terça-feira, 4 de setembro de 2007

A MÚSICA SACRA DENTRO DA COSMOVISÃO ADVENTISTA: INTERPRETANDO E APLICANDO CONCEITOS DE ELLEN WHITE - Parte 2



b) A dissociação entre a escolha da música e seu efeito sobre os adoradores

Uma vez que a música parte de uma cosmovisão, ela reflete determinados princípios. Muitos cristãos modernos argumentam que a letra é quem deve dar “conta do recado”, transmitindo uma mensagem cristã, independentemente do seu gênero musical. Um argumento contra essa abordagem, conforme já vimos, é a questão da coerência no que tange aos princípios da Revelação. Se nos pautarmos pelos princípios da Bíblia e do Espírito de Profecia, deveríamos buscar música mais elevada, que possua uma clara distinção da música secular (principalmente, da música popular).

Outra razão para rejeitarmos a combinação do sagrado com o profano está no fato de que a linguagem musical, como produção cultural, é carregada de conteúdo semântico em si mesma, independente de uma “letra”. O que estamos dizendo é que a música comunica um conteúdo mesmo sem o auxílio de palavras. Em seu livro “Una teoria della competenza musicale” (Uma teoria de competência musical), Gino Stefani teoriza sobre isto:

“A competência musical se desenvolve através de dois eixos ou dimensões: a ‘dimensão artística’ e a ‘densidade semântica’. Tomando estes termos no seu sentido óbvio, sublinhamos o fato de que o tipo de competência é definido pela interseção desses dois eixos.”[1]

Ou seja, a linguagem musical é tão plena de significados quanto a linguagem escrita ou falada. Pesquisas recentes têm apontado que existe relação entre a fala de bebês e a linguagem musical, sendo ambas, segundo alguns pesquisadores, indistintas nos primeiros anos de vida.[2]

A música não somente parte de uma cosmovisão, como sua linguagem também pode moldar uma determinada cosmovisão, revolucionando toda uma cultura.[3] Isto tem comprovação se analisarmos os efeitos, em escala global, da música popular contemporânea. Como em nenhum outro período da História, podemos falar hoje de uma “cultura globalizada”, para cuja existência, sem dúvida, a música vem dando importante contribuição, como observou Wolfgang H. M. Stefani:

“Devido à sua disponibilidade e aceitação universal, a música popular foi identificada como ‘o mais importante ponto de união para a formação de uma cultura jovem internacional... baseada em gostos e valores comuns no mundo inteiro.’ Ao descrever a música popular como uma ‘poderosa força de ligação’, tornou-se evidente a preocupação com o fato de que ‘o grande consumo de músicas internacionalizadas, a maioria delas de origem anglo-americana, podem estar levando os jovens do mundo inteiro a identificar-se mais com a música globalizada e conseqüentemente com o estilo de vida e valores de outras sociedades que não os da própria cultura.’”[4]

No contexto de um culto, a música deve expressar a conceituação correta segundo os referenciais da Revelação, e influir na esfera em que a adoração coletiva aconteça de maneira a contribuir para que se atinja o fim apropriado – a glorificação de Deus. Imaginemos se, num sermão, um pregador proferisse que a ressurreição de Cristo não é um fato histórico. Sua linguagem verbal estaria prestando um desserviço ao culto, negando um aspecto fundamental da Revelação (a Verdade bíblica da Ressurreição do Senhor). A música, enquanto linguagem, também pode prestar um desserviço, negando aspectos fundamentais da natureza de Deus. Como no caso do sermão cético, a música pode formar, conseqüentemente, um conceito errado na cabeça dos ouvintes, por aquilo que ela está comunicando através de uma linguagem não verbal.

Neste ponto, entra a perspectiva teleológica sobre a música no culto (ou seja, do ponto de vista de seu propósito). A presença da música num culto cristão é distinta do uso musical feito pelo paganismo; enquanto que para os cristãos, canta-se para expressar a adoração (incluindo o louvor, a submissão, a gratidão, o rendimento ao Eterno, etc.), os pagãos cantam, dançam e usam tambores para provocar experiências de transe, necessárias para que a divindade se “conecte” aos adoradores.

