sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

O TRONO DO SANTUÁRIO


As versões terrestres do santuário desempenham uma função importante no Antigo Testamento. Por versão terrestre do santuário incluímos (a) a tenda ou tabernáculo construído na época de Moisés; (b) o templo de Salomão e (c) o templo construído na época de Zacarias (ou segundo templo). O santuário nunca foi um lugar místico-sagrado, como se tivesse poder em si mesmo. Um templo era considerado pelas culturas antigas a casa ou o palácio das divindades. Entretanto, o santuário israelita jamais poderia servir para a habitação de um Deus tão grandioso como Yahweh (1 Cr 17:5-6; 2 Cr 6:18 – muito embora o santuário cumprisse a função de servir como habitação de Deus com Seu povo, o que se explica mais pelo aspecto relacional do que pela necessidade divina de ter onde morar, conforme Êx 25:8). Essa função relacional do santuário não consistia na única razão para que Deus ordenasse sua construção. Por meio das versões terrestres do santuário e suas cerimônias estava prefigurado o ministério de Cristo em seus múltiplos aspectos (Hb 8:6-7, 13; 9:8-10, 15, 23-26). O santuário foi dado como uma ilustração divina para o plano da salvação, além de ser uma ilustração do santuário celestial.
Dentro do grande conflito, o santuário celestial adquire uma função tática: dali se tomam as decisões na luta contra Satanás e sua causa.  No santuário celestial está localizado o trono de Deus (Ap 7:15; 8:3; 16:17; cf.: Ap 4-5). No Apocalipse, o trono parece ser a própria essência do santuário; se o santuário será transferido para a cidade santa (Ap 21:3), isso ocorrerá devido à transferência do trono para lá (Ap 22:3). Onde está o trono de Deus, está Seu santuário.
É importante ressaltar que o trono de Satanás é uma tentativa de criar um governo paralelo ao trono localizado no “monte santo da congregação” (Is 14:13) ou “monte santo de Deus” (Ez 28:14). Muitas vezes, a montanha é identificada com Yahweh e como local apropriada para o culto (Gn 22:2; 1 Rs 20:23; Sl 1211-2). Isso torna o ataque de Satanás um ataque contra o santuário. O plano da salvação é o contra-ataque divino à iniciativa da rebelião liderada por Satanás, da qual resultou o grande conflito. O plano da salvação consiste em um conjunto de ações dramáticas desempenhadas pelo próprio Deus a partir de Seu trono, ou seja, o plano da salvação se origina no santuário celestial.
Não é à toa que a doutrina do santuário seja tão negligenciada e combatida, porque as agências satânicas operam para que essa verdade (e as que gravitam ao seu redor) jamais cheguem ao conhecimento do pecador (Dn 7:25; 8:9-12; 11:31-32). Entretanto, de Seu trono Deus julga o universo, quer punindo os ímpios, quer garantindo a salvação dos santos (Dn 7:9-10, 26-27; Ap 6:16; 7:10-12, 15, 17). A partir do trono que está localizado no santuário, Deus reivindica Seu caráter e autoridade, punindo a presunção satânica de exercer uma autoridade rival (Ap 13:2; 16:10).

Por isso, de uma perspectiva escatológica e estritamente pessoal, Asafe pode encontrar a chave para as aparentes injustiças do mundo olhando para o santuário (Sl 73:16-17). O santuário é a chave para o grande conflito. Ele aponta para o juízo escatológico e isso nos dá a certeza de que as ações dos justos nesse mundo serão recompensadas. De Seu trono no santuário, Deus prepara o desfecho do grande conflito, reivindicando Seu caráter e julgando o mundo. Seu adversário será desmascarado e finalmente derrotado. Há esperança no santuário!

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terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

POR TRÁS DA REJEIÇÃO DO REMANESCENTE


A espiritualidade do remanescente está associada com a visão bíblica do santuário celestial/santificação. A própria caracterização do remanescente como um povo peculiar que guarda os mandamentos (Ap 12:17) já pressupõe uma compreensão da santificação. A guarda dos mandamentos não é um meio de justificação; do contrário, teríamos justificação pelas obras, não pela fé. A lei divina faz parte da vivência do cristão que já passou pelo processo de justificação e agora está vivendo os embates da vida cristã, ou seja, está lutando contra as tentações e prosseguindo em permitir que o Espírito atue nela, reproduzindo em sua vida a vontade divina conforme expressa nas Escrituras.
A visão evangélica do sacrifício de Cristo/justificação anula a necessidade de se guardar os mandamentos; logo, dissipa o traço identificador do remanescente. Assim, o remanescente escatológico dá lugar a outros conceitos, especialmente o da igreja invisível. O conceito da igreja invisível consiste em afirmar que todos os cristãos sinceros, que vivem na luz que possuem, são o remanescente. Sendo assim, o remanescente não é uma entidade visível, que se pode conhecer ou identificar. Trata-se de algo que apenas Deus conhece. Basta que alguém seja sincero e, independente de sua confissão de fé, tal pessoa poderá ser identificada (por Deus) como parte do remanescente.
Além de contradizer as Escrituras, igualar o remanescente com a igreja invisível é uma forma de (a) relativizar o papel das doutrinas na vida cristã e (b) anular a progressão histórica explanada no livro de Apocalipse. É certo que há pessoas sinceras que, em meio à confusão religiosa, ouvirão o chamado de Deus (Ap 18:4). Entrementes, isso não anula o fato de haver uma entidade presente e identificável, para a qual os sinceros, ademais, serão chamados a pertencer.
Mesmo entre os adventistas, existem algumas vozes (isoladas, é verdade) que reivindicam entendimentos alternativos sobre o remanescente – alguns coincidentes com a o conceito de igreja invisível. O fato de alguns adventistas pensarem nessa direção é a triste constatação de que a visão evangélica do sacrifício de Cristo/justificação se acha assimilada por eles.
Dizer que os adventistas são o povo remanescente não significa exclusividade de salvação. Afinal, o remanescente é o representante divino e tem a missão de levar a salvação a outros (Ap 14:6-12). Tão grande é a vocação e a responsabilidade do remanescente que devem conduzir a uma profunda humildade e dependência de Cristo.

