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quarta-feira, 31 de agosto de 2016

DO EXISTENCIALISMO PRIMITIVO AO PRINCÍPIO POPEYANO


Do existencialismo primitivo ao princípio popeyano: considerações pseudo-acadêmicas




A genética do existencialismo parece não constar nas discussões filosóficas hodiernas, razão pela qual retomo aqui alguns conceitos que me parecem fundamentais para uma compreensão mais bem acurada da fundação do pensamento contemporâneo. Em um famoso discurso de matizes existencialistas, proferido em Bredock, ainda em 1960, destaco a frase-conceito “yabba dabba doo” (Flintstone, 1960). De etimologia incerta, o termo deveria ser submetido não à arqueologia do saber, mas ao método arqueológico que admite “Algumas vezes, buscar por tesouros perdidos não é arqueologia. É corrida contra o mal.” (JONES, 1986).
Não é de todo inverossímil pensar nas elucubrações a respeito do “yabba dabba doo”, grito de alforria contra uma sociedade conservadora. Aliás, aliada a essa expressão, nos deparamos com outra de teor igualmente libertário, que remonta a um período posterior: “Capitão Caveeerna” (CAVERNA, 1977). Em ambas se depreende uma ontologia da rusticidade, e é forçoso evocar a noção do ser em estado bruto, ou cheio de astúcia, para empregar um termo caro a Chapolin (1970).
Todavia, o “elo”, no dizer de Cebolinha, seria confinar tais libelos à sua própria época, esquecendo-se de que “yabba dabba doo” carrega uma compreensão hermenêutica poderosa – e “com grandes poderes, vem grande responsabilidade” (PARKER, 1962). Aqui me refiro à vitalidade do ethos primitivo como incentivo libertário, fator primordial para se reaver a vitalidade em tempos nos quais sói constatar, no dizer de Hard, “oh vida, oh azar” (1962). É preciso também constatar, parafraseando o último Yoda, que de mais ânimo precisamos nós para uma consciência nova ter. Talvez seja uma outra maneira para a experiência de ativar o sétimo sentido (SEYA, 1986).
Somente a legitimação da consciência histórica evitará auto repressões frequentes (MENUDO, 1984). Não posso olvidar nesse ponto o tema do ciúme como forma repressiva (ULTRAJE A RIGOR, 1985). Mensurar o preço da repressão é medida sinus qua non para um apelo à experiência yabbadabbaduística. Aliás, outro cuidado que é mister é mensurar a síndrome do “trauma de Marta” (BATMAN, 2016).

Resta um alento para a condição de insuficiência instigada pelas demandas dessa selva de Pedras (TITÃS, 1989): a busca por um elixir potencializador. Isso já é adotado por algumas culturas, como o exemplo de comidas exóticas (NATIONAL KID, 1960). E não se pode escapar do exemplo clássico legado pela ideologia popeyana – o famigerado espinafre (POPEYE, 1929). Creio que esses artifícios darão suporte a uma existência municiada de “ousadia e alegria” (NEYMAR, 2010). Enquanto isso, o ser-aí fica por aí mesmo…

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

O "XIS" (BRANCO) DA QUESTÃO

Será esse meu futuro?
Ainda em férias, acordei ao lado da esposa. Fizemos o culto juntos, oramos e ainda conversávamos na cama. Já estávamos quase levantando, porque tínhamos em mente ir para a praia cedo. Foi quando Noribel, olhando fixamente para a minha cabeça, disse: “amor, um cabelo branco”.

Serei sincero: não me surpreendi. Na verdade, todo o tempo as pessoas acham que estou com cabelos brancos. O tom do meu cabelo não chega a ser preto e, contra a luz, alguns fios refletem, dando a impressão de serem claros ou mesmo brancos. Mas minha esposa insistiu e foi ao banheiro, buscar uma tesoura pequena.

Em poucos instantes, ela achou novamente o fio que a impressionara. Cortou-o em duas partes e me mostrou: branco, completamente branco. O primeiro que assomou na minha jovial (agora nem tanto!) cabeleira.

Confesso que não é das sensações mais agradáveis do mundo descobrir indícios de calvície ou encontrar cabelos brancos. Se do primeiro mal estou longe (geneticamente longe de sofrer), o segundo me alcançou hoje. Peguei as duas metades do “intruso albino” e levei-as para o escritório, colocando-as uma sobre a outra em cima do arquivo. O branco das duas partes do fio ganhou novos ares sobre a superfície cor de tabaco. Formou-se um “Xis”. E o “Xis” me remeteu à hereditariedade.

O pai teve seu primeiro cabelo branco aos vinte e seis ou vinte sete anos, já não me lembro. Minha mãe, só teve fios brancos depois dos trinta. Bem, tecnicamente, ela não tem nenhum fio branco na atualidade (coisas de mulher).

O que achar um cabelo branco mudou para mim? Praticamente nada. A não ser pelo fato de criar certa expectativa, um sentimento de que uma fase nova da vida surge a galope. E tal fase (maturidade? Meia idade? Pouco importa o nome...) será curtido com todos os seus momentos - inclusive, com os próximos cabelos brancos que vão pintar (com perdão do trocadilho) por aqui.
continua...

