sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

SEGUIR DIREÇÃO PROGRESSIVA E ASCENDENTE EM 2011

Escrevo para agradecê-lo pela atenção. Foram 233 posts ao longo de 2010 (mesmo número que em 2008). Apareceram controvérsias sobre louvor e adoração, críticas ao evolucionismo de Dawkins e Hawking, análise de comportamentos endossados pela mídia e considerações inspiradas em Francis Schaeffer a respeito da cosmovisão cristã. O número de seguidores do blog aumentou consideravelmente, assim como o dos que nos acompanham no Twitter.

Além disso, o livro Paixão Cega saiu pela CPB e promete vender sua tiragem antes de completar um ano de lançamento. Sem dúvida, faltariam palavras para mencionar as muitas conquistas pessoais ao longo do ano. Aqueles que me conhecem mais de perto, sabem que em 2010 Deus ouviu a oração feita ao longo dos últimos anos, e Ele me fez justiça – louvado seja o Seu nome!

Quero terminar o ano convidando você a refletir nessas palavras de Ellen White, que recebeu o dom de profecia e influenciou a igreja remanescente de Deus por toda a sua vida. White escreveu a um de seus filhos, por ocasião do aniversário dele. Suas palavras são propícias a um fim de ano, quando tantas promessas fúteis são feitas. Ao invés disso, deveríamos tomar firmes resoluções espirituais, porque, mais do que nunca, o Senhor Jesus está próximo de voltar.

“Ao entrares em um novo ano, faze-o com nova resolução de seguir direção progressiva e ascendente. Seja tua vida mais elevada do que tem sido até aqui. Faze que o teu objetivo não seja buscar o próprio interesse e prazer, mas promover o avançamento da causa de teu Redentor. Não permaneças numa atitude em que sempre necessites tu mesmo de auxílio, e outros tenham de guardar-te para te conservar no caminho estreito. Podes ser forte para exercer influência santificadora sobre outros. Podes estar em atitude em que o interesse de tua alma se desperte para fazer bem a outros, para consolar os aflitos, fortalecer os fracos, e dar teu testemunho em favor de Cristo sempre que se ofereça oportunidade. Visa honrar a Deus em tudo, sempre e em toda parte. Põe em tudo tua religião. Sê cabal em tudo quanto empreenderes.” [1]

Em 2011, continuamos nos encontrando neste endereço! Até.


[1] Ellen White, Testemunhos Seletos, vol. 1 (Santo André, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1984), p. 239.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

NATIVITATEN, O PONTO ALTO DO NATAL LUZ

Um espetáculo inesquecível de luzes e acordes. Em meio à programação do Natal Luz, realizada em Gramado (RS), o musical Nativitaten brilha com maior intensidade. Definido como uma “Ópera a Céu aberto”, na verdade o Nativitaten reúne canções de Natal, música evangélica e erudita. São dezenas de apresentações em torno do lago Joaquina Rita Bier, sendo que cada temporada se estende de Novembro a Janeiro. Assisti o espetáculo com minha esposa em 28 de Dezembro, justamente a última apresentação programada para 2010.

Concebeu-se uma estrutura glamorosa dentro do lago, com seis clusters de LED em torno de palcos flutuantes e um palco central, o qual exibe cinco telões contíguos. Na parte superior, se alojam um coral com dezenas de vozes e o grupo de percussão da cidade de Gramado. Reformulações feitas recentes no local incluíram melhorias na segurança, acomodações e redução da iluminação.

O elenco de cantores é composto pelos tenores Alexandre Borges, Pedro Szobot e Roger Scarton, pelas sopranos Débora Faustino e Carol Abreu, além da mezzo-soprano Débora Dreyer e do baixo/barítono Daniel Germano. Scarton, no espetáculo desde 2001, declarou à TV Gramado Scarton que o musical “[…] é mais do que um show, é uma verdadeira alquimia de música, de som, de fogos, de água, que vai te transformar e emocionar”. Na mesma ocasião, Szobot complementou: “[…] é um espetáculo aos moldes de um país de primeiro mundo”.

Em 2009, um coral formado por alunos, ex-alunos e funcionários do Colégio Adventista Cruzeiro do Sul (IACS) passou a acompanhar o evento. Contratado para 31 apresentações na Árvore cantante e 17 do Nativitaten, o coral do IACS, que recebeu o cognome de Coral Natal Luz IACS, está sob a direção de Ana Maria Macedo de Quevedo (Preta) e Gerson Salcedo. O próprio coral solicitou para dar uma volta ao redor do lago em sua entrada, a fim de se aproximar do público.

Pouco antes do início da programação, vendedores credenciados passavam no local oferecendo DVDs, capas de chuva e pipocas (doces ou salgadas). Quem comprou ingressos especiais, tinha direito a coquetéis e champagnes. O frio da noite gramadense era cortante, fazendo forte contraste com o calor de um dia típico de verão.

Aos poucos, os cantores foram chegando aos palcos flutuantes, levados por balsas que cruzavam o lago ainda timidamente iluminado. Pouco depois, o cora Natal Luz IACS fez sua entrada amistosa, acenando e recebendo acenos. A expectativa crescia. Às 9h30min, um locutor deu boas vindas ao público e o espetáculo se iniciou.

As músicas iniciais remetiam à Criação (aludida por uma bela ária em italiano, na qual os três tenores se revezavam) e à Queda (com um trecho bem conhecida de Carmina Burana, O Fortuna, Imperatrix Mundi). A partir de então, o repertório gravitou em torno de músicas natalinas e canções cristãs tradicionais. As luzes e fogos de artifício tornam as performances memoráveis. O público reagiu de forma emocionada e entusiasmada, aplaudindo veemente o espetáculo.

Do ponto de vista cristão, os destaques negativos do programa ficam por conta da música Ave Maria (letra sobre a composição de Schubert) e da inclusão de Happy Christmas (War is over), de John Lennon. A letra latina da Ave Maria alude à saudação do anjo à Maria, mas o trecho final inclui esta prece: “Santa Maria, Mãe de Deus, / rogai por nós, pecadores, /agora e na hora da nossa morte. /Amém.” Por razões óbvias, o coral do IACS não participou na canção. Quanto à música do roqueiro Lennon, ela não capta nenhum sentido propriamente cristã, mas trata de manifestação pró-pacifismo em linguagem pop. Ao som da balada, as velas nas mãos do público se agitou.

Apesar das ressalvas, o Nativitaten trouxe memoráveis arranjos para canções como Joy to the World, O first Noel e Adeste Fideles. Destacaram-se as canções Amazing Grace e um Noite Feliz, entoado em Alemão, Italiano e Português. Na sua última apresentação de 2010, quando o Natal Luz completou 25 anos, o musical trouxe uma colorida e impactante lembrança de que a verdadeira luz deste mundo foi trazida pelo nascimento do Filho de Deus, aquele que merece adoração integral de cada coração humano
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terça-feira, 28 de dezembro de 2010

SE TERRENA, MORTA!

“Toda religião associada ao governo das cousas da terra é uma religião morta.”
Rui Barbosa, O papa e o concílio (Rio de Janeiro, RJ: Elos, s/d), 3ª ed., vol. 1, pp. 23-24.

domingo, 26 de dezembro de 2010

UMA CATÁSTROFE A MAIS EM 2010 - É TEMPO DE PREPARO!

Para fechar um ano em que tantas catástrofes naturais chocaram a comunidade internacional, um terremoto atingiu Vanuatu, nação a Oeste do Oceano Pacífico. Segundo informou o Estadão, o tremor ocorreu às 24h16min de hoje. Em 27 de Maio deste ano, o site Último Segundo notificara a incidência de outro terremoto no país; ambos atingiram pelo menos 7 graus, sem causar maiores estragos, felizmente.

A incidência de catástrofes cresce de forma assustadora, chamando a atenção da mídia. Para aqueles que creem na Palavra de Deus, nenhuma surpresa. Mas fica o alerta de que devemos nos preparar diante desses acontecimentos para o retorno de Jesus, evento para o qual as tragédias apenas servem como sinais.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

PRESENTE DE NATAL

Eu e minha esposa Noribel passamos o Natal geralmente com meus pais ou meus sogros (que moram a mais de 1000 km de distância entre si). A cada fim de ano, procuramos presentes significativos para a família. Talvez por conta disso, não nos preocupamos tanto em comprar presentes um para o outro, o que acaba ficando para a última hora. Em 2010, não fugimos à regra: lá estávamos nós no Centro de Sapiranga (RS), separados um do outro, cada qual procurando um presente para dar.

Para mim, comprar as coisas das quais ela gosta sempre constitui um desafio. É menos arriscado dar perfumes, cremes e outros cosméticos. Como achar um sapato número 34 e que agrade uma contumaz apreciadora de calçados? Naquele fim de tarde, resolvi inovar e pensar como minha amada. Entrei de loja em loja e fiz as perguntas que ela faria. Procurei olhar da forma como a vejo olhar. Afinal, já acompanhei minha esposa em seus maiores momentos de indecisão – fazendo compras!