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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

O SANTUÁRIO: MENSAGEM PARA ESSE TEMPO


Lentamente, a vida cristã se dilui na cultura. Isso porque o que se entende por vida cristã é a visão evangélica do sacrifício de Cristo/justificação. A teologia evangélica, organizada em torno dessa visão, proporciona uma experiência cristã fragmentada. As doutrinas evangélicas, independente de quais ou quantas sejam, ficam deslocadas nessa estrutura. Isso porque a morte na cruz, nessa versão reduzida ao mínimo possível, se torna um elemento desagregador da doutrina. Não precisamos crer em muitas coisas ou mudar muitas coisas em nossa própria vida quando fomos gratuitamente perdoados de todo pecado.
Como essa compreensão não é bíblica, nem muito menos sólida, ele naturalmente recai para uma versão da graça barata. Não adianta apelar para o papel da obediência na vida cristã sem uma compreensão mais ampla do plano da salvação. Somente a visão bíblica do santuário celestial/santificação proporciona condições para uma vida cristã coerente e transformadora. A salvação deixa de ser veiculada a um evento passado, passando a pertencer à esfera presente. Deus opera no presente na vida do cristão por meio de Sua atuação no santuário celestial. É a contínua intercessão de Cristo (Hb 7:25) que aplica a expiação realizada completamente na cruz. Em outras palavras, o santuário torna efetivo o sacrifício de Cristo na vida do pecador.
Obviamente, as duas etapas do ministério de Cristo só devem ser separadas para fins didáticos. Em realidade, ambas se completam. O exemplo para entender essa intrincada relação é o sistema sacrifical do Antigo Testamento. O sacerdote só pode entrar no santuário com o sangue do sacrifício realizado. Mesmo o sumo-sacerdote entra no compartimento conhecido como lugar-santíssimo no dia da expiação apenas depois de ter realizado um sacrifício. Se o trabalho pelo pecador se resumisse ao sacrifício oferecido, Deus teria pedido a construção de um santuário em vão (Êx 25:8)! Se o sacerdote pudesse entrar no lugar santo sem sangue, a construção do altar e a ordem de sacrificar animais seriam inúteis. Os sacrifícios e a intercessão dos sacerdotes na tenda não eram apenas ações consecutivas como estritamente vinculadas entre si e necessárias para redimir. A morte de Cristo na cruz e Seu ministério sacerdotal no santuário (as duas fases) não podem ser separados – uma parte está vinculada à outra, sendo ambas necessárias para redimir o homem.
Quando essas duas etapas, relacionadas à salvação passada e à salvação presente são devidamente compreendidas, nenhuma área da vida fica fora do evangelho. O plano divino é transformar por completo a existência humana manchada pelo pecado. Para isso, o santuário serve como uma estrada de mão dupla: por meio de Cristo, temos acesso a Deus e, por meio dEle, Deus tem acesso a nós. O direito para ser nosso Intercessor Jesus o conquistou pela cruz. Logo, o santuário não é um meio de diminuir ou desprezar a obra vicária do Salvador na cruz, mas uma forma de exaltá-la e elevá-la à máxima importância.
Como o santuário se relaciona com a diluição da vida cristã? O ministério de Cristo no santuário (obra realizada no presente) corresponde ao processo de santificação (efeito de sua obra por nós no presente). Relacionando a Obra de Cristo com o plano da salvação, podemos entender que a salvação não termina no passado, na cruz. A salvação segue em desenvolvimento, renovando-se a cada dia. A vida cristã torna-se dinâmica e contínua. Aqueles que foram salvos (justificação) por meio da cruz agora se mantém salvos (santificação) por meio do santuário. O ministério de Jesus pelo pecador no santuário celestial impede que a vida cristã seja diluída pela cultura, tradição, inclinações pessoais ou quaisquer outros elementos. Isso não significa perfeição absoluta – algo impossível de se atingir na existência presente. Ao contrário: o cristão terá desafios e quedas, porém seguirá com o alvo adiante de si e as ferramentas necessárias para continuar crescendo na graça de Deus.


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terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