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

PRESENTE DE NATAL

Eu e minha esposa Noribel passamos o Natal geralmente com meus pais ou meus sogros (que moram a mais de 1000 km de distância entre si). A cada fim de ano, procuramos presentes significativos para a família. Talvez por conta disso, não nos preocupamos tanto em comprar presentes um para o outro, o que acaba ficando para a última hora. Em 2010, não fugimos à regra: lá estávamos nós no Centro de Sapiranga (RS), separados um do outro, cada qual procurando um presente para dar.

Para mim, comprar as coisas das quais ela gosta sempre constitui um desafio. É menos arriscado dar perfumes, cremes e outros cosméticos. Como achar um sapato número 34 e que agrade uma contumaz apreciadora de calçados? Naquele fim de tarde, resolvi inovar e pensar como minha amada. Entrei de loja em loja e fiz as perguntas que ela faria. Procurei olhar da forma como a vejo olhar. Afinal, já acompanhei minha esposa em seus maiores momentos de indecisão – fazendo compras!

Aliás, ultimamente, das duas, uma: ou eu carregava um livro para me distrair ou, no caso de compras em um shopping, corria para a livraria, a fim de esperá-la. Isso não quer dizer que não me importe ou não dê sugestões. Faço comentários em momentos específicos. E nos momentos iniciais (nas primeiras horas!), até consigo ladear minha amada.

Mas confesso que as mulheres têm uma disposição inesgotável quando querem de escolher uma bolsa, um sapato ou um vestido. E a minha é a mais detalhista, pesquisadora e cautelosa consumidora. São características que exigem muita compreensão; outrossim, vê-la feliz compensa qualquer sacrifício! Além de tudo, Noribel é extremamente econômica (e possui muito bom gosto, além de um senso pessoal de respeito às orientações bíblicas sobre vestimenta).

Depois de olhar cinco ou seis lojas, colher cartões, fazer dezenas de perguntas e caminhar um bocado, eu estava exausto. Vira sapatos, blusinhas, saias e outros possíveis presentes. Daí, vi-me forçado a ir para um lugar onde meu cérebro pudesse escolher lucidamente entre as opções. Que ambiente melhor do que a biblioteca pública da cidade?

Apanhei um livro sobre Baudelaire e outros decadentistas, folhei as páginas sem interesse genuíno e me concentrei nos cartões. Pensei e escolhi os sapatos. Ao voltar à loja, pedi que a atendente fizesse um pacote que ocultasse bem o tipo de presente.

Saindo da loja, encontrei-me com minha esposa em um lava-rápido. Ela já estava ao volante. Comprara o meu presente de forma objetiva, dentro da primeira loja que fora – exatamente como costumo fazer! Senti naquele momento que, nas poucas horas em que estivemos separados, representamos o papel um do outro – marido e mulher procurando agir e sentir como seu cônjuge. Sem dúvida, esse presente foi muito especial, acima de qualquer coisa que pudéssemos comprar.

terça-feira, 13 de julho de 2010

DO ROCK PARA A ROCHA

Eu chegava da escola e corria para o quarto de hóspedes. Lá, meu pai guardava uma velha vitrola. Escolhia o disco, soprava bem, garantindo que o pó não prejudicaria a audição. Senão, procurava por alguma fita cassete. Gostava especialmente das guitarras. Geralmente, ouvia vocais melosos: Beatles, Doors ou Black Sabath (eles também têm músicas melodiosas e tranquilas). Casualmente, escutava algo mais dançante. Apenas na adolescência, escutei dance music, e as distorções psicodélicas de Led Zeppelin.

Alguma coisa do som da década de oitenta, hoje tão em voga, povoou a minha infância e adolescência. Pink Floyd, Duran Duran, Simple minds, Dire strait, A-há, Phil Collins e depois Guns n’ Roses e Nirvana. Mas havia brasileiros: Barão Vermelho, Titãs, Raul Seixas, Engenheiros do Havaii, Legião Urbana, Camisa de Vênus (!) entre outros. Todos eles fizeram barulho na velha vitória, no rádio da sala ou no som do carro do meu pai. Hoje são menos do que pálidas lembranças. Em algum super-mercado, quando ouço uma dessas canções, minha memória sente que, de alguma forma, estiveram na minha meninice, e eu os vejo como velhos vizinhos, com os quais se perdeu o contato, e de quem não se tem nenhuma boa lembrança.

À sua moda, os roqueiros eram rebeldes inveterados, uivando de ódio por terem sido abandonados por uma mulher ou doces garanhões, com palavras sensuais. Eles gritavam contra o sistema político ou denunciavam a pobreza com versos de extrema penúria poética (devia ser meta-linguagem)… Toda tentativa de aproximação entre as letras de Rock com poetas (Baudelaire, Rimbaud, Mallarmé, Poe ou os Beats) nunca foi bem sucedida. Os poetas conseguiam ser mais demoníacos, irados e maliciosos do que os garotos com guitarras e tatuagens – além de que os poetas eram incomparavelmente mais inteligentes e possuíam domínio superior da linguagem.

Ainda assim, roqueiros representaram uma cultura surtando, em arroubos de festa ou depressão macabra. O poder de suas estrofes violentas e seus lirismos piegas infestaram as rádios e influenciaram gerações. Até o mundo cristão, que atacou quando pode o rock, hoje tira sua inspiração dos seus acordes para fazer o “louvorzão” de domingo à noite.

