terça-feira, 31 de janeiro de 2017

EIKE BATISTA, HOMEM DE FÉ



De acordo com a revista Veja, Luma de Oliveira declarou em seu instagram que seu ex-marido, o empresário Eike Batista, é um homem de fé. A frase aparece no contexto da prisão de Eike, em vista da acusação de ter pago o equivalente a R$ 52 milhões de propina ao ex-governador carioca Sérgio Cabral.Da mesma forma como outros réus da Operação Lava-Jato, a expectativa é de que Eike participe de deleção-premiada.
 O que destaco nessa história é que a frase “homem de fé” ou a atribuição de fé a alguém que passe por uma crise ou momento difícil, já se tornou lugar-comum. Na tragédia nacional envolvendo os jogadores da Associação Chapecoense de Futebol, espalhou-se nacionalmente a tag #ForçaChape. Fé e força são termos intercambiáveis, desejados a vítimas ou como manifestação de apoio. Força e fé aparecem como binômio para identificar resignação, resiliência, coragem e capacidade de enfrentar a prova.
Evidentemente, essa acepção de fé, embora encontre sua raiz no texto bíblico, não aparece diretamente vinculada à fé cristã, mesmo que se infira que a pessoa que dispões de fé na crise esteja manifestando sua confiança em Deus – o que, em geral, fica implícito. Entretanto, mesmo pessoas que não são conhecidas por efusivas manifestações de religiosidade, aparecem associadas à fé ao passar por privações. É igualmente comum que se diga: “nossas orações estão com”, em clara manifestação de apoio (como o fez Zidane, ex-jogador e técnico do Real Madrid em entrevista coletiva, logo após a tragédia com a chapecoense).
Essa linguagem religiosa com transfundo secular, dita em contextos de catástrofes ou tragédias, quer coletivas ou pessoais, denota um último recurso para se atingir a esperança quando se percebe sua necessidade, ainda que não se filie a esperança diretamente com a concepção bíblica. Aparece mais como uma substituição semântica, uma medida protocolar para transmitir desejos de melhoras, demonstrar apoio, simpatia ou solidariedade para com as vítimas.
Obviamente, a Bíblia ensina que devemos ter fé durante os períodos de aflição. A grande indagação, porém, é: que tipo de fé? Fé em quem? Em nós? Em dias melhores, na justiça, no futuro? Se a fé não estiver alicerçada devidamente em Deus (Hb 11:1, 6), não passará de um discurso vazio, uma palavra inócua. Ser um “homem de fé” ou “mulher de fé” implica em andar pela fé, ou seja, desenvolver um relacionamento com Deus, mediante a pessoa de Jesus Cristo, que resulte em vida de obediência aos mandamentos divinos, pelo poder do Espírito atuando na pessoa. Dessa fé todos precisamos, quer nos bons ou nos escuros momentos da vida.