Aliás, ultimamente, das duas, uma: ou eu carregava um livro para me distrair ou, no caso de compras em um shopping, corria para a livraria, a fim de esperá-la. Isso não quer dizer que não me importe ou não dê sugestões. Faço comentários em momentos específicos. E nos momentos iniciais (nas primeiras horas!), até consigo ladear minha amada.

Mas confesso que as mulheres têm uma disposição inesgotável quando querem de escolher uma bolsa, um sapato ou um vestido. E a minha é a mais detalhista, pesquisadora e cautelosa consumidora. São características que exigem muita compreensão; outrossim, vê-la feliz compensa qualquer sacrifício! Além de tudo, Noribel é extremamente econômica (e possui muito bom gosto, além de um senso pessoal de respeito às orientações bíblicas sobre vestimenta).

Depois de olhar cinco ou seis lojas, colher cartões, fazer dezenas de perguntas e caminhar um bocado, eu estava exausto. Vira sapatos, blusinhas, saias e outros possíveis presentes. Daí, vi-me forçado a ir para um lugar onde meu cérebro pudesse escolher lucidamente entre as opções. Que ambiente melhor do que a biblioteca pública da cidade?

Apanhei um livro sobre Baudelaire e outros decadentistas, folhei as páginas sem interesse genuíno e me concentrei nos cartões. Pensei e escolhi os sapatos. Ao voltar à loja, pedi que a atendente fizesse um pacote que ocultasse bem o tipo de presente.

Saindo da loja, encontrei-me com minha esposa em um lava-rápido. Ela já estava ao volante. Comprara o meu presente de forma objetiva, dentro da primeira loja que fora – exatamente como costumo fazer! Senti naquele momento que, nas poucas horas em que estivemos separados, representamos o papel um do outro – marido e mulher procurando agir e sentir como seu cônjuge. Sem dúvida, esse presente foi muito especial, acima de qualquer coisa que pudéssemos comprar.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O RAPPER, SEUS HERÓIS E SEU AUTO-RETRATO


O rap é um fruto rebelde da música negra, historicamente queixosa e revigorante, em constante luta contra o preconceito e a discriminação, além de manifestar o orgulho de uma raça criada, como as demais, à imagem e semelhança de Deus. Dos spirituals, com suas referências a Moisés e ao Céu, ao rap, com seu rancor violento servindo de crônica da periferia, a música negra ganhou notoriedade. Seja pelas síncopes nas canções religiosas, ao ritmo frenético do jazz, do ritmin’ blues, a black music tornou-se linguagem universal – das periferias de São Paulo, às comunidades minoritárias na Inglaterra, aos movimentos de renovação musical na China e Japão.
O Brasil tem seus rappers. Não são ainda badalados e multimilionários, como os americanos. Mas fazem barulho, atraem a mídia e fazem shows caríssimos. Entre os rappers da velha guarda, está o famigerado Racionais MC’s. O grupo tem canções que extrapolaram os guetos para agitar as festas dos playboys, ironicamente a quem eles mais criticam!
Na última sexta-feira, o líder do grupo, o cantor (?) e pensador (????) Mano Brown fez algumas declarações polêmicas. Em meio às recentes conquistas do BOPE e das Forças Armadas, que expulsaram traficantes das comunidades cariocas Vila Cruzeiro e Complexo do Alemão, Brown acusou: "Para mim, o Bope não é herói. Os heróis estão presos." A frase foi publicada no jornal Folha de São Paulo.
É claro que a declaração foi um tiro no pé. Não poucos acusaram o rapper de apologia ao crime. É claro que não seria a primeira vez, considerando algumas das letras do Racionais. Eu, que não sou (e, muito menos, gostaria de ser) especialista em rap, fui em busca de letras “entoadas” (ou faladas, sei lá…) por Mano e sua trupe. Encontrei exemplos interessantes de apologia ao crime, como esta obra prima de nossa língua “inculta e bela” (nesse caso, mais inculta do que bela…):
O beck está queimando
Fumaça sobe
Eu tenho a impressão de estar ouvindo vozes
Parado nessa estrada fico pensando
Pra onde este caminho está me levando

[…] a minha mente anestesiada
não percebia o quanto eu gritava
com a explosão da fogueteira
que iluminava nossa Vila Flávia
enrolando um baseado com os irmãos
diretoria presente sem confusão

Flor Vila Cruzeirinho
Vai quem quer e Noroeste"
Cada um, cada um/ O beck está queimando (aparentemente, as duas canções têm a mesma letra; aliás, reproduzi as letras com a grafia do site em que as encontrei; o mesmo vale para as demais letras).

Contrassensualmente, em outra canção, Brown adverte os jovens contra as drogas, especialmente o crack:

O vício tem dois lados.
Depende disso ou daquilo,então tá tudo errado.
Eu não vou ficar do lado de ninguém, por quê?
Quem vende droga pra quem? Hã!

[…] “Molecada sem futuro eu já consigo ver”
Periferia é periferia.
“Aliados, drogados, então...”
Periferia é periferia.
“Deixe o crack de lado, escute o meu recado.”
Periferia é periferia

Mesmo entre rappers, Mano já é criticado há muito por sua postura; afinal, o cantor que censura tanto os playboys, gosta de adornar a cara de mau com roupas caras e correntes, além de passear com belos carros (e, conta-se, de participar de rachas). No fundo, o melhor retrato de Mano Brown foi pintado pelo próprio artista:


Esses caras daqui metidu a ladraozinhu mais na verdade e tudomauricinho. A vida é assim

APERITIVO


A mesa é posta: eu me assento.
Servem-me o rosto mais belo,
O quebrar-se crebro da onda
E o marulho que me ronda
Em generosas quantias.
Antes inapetente, a alma
Saliva ante as iguarias.

Ao tilintar dos talheres,
À fome só se acrescenta;
E eu sei que mais virá quando
Vir-se esse mundo esgotando.
Já limpo o prato da História,
Meu Deus dará um banquete
Saciando-me com a Glória.

BELLOTTO, SUA DEUSA E AS IMPLICAÇÕES

Uma deusa: assim, no feminino, sem maiúsculas. Adepta do atletismo, desatenta e negra. Essa é a concepção de divindade do ateu Tony Bellotto, publicada no blog do cantor. Salta à vista a semelhança com o retrato de Deus-Pai feito por William P. Young no Best-seller A Cabana.

Não creio ser coincidência. Com a identificação tradicional da divindade estritamente associada com anglo-saxões adeptos do patriarcado, nada mais chocante do que apresentar Deus como sendo mulher e negra! No entanto, os estereótipos sobre Deus são aceitos a rigor apenas pelos desinformados. Um exemplo: o poeta católico Neimar de Barros compôs o poema Deus Negro, justamente para desafiar as idéias pré-concebidas acerca do Ser divino.

O texto de Belloto tem a virtude da jocosidade, embora sem convidar a uma segunda leitura (talvez o autor o escrevera para proporcionar passatempo leve a seus leitores, sem maiores ambições). Ainda assim, teço dois breves comentários sobre ele:

1) O texto expõe a variedade de concepções sobre Deus como um forte argumento para relativizar a existência objetiva de Deus: o autor começa afirmando que recebeu a “graça de NÃO crer”. A seguir, sumariza algumas visões religiosas, desde o Deus pessoal, ao deus energia. Também afirma respeitar “quem acredita e, sinceramente, não meço ou julgo as pessoas pelo fato de elas acreditarem ou não em Deus. Isso não tem a menor importância pra mim. Não mesmo. Até porque, na minha experiência e observação, concluí que o que se chama de ‘deus’ varia muito de pessoa para pessoa.”

A falácia fica evidente. A existência de várias interpretações sobre um determinado objeto não implica na negação do conhecimento objetivo daquele objeto, muito menos em sua não-existência. Um exemplo: ao longo do ano, a revista Veja trouxe informações comprometedoras ao governo Lula. Mesmo que o próprio governo, seus aliados e simpatizantes viessem a negar, explicar ou desconversar sobre as acusações, muitas delas obtiveram respaldo em acareações feitas pela Justiça. Em meio ao falatório, ainda podemos nos agarrar aos fatos. E que fatos há com respeito a Deus?

Em primeira instância, há o que os teólogos chamam de divinatus sensus, ou seja, o senso da presença de Deus, que faria parte do “pacote básico” de pressupostos de cada ser humano. E os ateus, que dizer deles? Ora, os ateus não são a prova de que a intuição sobre a existência de Deus não seja natural ao ser humano, pelo contrário: sendo o ateísmo a negação à existência do Ser supremo, isso não deixa de constituir uma resposta ao conceito intrínseco à nossa consciência, a saber, que Deus existe. Embora a resposta seja negativa, ela, em verdade, é uma manifestação contrária a uma intuição básica, que testemunha sobre o Deus que existe. De outra maneira: (A) O ateísmo é a negação do conceito de Deus; )B) O conceito de Deus, portanto, é anterior ao ateísmo; (C) O ateísmo é dependente do conceito de Deus; (D) Logo, o estado natural do homem é possuir um conceito prévio sobre Deus.