Se “o diabo é pai do Rock”, como dizia em estribilho Raul Seixas, é certo que ele é pai do axé, do samba, da rumba, do pagode, do jazz e de muitos outros ritmos sensuais, libertinos e que promovem revolta, depressão e insatisfação. No fundo, o rock, como expressão cultura, demonstra o vazio, tristeza e solidão do coração humano. O Rock é uma fuga, que se mistura com outras, como orgias, drogas e prazer instantâneo. O estilo de vida a ele associado pode parecer, em muitos casos, mero non sense ou algo que faça os pais dizerem: “todo adolescente passa por isso mesmo!”

Entretanto, eu só pude perceber o que faltava quando encontrei o que me completava: Jesus. Quando me tornei um cristão adventista, em 1995/1996, percebi que meu estilo de vida, do qual fazia parte a apreciação pelo Rock, tinha de ser combatido como um inimigo. Alguém justificaria minha reação como um excesso de zelo juvenil, quando se ama ou se odeia algo com incrível volubilidade. Se fosse o caso, porém, meu pensamento teria se modificado, quinze anos depois. Não julgo ser o caso. Ainda penso que minhas descobertas espirituais daquele período se mostraram libertadoras, além de fomentarem padrões estéticos que cultivo até a atualidade.

Por certo, não poderia achar a paz do Céu, a esperança da cruz e cultivar os mesmos valores. Não consigo hoje ouvir nada muito barulhento ou que mexa com meus instintos mais baixos. O lugar das pedras que rolam foi ocupado hoje pela Rocha Eterna e pelos sons que me façam pensar na eternidade de paz
.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

CELULAR: TER OU NÃO TER, EIS A QUESTÃO!

Optei por viver sem celular. Não moro em disco voador. Nem voltei de uma ilha recôndida ontem. Há coisas que somente um assalto a mão armada faz por você!

É claro que existe mais do que isso. Um pouco da minha inadequação com a tecnologia pesa na balança (para alguém que mantém um blog, assumir isso pode parecer até estranho, eu sei).

Em muitas ocasiões, eu me arrependo de não carregar o aparelhinho, indispensável na lancheira de crianças da pré-escola. Hoje, vivi uma situação dessas.

Fui ao cartório, reconhecer firma. Porém, faltava uma informação importantíssima. Para obtê-la, precisava telefonar. Atravessei a rua, fui a uma padaria e fiz o que alguém com vinte anos a mais teria feito sem constrangimento: comprei um cartão telefônico.

Para não escandalizar ninguém com menos de 20 anos, abstenho-me de dizer que convivi com as antigas fichas (a verdade é que as pessoas continuam usando a expressão “ainda não caiu a ficha”, muitas vezes sem entender porquê…).

Com o cartão em mãos, saí à caça de um orelhão, aquelas simpáticas estruturas que os adolescentes confundem com peças de museu. Mas o que seria do cenário urbano sem os orelhões, com suas cores, sua ergonomia e o design arrojado? Minha busca foi parcialmente frutífera: sim, encontrei dezenas de orelhões; não, nenhum funcionava.

Boa parte sofrera atos de vandalismo. Outros tantos, acusavam manutenção. Encontrei uma guarda municipal de trânsito e lhe fiz a pergunta: onde estariam os orelhões em condições de uso? Confesso meu conforto: ela, indignadíssima, também procurava por eles. Ali estávamos dois seres, de universos completamente dessemelhantes, atrelados pela inútil resistência às inovações tecnológicas. Os dois imunes aos encantos dos aparelhos que, de tão práticos, me impediriam de perder alguns quilinhos (ver o lado positivo, eis minha máxima).

Confesso que topei com dois amigos pelas infindáveis quadras percorridas em busca de orelhões em uso. Um, vi ao longe: teria vergonha de lhe dizer, caso me aproximasse, o objeto de minha busca. A outra, traidora, passou por mim, segurando, ora, vejam!, um celular!

Também nem fiz muita questão de pedir informação – receio de causar em algures a curiosidade de perguntar se “flintstone” seria meu nome do meio… Voltei ao cartório, frustrado e exausto. Embalde percorri tantos metros – e a pé, pode? –, sem receber o auxílio de um único orelhão. Ingratos aparelhos, que negam ajuda a um dos únicos que lhes sabe valorizar! Acabei por convencer a atendente do cartório a me permitir telefonar do estabelecimento.

Que posso dizer em minha defesa? Que não recebo ligações a todo instante, que não vivo condicionado ao toque enervante de um carrasco eletrônico e que sou livre de constrangimento em lugares públicos (quando a musiquinha mais cafona escapa de bolsas ou bolsos, e alguém enrubescido tenta encontrar seu celular para, discretamente, desligar o incômodo). Ainda assim, persiste a dúvida. Em alguns momentos, como seria bom ter um celular…

domingo, 18 de abril de 2010

NADA COMO OS ÔNIBUS DE SÃO PAULO

O metrô me deixou no terminal e, uma vez informado, tomei o ônibus que me poria na última etapa do caminho para o UNASP campus 1. Lá seria minha entrevista de emprego. Eu me arrumara para a ocasião e sentia certa ansiedade. Entrei no ônibus longo e tomei assento.

De frente para mim sentara-se um homem negro, careca, com grandes oósculos espelhados. Tive a impressão de que ele me encarava. Entretanto, julguei que a impressão se devia mais à posição dos assentos do que a qualquer outro fator. A viagem transcorreu.