sábado, 28 de janeiro de 2017

O ITINERÁRIO FLUIDO DOS CONTEXTOS


Eu estava conversando com uma amiga que é orientadora educacional. Discorríamos acerca da dificuldade dos adolescentes de entender contextos mais amplos, que não se refiram à cultura pop. “Antes, você dizia algo e as pessoas assimilavam a mensagem. Agora, você ainda precisa explicar o contexto para se fazer entender”, ponderei. “Pior: o contexto muda a cada momento”, ela arrematou.
De fato, a fluidez das mudanças em um mundo líquido remete a uma versão exacerbada da conclusão camoniana “Que não se muda já como soía.” A chave de ouro do soneto está em explicar que, além da mutabilidade das coisas, temos a idiossincrática mudança da própria mudança. O conceito pode genuinamente ser aplicado ao ethos contemporâneo sem que se lhe faça violência hermenêutica.  
A previsibilidade era uma marca do mundo primitivo. Profissão e casamento eram escolhas comunitárias, que, apesar de não desprezar completamente a escolha pessoal (como gostamos de representar caricaturalmente), ao menos lhe davam uma direção. Mesmo o narcisismo moderno acontecia em um mundo que ambicionava a previsibilidade, com o domínio técnico da ciência, a decodificação das regras morais pelos filósofos e o desenvolvimento de mão de obra especificada (e consequente certificação para exercer uma provisão por toda a vida).
Com o desmantelamento dos referenciais providos pelas meta-narrativas, a pós-modernidade feriu mortalmente a previsibilidade. A cibercultura promove integração e avanços tecnológicos, com seus efeitos quase imediatos em uma aldeia global. Já não há aprendizado que dure por toda a vida, porque novas competências surgem em velocidade arrebatadora. Qual a profissão do futuro? Provavelmente ser capaz de dar prognósticos sobre o futuro, já que não há consenso entre analistas sobre os potenciais e riscos em nosso admirável mundo novo.
A mídia brinca com a falta de contextos, reproduzindo as grandes obras ficcionais por meio de remakes ou pastiches mal-disfarçados. E isso atinge em cheio às pessoas que sofrem de síndrome de nostalgia aguda. Já não há grandes filmes, romances e músicas. Tudo já foi assistido, lido e ouvido. Assim, só nos resta recriá-los, recicla-los, quase à exaustão. Trata-se de uma tentativa desesperada de digerir algo sólido em uma cultura sem muita inspiração ou capacidade de comunicar mensagens relevantes. Em um contexto líquido, a diluição é uma alternativa para assimilar o que é realmente sólido.
E o que dizer de relacionamentos, experiências significativas, instituições sociais e da experiência religiosa, igualmente diluídas, re-significadas e, portanto, insuficientes? O resultado da perda de referenciais implica na perda daquilo que nos torna humanos: a relação com absolutos (Deus, a moralidade, etc). Se o contexto flui, o próprio homem se encontra em risco de extinção, sofrendo a diluição crônica de seus ideais, trabalho, patrimônio cultural, relacionamentos, enfim, a diluição de si próprio.

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quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

A IGREJA ADVENTISTA MUDOU?


O adventismo mudou?
Há décadas as crenças adventistas são as mesmas.

Por que, então, se fica com a impressão de que a igreja não é a mais a mesma?
Há vários fatores, um deles, seria a mudança de ênfase.

Fale sobre a questão da mudança de ênfase.
Em sua evolução, o adventismo mudou muitas vezes de ênfase. A princípio, por ter uma proposta em muitos pontos divergente dos demais grupos evangélicos, o adventismo enfatizava seus aspectos distintivos, o que originou um comportamento legalista. Aos poucos, o movimento se equilibrou.

O legalismo continua um problema para o adventismo?
Sempre haverá a tentação do legalismo, assim como grupos e indivíduos legalistas. De um modo geral, esse não seria o problema mais sério do adventismo na atualidade.

É possível afirmar que, com a superação do legalismo inicialmente dominante, o adventismo encontrou um equilíbrio?
A princípio, sim. Contudo, com o passar das décadas, além da tentação do legalismo, surgiram outras, como o desejo latente de pertencer ao movimento evangélico.

Os adventistas não se consideram evangélicos?
Há muitas acepções para o termo evangélico. No sentido de crer na mensagem de salvação do evangelho, dom gratuito baseado na morte e ministério intercessor de Cristo, os adventistas são, sim, evangélicos. Isso não significa que o adventismo se alinhem com todas as posturas teológicas dos principais ramos do evangelicalismo.

Quais seriam alguns dos pontos de tensão entre adventistas e evangélicos?
Alguns exemplos rápidos: (1) evangélicos dissociam salvação de estilo de vida, enquanto os adventistas entendem que, uma vez justificados, todo cristão experimente o processo de santificação, que se dá pela fé e que implica em ter o caráter de Cristo formado em sua vida, mediante a obra do Espírito Santo; (2) evangélicos delimitam a obra de Cristo à Sua morte na cruz, sem possuir uma compreensão mais abrangente de Seu serviço no santuário celestial; (3) evangélicos não vêm relação entre vida cristã e obediência aos dez mandamentos, muito menos creem na importância do quarto mandamento, considerando essas temáticas referentes à religião do Antigo Testamento; (4) muitos evangélicos são dispensacionalistas e entendem que Jesus voltará e raptará secretamente a igreja, enquanto os adventistas pregam o retorno de Jesus de forma iminente, visível, literal e em glória; (5) a ênfase profética do adventismo diverge muito das principais denominações evangélicas.