Em segundo lugar, temos uma série de perguntas filosóficas que só podem ser respondidas satisfatoriamente com a aceitação do conceito de que Deus realmente existe. Entre muitas indagações (algumas delas até mesmo expressas de forma modificada por Bellotto), reproduzo as seguintes: (1) Sendo o ser humano pessoal, sua existência é mais bem explicada por causas impessoais ou pessoais? (2) Sendo patente para os estudiosos o equilíbrio das leis físicas, apenas casualidade poderia explicar esse equilíbrio? (3) Há um propósito para a existência humana? (4) Qual o referencial para a moralidade? Evidentemente, cosmovisões distintas responderão a tais perguntas de forma diferenciada. Entretanto, quais respostas seriam mais lógicas e compatíveis com a realidade? Qual sistema representativo pode orientar as escolhas do homem, ao mesmo tempo em que o coloca na sua posição real – a de ser humano – , sem rebaixá-lo a uma máquina ou a meramente a uma espécie do reino animal? Ao invés de relativizarmos a questão, deveríamos pensar nas perguntas e sondar as implicações. Dar de ombros parece mera covardia;

2) O texto apresenta como objeção ao conceito cristão da divindade a suposta opressão dos dogmas: Belloto faz coro com o jornalista ateu Christopher Hitchens quando escreve: “Adoro ser ateu e viver sem o peso de um deus a me assombrar, vigiar e julgar. Sem entidades metafísicas a quem dever satisfações, e sem nenhuma expectativa a respeito do vasto infinito, portanto. […] Há os que creem no Deus bíblico (com D maiúsculo), cheio de dogmas, senões e restrições (o bom e velho ‘senhor de barbas’, magnânimo, mas inegavelmente autoritário, paternal e meio ranzinza).”

Sem dúvida, a declaração exibe uma indisfarçável confiança na razão humana, como capaz de escrever o script, atuar e dirigir o filme de sua própria vida. Mas se cada um é capaz de viver livremente, sem ter necessidade de prestas contas a Deus, perante quem somos responsáveis? Se respondermos “a nós mesmos”, significa que também delimitamos nossa responsabilidade e criamos a nossa moral peculiar. Claro que se cada um pensasse assim, o mundo seria um caos ainda maior! Pedófilos, genocidas e políticos corruptos poderiam justificar cada uma de suas ações – porque a única moral vigente seria a individual!

Por outro lado, se afirmamos que nossa prestação de contas se deve à “sociedade”, como quer o filósofo Richard Rorty, por exemplo, estabeleceríamos que a moral social está sempre certa, o que traria implicações ainda mais catastróficas! Os nazistas não poderiam ser julgados por nenhum fórum internacional pelos crimes contra a Humanidade – afinal, sua sociedade é livre para praticar o que bem entendesse, inclusive extermínio e barbárie. O exemplo parece extremo, mas poderíamos levantar outras situações, como pena de morte, infanticídio e o apedrejamento de opositores do governo no Irã. Em todos esses casos, o que a sociedade delibera estará além da competência de outra sociedade (e até do indivíduo; daí, a consciência coletiva suplanta a individual!).

No aspecto positivo, temos de encarar os fatos: se Deus é quem afirma ser, Onisciente, Onipotente, Eterno, Justo, Santo e com natureza amorosa, Suas orientações não estariam acima dos critérios simplesmente terrenos? Além disso, a religião bíblica se preocupou sempre em prover preceitos (e não dogmas!) que pudessem ser aplicados pelo indivíduo em seu contexto, quer histórico, quer pessoal. Isso não significa que esses critérios foram fielmente seguidos na história da Humanidade. Aliás, a falha dos cristãos apenas indica o que eles mais ardorosamente defendem: a falibilidade humana em contraste com total suficiência divina. Mesmo as melhores intenções não são livres de culpa quando nos afastamos das orientações de Deus.


Ao contrário de se insurgir contra Deus (ou uma visão estereotipada e distorcida dEle), por que não se abrir à possibilidade de aceitar que Ele não apenas existe, como também fez mais do que nos deixar imaginando sozinhos quem é Ele: Deus Se revelou! 

O QUE ESPERAR EM 2011?


Matéria especial, por Júnior Paiva

Segundo o Wikcionário, esperar significa: ter esperança; aguardar com desejo e uma certa confiança de que algo vá se realizar. Então, o que esperar em 2011? Eu fiz esta mesma pergunta aos meus alunos do nono ano em uma das últimas aulas de Ensino Religioso de 2010, e as respostas foram as mais variadas: ir para o internato; fazer as pazes com o pai; gostar do Ensino Médio; não ficar de recuperação - coisas estas comuns para a idade e a fase que eles vivem. Entretanto, foi uma aluna do sexto (que tem por volta 11 anos de idade) que disse algo que me marcou profundamente: "gente, nós não podemos esquecer da volta de Jesus!".

Bem, você deve estar se perguntando, o que tem de tão profundo assim neste comentário? O que tem? Quantas vezes você esperou pela volta de Jesus em 2010? Quantas vezes clamou para Ele voltar e nos levar pra longe daqui? Muitas vezes esperamos por tantas coisas, tantas mudanças, tantas realizações, que esquecemos do principal - ver Jesus voltar e estar pronto para viver com Ele.

Sinceramente, não é nenhum pecado desejar e esperar coisas e mudanças, por exemplo, espero casar (bem, espero ter dinheiro pra isso também!). Mas que em 2011 nosso maior desejo seja realmente o de ver nosso Redentor. Somente a vinda dEle porá fim a todas as coisas más e proporcionará momentos reais de realizações, não apenas para um período de 365 dias, mas momentos eternais.

"Senhor, o que espero? Tu és a minha esperança." Salmos 39:7

Feliz 2011.

Júnior Paiva, professor de Ensino Religioso, Filosofia e Espanhol em Joinville, mantém o Blog do Peba e continua sendo o indivíduo mais preocupado com a aparência que jamais conheci!

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

2011 COM FRONTEIRAS MAIS LARGAS

Matéria especial, por Wendel Lima.


No meu trabalho, edição de notícias da Revista Adventista, procuro fugir dos textos promocionais ou que tratem de questões apenas institucionais. Aliás, em tempos que se busca uma espiritualidade viva, intimista, fugir disso é o recomendado. Mas tenho que admitir que vejo com muito otimismo o desafio lançado pela Igreja Adventista a seus membros sul-americanos de plantar igrejas a partir de 2011.

É verdade que isso sempre fez parte da história da denominação, se não, não teríamos essa grande quantidade de congregações espalhadas pelo país. No entanto, a partir de agora, a coisa passa a ser mais intencional, planejada. Para os que já têm “veia” missionária, o projeto é mais que bem-vindo e, para aqueles que estão sonolentos ou espiritualmente indiferentes, pode ser uma oportunidade de sair da zona de conforto e ter uma experiência real com Deus.

Falo isso, por que inúmeras igrejas (leia-se membros) estão acomodadas, pensando apenas em como proporcionar mais conforto e qualidade à sua programação semanal. Esquecem-se de que foram formadas para ampliar as fronteiras do reino de Deus. Vive-se um cristianismo egoísta, uma vida religiosa voltada para o próprio umbigo, sem meta, sem alvo, por isso, sem vida. Deus sonha que sua igreja seja missional (palavra tão em voga hoje), que seus filhos tenham uma vida com propósito (empresto aqui o título do livro de Rick Warren).

É verdade que toda essa mobilização não se dará de cima para baixo, dos níveis administrativos para os membros. Reavivamentos e reformas espirituais não acontecem por decreto, documento, “guela” abaixo. Não acontecem com hospitais, escolas, templos, mas com pessoas. Começam do povo, pela ação do Espírito. E Deus, usando seus líderes e a estrutura da Igreja responde a uma necessidade já latente.

Vejo isso acontecer em nossos dias. Tenho orado em relação a isso quanto a mim e pelas pessoas que atendo em meu ministério. Há um clamor, ora contido e ora expresso, por mudanças, ousadia, dependência do Senhor. O que Deus sonha para sua igreja em 2011? O que ele sonha para você? Esqueça as respostas e os programas enlatados, peça que Ele lhe dê a visão do que fazer. Depois me conte, como foi bom alargar suas fronteiras em 2011.
Feliz Ano Novo!

Wendel Lima, além de servir como editor da revista Conexão JA, editou meu livro, Paixão Cega.

DETALHES PARA 2011



Matéria especial, por Moisés Lucas.

Um recado de Deus para você…

Meu filho, mais um ano está se findando, e 2011 já está às portas.

É comum nessa época de comemorações, você reunir sua família, fazer votos de felicidade e paz, além das promessas de vida nova e sonhos a serem alcançados...