Lá pela metade do caminho, um rapazote loiro, com fiapos de barba, saiu de seu lugar no fundo do veículo, e veio ficar ao meu lado. Aquilo me perturbou por alguns instantes, por parecer desprositado que alguém deixasse seu lugar e viesse sentar-se justamente ali, onde eu me encontrava. Acalmei-me com o pensamento de que não haveria de ser nada de mais.

Eu me enganara. Passados poucos minutos, o rapaz me cutucou. Olhei para ele, que sinalizou para que eu olhasse para frente. Instintivamente, virei-me e o senhor negro, levantou a camisa e me mostrou um revolver cujo cano prendia-se à calça. O homem fez um gesto para que eu mantivesse o silêncio.

Há momentos em que um homem deve mostrar de que é feito. Reuni toda a minha coragem. Afinal, não permitiria que ele simplesmente me pedisse para ficar quieto. Tinha que tomar uma atitude. Olhando firmemente para ele, acenei com a cabeça, concordando!

O rapaz ao lado em revistou e tenho que dizer da sua decepção: um celular sem crédito, um relógio com o vidro trincado, R$ 13,00 – eis tudo o que eles arrancaram de mim (mesmo porque, eu possuía apenas tais bens). “E os cartões de crédito?”, perguntou o malfeitor que tinha a arma oculta. Eu consegui responder, achando alguma graça da pergunta, que não os tinha.

Eles deixaram o ônibus minutos após, ainda pedindo a minha cooperação quanto ao sigilo. Enquanto eles saíam, agradeci a Deus em oração. Bens podem ser comprados. O principal, porém, era a vida, a segurança, o não ter sofrido nenhum dano. Deus guardara-me incólume.

Agradeci igualmente pela minha jaquete marrom que os gatunos deixaram para trás. Na verdade, por se tratar de um presente de meus pais, muito me agradara o tê-la conservado. Mal acabara de proferir esse último preito, quando o mais novo dos assaltes voltou e proferiu a frase chocante: “Passe a jaqueta também”.

Com bastante calma, argumentei com ele que não precisava levar a jaqueta, que fora um presente. Embora ele insistisse, acabou desistindo e voltando a sair do ônibus. A melhor explicação que encontrei para a desistência, humamente falando, foi que provavelmente o rapaz não estivesse armado e também pelo fato de o veículo estar parado esperando que ele descesse. Portanto, não havia muito tempo para que ele insistisse ou talvez arma que usasse para me obrigar.

Do vidro de trás do ônibus, avistei os comparsas ainda me observando, em uma despedida constrangedora. Sinalizavam-me, mostrando que ainda estavam de olho. Pensei: o que me impediria de denunciá-los? Como saberiam? Dei-me conta então de que, muito provavelmente ainda outro integrante da quadrilha permanecera a bordo.

Enquanto essas reflexões me acudiam, um passageiro que estivera todo o tempo ao lado do homem negro me abordou, perguntando o que ocorrera, se eu fora assaltado. Achei fora de lugar a questão. Afinal, o homem, pela proximidade do ocorrido, testemunhara tudo. Não participara diretamente da ação, antes, soubera manter-se icógnito, disfarçando sua presença com discrição total. Desconfiei de que sua curiosidade não passasse de dissumulação. Dei algumas evasivas e esperei até chegar no terminal João Dias.

Assim que desembarquei, restava tomar outra condução até meu destino. Como me achava completamente dilapidado, tive de usar de minha coragem (essa era a hora para agir corajosamente!) para ir até o motorista e revelar minha completa falta de recursos. Expliquei-lhe sobre o assalto. Quamanha naturalidade ele mostrara, que percebi que assaltos deveriam ser frequentes naquelas bandas.

Assim que subi, notei que o mesmo homem curioso que se dirigira a mim após o assalto também embarcara. Em vários momentos da viagem curta, reparei que aquele cidadão me olhara. Aquilo me trouxe preocupação aflitiva.

Quando finalmente cheguei ao UNASP, uma sensação paronóica me percorreu. Todos eram suspeitos. Demoraria ainda meses para que aquilo me deixasse (e, a bem da verdade, ainda sou excessivamente cauteloso). Enfim, nada como uma viagem de ônibus em São Paulo para trazer um pouco de suspense e adrenalina!

segunda-feira, 15 de março de 2010

PRETINHO BÁSICO


Era domingo e eu acabara de fazer uma visita para uma mulher afastada da igreja. Saíra da casa, entrara no carro, dera a partida e… nada! O carro não saiu do lugar. Meio constrangido, falei com a pessoa e ganhei uma carona ao posto de gasolina mais próxima.

Enchi duas garrafas plásticas emprestadas com gasolina e voltei aonde estava meu carrinho, inerte. Achei que a dose de gasolina resolveria o problema, uma vez que o painel indicava que o combustível estava na reserva. Porém, para minha surpresa, meu automóvel continuava autoimóvel. Conclusão: a mulher, seu marido e seus irmãos tiveram de empurrar meu carro, até que ele “pegasse”.

Fiz a próxima visita. Conversamos, lemos a Bíblia e oramos. Quando fui sair… bem, você já imagina. Precisei de mais outra família para empurrar meu carro. Alguém me disse jocosamente que “família que empurra o carro do pastor unida, desce ao tanque batismal unida!”