Por que os adventistas quereriam se aproximar dos evangélicos?
Há vários fatores para a aproximação: (1) a influência que eruditos adventistas sofreram da teologia evangélica ao realizarem cursos de pós-graduação em universidades evangélicas; (2) a influência das metodologias e práticas ministeriais sobre setores da liderança adventista; (3) a influência da literatura, música e mídia evangélica sobre leigos e administradores adventistas, etc. Tais fatores, entre outros, fomentam o desejo de se aproximar, em detrimento da ênfase escatológica própria do adventismo, bem como da mensagem específica que o movimento possui.

Isso significa que o adventismo perdeu sua identidade própria?
A perda de identidade é um processo gradativo e heterogêneo, afetando mais a igreja em algumas geografias do que em outras. Não seria justo dizer que a igreja como um todo não cumpre mais seu papel como remanescente da profecia. A despeito da sonolência letárgica de Laodiceia (Ap 3:14-22), o clamor da meia noite será ouvido (Mt 25:6), despertando o povo de Deus. A parte individual nesse processo é orar e buscar esse despertamento, enquanto se conserva o óleo do Espírito Santo (Mt 25:8-10). Não existe um ministério da crítica, por isso, nosso papel é buscar a Deus com todas as nossas forças, para cumprir o papel que Ele espera de Seu povo.


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segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