Contudo, querido filho, Eu gostaria de chamar a sua atenção para alguns detalhes que poderão fazer a diferença em seu novo ano e em toda sua vida:

Lembre-se de você tem poder sobre apenas um dia de cada vez, então viva de maneira única, como se cada dia fosse o último, não fique ansioso demais pelo futuro (Mt 6:34);

Não se sinta o dono do mundo apenas por ter conseguido algum status ou bens, pois tudo o que você tem, fui Eu quem lhe concedi (Dt 8:17-18);

Lembre-se de que estarei a cada amanhecer ao seu lado, renovando minhas misericórdias, caso você precise (e sei que vai precisar – Lm 22-23);

Ame a minha Pessoa em primeiro lugar, reserve tempo a cada manhã para falar comigo e estudar minha Palavra, e Eu acrescentarei as outras coisas que você precisa (Mt 6:33);

Ame sua família, e lembre-se que seu lar deve ser um pedacinho do céu;

E acima de tudo, querido filho, lembre-se que Eu o amei tanto, a ponto de entregar o Meu Filho por você. Lembre-se da cruz, dos cravos e da ressurreição – tudo isso aconteceu para que um dia você pudesse estar de volta ao Lar Celestial. Por isso, se prepare, pois Eu já não aguento mais de saudade! Estou preparando uma grande festa e em pouco tempo estarei indo aí te buscar.

Um abraço bem apertado!

De seu Pai Celestial – Deus Todo Poderoso…

Moisés Lucas, distrital em São Francisco do Sul (SC), mantém o blog Refletindo.com.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

O QUE TEM DE MELHORAR PARA 2011


Matéria especial, por Joêzer Mendonça

Diz o Ramayana: “Os homens ficam felizes quando veem uma nova estação se aproximar, como se uma coisa nova estivesse para sobrevir”.

As pessoas têm a estranha tendência de achar que o ano novo é uma página em branco e o Réveillon é a lousa onde se escreve as decisões de fazer o que deixou de ser feito. Mas 31 de dezembro não é botão de reset, é no máximo uma tecla de reiniciar, e no dia 1º de janeiro você ainda será você com todos os seus defeitos inconfessáveis e suas virtudes autoproclamadas.

Como será o amanhã, pergunta a canção. Há uma grande probabilidade de o sol nascer e se por todos os dias. Mais que isso não sei dizer. Não sei se a Dilma fará um bom governo, mas acho que sim. Não sei se o Rio de Janeiro terá paz, mas desconfio que ainda não. Não sei se algum brasileiro ganhará o Nobel de Literatura, mas acho que não ganharemos nenhum Nobel de Medicina.

Já existiu algum ano pior do que outro na história? Se pensarmos de forma coletiva, tirando o dia em que o pecado entrou no mundo todos os séculos foram iguais em tragédias e desventuras e também em alegrias e conquistas. Mas é na vida pessoal que sabemos a diferença entre dias e dias. Provavelmente, hoje teríamos algumas atitudes diferentes em relação ao que fizemos ontem.

No entanto, é mais saudável pensar em que como fazer que amanhã seja melhor que hoje. Mas tenha cuidado. Se for melhor apenas para ti, muda de plano. Leva os outros no teu projeto de felicidade.
Nem só da blogosfera vive o web-escriba Joêzer Mendonça, doutorando em Música; ele, que mantém o blog Nota na Pauta, anda à procura de uma editora para chamar de sua...

UM 2011 MUITO MAIS ESPIRITUAL


Matéria especial, por Denis Cruz


Para 2011, espero:

Ter ainda mais tempo para meus filhos e, neste tempo, ter mais paciência com eles;
Continuar apaixonado por minha esposa e fazer de tudo para que ela continue apaixonada por mim;
Realizar sonhos – podem ser até poucos, ou pelo menos um, pois um sonho por ano é imprescindível ser alcançado;
Trabalhar com empenho, dando o melhor de mim aos que me pagam e aos que necessitam dos meus esforços;
Aquilo que eu realizar, que seja bem feito;
Aproximar-me mais da semelhança de Cristo.

Mas alguém poderia perguntar: “Mas e as grandes metas espirituais?” “E o que você espera que melhore no mundo?”

Minha meta espiritual é que Deus seja a base de cada uma das outras metas. Sem Ele, qualquer plano é inútil.

Sobre o que espero do mundo eu poderia dizer que não espero nada dele. Minhas esperanças estão em Deus (e no retorno de Seu Filho). Espero ser benção aos que estão ao meu redor enquanto Ele não vem. Não quero milagre para mim, mas quero estar atento às oportunidades de ser um milagre àqueles que precisam. Espero ter forças para, em família e comunidade, suportar cada uma das convulsões que este mundo já sofre que ainda sofrerá.

Que venha 2011.

Denis Cruz é escritor de diversos livros e funcionário e público nas horas vagas!

O RITMO DE 2011



Matéria especial, por Diogo Cavalcanti.

Entraremos em 2011 da forma como terminamos 2010: a 120 quilômetros por hora!

A velocidade da nossa rotina e das transformações mundiais tornam uma passagem de ano em algo corriqueiro, supérfluo. Quanto ao futuro, não arrisco dizer o que vai acontecer: uma guerra na península da Coreia? Um ataque ao Irã? Um desaquecimento da economia brasileira? Um atentado terrorista em "comemoração" aos 10 anos do ataque às Torres Gêmeas?

Enfim, são muitas as possibilidades e tendências, mas o futuro só a Deus pertence. Podemos dizer apenas que o cenário está sendo preparado para os eventos finais e a volta de Jesus em glória a esta Terra. Na velocidade dos acontecimentos, vamos tomar muitas decisões, produzir muitos textos, trabalhar bastante, pregar muitos sermões, e, ao fazer tudo isso, pode ser que percamos o sentido das coisas. Nessa correria, precisamos aprender a diminuir o ritmo e deixar o coração aberto a uma sintonia fina com o Espírito de Deus.

Desejo a todos os leitores do blog Questão de Confiança, do meu amigo, Pr. Douglas Reis, um 2011 bem firme nas mãos do Pai.
Diogo Cavalcanti, que ingressou no mesmo ano que eu no curso teológico, é editor da Casa Publicadora Brasileira.

2011, O ANO DO ENCONTRO

Matéria especial, por Danivia Mattozo.
Para o próximo ano, espero sinceramente um reavivamento espiritual. Espero que eu possa, assim como toda a igreja, conhecer a Deus. Sinto que por toda a nossa vida, especialmente no caso dos que nasceram na igreja, temos ouvido e falado de Deus. Mas como ficamos admirados quando encontramos alguém que verdadeiramente conhece a Deus.

Espero que paremos de nos preocupar com coisas mesquinhas da rotina da igreja e passemos a nos preocupar mais em ser um Templo Vivo. Muitas vezes já ouvi esse mesmo discurso, mas agora ele faz sentido pra mim e, talvez pela primeira vez, eu deseje isso de verdade.

Que 2011 seja o ano do encontro com Deus!

Danivia Mattozo, revisora na UFMG, cursa doutorado na mesma instituição, além de escrever para o site Outra Leitura.

OPORTUNIDADES EM 2011

Matéria especial, por Heber Toth
Expectativas em 2011:

2011 é uma oportunidade de concluirmos sonhos ou começar os sonhos guardados no coração: Embora vivemos uma época de desafios morais (2Tm 3:1-4), geográficos (Lc 21:26) e econômicos (Tg 5:1-6), Deus nos dá o privilégio de sonharmos e realizarmos nossos sonhos (Sl 37:3-5).

• 2011 é uma oportunidade de reatarmos nosso compromisso com Deus: Jesus promete voltar a este mundo (Jo 14:1-3), porém muitos ainda não estão preparados. Ele ainda não voltou por ser misericordioso e paciente conosco, esperando que nos voltemos para Deus (2Pd 2:9).

2011 é positivo, pois, por mais negativas que sejam as previsões jornalísticas cremos que vivemos os últimos dias: Cada dia, mês e ano que passa estamos mais próximo de ver Jesus voltar a esta terra a fim de levar-nos à Pátria Celestial (Fl 3:20-21).

“Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais infelizes de todos os homens” (1Co 15:19). Ou seja, se esperamos em Cristo uma vida futura, somos os mais felizes de todos os homens.
Heber Toth, pastor distrital em Xaxim (SC), mantém o blog Portal Bíblico.

2011 CHEIO DE BELEZA (VERDADEIRA)


Matéria especial, por Lourenço Gonzalez

Novo ano, aspirações novas, sonhos novos, num mundo caótico que caminha a passos largos para o seu fim. Nós, os filhos de Deus, somos chamados para fazer a diferença, vivenciando a beleza irradiante para espancar as trevas que solapam a dignidade, a pureza e ombridade humana consumida pela corrupção, violência e moralidade que chegam a patamares insuportáveis.

O profeta Isaias (53:2-3) diz que Jesus era o mais deprezado entre os homens. Homem de dores, trabalhador. As pessoas recusavam olha para Ele pois O achavam feio. Incrível!

Meus amados, a beleza e formosura que Deus esperava nos atraisse a Jesus não era a beleza exterior, mas a beleza interior de Cristo. O carater impoluto, pureza, amor, compaixão, misericordia, sinceridade.

Moisés orou e lembrou-se de nós aqui clamando a formosura divina sobre nós. (Salmo 90:17).