Ainda precisava buscar minha esposa no centro da cidade. A cada semáforo fechado, eu reduzia um pouco, mantinha a distância, e continuava avançando devagar, sem jamais parar o veículo de vez. Acontece que, mesmo com toda essa manha, o carro me deixou na mão novamente. E como pouco azar não me agrada, lá estava eu, no centro da cidade, procurando quem empurasse minha máquina, em plena chuva. Além disso, faltava buscar minha esposa, encontrar um mecânico e ir pregar na igreja centreal… (no final, deu tudo certo, com algum esforço.)

Tenho um Corsa 96. Meu carro é do século passado. Ele já conta com quatorze anos e, decididamente, não quero estar com ele em sua maioridade.

Eu me lembro de quando dava estudos bíblicos a pé. Andava o dia inteiro, até o pé criar bicho. Emagrecia a cada mês. Depois de casado, ainda continuava a pé ou dependente de caronas. Até que eu e minha esposa nos esforçamos para comprar nosso primeiro carro.

Fizemos algumas viagens inter-municipais e inter-estaduais com o nosso Corsa. Ele é econômico e atende bem às necessidades de um casal sem filhos. Ou, pelo menos, atendia.

Nos últimos meses, tem trazido alguns gastos, dado algumas dores de cabeça. “Pastor, e o carro?”, às vezes me perguntam. “Está bem, no mecânico”. Em todo caso, do primeiro carro a gente nunca se esquece. Sempre terei em mente o número da placa, da cor do estofado, as histórias, as multas (bem, desta parte posso até me esquecer…). Costumo brincar dizendo que é carro de pobre, mas é meu, paguei por ele. Não dizem que ter algo preto é básico? E lá vou eu, pelo verão afora, num carro preto, sem ar-condionado.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

TRAUMA DE AÇAÍ



Era domingo e voltávamos de uma programação do mutirão de Natal. Minha esposa me convenceu a ir a uma lanchonete, na frente do condomínio vizinho ao nosso. “Praia do açaí”, um nome arrepiande! Por quê? Passo a contar meu trauma do açaí.
Morei quatro meses em São Luís, MA. Além de ser terra de grandes poetas (Gonçalves Dias, Souzândrade, Nauro Machado…), é o paraíso das frutas. Conheci cupuaçu na lanchonete do irmão Ariel, um amigo da igreja central. Visitando algumas senhoras, experimentei açaí na tigela com uma farinha graúda de mandioca, típica da região. Virei fã de açaí, de carteirinha (mas não da farinha…)!
Provei açaí em outros lugares do Brasil: em Minas, São Paulo, Rio Grande do Sul e até em Santa Catarina. Sempre a mesma decepção. O açaí que preparavam era um suco marrom, misturado com guaraná, catuaba, amendoim e sabe-se lá quantas outras coisas. Tinha gosto de xarope. Nada sequer próximo à iguaria que eu provei no nordeste brasileiro.
Assim, desisti do açaí. Toda vez que o encontrava em algum menu, perguntava ressabiado sobre a sua cor. Depois de um tempo, nem mais perguntei. Ficava na saudade, imaginado quando voltaria para São Luís para provar do verdadeiro açaí.
Sentado na mesa da lanchonete com a minha esposa, resolvi me atrever a indagar sobre o açaí que serviam, sem muitas esperanças. O rapaz que me atendeu informou como era o produto. Decidi: arriscaria. Logo veio a tigela. Para minha surpresa, tinha mesmo a cor do açaí. Mas faltava o principal, o gosto. Dei a primeira colherada e…
Naquele momento, aconteceu um transporte. Acionei um gatilho que me levou, inevitavelmente, a muitas milhas de casa. Senti-me de volta no Maranhão, entre os amigos, andando pelas ruas estreitas da capital, entre a população de baixa estatura. Quase vi os peixes sobre lonas nas calçadas e a frota de carros novos circulando por São Luís. Lembre-me de Edgardo, Baima, o irmão Jesus (que sempre reconheceu minha voz pelo telefone), Ricardo e Rafael (do pequeno grupo), Jó, Atencio, e tantos outros, que enumerar nomes tornaria o texto imensurável. Algumas colheradas me devolveram o gosto de um momento especial que vivi. Era o sabor do Maranhão que um paulista sentia em plena Santa Catarina e ao lado de uma gaúcha!
Mas ainda quero tomar o açaí em São Luís. Com minha esposa e entre amigos.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

LER EM SUPER-MERCADOS



Semanalmente, ao menos, eu necessito fazer compras. Geralmente, frequento com alternância dois super-mercados: um maior, com dezenas de prateleiras, gôndolas e a exibir variedade imensa de produtos. O segundo, mais modesto, apresenta, no entanto, a vantagem de situar-se próximo à minha casa, dando-me a liberdade de fazer uma boa caminhada, se eu assim me dispuser. Em ambos, encontro revistas e livros a granel.

Ler durante as compras é um exercício de anos, prática que me ajuda a manter-me informado, simplesmente ao dar uma furtiva passada de olhos pelos periódicos semanais. Folheio páginas e mais páginas, atento ao que me pareça relevante – em meio à futilidade da mídia, algumas notícias merecem a atenção.

Ontem, levantei-me mais tarde do que o costume e, em virtude do horário, aboli a primeira refeição. Corri ao mercado, digo, ao segundo, aquele que as circunstâncias fizeram estar perto de casa. Assim, daria tempo de comprar certos artigos e retornar, a fim de almoçar mais cedo. Entretanto, vi-me forçado a gastar uns minutinhos com um livro exposto na frente de um dos caixas: era um romance, maçudo (como se dizia antigamente), da autoria do português Lobo Antunes. Enquanto me dirigia aos corredores, abri na primeira página e li para mim as palavras iniciais, sempre intrigantes e caudalosas de Antunes.