UMA GERAÇÃO QUE DESCONHECE O SANTUÁRIO


Graças às mudanças de ênfase que foram se acumulando, algumas gerações de adventistas não tiveram a oportunidade de se conectar com as raízes do movimento. Isso significa que o que essas gerações conhecem e experimentam se restringe à versão evangélica do adventismo. Obviamente esse ponto precisa ser bem compreendido para se evitar equívocos ou dar margem a discursos polêmicos.
O primeiro passo é recapitular a descaracterização da mensagem do santuário. Em grande parte, a igreja já havia se aproximado do mainstream evangélico na década de 1920, durante o ápice do fundamentalismo. O fundamentalismo tenciona voltar ao cristianismo tradicional, em uma época em que o liberalismo crescia nos estados Unidos, ganhando o controle de muitos seminários. A aproximação do fundamentalismo era desnecessária ao adventismo. Isso porque enquanto o mundo evangélico convidava a retroceder à tradição, o adventismo convidava a ir mais longe, voltando para os ensinamentos bíblicos, que antecediam a tradição. A tradição cristã é, em realidade, composta por elementos híbridos dos preceitos bíblicos com a filosofia grega. Seja como for, os adventistas acabaram se aproximando do evangelicalismo. Essa aproximação cresceu quando, para qualificar as instituições de ensino, muitos professores adventistas continuaram seus estudos em instituições cristãs. Ao fazer isso, esses acadêmicos assimilaram pressuposições não-bíblicas, correntes na teologia e pensamento evangélicos. Por esses fatores, a crise da justificação pela fé, na década de 1970-1980, que culminou com o caso Ford, apenas deflagrou uma crise que se desenhava internamente nas fileiras adventistas.
Embora a erudição adventista se preocupasse em solidificar as bases de nosso pensamento, o que se tem intensificado desde a década de 1980, em nível popular a mensagem de justificação pela fé ganhou terreno no adventismo. Devidamente compreendida, essa mensagem faz parte da obra do terceiro anjo de Apocalipse 14. Os pioneiros adventistas custaram para alinhar a ênfase justificação pela fé com a validade da lei divina. Em realidade, não há conflito inerente; quando se aplica a estrutura de salvação em três tempos, cada etapa do processo de salvação pode ser alinhada, formando um todo coerente. Entretanto, a teologia evangélica opera sob a visão evangélica do sacrifício de Cristo/justificação. Essa visão desequilibra o plano da salvação, reduzindo-o ao plano da salvação pessoal, subtraindo a estrutura macro-hermenêutica do conflito cósmico e dispensando o sistema agrupador do santuário celestial. Com a força dessa mensagem, o adventismo se viu diluído.
Isso não significa que a igreja tenha alterado suas crenças. Oficialmente, o santuário segue como parte da mensagem adventista. Entretanto, em nível popular, ou, mais propriamente, no nível da igreja local, a crença no ministério de Jesus e a compreensão da vida cristã como estando focada na santificação passou a ser ignorada. A demonstração mais evidente disso são as infindáveis discussões sobre estilo de vida. Por que elas ocorrem? Por que tantas questionam os princípios básicos do estilo de vida adventista? Porque eles não são compatíveis com a visão evangélica do sacrifício de Cristo/justificação. Evidentemente, considerações sobre estilo de vida adventista pertencem à outra estrutura: são parte integrante da visão do santuário celestial/santificação. Discutir princípios de estilo de vida à parte dessa estrutura é como discutir as orientações de Maomé à parte da cosmovisão islâmica.
Como toda uma geração de adventistas (ou mais de uma, para ser exato) desconhece a visão do santuário, não se pode esperar que a igreja viva, cante, se vista, testemunhe e ensine como seus pioneiros.  Obviamente, precisamos de um processo de busca baseada nas Escrituras, semelhante ao que vivenciaram nossos pioneiros, para sermos reconduzidos ao coração da mensagem que Deus nos deu. Creio que o Espírito está nos guiando para isso. É tempo de atendermos ao Seu chamado.


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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

EQUÍVOCOS SOBRE A SANTIFICAÇÃO



Alguns erros são persistentes quando o assunto é santificação. Talvez por conta disso, algumas pessoas tenham um conceito ruim do processo. Para evitar mal entendidos e, na esperança de promover a santificação, é necessário rever dois conceitos equivocados:
(1) A santificação não é salvação pelas obras: alguns entendem que, enquanto a justificação é a obra que Cristo realizou por mim na cruz, a santificação é minha parte no processo. Obviamente, todo o processo de salvação é feito com a colaboração humana. Dizer o contrário, seria estabelecer que Deus nos salva contra nossa vontade. Agora, a confusão surge na hora de se estabelecer o que compreende a colaboração humana. Se a salvação possui três tempos – passado (justificação), presente (santificação) e futuro (justificação) – precisamos verificar como o gênero humano interage em cada etapa.
Na justificação, a parte humana reside em (a) aceitar a obra do Espírito, que o convence do pecado (Jo 16:8), (b) o que conduz ao arrependimento (Rm 2:4; At 5:31; 2 Co 7:10; cf.: Mt 9:13; Mc 2:17; Lc 15:17; At 2:38) e consequente (c) recebimento de Jesus como Salvador (At 16:31, Rm 5:11; 10:9; cf.: Jo 4:42; At 5:31; 13:23; 1 Tm 4:10; 2 Tm 1:10; 1 Jo 4:14). Essas etapas e o que nelas está implícito constituem um passo de fé. A fé surge como consequência da atuação do Espírito, que desperta em nós confiança no testemunho dado pela Palavra de Deus (Ef 1:13; 6:17; cf.: para outras relações, ver Ag 2:5; At 10:44; 1 Co 12:8). A Palavra é o meio principal pelo qual o Espírito Se comunica conosco (2 Pe 1:20-21; cf.: Mr 12:24). Ao aceitar a Cristo, o fazemos com base no testemunho das Escrituras (1 Co 15:3; 1 Tm 3:15).
Na santificação, a parte humana reside (a) receber graça para uma vida vitoriosa (o batismo diário do Espírito Santo: Jo 1:33; Rm 1:4; 6:19, 22; 1 Co 6:11; 1 Pe 1:2), (b) atuar (pensar, agir, falar) como um agente espiritual, um súdito do Reino de Deus (Hb 12:14, (c) escolher estar instante a instante em comunhão com Deus (1 Co 1:9; e (d) reformar aspectos da vida de acordo com as diretrizes da Palavra (Ef 5:25-26; 1 Ts 4:3-4, 7). A santificação é um processo contínuo de viver pela fé sob a intercessão do Salvador vivo e atuante no santuário celestial.
Na glorificação, todo o preparo de uma vida será coroado pela recompensa de ver o Salvador vindo nas nuvens. Pode-se falar em recompensa, um termo bíblico (Sl 58:11; Pv 12:14; Mt 10:41-42; Lc 6:35; Jo 4:36; Cl 3:24; Hb 10:30, 35; 11:26; 2 Jo 8; Ap 22:12), o que não implica em méritos próprios, mas em abertura e correspondência – uma vida aberta à influência do Espírito (que Se comunica prioritariamente pelo cânon) e que correspondeu, ou seja, seguiu a direção do Espírito em exercício de fé.
Assim, a salvação como um todo (e a santificação em particular) acontece por meio da fé, com a participação ativa do ser humano, como aquele que recebe a graça e coopera pela fé (Hb 13:12). Jamais se pode conceber qualquer etapa do processo de salvação como dependente do esforço, dignidade ou boa vontade do ser humano. Apenas pelo poder divino em nós somos habilitados a corresponder à graça concedida, em atos de fé;
(2) santificação não resulta em impecabilidade na experiência atual: a luta contra o pecado certamente faz parte da salvação: Não podemos jamais nos conformar com qualquer prática ou pensamento pecaminoso, sem o risco de perder a salvação. Uma vida transformada por Cristo implica em transformação que habilite obediência (Rm 13:14) Entretanto, a natureza humana continuará sendo a mesma – pecaminosa.
Adão, ao pecar, foi afetado pelo pecado em todos os aspectos de Sua natureza. A queda trouxe efeitos físicos, mentais e espirituais. Jesus, ao vir ao mundo, embora não tivesse desejos pecaminosos ou mesmo inclinação para pecar (Hb 7:26; 9:14; 1 Pe 1:19), foi afetado física e mentalmente pelo pecado, tornando sua obediência mais difícil do que a de Adão (Fl 2:7-8). Ao contrário de Jesus, nós temos inclinações pecaminosas, que nos impedem de viver totalmente isentos do pecado (Rm 7:25) Afirmar a possibilidade de perfeição absoluta na atualidade é desconhecer os efeitos do pecado na humanidade e o próprio grau de degradação em que estamos. Por isso, a santificação exige uma constante tensão: viver contra o pecado, sabendo que a vitória absoluta será alcançada apenas na vinda de Cristo.
Assumir a impecabilidade pode trazer extrema frustração para a vida cristã, porque se estabelece um alvo intangível. Viver em santificação não significa a impossibilidade de recorrer a Cristo, como se a busca pelo perdão pertencesse exclusivamente à etapa anterior, à santificação. Quando alguém que já aceitou o perdão de Cristo na cruz (justificação) torna a pecar, não significa que voltou uma casa atrás do jogo; a santificação nos dá acesso ao perdão e à intercessão do Sumo Sacerdote Jesus (1 Jo 2:1; Hb 4:14-16). Somos renovados e restaurados, porque a santificação é uma caminhada pela fé, realizada por pecadores que estão se assemelhando a Cristo em caráter (2 Pe 3:18). O fim da jornada é a volta de Jesus e ali o povo de Deus já não será constituído por pecadores, mas por redimidos que venceram o pecado pelo sangue do Cordeiro (Ap 7:14; 14:1-4). Assim se pode dizer que a santificação resulta em impecabilidade na experiência futura (1 Pe 1:4-5; 1 Jo 3:1-2) – jamais na atual (1 Jo 1:8, 10).
Até lá, o que Deus requer de nós é maturidade (Gn 17:1; Dt 18:13; 2 Sm 22:26; Mt 5:48; 1 Co 1:8). Maturidade espiritual não difere muito do conceito geral de maturidade no que se refere aos requisitos básicos para a aquisição: tempo e experiência. Uma vida cristã madura é o alvo da santificação (Fl 3:12; Co 1:28; 2 Tm 3:17) e exige constante comunhão com Deus para ser atingida.
Compreender o que a santificação não é torna mais fácil evitar os preconceitos e temores relacionados a ela. Assim fica aberto também o caminho para entende-la com maior clareza.