A VERDADE NO MUNDO QUE A REJEITA


Em João 8:31-47, Jesus enfrentou resistência de um grupo que, embora o texto parecesse sugerir a princípio tratar-se de pessoas dispostas a seguirem o discipulado, prontamente rejeitou Sua mensagem. Na sociedade contemporânea, a pós-modernidade representa um desafio à pretensão do cristianismo de ser portador de uma mensagem verdadeira – a única mensagem verdadeira. Embora o zeitgeist pós-moderno suscite inúmeras questões que não podem ser adequadamente tratadas aqui, essa seção considera como a passagem se relaciona a 2 facetas da pós-modernidade: (1) o entendimento perspectivista da epistemologia pós-moderna; (2) a proposta pós-fundacionalista.
O dicionário Oxford elegeu como palavra do ano de 2016 o termo post-truth (KEYES, 2004), que ganhou relevância na polarização entre os partidos republicano e democrata, durante as eleições presidenciais norte-americanas (“Word of the Year 2016 is...”, 2016). O próprio dicionário define post-truth como “relativo a ou denotando circunstâncias nas quais fatos objetivos são menos influentes em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e à crença pessoal” (STEVENSON, 2010). Assim, a verdade se torna um construto social, uma questão de perspectiva. O perspectivismo admite que não existe um entendimento único e imparcial da verdade.
Tal conceito ultrapassa os limites da política, abarcando cultura, religião, sociedade ou qualquer área da vida. Copan (2009, p. 11–12) cita uma pesquisa do instituto Barna Group realizada em 2002, segundo a qual 83% dos adolescentes americanos dizem que a moral depende das circunstâncias e 75% dos adultos (18 a 35 anos de idade) abraçam o relativismo moral. O relativismo pode ser definido como a doutrina “que considera todo conhecimento relativo como dependente de fatores contextuais, e que varia de acordo com as circunstâncias, sendo impossível estabelecer-se um conhecimento absoluto e uma certeza definitiva.” (ABBAGNANO, 2012, p. 994–995) O ethos pós-moderno admite uma hermenêutica peculiar, a qual parte do princípio de que toda compreensão vem de pré-compreensão e pré-julgamentos que são insuperáveis (ANZENBACHER, 2009, p. 187).
Entretanto, embora essa perspectiva seja correntemente aceita, ela destoa da mensagem que encontramos nos evangelhos. Especialmente no evangelho de João, a verdade é apresentada como acessível ao ser humano. Se existe recusa à verdade, isso se deve antes a uma questão de escolha individual do que à qualquer incapacidade humana inerente de atingir a Verdade (ENGEL; RORTY, 2008, p. 43).
Obviamente, a Bíblia não ensina que somos capazes de assimilar toda a verdade exaustivamente. O conhecimento que encontramos na revelação divina, por mais que seja verdadeiro e infalível em tudo que apresenta, não constitui a verdade em sua totalidade, no sentido de não tratar de todas as coisas que se pode conhecer (afinal, esse jamais constituiu o propósito divino). A verdade bíblica é consubstancial, ou seja, suficiente para nós conhecermos a Deus (Jo 1:18; 14:6; Hb 1:1-2), sabermos de Sua existência e atuação, reconhecermos a autenticidade do testemunho bíblico (Rm 1:19; 8:16) e crer que os ensinos ali contidos são verdadeiros em todos os aspectos (Jo 20:30-31), sendo pertinentes à experiência cristã, marcada por uma perspectiva transformada e fruto de uma cosmovisão completa e fundamentada nas promessas de Deus.
Dessa forma, a certeza presente de conhecer a verdade divina, ainda que limitados pelas debilidades humanas, não esgota a possibilidade de prosseguir em conhecimento (Os 6:3), uma vez que, nesse lado da eternidade, sempre seguiremos aprendendo; não obstante, dentro da esperança cristã, chegará o momento no qual conhecermos toda a verdade – mas isso se realizará somente quando tudo voltar a ser perfeito (1 Co 13:9-10, 12).  Existe uma verdade absoluta? Sim. Podemos conhecê-la em todos os aspectos? Não, por sermos falhos em nosso conhecimento. Embora o conhecimento humano não seja absoluto, no sentido de ser onisciente, é possível o conhecimento substancial, suficiente, não exaustivo e salvífico da Verdade revelada por Deus (Dt 29:29). E isso mediante a revelação feita por Deus, principalmente por meio de Jesus, a própria Verdade (Jo 14:6; Jo 17:3, 17).
Quanto ao pós-fundacionalismo, trata-se de uma postura filosófica surgida em reação às críticas pós-modernas, as quais desabilitaram o fundacionalismo. No fundacionalismo se acredita na existência de fundamentos fortes para nossos sistemas de crença; tal premissa é veemente negada pela posição anti-fundacionalista (ou pós-fundacionalista), que “destaca a crucial importância epistêmica da comunidade, argumentando que cada comunidade e contexto possui sua própria racionalidade e que cada uma e todas as atividades sociais podem, de fato, funcionar como um caso de teste para a racionalidade humana.” (HUYSSTEEN, 1997, p. 3) Para Jones (2011, p. 30), “uma estrutura pós-fundacionalista preserva a habilidade de julgar entre as muitas racionalidades que nos confrontam em um contexto pós-moderno, pela recusa de abandonar os vários elementos dos quais os seres humanos se utilizam quando fazem decisões entre paradigmas de entendimento concorrentes.” Para Grenz e Franke (2001, p. 15), “teologia é formulada no contexto da comunidade de fé e busca descrever a natureza da fé, o Deus a quem a fé é dirigida, e as implicações do envolvimento da fé cristã com um contexto histórico-cultural específico, no qual ela vive”; portanto, a comunidade da fé é vista pelo autor como motivo integrador da teologia (GRENZ, 2000, p. 132), o local apropriado para a reflexão teológica (GRENZ, 2006, p. 209).
Contudo, segundo Jesus não é a comunidade da fé quem articula e atribui caráter de verdade ao evangelho, numa escolha fideística. A Verdade origina a comunidade, jamais o contrário. É a Palavra que faz alguém se tornar um discípulo (Jo 8:31), não os discípulos que tornam a Palavra uma verdade meramente comunitária. Durante a última oração registrada antes de Sua crucifixão, Jesus menciona a relação entre Verdade e comunidade, quando diz: “Dei-lhes a tua palavra, e o mundo os odiou, pois eles não são do mundo, como eu também não sou. Não rogo que os tires do mundo, mas que os protejas do Maligno. Eles não são do mundo, como eu também não sou. Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade.” (Jo 17:14-17). Na ocasião, Jesus também indicou a trajetória para se lograr a unidade (Jo 17:11):  sermos santificados na Verdade (v.19), o que fará o mundo crer que Deus nos enviou (v.21). Desse modo, uma teologia a partir do texto não cairá na tentação de contemporizar, mesmo que com o nobre objetivo de se tornar relevante para os não-cristãos, uma vez que, ao abrir mão da crença na Verdade para ser relevante a fará perder qualquer relevância. Apenas unidos na Verdade conseguiremos impactar o mundo.