Ao abandonar o livro, saciado pela impressão funda daqueles parágrafos, ocorreu-me refletir sobre a diferença produzida por essa leitura e aquela, das revistas. Quase não logrei usufruto do romance, porque Lobo Antunes exige que se leia algumas páginas, para se adequar ao seu estilo, antes de apreciá-lo devidamente – de forma semelhante a um ante-pasto. Em contrapartida, jornais e revistas, grosso modo, são de assimilação mais rápida.

Posso arriscar-me a dizer que jornalistas e escritores expressam afeição pelo mundo de formas peculiares, não opostas, nem de todo complementares: os primeiros amam o mundo exato, objetivo, formado pela cobertura completa, os editoriais racionais, as colunas espirituosas e as reportagens que buscam reconstruir ao máximo a realidade. Já os escritores, amam o mundo retratado, personalizado, intrigante em seus jogos de palavra e suas formulações subjetivas, que não deixam de demandar pesquisa e contato íntimo com a realidade, embora deixem margem à imagética reconstrutiva.

É inconcebível um jornalista que ousasse escrever como Antunes, com seu palavrório pesado, suas frases longas – a pobre alma ganharia um manual de escrita de algum editor contrafeito, que lhe cobrasse mais agilidade. Afinal, ninguém escreve mais com a elegância de Bilac, que, além de poeta (um poeta chato, na maior parte do tempo!), exibia morosidade agradável em suas contribuições para os jornais. O que hoje se exige de um redator? Linguagem condensada, enxuta e precisa.

Estou certo de que muitos escritores não se arriscam a enveredar pela imprensa porque se sentiriam castrados, sem a liberdade de escrever sem limites de caracteres ou com a responsabilidade de informar em poucas linhas sobre determinado fato. O escritor não quer escrever pouco, justamente porque o escrever muito parece indicar fôlego, audácia e inventividade (nem sempre a premissa é verdadeira). A maior parte dos escritores também é por demais aborrecida com a trivialidade do cotidiano, e, quanto a isso, há uma longa lista de nomes que poderíamos usar para justiçar-nos – Kafka, por exemplo, era indiferente à vida familiar, ou a qualquer coisa que lhe ocupasse o tempo em que poderia produzir literatura. O próprio José Saramago, polêmico autor do romance Caim e desafeto de Lobo Antunes, seu conterrâneo, desmerece a própria existência, dizendo que o homem é indigno dela (a declaração, dada a jornalistas da Folha, arrancou do blogueiro Reinaldo de Azevedo a conclusão de que, ou Saramago não se considerava humano, ou que deveria, pelo menos, ser coerente e cometer suicídio!).

Embora flertasse recentemente com o cotidiano, em seu blog O caderno de Saramago, o Nobel do além-mar logo se cansou de postar, abrindo mão da iniciativa em prol de outros projetos. Curiosamente, Saramago elogiou em uma de suas últimas postagens dois escritores contemporâneos que são, simultaneamente, jornalistas.
Seja como for, da próxima vez que for fazer compras, priorizarei revistas e jornais – livros lerei em casa, deitado em meu sofá.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

CONTAMINAÇÃO



Por um erro de agenda, eu e alguns colegas viemos para um concílio em Foz do Iguaçu antes da programação se iniciar! Durante o trajeto (algumas horas enfurnadas num ônibus desconfortável), surgiu entre nós um receio: por se tratar de um concílio da União Austral (campo que compreende a Argentina), o que fazer com o risco da contaminação com a gripe suína?

Como tivemos o dia livre, três de nós resolvemos ir ao Paraguai. Como já trabalhei numa fronteira, confesso que não tinha boas expectativas em relação ao território vizinho. Meu parâmetro era a Bolívia, país que ficava a quinze minutos de Corumbá, cidade na qual trabalhei em 2006. Entretanto, o Paraguai do além-fronteira mostrou-se-me mais organizado e limpo do que a Bolívia da minha antiga convivência. Veja, não de todo limpo e organizado…

Por toda a parte, via-se a preocupação com a gripe suína nas ruas paraguaias. Mas quero voltar um pouco no tempo: já na ida, conversávamos com o cobrador do ônibus sobre o contágio da gripe na cidade. Para nosso arrepio, o bom cobrador nos preveniu apenas do contato com… argentinos!

Voltando à terra de Fernando Lugo: passei por várias pessoas mascaradas. Na maioria dos casos, eu até espirrava maliciosamente, divertindo os pastores que me acompanhavam. Notei que muitos dos americanos com os quais me defrontei andavam desconfiadamente com suas máscaras cirúrgicas. O medo era muito real, quase irresistivelmente contagiante.

Imagino que em muitas cidades do mundo, a mesma preocupação se ache refletida nas pessoas pelas ruas, escritórios, escolas, enfim, no cotidiano. Parece que apenas na vida eterna nos veremos livres do medo de estar contaminados – com qualquer epidemia!

quarta-feira, 20 de maio de 2009

NA CACHOEIRA DA MACUMBA



O ônibus tremia pelas curvas acentuadas enquanto voltávamos. Fazia um frio cru. A reunião espiritual terminara. A última noite subindo o morro. Mas era agradável falar àquelas pessoas, vê-las dispostas a ouvir do Salvador. A localização insensata da igreja – no alto do morro da biquinha – era, sem dúvida, um desafio para aquela comunidade simples, que tinha de ir a pé prestar culto ao Senhor.