Nós somos os mensageiros da esperança, a tropa de elite celestial - negros, brancos, amarelos, pardos. Alguém pode até ver em nossos rostos diferenças, mas Isaías chama atenção para um detalhe peculiar a todos os que representam o Céu - os nossos pés (Isa. 52:7). Eles são formosos, porque caminhamos de mãos dadas com Deus, apresentando o caminho de Deus, nesta hora final.
Lourenço Gonzalez, incansável estudioso das Escrituras, é fundador da editora ADOS e autor do livro mais famoso publicado por ela: Assim diz o Senhor.

sábado, 18 de dezembro de 2010

IGUAIS DIANTE DO AMOR


SABOR DE OFERENDA
A minha mãe, Sônia C. S. A. Reis

Custa a abrir o baú, custa a que os potes ache.
Retorcendo o anel, ouve (antes que aos copos quebre)
Os dobres da agonia, e enquanto este tem febre,
O perpétuo inocente obtém riachos de guache.

Cobre estilhaços com lágrimas. Como praxe
Ouve: “Melhor fora enfermar o outro...”. O casebre
Se estreita em meio à dor. Consente que celebre
O filho excepcional. Diz-se: “Varra e relaxe.”

Ser mãe é descobrir como o amor se segmenta
Em quantias iguais. Tivesse em mãos a escolha
E traria a nenhum a dor que mata lenta.

Às pressas leva à mãe sua arte em uma folha.
Sadio ou não, vive, e sem muio o que compreenda,
Também sente ao beijá-lo a mãe doce oferenda.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O REMORSO

Submeter-se à vontade divina requer desapego sincero aos prazeres que nos mobilizam e às vontades que nos condicionam. Dói deixar uma prática alimentada por tanto tempo, que já a sentimos incorporada ao que somos. E quando se abandona o erro sem a convicção de que se trata realmente de um erro, o desapego nunca é cabal. Removemos os rastros, conservamos os pés. Maquilamos a cicatriz, sem untá-la.

Se o arrependimento é a porta escancarada ao céu, o remorso consiste naquela porta entreaberta, pela qual não conseguimos transitar ou mesmo retroceder; e entalamos na indulgência a nós mesmos, certificando-nos de que, se ninguém nos visse e tivéssemos outra oportunidade, cometeríamos outro pequeno delito prazeroso.

A ofensa do remorso nos faz entrar na presença de Deus com o odor de um Judas, que polui o que toca e atrai moscas. Se o arrependimento liberta, o remorso faz mais pesada a carga e frustra a vida de quem, por orgulho, descaso ou culpa, se imagina incapaz de obter perdão.

OS NOVOS APÓSTOLOS: O QUE ESTARIA POR TRÁS DA NOMENCLATURA?

No controverso universo das igrejas neopentecostais, muitas práticas e doutrinas têm atraído os pesquisadores. Neste breve artigo, quero sugerir que a nomenclatura adotada pelos líderes neopentecostais denota certas ênfases distintivas do movimento. Todavia, antes pretendo esboçar alguns dos títulos usados pelos cristãos para designar seus líderes. A listagem está longe de ser extensiva ou de se pautar por rigor histórico. Ela é concisa pela intenção de ser evocativa e servir para efeito de contraste com a realidade neopentecostal.
No NT, temos os epíscopos, que as versões modernas traduzem acertadamente como bispos. O termo designa líderes locais. De forma intercambiável, temos os presbíteros, expressão que remete ao vocábulo grego para velho. Talvez a ideia aqui não seja a de uma liderança baseada em critérios meramente cronológicos, porém, que o termo expresse a maturidade dos líderes cristãos, experimentados pela comunidade. Além desta função, haviam os apóstolos, literalmente aqueles que eram “enviados para longe”, uma espécie de missionário, atuando rotativamente para estabelecer novas congregações, a exemplo de Paulo, ou restrito a um determinado perímetro, como os apóstolos que se estabeleceram em Jerusalém. Inicialmente, a palavra designava exclusivamente os doze líderes originais, os quais foram escolhidos por Jesus. Na eleição de Matias, o critério que os apóstolos remanescentes adotaram foi escolher quem havia testemunhado como eles o ministério de Jesus. Ao longo do Novo Testamento, o apostolado se amplia, ganhando outras conotações, bastante debatidas entre os teólogos. Os pastores também são mencionados, de forma que sua função guarda muitas semelhantes com os dois títulos primeiramente citados.
Nos primeiros séculos, parece ter havido uma supervalorização da chamada sucessão apostólica, ou seja, de líderes que tinham uma relação direta com os primeiros apóstolos. O conceito somente ganhou forma (e equivocadamente) quando a igreja romana predominou sobre as demais. Neste período, o próprio conceito de Bispo já havia ganho uma importância extra além do âmbito espiritual, enveredando para a esfera política. Na Idade Média, com o advento de um monasticismo cristão, o clero paroquial (baixo clero) ficou altamente desvalorizado. Mas, em geral, pertencer ao clero já indicava vantagens sobre a sociedade comum, laica. De padres, bispos, arcebispos e cardeiais até o Papa, tudo ganhou contornos de um jogo político, às vezes bem delineado aos olhos da sociedade secular.
Com a Reforma Protestante, retomou-se a nomenclatura mais discreta do Novo Testamento para os líderes: pastor. Não que essa fosse a única forma como os líderes protestantes foram intitulados. Algumas das designações mais persistentes: epíscopos, bispos, reverendos (lit.: aquele que merece reverência, o que, biblicamente se aplica apenas a Deus), etc. No Brasil, se popularizaram termos como missionário (muito usado com a chegada dos primeiros pregadores, que queriam evitar o preconceito da cultura católica dos nativos) e pastor.
Tendo sumarizado brevemente algumas das formas pelas quais os cristãos trataram ou tratam seus líderes, quero voltar a atenção para o meio neopentecostal, designação usada para igrejas que se caracterizam por ênfases como pregação agressiva na mídia, teologia da prosperidade e estratégia de expansão em número de fiéis e congregações. Os líderes neopentecostais, a princípio, usavam a nomenclatura mais corrente no meio dito evangélico – eram conhecidos como pastores. Com o passar do tempo, surgiram bispos e, mais recentemente, apóstolos. O que essa ordem sugere? Como essa mudança se relaciona com a ideologia dos líderes de igrejas mais recentes? Longe de dar respostas definitivas, exponho duas percepções relacionadas a essa mudança de nomenclaturas:

a) A escolha de designações usadas na Bíblia ocorre pela necessidade de expressar autoridade, e não necessariamente de identificar-se com os líderes do passado ou sua mensagem: o nome apóstolo hoje é empregado por fundadores de novas denominações por sugerir superioridade em relação a pastores (pois tantos há!) e, assim, fomentar uma aura de reverência em relação ao ministério estabelecido, reverência indissolúvel da pessoa de seu expoente máximo, uma vez que tais igrejas possuem liderança personalista e autocrática;
b) O apostolado hoje procura estabelecer uma conexão direta com Deus, criando uma antítese entre aqueles que seguem o líder e os insubmissos: se o apóstolo é enviado por Deus, quem se opõe a ele tem de, necessariamente, fazer eco aos desígnios satânicos. Com isso, o líder neopentecostal se defende prolepticamente contra toda crítica (ainda que bem fundada) e deixa implícita a obediência cega que todos lhe devem e à sua visão ministerial.

Uma crítica possível aos autoproclamados apóstolos consiste na insuficiência da legenda. Não basta ter nome de apóstolo, se a doutrina não é bíblica e a mensagem não passa de um neoliberalismo adocicado com extrato de Evangelho. Nem mesmo o crescimento dessas congregações justifica a adulteração da mensagem bíblica, ou o exercício de uma liderança ditatorial, sendo que a Bíblia defende a liderança servil, voluntária e auto-sacrifical. Deus espera mais do que líderes de nomeada ou gerentes de igreja – ele quer homens de fé robusta e identificação cabal com a Obra, para que a pregação alcance o mundo.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

APARECIDA: O MILAGRE QUE APARECEU NAS TELAS

Depois de Chico Xavier & cia. invadirem as telefonas tupiniquins, chegou a vez das contas do rosário invadirem a sétima arte. A nova produção brasileira, recheada de atores globais como Murilo Rosa e Jonatas Faro.

A trama tem aspectos interessantes, por lidar com ceticismo e contextualização da fé, assuntos que interessam não apenas aos religiosos, como também a sociólogos e estudiosos da religião. Marcos Rezende (Rosa) tornou-se descrente por conta de uma decepção – sua fé sacrifical não levou a padroeira a salvar da morte o pai. Em meio a conflitos da vida adulta, ele se questiona e uma sequência miraculosa o levará aos braços de… Nossa Senhora Aparecida.

O proselitismo cinematográfico que o filme não esconde (e que anda na moda) é o mecanismo de propagação de uma crença bem enraizada em solo brasileiro. A despeito de tudo isso, existe o fato de que tanto a mariolatria (veneração de Maria) quanto a hagiolatria (adoração de santos) entram na mesma categoria bíblica: idolatria (disputa de atenção máxima com o próprio Deus). E nenhum milagre – ainda que seja na bilheteria (embora os cinéfilos duvidem) – fará de Maria ou qualquer outro santo um concorrente à altura de Jeová.
Leia também: Viva, pero no mucho.