Bibliografia

Abbagnano, Nicola. Dicionário de Filosofia. Edição: 6a. WMF Martins Fontes, 2012.
Anzenbacher, Arno. Introdução À Filosofia Ocidental. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.
Copan, Paul. True for You, But Not for Me: Overcoming Objections to Christian Faith. Revised ed. edition. Minneapolis, Minn: Bethany House Publishers, 2009.
Engel, Pascal, and Richard Rorty. Para que serve a Verdade? Unesp, 2008.
Grenz, Stanley J. “Articulating the Christian Belief-Mosaic: Theological Method after the Demisse of Foundationalism.” In Evangelical Future: A Conversation on Theological Method, 107–136. Grand Rapids, MI; Leiceister, UK; Vancouver, CA: Baker Books; InterVarsity Press; Regent College Publishing, 2000.
———. Renewing the Center: Evangelical Theology in a Post-Theological Era. 2nd ed. Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2006.
Huyssteen, J. Wentzel. Essays in Postfoudationalist Theology. Grand Rapids, MI: Eerdmans Publishing, 1997.
Keyes, Ralph. The Post-Truth Era: Dishonesty and Deception in Contemporary Life. 1st edition. New York: St. Martin’s Press, 2004.



terça-feira, 17 de janeiro de 2017

ITINERÁRIO DOS JUSTOS



O homem honesto, distante dos pais e longe do país, se aparta dos deuses falsos
  E até no palácio, cercado por luxo acima do comum, mantém o caráter reto.
    Deus segue com ele – não foge de seu propósito de servir, ainda que os céus se abalem.
  Assim, terá honras e os reis lhe farão sentar-se e governar, ao ver nele um homem justo;
Assim, exilado, por sonhos verá as coisas que virão, e o Deus Vivo mais dará.


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domingo, 8 de janeiro de 2017

ADVENTISMO COM AS VESTES RASGADAS



Jesus volta quando? Os pioneiros adventistas estavam ansiosos pela resposta dessa pergunta. Haviam saído de uma forte experiência proporcionada pelo movimento milerita, experiência baseada na proximidade da volta de Jesus. Se o milerismo sabia tocar uma nota só, ao menos tocou-a com a excelência de uma sinfonia. Dissolvido o movimento, restava a expectativa despertada por ele.
Em cerca de seis anos, os pioneiros estudaram avidamente a Bíblia e se depararam com o sistema integrador da Verdade bíblica: o tema do santuário. Com a expectativa do retorno de Jesus, surgiu uma outra urgência: pregar a mensagem de advertência a um mundo impenitente. Ao mesmo tempo, a coerência exigia que, pregando a outros, eles mesmos não fossem reprovados (1 Co 9:27). Logo, os adventistas começaram a inquirir acerca do preparo necessário para se encontrarem com o Salvador.
Por mais que a ênfase quanto ao tempo (marcação de datas) fosse uma herança milerita do passado, a preocupação com a proximidade do retorno de Jesus permaneceu, com um sentido novo. Não se enfatizava mais a exatidão do quando, mas se entendia que a culminância da missão (pregação da última mensagem ao mundo) deveria coincidir com o fator coerência (estar preparado em nível pessoal), servindo esse binômio como uma forma antecipada de experimentar o quando – o pregando e se preparando, Jesus voltaria mais cedo.
Em meio à revolução digital e o despertar do imediatismo na era dos comunicadores instantâneos e mídias sociais, estamos mantendo a mesma questão suspensa, como a aguardar sua resposta com o coração apertado? Ainda queremos saber sobre a volta de Jesus? A melhor resposta consiste em verificar quanto tempo gastamos pregando o evangelho e nos preparando pessoalmente para o encontro com Jesus.
Que o Espírito do Senhor encontre em nós um coração cheio da esperança bíblica! Temos de rasgar nossas vestes e abrir de nosso orgulho, dos preconceitos e de uma vida religiosa meramente focada em exterioridades. A Palavra precisa ser uma influência não somente no aspecto devocional/motivacional; precisamos deixar que seus preceitos removam o que nos impede verdadeiramente de servir a Deus. Sem reavivamento e reforma, dizer que esperamos Jesus seria mero cinismo ou ilusão auto impingida…
Afinal, quando Jesus volta? Volta logo, Senhor Jesus!