O ônibus seguia vazio, o que adensava a sensação de frio. Eu, que nem chegara aos dezoito, ia acompanhado do diretor do grupo onde falara. Ele, um homem de riso fácil, calvície insinuada e baixa estatura. Havia colportado por muitos anos, tinha experiência. O sossego era o cotidiano da viagem.

Em determinado ponto, subira um rapaz magro, de fisionomia pouco marcante. Ele passou pela catraca, pagou a passagem e se conduziu à parte traseira do veículo. A partir daí, de forma a princípio banal, iniciou-se uma intrincada discussão entre este último passageiro e o cobrador.

Sentado próximo ao funcionário, pude ouvi-lo afirmar que o troco fora dado corretamente. O passageiro, aumentando o volume de voz, apontava um suposto erro na quantia. A exasperação mútua assomava pelo recinto. Finalmente, revoltado com a discordância, o passageiro cometeu seu mais sério erro: girou a catraca. Ao fazê-lo, era como se diversas pessoas tivessem passado por ali.

Diante do ocorrido, o cobrador não teve dúvidas: eu vi quando ele praticamente saltou de seu assento e partiu para cima do homem com quem discutira há pouco. O rapaz foi encurralado na janela do lado esquerdo (o do motorista). O cobrador batia em seu estômago. Eram socos sonoros, retinindo nos ouvidos dos demais passageiros, estupefatos àquelas alturas.

Estávamos em frente à cachoeira da macumba, local que deve seu nome às práticas da religião afro. Não demorou muito: o motorista parou o carro Saiu afoito de seu lugar e pulou a catraca (com agilidade surpreendente para alguém tão corpulento!). Senti um alívio momentâneo – aquela loucura terminaria, pensei. Pelo contrário! O motorista uniu-se ao seu colega e agora ambos batiam no passageiro.

Por um momento, o dilema se me afigurou: deveria dizer alguma coisa, eu que pregara sobre Jesus a semana inteira? Deveria incentivar os demais passageiros a impedir o pior? Deveria evacuar o veículo? No tumulto do meu interior, acabei não fazendo coisa alguma.

Mas alguém fez. Um homem se apresentou e deu algum dinheiro ao cobrador. Não sei precisar se ele pagou toda a dívida do passageiro agredido; mas ele e o rapaz saíram juntos, sob o rugido do motorista, que advertia o homem que girara a catraca a não mais fazer uso daquela linha de ônibus. A viagem seguiu.

O lado cômico da história ocorreu quando uma senhora à minha frente perguntou a mim e ao senhor que me acompanhara se não poderíamos lhe emprestar alguns centavos. Ela precisava completar o valor da passagem. O medo em sua fala deixou patente que ela temia que lhe acontecesse algo semelhante ao que todos acabáramos de testemunhar.

Ainda me lembro visualmente dos fatos, passados tantos anos. Sinto ainda aquela impotência, o medo a sensação de injustiça e abuso. De uma banalidade, tanta violência. Será que algo mudou no mundo ?

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

UM ÚLTIMO OLHAR SOBRE ITAJAÍ....

Do Morro da Cruz: a cidade pela última vez

De novo o eco da chegada. As paredes brancas, cobertas de manchas de mofo, envolviam um ambiente vazio. Nada de roupeiros, cama, sapateira. Tudo já se encontrava embalado em plásticos-bolhas, desmontado e esperando o motorista do caminhão de mudanças dar a partida. Nada mais de cozinha, escritório ou sala também.

Era uma quinta-feira. No domingo, eu e minha esposa já havíamos recebido nossa segunda despedida, com direito a uma saída entre amigos da igreja, a uma pastelaria. "Você vai mesmo, professor?", perguntava de tempos em tempos a Aninha, uma das alunas muito queridas que tive. Poderia citar tantos outros alunos queridos, mas, certamente, eu me esqueceria de um ou outro e acabaria sendo injusto. Mas aprendi com todos eles. Exercitei tolerância, cresci na maneira de transmitir conhecimento, pude orar em lares (em muitos dos quais me deparei com famílias que jamias teriam adentrado em uma igreja Adventistas), garimpei talentos (através de programas culturais e religiosos realizados na capela do colégio), além de passar momentos agradáveis e únicos.

Tendo trabalhado por quase três anos no Colégio Adventista de Itajaí (CAIT), fiz grandes amigos entre os colegas de trabalho: Lú (fiquei devendo, não fui um bom "Santo Antônio"), José (peixeiro de carteirinha), Jean (o homem que fala literalmente o que pensa!), o Júlio (que fala sem pensar!), Marcos (meu amigo, o filósofo do basquete), Míriam (a percepção em pessoa), Aline (nossa pastora), Fran (vai "bombar", amiga), Mônica ( "Meu Pai-drive"), Norma (tia Norma, para os íntimos), Soraia (pau-para-toda-obra), Célia (e o IAP?), Milene (pequena e valente), Emerson (Fiti), Emerson (cantor-tesoureiro), Welson (meu amigo e orador oficial do nono ano), Neia (seu nome ficou assim por causa do acordo ortográfico, mas ainda "te miro"), Lúcia (o ser mais "de bem com a vida"), Talita (você não estava na mala...), Tia Dete (uxi, uxi), Cris (que também deu seu último olhar sobre Itajaí), Cibele (sempre prestativa), Maristela ("Tás tola, nêga?"), Corina (da galerinha mais ou menos), Eude (nossa mãe), Sonir (de um coração generoso como poucos), Janaína (sabe aquele formulário que tinha de preencher...), Eveline (até que enfim acertei seu nome!), Evelise (meu nome é diário... o resto você já sabe!), Sandra (vou sentir falta de seu bom humor!), Fábia (um doce!), Ely (sempre dedicada e amiga), Liliene (nossa amiga entusiasmada), Rúbia (outra falha do "Santo Antônio") e Lilian (amiga, "estou sentindo" que vai dar casamento). Enfim, amigos, espero que o Pr. Marcos receba a mesma recepção, carinho e companheirismo que vocês me deram!