ALEXANDRE, A BOLA DA VEZ

Nem os olhos amendoados escondem os traços comuns entre o pequeno Alexandre e o pai famoso. O garoto, de cinco anos, foi reconhecido pelo corintiano Ronaldo como filho, após a realização de exame de DNA. Quem viu as mensagens carinhosas que o jogador tuitou, poderia conceber que a decisão ocorrera naturalmente. Quem dera. Foram muitos jogos de ida e de volta. A mãe de Alexandre, Michele Umezu, sofreu mais com a lentidão de Ronaldo do que o torcedor (e olha que corintiano sofre!).

Desde o ano passado, Ronaldo foi solicitado a fazer a fazer os exames pela ex-modelo e garçonete (uma combinação suspeita de profissões, ainda mais quando estão relacionadas ao mundo da bola!). Eles se conheceram em 2005, no Japão. Somente neste ano, Michele conseguiu driblar o Fenômeno graças a mudança da lei. Em síntese, a presunção de Ronaldo caiu diante da presunção de paternidade – mesmo que ele continuasse negando-se a fazer o exame comprobatório, seria presumido como pai.

Esse seria mais um escândalo na carreira do cada vez mais ex-jogador Ronaldo, se não fosse pela forma habilidosa (gingado de outros tempos?) com a qual o atacante vem assumindo Alexandre. Pudera: diversos canais de notícia já comparam fotos da criança com Ronald, o filho mais velho de Ronaldo. As semelhanças, inegáveis.

Com contratos milionários e prestígio – ao menos no mundo da publicidade –, Ronaldo deixou de ser uma máquina de fazer gols para se tornar uma máquina reprodutora. Quantos Ronalds e Alexandres existem pelo mundo, na Espanha ou Japão, somente o tempo dirá. Mas como o mundo é redondo, assim como a bola de futebol (e o próprio Ronaldo, acrescentariam os mais maldosos), logo mais será possível a Ronaldo se encontrar com sua prole espalhada aos quatro ventos. Pelo menos assim, a marca que se ergueu em torno do nome do atleta ficará em pé, apoiada em outras proezas alheia aos gramados…

GENTE DE COR

É MEU, É MEU, É MEU

Estênio a chegar suado, vida de pedreiro, andando de coletivo e exposto às agruras do verão, lá vem ele, chegou, vejam só! Entra apenas para ver a Rosinha, enrolada em uma toalha gasta, recém saída do banho, com um sorriso confuso e olhos reveladores. “Oi”, ela disse encabulada e estridente. Estênio resmungou uma resposta, inteligível. Foi direto para o quarto. O lençol havia sido trocado e notara algo diferente, uma bagunça camuflada. Estênio deixou cair água no corpo, encheu o prato de feijão e carne e foi para a sala. Rosinha ficou ali com ele, fazendo um cafuné suspeito enquanto ele assistia o jornal.

Dois ou três dias transcorreram, e Estênio voltava do trabalho. Viu situação semelhante. Rosinha estava vestida desta vez, mas os cabelos ainda úmidos e o rosto corado. O calor era muito e Estênio abriu a porta da geladeira. Uma, duas, três… epa! “Rosinha, você tomou minha cerveja?”. “Ô homem, tem tanta cerveja aí… acho que você deve ter contado errado, né? Mas que diferença faz também, amor?”. Ele ficou mudo, pegou a cerveja e se assentou em frente à televisão, mal prestando atenção no jornal.

E as coisas andavam neste pé (manco). Em uma dessas semanas, Estênio voltava da obra e vinha sem fome. Sentou-se em frente à velha vitrola, que ganhara do pai. Olhou entre os LPs, buscou, sem sucesso. Levantou-se furioso, batendo a porta.

Dali a pouco, estava ele a entrar afoito na casa de Julião, o vizinho da frente. O outro falava ao telefone com Rosinha, que o apavorara. Sentiu a garganta seca, um friozinho nas mãos e ouviu os passos de Estênio se aproximando.

Parado diante de Julião, que quase ia se explicar, Estênio foi logo mandando: “Dá aí meu O inimitável”. “Você só quer isso?”. “O resto, o tempo vai apagar!”.

A ERA DOS ESPECIALISTAS

“[…]os homens e mulheres pós-modernos realmente precisam do alquimista que possa, ou sustente que possa, transformar a incerteza de base em preciosa auto-segurança, e a autoridade da aprovação (em nome do conhecimento superior ou do acesso à sabedoria fechado aos outros) é a pedra filosofal que os alquimistas se gabam de possuir. A pós-modernidade é a era dos especialistas, dos guias de casamento, dos autores dos livros de ‘auto-afirmação’: é a era do ‘surto de aconselhamento’. Os homens e mulheres pós-modernos, quer por preferência, quer por necessidade, são selecionadores.” Zygmunt Bauman, O mal-estar da pós-modernidade, (Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar Editor, 1997), p. 221.

PESADO DEMAIS!


(NA BALANÇA)

Deita-se no peito, hirta insígnia (o tempo pesa).
Seca, a retina ignora a terra sobre a nuca
De quem voltou. Escuta urros. Já lhe cutuca
A culpa ao ver que a prece é morta e resta a reza.

De costa para o véu, lhe irrita a gente lesa
Ter levado a arca. Instruir como, se não educa
Nem mesmo aos filhos? Sua aparência caduca
Não tem peso ante quem a própria lei despreza.

Chega a mensagem: “Sangra Israel – morrem ambos,
Fineias e Hofni. Não impedimos, molambos,
Que os filisteus pegassem a arca entre hurras e hinos.”

Estremece-lhe o peito e a barba branca voa.
Icabode! Pesada e achada em falta a pessoa
Que leviana mostrou-se frente aos dons divinos.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

domingo, 5 de dezembro de 2010

SERIA CORRETA A NOÇÃO PÓS-MODERNA DE TOLERÂNCIA?

Afirmar ser a estrutura da verdade exclusiva é visto como algo intolerante por muitas pessoas. Arrogância e denegrimento de outras crenças são também constantemente interpretadas como expressões de intolerância. …

A chave para o problema com a objeção ao proselitismo é que ela repousa em alguns falsos-conceitos sobre a natureza da tolerância. Um olhar pela história da noção de tolerância ilustra o problema. A promoção de tolerância como uma virtude é a de origem relativamente recente. Tolerância não é identificada como virtude por Aristóteles, ou pelos estoicos, ou por São Tomás de Aquino. De fato, antes do Iluminismo, tolerância era vista como fraqueza, ou como expressão de covardia, ou seja, uma falta de comprometimento para com uma crença professada. Hoje isto é visto como uma virtude. A mudança na avaliação poderia no mínimo nos levar a questionar nossas atitudes contemporâneas para com a tolerância.


Elmer John Thiessen, The Ethics of Evangelism:A Philosophical Defense of Proselytizing and Persuasion (Downers Grove, Ill: Intervarsity Press, 2011). Enxerto do capítulo 5, disponível no site da editora.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

SEGURA



A noite assoviava. Folhas secas decoravam seu cabelo. Chegou. Esperou. Entrou no ônibus, desânimo.

O serão na fábrica quase não teve fim. A coluna moída pelas horas em pé. Mas ela se acostumara ao trabalho duro, nas plantações do norte de Minas Gerais, de onde a família viera. Via seu rosto no reflexo da janela do coletivo. Ainda jovem, embora sua juventude não fosse motivo de orgulho ou contemplação autoindulgente.

Acordou no ponto final. Deveria voltar algumas quadras até chegar em casa. Prenúncio de amanhecer cintilando na esquina. Uma ladeira, poucos metros. Passos além dos seus. A malícia parece um vento rival, invadindo seus ouvidos, infundindo-lhe mal-estar e fazendo-a mais ligeira, precavida. A proximidade assustadora. Solta um grito seco, apavoradíssimo.

O homem em seu percalço, ainda mais ousado. Olha para trás, acompanhando a chegada do intruso. E tromba com outro homem. Uma forma inteiriça, sólido como o bronze. Antônio, o marido. Vinha para se encontrar com a mulher. Na mão, um caniço, usado para afugentar os cães.

Entendeu o medo da mulher. “Fique aqui”, falou sem rodeios.

Ela só podia sentir o peso de sua própria respiração, concisa e sob medida. Ouviu os passos rústicos do marido. E os deboches do perseguidor. Congelada no silêncio da penumbra interior, mal detinha seus pensamentos tumultuados.

Alguma coisa atrás dela quebrou-se. Um arrepio lhe percorreu. De repente, uma mão em seu ombro.

“Vamos para casa”.

A noite voou e o sol ocupou o ninho. Tomavam o desjejum sem conversa. Até que a voz de Antônio percorreu a distância. “Acho que matei aquele homem”. Não havia muito a ser dito.

O dia galopou, irrefreável. A mulher arrumava as cortinas, quando o viu na rua. O mesmo homem. Claustrofóbica, sentiu um desatino, um aperto. Vinha ele, olhando de casa em casa. Procurava quem lhe acertara o rosto. Tinha marcas profundas, sangue pisado, o nariz torto. Mas agora, ela estava segura. As marcas naquele rosto apenas faziam crescer essa sensação.

