhe parece injusto, cruel e desnecessário. Por que isso? E por que com ele?
Você não se enganou. Esse é mesmo João Batista!
Incrível, não é? Há pouco ele estava pregando no rio, estufando o peito para desafiar a hipocrisia dos religiosos. Seus cabelos respingando a água do Jordão pareciam cobertos de cristais gloriosos – que dia! Fora o batismo de Jesus, o alvo da missão de João.
João agira como uma seta de neon que indicava o Messias. Ele o batizara. Apresentara-o ao povo. Direcionara seus discípulos a Cristo. Afinal, João era a voz do deserto, o alto-falante do céu. Suas convicções? Mais claras do que a do mais bem sucedido empresário. Se uma revista de empreendedores fizesse uma matéria sobre a importância de manter o foco, deveria entrevistá-lo! João sabia quem era e não admitiu que o confundissem com o Messias (embora, sob uma ótica mundana isso fosse vantajoso).
E o que foi feito desse pilar da fé? O João de tantas certezas ficou reduzido ao João que duvida (Mt 11:3). Leia com cautela suas palavras:

Quando ele ouviu falar do que jesus estava fazendo, enviou seus próprios discípulos para perguntar: “Você é quem estávamos esperando ou temos de continuar esperando?” (The Message)

Sei o que você está pensando: nem parece o mesmo João. Ele, quem arrebanhou pessoas para Cristo, expressou incerteza quanto a Sua identidade messiânica. A bússola de João perdera o magnetismo. Sem foco – semelhante a muitos jogadores de futebol, que depois de carreiras estelares em clubes europeus, voltam a jogar no Brasil mais preocupados em participar de festas e manter contratos comerciais lucrativos do que em recuperar a forma física.
Isso significa que João fosse superficial? Não creio se trate disso. Muitos mártires do passado experimentaram o mesmo. Dúvida, medo, a tentação de abjurar de sua fé. Alguns até o fizeram e, depois, arrependeram-se amargamente, voltando a professar sua crença na doutrina do evangelho com tal veemência que foram levados ao sacrifício.
Deus distingue um coração que luta sinceramente de outro que não suporta as provas, por falta de alicerce. Na hora mais escura, a luz invisível é percebida quando a fé persistente prevalece. Aquela era a escuridão do Batista.

E quanto a nós? Que temos cultivado em nossa experiência? O cristianismo de momento pode ser atrativo e estimulante. Todavia, a questão é quanto ele dura. Na hora mais escura, de que ele nos aproveitará? Sem o exercício de fé constante e madura, o menor sopro assumirá proporções ciclônicas!


sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

CONFIE APENAS EM QUEM REALMENTE SABE O FUTURO


Hermes (nome fictício) entrou no terreiro para consultar o famoso pai-de-santo maranhense, cuja reputação inclui ser conselheiro de um famoso senador brasileiro. O religioso predisse que o senhor de meia idade ganharia uma pequena fortuna em um cassino naquela noite.
Saindo dali, Hermes dirigiu-se ao cassino, no qual tentou a sorte. Em consonância com as palavras do pai-de-santo, ele começou a ganhar em todos os jogos e, ao fim da noite, trocou suas filhas por maços de notas. Todavia, a noite ainda não estava finda.
Ao voltar para casa, o ganhador se viu abordado por dois motoqueiros. Ele ainda tentou salvar o que ganhara no jogo, lançando o saco com as notas por cima do muro. Quase ao mesmo tempo, um dos perseguidores baleou Hermes, que, não resistindo, veio a falecer.
Hermes era um ex-pastor adventista. Estive na cidade em que ocorreu seu funeral. Ali estava alguém que servira a Deus em algum momento de sua vida, mas que abrira mão do ministério pelo vício do álcool, após enviuvar.

A história, por mais trágica, ajuda a constatar que apenas Deus detém a chave do futuro. Satanás conhece de forma imprecisa alguns eventos e possui certa liberdade para executar seus planos de forma limitada, o que explica porque muito do que ele diz se cumpre. Porém, somente o regente do Universo conhece o fim desde o princípio (Is 41:4).

Veja também:

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

SURPRESAS DA FÉ - PARTE 1


Zacarias é um nome bíblico bem comum. E, semelhante ao seu nome, estamos diante de um religioso comum, atuando de forma discreta em seu turno. Nada de especial. Quando saiu da cama e calçou seu chinelo, Zacarias não tinha a presunção de encontrar nada além do que se espera ver em um dia de trabalho. Se você olhasse em sua agenda, não veria qualquer menção a algo do gênero: “11 horas: encontrar-se com o anjo no templo”. Todavia, às vezes o extraordinário eclode na esquina de nossa rotina comum.
A coisa aconteceu assim:

Conforme o costume dos sacerdotes, ele havia sido escolhido por sorteio para queimar o incenso no altar e por isso entrou no Templo do Senhor. Durante o tempo em que o incenso queimava, o povo lá fora fazia orações. Então um anjo do Senhor apareceu em frente de Zacarias, de pé, do lado direito do altar. (Lc 1:9-11, NTLH).