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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

A PERDA DA ESSÊNCIA


Desde a década de 1950, os adventistas passaram a assimilar pressuposições da teologia evangélica, deslocando o aspecto central da vida cristã, que se fundamentava na visão bíblica do santuário celestial/santificação, passando a advogar a fundamentação na visão evangélica do sacrifício de Cristo/justificação.
O primeiro binômio se refere à experiência presente do cristão, bem como à atuação presente de Cristo em favor do cristão. Experimentar a salvação como santificação implica em ter aceito a justificação como experiência passada e prosseguir crescendo em graça, rumo à maturidade (Hb 6:1). Entender a atuação de Jesus no santuário celestial é receber força de Seu trono de graça para resistir à tentação (Hb 4:14-16). Em contrapartida, o segundo binômio se refere à experiência passada do cristão, bem como à atuação passada de Cristo em favor do cristão. Experimentar a salvação como justificação faz com que o crente volte sempre ao mesmo ponto, sem poder avançar – não há crescimento, apenas o ciclo de pecado-retorno-perdão. Restringir a atuação de Jesus à morte na cruz e Sua ressurreição implica no entendimento parcial de Sua obra – aceita-se a vitória que Ele conquistou em nível pessoal, sem perceber a aplicação dela no escopo do grande conflito universal e Seu direito de, mediante o sacrifício, atuar na vida de Seus filhos por meio do Santuário celestial.
Ao substituir a visão bíblica do santuário celestial/santificação pela visão evangélica do sacrifício de Cristo/justificação, alguns autores adventistas deram os passos lógicos, eliminando a essência do adventismo e defendendo uma visão evangélica do adventismo. Na visão evangélica do adventismo, as doutrinas bíblicas que constituíram marcos do adventismo são descartadas. É elucidativo o caso de Desmond Ford, que provou em sua teologia uma crise imensa. Ford viu a incompatibilidade entre adventismo e teologia evangélica. Logo, passou a eliminar a essência do adventismo e defender uma visão evangélica do adventismo. Na versão evangélica do adventismo advogada por Ford, não há necessidade da obra de Jesus em Seu santuário (muito menos que isso tenha ocorrido a partir de 1844). Afinal, a justificação pela fé acontece agora e não se preciso um juízo investigativo. A santificação ou crescimento em graça fica praticamente descartada. Infelizmente, Ford não foi o único a defender uma versão evangélica do adventismo.
Quanto mais se estuda o assunto, fica mais fácil perceber que o adventismo das últimas décadas carrega as influências da teologia evangélica. Alguns fatores são evidências atuais do mesmo fenômeno, que se prolonga na atualidade. Para registro, mencionamos apenas algumas das evidências atuais da abrangência da versão evangélica do adventismo: (1) falta de ênfase no estilo de vida adventista; (2) a desconexão entre o ministério de Jesus no santuário celestial e a vida cristã; (3) poucas abordagens sobre santificação; (4) abundância de sermões, músicas e mensagens diversas com foco na salvação, restringida ao processo de justificação.
Enquanto o adventismo do presente não superar a visão evangélica do sacrifício de Cristo/justificação como aspecto central da vida cristã, estará sujeito ao processo de fragmentação, secularização e carismatização que ocorre no movimento evangélico. Em outras palavras, se o adventismo não recuperar a visão bíblica do santuário celestial/santificação, ele perderá sua essência.
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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