A POLÍTICA É LUGAR PARA O CRISTÃO?

Em 2010, a religião entrou na pauta das discussões políticas. E a recíproca foi verdadeira: a política passou a ser tema de discussões religiosas. Como sói acontecer em anos eleitorais, o debate gravita sobre a questão: deve o cristão candidatar-se e assumir cargos políticos? Um dos argumentos mais empregados para defender o não-envolvimento de cristãos em candidaturas políticas é corrupção visível na esfera do poder político. Como poderia um cristão concorrer para um cargo eletivo se, uma vez empossado, ele se exporá a negociatas, conchavos e subornos?

Gostaria de me deter na essência desse argumento. Em síntese, quem afirma isso está dizendo que há esferas da atividade humana que são necessária e irremediavelmente corrompidas. O curioso é que os defensores dessa posição restringem a corrupção da moral à política. Vamos além: não estaria um advogado exposto às “sujeiras do sistema” em seu métier? Especialmente, pode um cristão atuar como advogado criminalista? Será que em outras vocações não se vê o mesmo tipo de tensão, entre o pensamento secular e a concepção cristã, o ideal e o aceito pela sociedade?

É justamente pela falta de políticos honestos que se necessita de cristãos na política! E ouso dizer: precisamos de bons cristãos! Com perfil administrativo, inspirados pela compreensão profunda da cosmovisão cristã e identificados com a pureza do Evangelho. O interesse principal de cristãos na política deve estar relacionado à liberdade religiosa e à defesa de sólida moral. Do contrário, entregaremos uma importante esfera das leis, da moralidade e da condução do país àqueles que pensam, legislam, agem e decidem de forma contrária aos nossos princípios – o que, por muito tempo, já estamos fazendo…

MEMÓRIA DE UM CRIME




(MENINOS ESCOCÊSES
CAÇAVAM COELHOS)


E a mensagem do achado é qual? (Há toda uma horda
Que ouviu dos dezessete e gestualmente exprime,
Vendo o assassino, o quanto em sua ira concorda
Que ele sofra na forca o horror de cada crime.)

Coelho em fuga e, nisto, o achado que recorda
Objetos rituais – qual menino não se oprime?
Bonecas em caixões, dezessete. (Ele borda
Mortalhas de algodão e linho; e se redime

Com o zelo que põe nas bonecas? No fundo,
É provável que não superasse um boneco
Na ótica de uma Medicina que teve o mundo.

A asfixia rendeu-lhe as moedas do destino,
E aberto o cadafalso, há vulto, odores, e eco
De um cirurgião, de corpos frescos e violino…)

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

PAPAGAIOS QUE DIZEM ALELUIA

Já faz tempo que me deparei com a expressão “papagaio de pirata”. Ela descreve bem a atitude de alguns políticos de menor importância que gostam de parecer no palanque ao lado de grandes líderes nacionais, com o objetivo de “sair na foto”. Alguns tietam artistas com o mesmo objetivo: aparecer junto a eles, como se isso bastasse para que a fama fosse transferida por osmose.

Lamentavelmente, temos de reconhecer: o gospel também tem seus “papagaios de pirata”, aqueles que fariam tudo para serem contados juntos com os grandes artistas. Isso se deve ao aumento da mídia evangélica, proporcionando que cantores e pregadores sejam alçados ao patamar de vedetes.

Em muitos casos, há genuíno talento nesses artistas do Senhor (ao contrário de muitos de seus equivalentes seculares, que alcançam a fama pela exposição na mídia). Todavia, o cerco em torno deles favorece de tal maneira às honras humanas que a auto-glorificação soterra o seu ministério. São piores do que o homem da parábola, que recebera um talento (Mt 25): aquele, enterrou o que recebera do Senhor; eles, saem a exibi-lo, como se o tivessem ganho sozinhos!

O culto à personalidade no meio gospel absorve os adoradores cristãos, e concorre diretamente com o culto ao próprio Deus. Quando se trata de ir assistir a banda gospel favorita, alguns, que de outra forma não iriam até a igreja na esquina de sua casa, movem montanhas (mas não pela fé!). Coleções de CDs, DVDs, participação frequente em fóruns na internet, e até pôsteres (!) de artistas constituem, para alguns, uma idolatria camuflada em admiração saudável.

Não que seja errado reconhecer o talento de meu irmão; não que a honra não seja devida a quem faz algo bem feito para a obra do evangelho. Entretanto, tudo no fim deve nos conduzir a Deus, que usa as pessoas e distribui graciosamente dons aos homens, para a edificação mútua (Ef 4:11 e ss.).

Aqueles que se esqueceram dessa verdade fundamental deveriam considerar Hebreus 12:2. Ninguém deve ocupar o lugar de Jesus em nossa vida. Ele é o Único, o Santo, o inteiramente Outro. Amigos faltam com a palavra. Familiares podem nos lesar. Líderes espirituais são passíveis de erros. Apenas Um é Desejável, Perfeito e plenamente Justo. A Ele devemos a salvação. Mas quando glorificamos o homem, olhamos tão para baixo que nos esquecemos de Quem habita os altos Céus.

Já passa o tempo de voltarmos as costas para conveniências e bajulações. Basta de papagaios dizendo aleluia como quem diz “esse é o cara”, “você é o máximo”. Toda glória seja dada a Deus! Se você quer se aproximar de alguém que merece sua atenção e dedicação, vá agora ao Senhor Jesus – e Ele jamais “o lançará fora” (Jo 6:37).

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A CIDADE MARAVILHOSA DE DEUS


Qualquer criança sabe a onomatopeia correspondente ao som das metralhadoras. Qualquer pai, embora fisicamente no trabalho, mantém a mente voltada para a segurança das crianças. As ruas desertas; decerto, os táxis desertam. O Rio de Janeiro vive momentos de tensão. A todo momento, podem fazer você descer do carro e correr, enquanto gasolina é jogada sobre o veículo, que logo se tornará um monumento ignificado, desafiando o poder público. Nem o transporte coletivo escapa das chamas criminosas!

A polícia carioca resolveu responder à altura. As imagens vistas pelo mundo afora durante a semana desafiaram a falácia de que vivemos em um país sem guerras. Soldados pintando o rosto. A Vila Cruzeiro invadida por tanques de guerra, os quais ladeavam os “caveirões” do BOPE na ação de acuar os criminosos. Hoje, chegou a vez da Comunidade do Alemão receber uma visita de homens armados. Tudo parecia uma continuação desafortunada do filme Tropa de Elite, sucesso dos cinemas nacionais, o qual retrata justamente a violência carioca.

As ofensivas da polícia resolverão o caos que vive a cidade maravilhosa? Cariocas espalhados por todo o canto, no Brasil e no exterior, revelam a gama de emoções que lhes percorrem: alívio, por ter deixado o Rio; aflição, quanto aos parentes que vivem entre o fogo cruzado; comoção, pela guerra que se instalou; desconfiança, quanto às ações da polícia e às soluções a longo prazo.

O Rio de Janeiro, cidade turística, palco dos Jogos Pan-americanos, uma das cidades que receberá os jogos da próxima Copa do Mundo, o Rio das maravilhas naturais, das praias, da natureza, enfim: o Rio refém de si mesmo, da condição humana, de décadas de descaso, da impotência dos governantes em resolver a crescente criminalidade. O Rio, que é governado pelos chefões do tráfico, os quais, a uma chamada de celular, resolvem quem vive e quem morre, enquanto o sistema carcerário os mantém confortáveis em suas celas.

Será que tudo isso tem uma solução? De onde se pode esperar uma solução? Certamente, se mudarmos o foco, veremos outras cidades e, até mesmo, países vítimas de conflitos, guerras civis, conflitos étnicos, corrupção, desemprego, violência e catástrofes naturais. Que lugar oferece segurança absoluta? Cada vez mais, a criminalidade se interpõe entre os sonhos da sociedade de consumo, que podem desembocar na realidade sanguinolenta da próxima esquina.

Certamente, as balas perdidas da indiferença e maldade chegam até o Céu. Há um Deus que sofre em meio às lágrimas daqueles que se veem cercados por traficantes e bandidos. A Bíblia diz que Deus visitou a Terra quando a perversidade dos seres humanos atingira um ponto limítrofe (Gn 6:5). Pois esse Deus visitará novamente a Terra para acabar de vez como nosso pranto cansado e nossa voz amargurada. Ele, que prometeu “Novos Céus e Nova Terra, nos quais habita a justiça” (2 Pe 13), hoje estende a mão para socorrer àquelas vítimas da maldade e dos interesses escusos. Apenas em Deus se pode confiar em tempos que, nas palavras de Paulo, seriam “difíceis” (2 Tm 3:1; ou “terríveis”, na NVI).