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quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

EVANGELISMO REAL NO MUNDO VIRTUAL


A antítese real/virtual, embora frequente, ainda é mal compreendida. Para Pierre Lévy, não haveria propriamente uma antítese; virtual é a potência, ou seja, a possibilidade, a antecipação daquilo que é real. A virtualidade não seria uma realidade alternativa, mas uma camada, uma nova dimensão da própria realidade. Essa “camada extra” está presente na vida de milhões de pessoas. Isso faz com que se pense na questão do testemunho no mundo virtual, o que abriria o potencial para uma evangelização mais eficiente. Porém, nada é tão simples.
Em primeiro lugar, a dimensão virtual da realidade possui sua própria racionalidade, mais aberta, intuitiva e experimental do que a “realidade tradicional”, dominada por convenções sociais e instituições marcadas pelo signo do Iluminismo.
Outro fator: o lugar da autoridade tradicional fica um tanto deslocado na dimensão virtual, porque novas autoridades são investidas e a tolerância pós-moderna (assim como a intolerância das redes sociais) não reconhece alguém por seu título ou conhecimento. As pessoas são reconhecidas pela sua empatia, capacidade de atrair seguidores e uso apropriado da iconografia de cada nicho. A estrutura eclesiástica não faz sentido na rede (para bem e para mal).
A mensagem cristã é sólida e (para o paladar da mídia iconográfica) bastante indigesta. Em um mundo que prega a liberdade total de escolha em questões como estilo de música, de vestimenta e de sexualidade, o cristianismo bíblico soa como um intruso (diríamos ser um intruso promissor, mas, ainda assim, um intruso). Não à toa a mensagem cristã atrai haters como a luz seduz moscas. O que sobrevive é o cristianismo inofensivo que passeia pelo Facebook no domingo pela manhã (com conceitos que lembrariam um Zen-Budismo light, no limite entre a filosofia da Nova Era e um Kardecismo mais brando).
É possível evangelizar intencionalmente no Web 2.0?
Sim, mas essa não é a ferramenta mais importante. Antes do que fazer, o cristianismo nos faz ver quem devemos ser. Todo o sucesso da religião de Cristo está em uma vida transformada pelo poder da Verdade (Jo 8:32). E isso nos leva a não nos limitar a um uso evangelístico da internet e ao reconhecimento de suas possibilidades, como a uma crítica consciente dessa nova dimensão da realidade. Simplesmente aceitar que relacionamentos se desmanchem por causa do phubbing (quando alguém pretere o parceiro pelo celular) ou ver adolescentes e jovens adultos que nem nos sábados conseguem sair do WhatsApp é indevido. O cristianismo precisa dar as boas novas para um mundo que não conseguem mais desconectar ou desacelerar.
Da perspectiva espiritual do Grande Conflito, se o tempo é curto, Satanás faz de tudo para anular seus efeitos. Se todo shopping center é arquitetado para anular a sensação de passagem das horas, as redes sociais existem para proporcionar o mesmo efeito, sem a necessidade de uma ambientação externa, real, apenas instilando a permanência em um ambiente virtual. Por isso, o apóstolo Paulo nos aconselha a não andar descuidados, mas a examinar nossa conduta e remir (recuperar) o tempo, porque temos, de fato, pouco tempo (Ef 5:15-16)! Ser tragado pelas redes sociais e suas consequências nocivas, ainda que por pretexto de pregar o evangelho, é desperdiçar o escasso dom do tempo.
Nossa mensagem tem muito a dizer para os filhos órfãos de pais presos aos seus celulares. Nossa experiência em uma comunidade real, vibrante e que experimenta a presença do Cristo vivo, atuante desde o santuário celestial, precisa ser compartilhada com aqueles que só conhecem os modelos de comunidades virtuais. Se a dimensão virtual sufoca outras aspirações, a mensagem de temperança revela de que necessitamos para uma vida equilibrada. A despeito dos excessos, a dimensão virtual tem sua relevância e precisamos compartilhar o evangelho com outros por meio desse canal. Mas isso só fará sentido quando o evangelho for o centro de nossa própria realidade, o leitmotiv de nossa vida.



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