MOTIVO PARA A FRAQUEZA DO CARÁTER CRISTÃO DE NOSSA ÉPOCA


Qual a relação da experiência da salvação com o ministério de Jesus? Por ministério de Jesus, compreende-se três fases básicas: (1) Seu ministério terrestre, que culmina em Sua morte e ressurreição; (2) Sua ascensão e ministério no Santuário celestial (que inclui a fase no lugar santíssimo, a partir de 1844); e (3) Seu glorioso retorno. Essas três fases ocorrem em três tempos distintos: (1) o ministério terrestre se deu no passado; (2) o ministério no santuário ainda ocorre, relacionando-se com o presente; (3) Seu retorno, a parte final de Seu papel como Salvador, se dará no futuro. Portanto, qual a relação da salvação com o ministério de Jesus, o qual ocorre em três tempos?
Responder essa pergunta requer um entendimento amplo da salvação. Se a salvação fosse um ato pontual, um evento histórico único, não teria correspondência com todo o plano da salvação. Se a salvação fosse relacionada ao passado, desconsiderando os demais tempos, se restringiria à justificação. Exatamente isso acontece com a teologia evangélica, desde os dias de Lutero. Ao restringir a salvação ao passado, ligando-a à cruz, ela se torna uma experiência história, um evento, não um processo contínuo que afete a vida do cristão na atualidade. A atualização da salvação é uma questão de memorialismo, que pode dar lugar a cerimônia que relembre o que Cristo fez, dando espaço à teologia sacramental. Por outra instância, se a salvação se referisse ao presente, ligada ao processo de juízo que Jesus realiza no Santuário celestial, poderia facilmente se desligar da cruz ou do retorno de Jesus, dando espaço para uma vida cristã focada em salvação pelas obras. Assim se ignoraria o ato de Deus em nos salvar. Finalmente, se a salvação se focasse apenas no futuro, no retorno de Jesus, desvinculada da cruz e do santuário, teríamos um cristianismo místico, sem maiores considerações em relação com a parte histórica e concreta do cristianismo; afinal, a escatologia só possui dimensão concreta enquanto escatologia iniciada, em associação com a história da salvação.
Para entender a relação da salvação com o ministério de Jesus, o qual ocorre em três tempos, é necessário compreender a salvação em três tempos.  A salvação não é um evento histórico único, mas um processo. A salvação é um processo composto por etapas que correspondem ao ministério de Jesus. A salvação pode ser dividida em três etapas: justificação, santificação e glorificação. Cada uma dessas etapas corresponde a um tempo: (1) a justificação é um evento passado – um dia se aceitou a Jesus como Salvador e se experimentou a salvação imediatamente; (2) a santificação é um evento presente – depois de se ter aceito a Jesus, se inicia a transformação operada pelo poder do Espírito, que nos conforma com as exigências da Palavra, nos tornando semelhantes a Jesus em caráter; (3) A glorificação é um evento futuro – uma vez que se aceita a Jesus e se passa toda uma vida para desenvolver um caráter semelhante ao dEle, finalmente se poderá vê-Lo voltando em glória, e se experimentará a transformação completa que livrará mente e corpo dos efeitos do pecado.
Sendo a salvação um processo, desenvolvido em três tempos, cada uma de suas etapas possui seu referencial na obra de Cristo: (1) a justificação, evento passado, se liga à cruz e ressurreição; (2) a santificação, evento presente, se liga à intercessão e juízo a partir do santuário; (3) a glorificação, evento futuro, se liga ao retorno glorioso de Jesus à Terra. De todos os momentos, o que mais nos interessa, para fins práticos, é a santificação, justamente por (a) se referir ao presente do cristão, ou seja, à sua experiência ordinária e cotidiana; (b) se referir ao presente de Cristo, ou seja, à etapa que presentemente Ele desenvolve em favor de Seu povo no santuário celestial. Assim, dentro da relação da salvação com a obra de Jesus, o ponto focal deve ser a relação da santificação com ministério de Jesus no santuário. A obra de Jesus no santuário é o elo que une Seu ministério terrestre com Seu ato final de Salvação, realizado em Seu retorno. A santificação é o elo que une a justificação passada com a glorificação futura. Quando se pensa em vida cristã, o mais natural seria pensar prioritariamente em termos de santificação e na dependência desse tipo de experiência com o ministério de Jesus no santuário. Infelizmente, ainda se pensa em vida cristã em termos de justificação, que, nos meios populares, praticamente resume o que significa ser um cristão (como determinado segmento evangélico norte-americano que se autodenomina “nascidos de novo”). Daí a fraqueza do caráter cristão de nossa época.

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sábado, 4 de fevereiro de 2017