A paz que o coração humano almeja respirar está guardada no alforje dAquele que nos dará uma “herança que jamais poderá perecer, macular-se ou perder o seu valor” (1 Pe 1:4, NVI). Para quem mantém essa esperança, a despeito de quaisquer probantes circunstâncias, Deus afirma: Ele “não se envergonha de ser chamado o Deus deles, e lhes preparou uma cidade.” (Hb 11:16, NVI). Deus oferece para todos os que nEle confiarem a verdadeira Cidade Maravilhosa, onde viveremos com Ele para sempre! Por que não aceitar o convite amoroso daquele que diz: “faço novas todas as coisas” (Ap 21:5)?

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

SÍRIA: UM CASO SÉRIO!

O site Opinião e Notícia destacou o recrudescimento da perseguição a protestantes na Síria. Curiosamente, as medidas que as autoridades tomaram contra esses cristãos se deveu a denúncias feitas por católicos e ortodoxos. Como as leis do país não permitem a conversão de muçulmanos ao Cristianismo, as campanhas evangélicas investiram em arrebanhar cristãos católicos (tanto romanos, quanto ortodoxos).

É claro – tudo isso constitui flagrante infração à liberdade religiosa. Nenhum país tem direito de restringir as opções religiosas à população, sequer a uma parcela dela. Na Alemanha do século XVI, havia cantões católicos e protestantes, de acordo com a fé dos príncipes desses cantões. Na prática, quem quisesse seguir o luteranismo e morasse em terras católicas, teria de se mudar de endereço!

Deve haver esforços para que a evangelização não fique tolhida, porque, por natureza, ela é um esforço todo-abrangente de conquistar a todos para o Salvador Jesus (Mt 28:18-20). Infelizmente, a resistência oferecida principalmente por países muçulmanos tem crescido. Mas os corajosos servos de Deus avançarão, mesmo que isso significa desobediência civil – afinal, “antes importa obedecer a Deus do que aos homens” (At 4:19).

domingo, 21 de novembro de 2010

A DOIS PASSOS DO PARAÍSO

Um comercial ressuscitou o jingle A dois passos do paraíso (composição de Evandro Mesquita e Ricardo Barreto). A canção fez sucesso com a banda Blitz. Mas este post não tratará da banda, do comercial ou das características da música. De forma bem livre, quero pensar na frase que marca a música: a dois passos do paraíso.

A “dois passos” indica proximidade, fim da jornada, um motivo a mais para continuar andando sem ser tomado pelo desânimo. E proximidade de quê? Do próprio “paraíso”. O termo é, em si, lugar-comum. Nas férias, procuramos por lugares paradisíacos. Um local de trabalho tranquilo é um paraíso, tanto quanto uma vizinhança segura. O paraíso é perseguido pelos ideais utópicos (uma ironia: utopia quer dizer, literalmente, um lugar que não existe!).

Estar a dois passos do paraíso é algo desejável para aqueles que creem na Bíblia. Afinal, nas Escrituras o paraíso ganha contornos reais e sua concretude é assegurada não tanto pela Onipotência de Deus, como por Sua fidelidade. Certa vez, Jesus comentou a um escriba: “não estás longe do reino do céu” (Mc 12:34). O elogio dado ao religioso se deveu à sua compreensão similar a do próprio Jesus de que amar a Deus, acima de tudo, e ao próximo, como a si mesmo, era a essência da Lei.

Mas ainda o escriba não estava no Reino!

Existem dois passos, segundo o próprio Jesus, que devem ser dados a fim de assegurar nossa entrada no Reino. Não "a dois passos do Reino", mas "dois passos para o Reino". Ninguém precisa se confundir. O próprio Salvador não deixou uma série de enigmas inconclusos, ou pistas herméticas esperando investigadores peritos. Os passos são mais simples do que os de uma valsa.

Jesus afirmou: “Quem crer e for batizado será salvo”. Dois passos que não demandam habilidade incomum ou intelecto privilegiado. Não apenas magnatas do petróleo ou esportistas bem sucedidos podem fazer isso. Bill Gates e Eike Batista não estão à frente dos demais homens quanto ao caminho apontado por Jesus.

Primeiro: crer em Jesus. Aceitá-Lo de acordo com o modo como Ele Se apresenta em Sua Palavra. Reconhecer Sua soberania sobre nós. Depender de Sua direção e nos entregar aos Seus pés, admitindo nossa limitação – somos o pó que enfeia Suas sandálias. O pecado nos contaminou e apenas Ele possui a cura, por meio de Seu sacrifício vicário. Temos nEle um substituto perfeito.

O segundo passo: assumir publicamente um compromisso com Ele. Passar pela experiência que a Bíblia aponta como capaz de nos unir simbolicamente a Jesus em Sua morte e Ressurreição (Rm 6:3-4). Estarmos ligados à família de Deus na Terra, ao corpo de Jesus e, a partir de então, nos unir na missão para resgatar outros e habilitá-los para o advento do Reino.

Qual desses dois passos o amigo leitor já deu? Por que esperar mais? São apenas dois passos para o Paraíso!…

A LITERATURA EM UM NOVO GRAU?

O livro morrerá? Dado o surgimento de e-books, e-readers (como o popular Kindle) e mediante crescentes inovações no mundo digital, sentar-se para virar as folhas de um livro tradicional parece tarefa obsoleta. Por outro lado, há quem argumente que o livro sobreviveu – ainda que não incólume – ao advento do telefone, do rádio, da televisão e da internet. Assim, o prazer da leitura convencional seria insubstituível, ainda mais pelo aspecto material – poder tocar e manusear um objeto tridimensional.

Envolta por este clima de incerteza quanto ao futuro, surge a proposta de conjugar livro, vídeos e fóruns de discussão: é o primeiro “romance digital interativo”. A produção ousada foi concebida pelo escritor de seriados Anthony Zuiker.

Zuiker é conhecido por criar a milionária série televisiva CSI. Com a participação do escritor de HQs Duane Swierczynski, ele escreveu o primeiro volume da trilogia Grau 26. Para os fãs de CSI, algumas semelhanças são facilmente perceptíveis, e comentarei logo mais sobre elas. Li a primeira parte da obra (Grau 26: a origem) na íntegra, apesar de ter acompanhado apenas uma parcela dos vídeos disponíveis no site, os quais complementam situações do livro.

Reconheço a boa intenção da iniciativa. Trabalhar com diferentes mídias é algo atraente. No entanto, tenho algumas ressalvas ao livro. Em primeiro lugar, nota-se uma mudança de enfoque em relação à série que fez o nome de Zuiker. Grau 26 é um livro mórbido, explorando mais o terror do que o suspense.

A trama gravita sobre a noção de que os assassinos são classificados em vinte e cinco categorias, de acordo com o grau de crueza e periculosidade. Até que surge um misterioso assassino, Sqweegel (cujo “nome” remonta a um de seus crimes horripilantes…). O monstro é meticuloso, paciente, ágil e, devido à sua pequena estatura, entre e sai de qualquer lugar, graças aos seus movimentos de acrobata. Ele nunca foi pego, porque não deixa rastros (sua indumentária de látex o protege de deslizes). Por todas as suas características, Sqweegel se torna o único expoente da nova categoria de assassinos: o grau 26.

Basicamente, o livro mostra um embate entre Sqweegel e Steve Dark, o agente federal que o investigou por anos – e sofreu as consequências. No momento em que reconstrói sua vida ao lado de sua esposa grávida, Dark é contatado por seus ex-chefes para capturar o psicopata de grau 26. A história tem todos os exageros de filmes do gênero, perdendo a verossimilhança que marca CSI.

Outra diferença: muitos episódios que aparecem na série televisiva são mais bem elaboradas e inteligentes que o enredo de Grau 26, que se sustenta em uma narrativa ágil (típica dos Best-sellers), mas literariamente insossa.

Talvez o que acentue isso seja a diferença colossal entre os protagonistas dos dois trabalhos de Zuiker: Gil Grisson, do CSI, é um cientista, frio, inteligente, com conhecimento profundo em insetos e acostumado a deduções sagazes, confirmadas pelas experientes e testes mais mirabolantes. Pois bem: retire metade do cérebro de Grisson, acrescente mais músculos e um rabo de cavalo – eis que chegamos a Steve Dark!

O maior dilema enfrentado pelo investigador Dark consiste no receio de se envolver demais no caso, a ponto de se identificar tanto com a forma de pensar de um psicopata que não possa mais voltar a ser quem era (um dilema similar ao do homem-morcego, no filme Batman:Cavaleiro das Trevas). Pelo desfecho, percebe-se que Dark não conseguiu fugir da influência de pensar como um criminoso – fato lamentável, e outro contraponto com o senso de justiça de CSI, que nunca rompeu com os limites da lei, nem promoveu a mera retaliação.

Uma pena que a proposta inovadora de Grau 26 esteja a serviço de uma literatura açucarada e moralmente questionável. Futuramente, espera-se que outras experiências interativas surjam, aproveitanto o potencial do cruzamento de mídias para promover uma mensagem que mais se coadune com o pensamento cristão – claro que, para tanto, é necessário que servos de Deus, criativos e ousados, semeiem a visão do Evangelho nos meios disponibilizados pelas tecnologias modernas. Aí se poderia falar de Literatura em um grau mais elevado…