Claro que Zacarias sabia quem eram os anjos. Ele já lera sobre eles no Antigo Testamento. Conhecia o relato da visita deles a personalidades como Abraão, Jacó, Manoá e sua esposa (os pais de Sansão) e tantos outros. Ocorre que você não esbarrava em anjos o tempo todo nas ruas de Jerusalém! Aliás, fazia algum tempo desde que o último anjo fizera uma visita ao povo escolhido. Muitos sacerdotes já nem criam mais neles!4 
O que um anjo fazia ali? Sem dúvida, não viera tomar uma xícara com café (ou cevada)! O mensageiro celestial portava um recado. Algo incrível aconteceria. E Zacarias faria parte daquilo – por mais inacreditável que parecesse!
A primeira reação do sacerdote e futuro papai de profeta foi medo. Ele se sentiu profundamente aterrorizado pela companhia repentina. Você já teve medo de algo que Deus fez? Já sentiu o coração ficar abaixo de zero com o toque do Eterno? Era bom demais para crer, mas estava lá, acontecendo diante de seu olhos fora das órbitas.
Claro que o anjo tinha boas notícias. Zacarias veria que suas orações foram atendidas e que ele em breve seguraria seu filho nos braços (Lc 1:13). O cheiro de xampu infantil ficaria impregnado nas mãos cheias de calo. Depois de tantos anos, ele e sua amada Isabel poderiam voltar a pensar em enxoval e economias para as fraldas.
Contudo, não se trataria apenas de um sonho. O pacote completo incluía solene reponsabilidade. O menino seria especial. Um mensageiro de alegria. Traria renovação e satisfação a um povo oprimido pela maldade. A aridez da religião seria irrigada com a mensagem do profeta do Jordão.
O menino seria chamado João, nome que está associado com a palavra para “graça”. Graça é quando o Ser supremo beijo o pó que o cerca e que jamais poderia beijar sua face em retribuição – eu e você somos esse pó, diante do glorioso Deus que nos trata favoravelmente. Não merecemos e recebemos. Isso é graça.
Tudo aquilo soava fantástico. Até demais. Zacarias era um sacerdote, que orava regularmente e que tinha diante de si confirmação sobrenatural de que Deus o ouvira. O que fez ele? Começou a exclamar “aleluia”, enquanto pulava de felicidade? Infelizmente, sua reação tinha o ranço da dúvida que persegue um adorador amargurado:
E Zacarias disse ao anjo: “De acordo com que fato eu saberei disso? Pois, digo por mim, sou um homem idoso, e minha esposa é avançada em anos. E o anjo respondendo, lhe disse: “Digo por mim, eu sou Gabriel que permanece na presença de Deus, e eu fui enviado com a missão de falar a você e lhe mostrar as boas novas dessas coisas. E atente, você estará continuamente em silêncio e não poderá falar até o dia quando essas coisas tiveram lugar, porque você não creu em minhas palavras, palavras de tal natureza que elas se cumprirão em seu tempo estrategicamente apontado. (Lc 1:18-20, New Testament: An Expanded Translation)

Com mal disfarçada descrença, o esposo de Isabel se manifestou. Talvez fosse a vez do anjo se impressionar – “como esses mortais conseguem ser tão cegos?!”
O texto destaca qual seria a punição de Zacarias: sendo que sua fala expressou descrença, sua mudez serviria para convencê-lo de que Deus é capaz de realizar o que desejar. Às vezes, as maravilhas do Céu nos deixam boquiabertos e mudos, de qualquer jeito mesmo…
 Quando o Senhor levanta a voz, o silêncio humano deixa de ser mero requisito para se tornar o hábitat do sábio – pois quem seria tolo para contestar as palavras do Rei do universo? No templo do silêncio, a alma reverencia quem merece ser ouvido.
Foi fácil para o idoso sacerdote conservar-se mudo? Nos próximos meses, ele não pode comemorar a gravidez com Isabel, nem dizer que ela continuava linda quando a barriga começou a se destacar. Não deu muitos palpites nas cores do quarto da criança. Teve de permanecer quieto, de forma embaraçosa.
Contudo, chegou o dia da mudança: o sol se derramou pelas colinas e se deitou sobre a grama, que agora se iluminava de forma especial. Pássaros cantavam apaixonada e febrilmente. Todos na vizinhança acordaram cedo, expectantes. Uma parteira estava profissionalmente ao lado de Isabel, insegura pela gestação tardia. Às contrações aumentaram, os gritos surgiram, os sorrisos despontaram.
João Batista nasceu!

Zacarias, evidente, estava lá, na primeira fila. As circunstâncias lhe faziam ter muito a comentar. Se pudesse, ele teria falado para todos de sua alegria. Porém, ainda estava sem palavras – literalmente. Os presentes reconheciam o nascimento da criança como resultado da misericórdia divina sobre o casal (Lc 1:57); na verdade, como veremos, Deus estendia Sua misericórdia sobre todos ao levantar João Batista.