ADVENTISTAS E O IMPACTO DA SALVAÇÃO


Quando Jesus é aceito, isso muda a vida da pessoa. O quanto muda? Pessoas que passam por experiências de proximidade à morte (quedas de avião, ataques terroristas, acidentes automobilísticos, catástrofes, etc) admitem ter uma nova perspectiva. Revisam as prioridades, enfocam relacionamentos, percebem a própria limitação da vida. Porém, raramente essas pessoas eram a causa da situação que quase redundou em seu fim. O passageiro de um avião não teve culpa da falha mecânica da aeronave. O funcionário do banco não sabia que no seu turno se tornaria refém de perigosos assaltantes. Em geral, não há culpa associada à catástrofe (às vezes, sentimento de culpa). Em outros casos, há parcelas de responsabilidade: o pai que viu a família no hospital se lamenta por ter economizado o valor da revisão de fim de ano; o casal lamenta ter feito o passeio de lua de mel sabendo dos alertas de desabamento na região. Mesmo nesses exemplos, não se percebe intencionalidade, desejo por sofrer ou ver outros sofrerem. A proximidade da morte é mais bem vista como fatalidade, talvez azar, mas sem intenções causais.
Por isso, o paralelo da experiência de escapar da morte com a da salvação espiritual só pode ser parcial e incompleto: no primeiro caso, fatalidade e impacto suficiente para reordenar áreas específicas da vida; no segundo caso, culpabilidade e impacto suficiente para afetar por completo a existência. Isso merece um comentário para ser bem compreendida (a) a culpabilidade e (b) o tipo de impacto que engendre todas as esferas da vida.
A culpabilidade se refere ao fato de que a situação antes da salvação é de responsabilidade humana. Se o encontro com Jesus nos muda, temos de analisar o que havia antes do encontro que exigisse mudança. E o que havia era degradação, por culpa da vontade. O pecado afeta as escolhas, os hábitos, as palavras, as intenções (mesmo as que vestem smoking!). Aqui se estabelece um ponto crucial na compreensão da mudança efetuada por Jesus: só é possível entende-la corretamente quando se assume o efeito global do pecado. Limitar a atuação do pecado implica em reduzir o que salvação efetuou. Igualmente essencial é notar que, uma vez maculado pelo mal, a única solução seria esperar uma atuação externa, jamais qualquer contraparte interna, iniciativa do próprio homem. O gênero humano não é apenas responsável pela sua condição pecaminosa, como igualmente incapaz de dirimir seus efeitos. Assim, pode dizer que o homem vive em estado perpétuo de culpa pela condição pecaminosa, da qual nada pode fazer para se livrar, pela qual é responsável.
O tipo de impacto proporcionado pela salvação é mais abrangente se comparado com as experiências daqueles que estiveram próximos da morte por uma razão simples: antes da salvação, todos estávamos mortos (Cl 2:13). O próprio Jesus disse, em um aforismo cheio de sabedoria, que os mortos (em sentido espiritual) se preocupavam em cuidar dos mortos (em sentido literal), ou seja, se limitam a cumprir as obrigações da vida, sem se preocupar em seguir Seu chamado (Lc 9:60). Se pecado é morte, salvação é vida, nova vida, ressurreição. A salvação é ressurreição, não apenas porque se diz que morremos por causa do pecado (Ef 2:5-6), como também para o pecado (Rm 6:10-11). Se o pecado traz morte (Rm 6:23), mesmo vivos estamos como mortos (como Adão e Eva, que comeram do fruto e morreram, sem, de fato, morrer naquele exato momento), pela certeza de que a morte será a sentença irrevogável.

Entretanto, ao nos outorgar a salvação, automaticamente Deus nos deu vida, vida em Cristo! Se a palavra da verdade nos deu vida (Tg 1:18), essa deve ser uma vida de obediência à verdade (1 Pe 1:22). Por isso experimentamos a salvação como uma mudança completa de vida, no sentido de que a vida nova precisa implicar em obediência. Se salvação traz vida e vida de obediência, experimentamos a salvação na sua dimensão relacionada à obediência, ou aquilo que denominamos santificação (Hb 12:14). Afinal, o perdão divino, ou etapa da salvação a qual chamamos justificação (Rm 5:1; Ef 2:8), é um ato instantâneo, ocorrido no passado; sobre a última etapa, a glorificação, não poderemos provar até que Jesus nos transforme em Sua vinda (1 Co 15:53-54; 1 Jo 3:1-2), no futuro. Assim nos resta pensar e viver a salvação em termos de santificação, ou seja, sob o impacto da nova vida recebida (Cl 3:1) e em preparação para o ato de transformação final que se dará na volta de Jesus (1 Jo 3:3). A santificação é a dimensão presente da salvação, aquilo com o que devemos nos ocupar agora. Por isso, a obediência na vida cristã assume um papel tão destacado: revela o impacto da salvação recebida (passado) e nos condiciona a alcançar o alvo da esperança (futuro).

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terça-feira, 31 de janeiro de 2017

EIKE BATISTA, HOMEM DE FÉ



De acordo com a revista Veja, Luma de Oliveira declarou em seu instagram que seu ex-marido, o empresário Eike Batista, é um homem de fé. A frase aparece no contexto da prisão de Eike, em vista da acusação de ter pago o equivalente a R$ 52 milhões de propina ao ex-governador carioca Sérgio Cabral.Da mesma forma como outros réus da Operação Lava-Jato, a expectativa é de que Eike participe de deleção-premiada.
 O que destaco nessa história é que a frase “homem de fé” ou a atribuição de fé a alguém que passe por uma crise ou momento difícil, já se tornou lugar-comum. Na tragédia nacional envolvendo os jogadores da Associação Chapecoense de Futebol, espalhou-se nacionalmente a tag #ForçaChape. Fé e força são termos intercambiáveis, desejados a vítimas ou como manifestação de apoio. Força e fé aparecem como binômio para identificar resignação, resiliência, coragem e capacidade de enfrentar a prova.
Evidentemente, essa acepção de fé, embora encontre sua raiz no texto bíblico, não aparece diretamente vinculada à fé cristã, mesmo que se infira que a pessoa que dispões de fé na crise esteja manifestando sua confiança em Deus – o que, em geral, fica implícito. Entretanto, mesmo pessoas que não são conhecidas por efusivas manifestações de religiosidade, aparecem associadas à fé ao passar por privações. É igualmente comum que se diga: “nossas orações estão com”, em clara manifestação de apoio (como o fez Zidane, ex-jogador e técnico do Real Madrid em entrevista coletiva, logo após a tragédia com a chapecoense).
Essa linguagem religiosa com transfundo secular, dita em contextos de catástrofes ou tragédias, quer coletivas ou pessoais, denota um último recurso para se atingir a esperança quando se percebe sua necessidade, ainda que não se filie a esperança diretamente com a concepção bíblica. Aparece mais como uma substituição semântica, uma medida protocolar para transmitir desejos de melhoras, demonstrar apoio, simpatia ou solidariedade para com as vítimas.
Obviamente, a Bíblia ensina que devemos ter fé durante os períodos de aflição. A grande indagação, porém, é: que tipo de fé? Fé em quem? Em nós? Em dias melhores, na justiça, no futuro? Se a fé não estiver alicerçada devidamente em Deus (Hb 11:1, 6), não passará de um discurso vazio, uma palavra inócua. Ser um “homem de fé” ou “mulher de fé” implica em andar pela fé, ou seja, desenvolver um relacionamento com Deus, mediante a pessoa de Jesus Cristo, que resulte em vida de obediência aos mandamentos divinos, pelo poder do Espírito atuando na pessoa. Dessa fé todos precisamos, quer nos bons ou nos escuros momentos da vida.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

A IGREJA ADVENTISTA MUDOU?