Obrigado, Itajaí. Entrei na cidade de um jeito. Acompanhei o colégio crescer. Conheci várias congregações com líderes fantásticos. Convivi com distritais inspiradores. Conheci até o que é passar por uma enchente! E, depois de tudo isto, eu sou outro. Mais uma vez, obrigado!

....E OS PRIMEIROS OLHARES SOBRE JOINVILLE

Com pistolas fora do coldre fictício, o grupo espreitava, esperando aqueles que seriam emboscados. Nosso Corsa preto estacionou em sua garagem. Descemos com as malas. Os meninos se esqueceram da brincadeira de polícia e bandido (ou seja lá como chamam hoje) e passou a olhar o casal recém-chegado a Joinville.

Minha esposa ficou passando o aspirador por todo o carpete e logo voltei, escoltando o caminhão de mudanças. Agora, nosso novo lar seria naquele condomínio próximo ao centro da cidade. Demoramos algo como dois dias para ajeitar os cômodos, desfazer as caixas, lavar louças e roupas e deixar as coisas em ordem. Dois dias estressantes, como sói acontecer em qualquer mudança.

Aos poucos, vou conhecendo a cidade, a maior de Santa Catarina, ainda que conserve características agradáveis de cidades menores, como tranquilidade e beleza. Alie-se estas características às opções de lazer, cultura e serviços de assistência médica; sem dúvida, Joinville é um excelente lugar para se morar.

Ainda que longe de grandes amigos feitos em Itajaí, sempre se pode olhar prospectivamente, esperando que novos relacionamentos surjam e se firmem com o tempo. Aliás, o ministério exige este tipo de disposição otimista e alta adaptabilidade a novas situações. Nada é estável, em certo aspecto, mas se a estabilidade existe, pelo menos nos planos emocional e conjugal deve estar presente. Como digo a minha esposa, por mais mudanças que tenhamos ao longo de nosso ministério, sempre teremos um ao outro.

Enfim, cá estou, acostumando-me com períodos alternados de sol intenso e chuva copiosa, com novos desafios num colégio muito bem estruturado e esperando as bênçãos que Deus derramará em meu lar e através da minha vida.

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quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

À ESPERA DE UMA NOVA AURORA


“ – Aqui é a boca do lixo.” Meus olhos verificavam a acuidade da descrição, enquanto os pés seguiam. Eu e meu pai procurávamos uma livraria sebo na Rua Aurora, no centro de São Paulo.

Durante o caminho, passamos por maltrapilhos dormindo no chão, usando sacos de lixo como travesseiros e tendo ao lado cães, de forma semelhante às crianças que dormem com animais de pelúcia. O cheiro nauseabundo impregnava cada esquina, em meio ao frescor da manhã. Mas a Rua Aurora ainda era mais suja. O lixo humano ali grassa a cada metro quadrado. Prostitutas tomam café em bares. A pornografia irrompe em cada vitrine. Os cortiços deixam à mostra as roupas estendidas perto da janela.

Se fazer um inventário da miséria e sujidade é possível durante o dia, imagino que deixar de fazê-lo à noite torna-se impossível!

Achamos finalmente um sebo, dobrando a esquina em uma das travessas da Rua Aurora. Uma rápida sondagem mostrou-me que não havia nada ali de meu especial interesse. “O outro sebo saiu da Aurora”, informou o dono da livraria que visitamos. “O rapaz teve de vender. Ele começou a misturar livros com material pornográfico. Daí não deu certo.”

Deixamos a Rua Aurora para trás e voltamos a caminhar, em direção à Luz, passando pela Santa Ifigênia, paraíso da tecnologia barata. São Paulo é vasto. Todavia, a vastidão não pode encobrir a minúcia das vidas sem direção, dos antros sem solução social, onde as almas se vendem para sustentar não somente existências físicas, bem como sufocar o vazio de seus espíritos sem Deus.

Felizmente, isso não é tudo! Deus fez taxativamente a promessa de legar àqueles que O amam “um novo Céu e uma nova Terra” (Ap. 21). A ilegalidade, a falência da moral sem o apoio da transcendência, a criminalidade dos costumes pervertidos e tudo o mais será substituído, não nas muitas ruas Auroras que se encontram nas principais metrópoles da Terra somente; todo o mal humano deixará sua presença em nossos próprios corações. Nascerá uma nova aurora, a começar em cada mente. Quando a Aurora Eterna chegar, continuaremos caminhando para a Luz da presença pessoal de Deus. E o melhor: podemos sentir isso agora, através da comunhão com Aquele que é a Luz do Mundo (Jo. 8:12).