O adventismo mudou?
Há décadas as crenças adventistas são as mesmas.

Por que, então, se fica com a impressão de que a igreja não é a mais a mesma?
Há vários fatores, um deles, seria a mudança de ênfase.

Fale sobre a questão da mudança de ênfase.
Em sua evolução, o adventismo mudou muitas vezes de ênfase. A princípio, por ter uma proposta em muitos pontos divergente dos demais grupos evangélicos, o adventismo enfatizava seus aspectos distintivos, o que originou um comportamento legalista. Aos poucos, o movimento se equilibrou.

O legalismo continua um problema para o adventismo?
Sempre haverá a tentação do legalismo, assim como grupos e indivíduos legalistas. De um modo geral, esse não seria o problema mais sério do adventismo na atualidade.

É possível afirmar que, com a superação do legalismo inicialmente dominante, o adventismo encontrou um equilíbrio?
A princípio, sim. Contudo, com o passar das décadas, além da tentação do legalismo, surgiram outras, como o desejo latente de pertencer ao movimento evangélico.

Os adventistas não se consideram evangélicos?
Há muitas acepções para o termo evangélico. No sentido de crer na mensagem de salvação do evangelho, dom gratuito baseado na morte e ministério intercessor de Cristo, os adventistas são, sim, evangélicos. Isso não significa que o adventismo se alinhem com todas as posturas teológicas dos principais ramos do evangelicalismo.

Quais seriam alguns dos pontos de tensão entre adventistas e evangélicos?
Alguns exemplos rápidos: (1) evangélicos dissociam salvação de estilo de vida, enquanto os adventistas entendem que, uma vez justificados, todo cristão experimente o processo de santificação, que se dá pela fé e que implica em ter o caráter de Cristo formado em sua vida, mediante a obra do Espírito Santo; (2) evangélicos delimitam a obra de Cristo à Sua morte na cruz, sem possuir uma compreensão mais abrangente de Seu serviço no santuário celestial; (3) evangélicos não vêm relação entre vida cristã e obediência aos dez mandamentos, muito menos creem na importância do quarto mandamento, considerando essas temáticas referentes à religião do Antigo Testamento; (4) muitos evangélicos são dispensacionalistas e entendem que Jesus voltará e raptará secretamente a igreja, enquanto os adventistas pregam o retorno de Jesus de forma iminente, visível, literal e em glória; (5) a ênfase profética do adventismo diverge muito das principais denominações evangélicas.

Por que os adventistas quereriam se aproximar dos evangélicos?
Há vários fatores para a aproximação: (1) a influência que eruditos adventistas sofreram da teologia evangélica ao realizarem cursos de pós-graduação em universidades evangélicas; (2) a influência das metodologias e práticas ministeriais sobre setores da liderança adventista; (3) a influência da literatura, música e mídia evangélica sobre leigos e administradores adventistas, etc. Tais fatores, entre outros, fomentam o desejo de se aproximar, em detrimento da ênfase escatológica própria do adventismo, bem como da mensagem específica que o movimento possui.

Isso significa que o adventismo perdeu sua identidade própria?
A perda de identidade é um processo gradativo e heterogêneo, afetando mais a igreja em algumas geografias do que em outras. Não seria justo dizer que a igreja como um todo não cumpre mais seu papel como remanescente da profecia. A despeito da sonolência letárgica de Laodiceia (Ap 3:14-22), o clamor da meia noite será ouvido (Mt 25:6), despertando o povo de Deus. A parte individual nesse processo é orar e buscar esse despertamento, enquanto se conserva o óleo do Espírito Santo (Mt 25:8-10). Não existe um ministério da crítica, por isso, nosso papel é buscar a Deus com todas as nossas forças, para cumprir o papel que Ele espera de Seu povo.


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segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

A VERDADE NO MUNDO QUE A REJEITA


Em João 8:31-47, Jesus enfrentou resistência de um grupo que, embora o texto parecesse sugerir a princípio tratar-se de pessoas dispostas a seguirem o discipulado, prontamente rejeitou Sua mensagem. Na sociedade contemporânea, a pós-modernidade representa um desafio à pretensão do cristianismo de ser portador de uma mensagem verdadeira – a única mensagem verdadeira. Embora o zeitgeist pós-moderno suscite inúmeras questões que não podem ser adequadamente tratadas aqui, essa seção considera como a passagem se relaciona a 2 facetas da pós-modernidade: (1) o entendimento perspectivista da epistemologia pós-moderna; (2) a proposta pós-fundacionalista.
O dicionário Oxford elegeu como palavra do ano de 2016 o termo post-truth (KEYES, 2004), que ganhou relevância na polarização entre os partidos republicano e democrata, durante as eleições presidenciais norte-americanas (“Word of the Year 2016 is...”, 2016). O próprio dicionário define post-truth como “relativo a ou denotando circunstâncias nas quais fatos objetivos são menos influentes em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e à crença pessoal” (STEVENSON, 2010). Assim, a verdade se torna um construto social, uma questão de perspectiva. O perspectivismo admite que não existe um entendimento único e imparcial da verdade.
Tal conceito ultrapassa os limites da política, abarcando cultura, religião, sociedade ou qualquer área da vida. Copan (2009, p. 11–12) cita uma pesquisa do instituto Barna Group realizada em 2002, segundo a qual 83% dos adolescentes americanos dizem que a moral depende das circunstâncias e 75% dos adultos (18 a 35 anos de idade) abraçam o relativismo moral. O relativismo pode ser definido como a doutrina “que considera todo conhecimento relativo como dependente de fatores contextuais, e que varia de acordo com as circunstâncias, sendo impossível estabelecer-se um conhecimento absoluto e uma certeza definitiva.” (ABBAGNANO, 2012, p. 994–995) O ethos pós-moderno admite uma hermenêutica peculiar, a qual parte do princípio de que toda compreensão vem de pré-compreensão e pré-julgamentos que são insuperáveis (ANZENBACHER, 2009, p. 187).
Entretanto, embora essa perspectiva seja correntemente aceita, ela destoa da mensagem que encontramos nos evangelhos. Especialmente no evangelho de João, a verdade é apresentada como acessível ao ser humano. Se existe recusa à verdade, isso se deve antes a uma questão de escolha individual do que à qualquer incapacidade humana inerente de atingir a Verdade (ENGEL; RORTY, 2008, p. 43).
Obviamente, a Bíblia não ensina que somos capazes de assimilar toda a verdade exaustivamente. O conhecimento que encontramos na revelação divina, por mais que seja verdadeiro e infalível em tudo que apresenta, não constitui a verdade em sua totalidade, no sentido de não tratar de todas as coisas que se pode conhecer (afinal, esse jamais constituiu o propósito divino). A verdade bíblica é consubstancial, ou seja, suficiente para nós conhecermos a Deus (Jo 1:18; 14:6; Hb 1:1-2), sabermos de Sua existência e atuação, reconhecermos a autenticidade do testemunho bíblico (Rm 1:19; 8:16) e crer que os ensinos ali contidos são verdadeiros em todos os aspectos (Jo 20:30-31), sendo pertinentes à experiência cristã, marcada por uma perspectiva transformada e fruto de uma cosmovisão completa e fundamentada nas promessas de Deus.
Dessa forma, a certeza presente de conhecer a verdade divina, ainda que limitados pelas debilidades humanas, não esgota a possibilidade de prosseguir em conhecimento (Os 6:3), uma vez que, nesse lado da eternidade, sempre seguiremos aprendendo; não obstante, dentro da esperança cristã, chegará o momento no qual conhecermos toda a verdade – mas isso se realizará somente quando tudo voltar a ser perfeito (1 Co 13:9-10, 12).  Existe uma verdade absoluta? Sim. Podemos conhecê-la em todos os aspectos? Não, por sermos falhos em nosso conhecimento. Embora o conhecimento humano não seja absoluto, no sentido de ser onisciente, é possível o conhecimento substancial, suficiente, não exaustivo e salvífico da Verdade revelada por Deus (Dt 29:29). E isso mediante a revelação feita por Deus, principalmente por meio de Jesus, a própria Verdade (Jo 14:6; Jo 17:3, 17).
Quanto ao pós-fundacionalismo, trata-se de uma postura filosófica surgida em reação às críticas pós-modernas, as quais desabilitaram o fundacionalismo. No fundacionalismo se acredita na existência de fundamentos fortes para nossos sistemas de crença; tal premissa é veemente negada pela posição anti-fundacionalista (ou pós-fundacionalista), que “destaca a crucial importância epistêmica da comunidade, argumentando que cada comunidade e contexto possui sua própria racionalidade e que cada uma e todas as atividades sociais podem, de fato, funcionar como um caso de teste para a racionalidade humana.” (HUYSSTEEN, 1997, p. 3) Para Jones (2011, p. 30), “uma estrutura pós-fundacionalista preserva a habilidade de julgar entre as muitas racionalidades que nos confrontam em um contexto pós-moderno, pela recusa de abandonar os vários elementos dos quais os seres humanos se utilizam quando fazem decisões entre paradigmas de entendimento concorrentes.” Para Grenz e Franke (2001, p. 15), “teologia é formulada no contexto da comunidade de fé e busca descrever a natureza da fé, o Deus a quem a fé é dirigida, e as implicações do envolvimento da fé cristã com um contexto histórico-cultural específico, no qual ela vive”; portanto, a comunidade da fé é vista pelo autor como motivo integrador da teologia (GRENZ, 2000, p. 132), o local apropriado para a reflexão teológica (GRENZ, 2006, p. 209).
Contudo, segundo Jesus não é a comunidade da fé quem articula e atribui caráter de verdade ao evangelho, numa escolha fideística. A Verdade origina a comunidade, jamais o contrário. É a Palavra que faz alguém se tornar um discípulo (Jo 8:31), não os discípulos que tornam a Palavra uma verdade meramente comunitária. Durante a última oração registrada antes de Sua crucifixão, Jesus menciona a relação entre Verdade e comunidade, quando diz: “Dei-lhes a tua palavra, e o mundo os odiou, pois eles não são do mundo, como eu também não sou. Não rogo que os tires do mundo, mas que os protejas do Maligno. Eles não são do mundo, como eu também não sou. Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade.” (Jo 17:14-17). Na ocasião, Jesus também indicou a trajetória para se lograr a unidade (Jo 17:11):  sermos santificados na Verdade (v.19), o que fará o mundo crer que Deus nos enviou (v.21). Desse modo, uma teologia a partir do texto não cairá na tentação de contemporizar, mesmo que com o nobre objetivo de se tornar relevante para os não-cristãos, uma vez que, ao abrir mão da crença na Verdade para ser relevante a fará perder qualquer relevância. Apenas unidos na Verdade conseguiremos impactar o mundo.

Bibliografia

Abbagnano, Nicola. Dicionário de Filosofia. Edição: 6a. WMF Martins Fontes, 2012.
Anzenbacher, Arno. Introdução À Filosofia Ocidental. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.
Copan, Paul. True for You, But Not for Me: Overcoming Objections to Christian Faith. Revised ed. edition. Minneapolis, Minn: Bethany House Publishers, 2009.
Engel, Pascal, and Richard Rorty. Para que serve a Verdade? Unesp, 2008.
Grenz, Stanley J. “Articulating the Christian Belief-Mosaic: Theological Method after the Demisse of Foundationalism.” In Evangelical Future: A Conversation on Theological Method, 107–136. Grand Rapids, MI; Leiceister, UK; Vancouver, CA: Baker Books; InterVarsity Press; Regent College Publishing, 2000.
———. Renewing the Center: Evangelical Theology in a Post-Theological Era. 2nd ed. Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2006.
Huyssteen, J. Wentzel. Essays in Postfoudationalist Theology. Grand Rapids, MI: Eerdmans Publishing, 1997.
Keyes, Ralph. The Post-Truth Era: Dishonesty and Deception in Contemporary Life. 1st edition. New York: St. Martin’s Press, 2004.