Essa conexão entre adorador e ser adorado se torna necessária porque o deus (ou deuses) segundo o paganismo é uma entidade imanente, identificada com a natureza parcialmente (o deus das pedras, das águas, do céu, da colheita) ou totalmente (como no panteísmo, onde Deus se torna uma essência difusa imiscuída na criação). Dorneles explica que:

“A relação direta entre espírito (mundo sagrado) e o homem e a natureza (mundo profano), quer seja pela gênese dos espíritos como descendentes dos humanos, quer seja pelo fenômeno de possessão, influencia a aproximação, senão a integração entre o sagrado e o profano.” [5]

Se Dorneles estiver correto em sua observação, como o modelo pagão de adoração, que admite a “integração entre o sagrado e o profano” passou a ser seguido pelos modernos seguidores de Cristo?

Na tradição protestante, houve uma luta contra a visão católica, na qual Deus era apresentado como inacessível, de onde vinha a necessidade de muitos mediadores (os sacerdotes, os santos, os anjos, a virgem Maria) para representar o homem diante desse Deus. Contudo, em algum momento o pêndulo correu para o outro lado: um Deus representado como presente e interagindo constantemente com o ser humano, como no moderno pentecostalismo.[6] Esse “Deus do Aqui e agora” é um Deus com quem se barganha e de quem se pode solicitar ou mesmo exigir bênçãos materiais. Ele também Se manifesta por meio de “dons” (glossolalia), milagres (curas) e revelações.[7]

O cristianismo pentescostal deriva sua ênfase no emocionalismo como demonstração da bênção de Deus da visão wesleyana de uma “concepção imediata da salvação”, dentro da qual os sentimentos servem de “termômetro da experiência espiritual”.[8] Neste contexto, a música emocional e de características populares é fundamental para levar cada adorador a um estado de experiência que lhe permita “sentir” Deus e receber Suas bênçãos e dons. Há muitas aproximações entre os cultos carismáticos/pentecostais e cultos praticados pelas religiões tradicionais na África.[9]

Na história do adventismo, certos “ventos” pentecostais sopraram em determinados momentos. O episódio mais conhecido é o que envolveu o “Movimento da Carne Santa”. Através de um relato in loco, observemos como o uso de música popular foi fundamental para fomentar o “clima” necessário a fim de levar os envolvidos à experiência de transe, similar a que se dá entre os pentecostais modernos:

“Eles têm um grande bumbo, dois tamborins, um contrabaixo, dois pequenos violinos, uma flauta e duas cornetas. Seu livro de músicas é ‘Garden of Spices’ e tocam músicas dançantes com letra sagrada. Nunca usam nosso próprio hinário, exceto quando os irmãos Breed ou Haskell pregam, então eles iniciam e terminam com um hino de nosso hinário, mas todos os outros são do outro livro . Eles gritam ‘Amém’, ‘Louvado seja o Senhor’ e ‘ Glória a Deus’, como acontece nos cultos do Exército de salvação. Isso causa aflição. As doutrinas pregadas correspondem ao resto.O pobre rebanho está verdadeiramente confuso”[10]

A introdução de um tipo de adoração próxima a dos movimentos pentecostais levou um grupo oriundo do adventismo a ter “experiências” pentecostais. Com base nesta fatídica experiência, nos perguntamos se, ao copiarmos as músicas cristãs contemporâneas e as empregarmos em nossa adoração, não correríamos o risco de ser influenciados por tais músicas de tal maneira que nosso culto se modifique, o que inevitavelmente interferiria, a longo prazo, em nossa conceituação do Ser adorado?

Alguns dos cristãos que utilizam a música gospel contemporânea para garantir o “clima” de seus cultos são altamente influentes nos círculos evangélicos. Citamos, por exemplo, a conhecida cantora e compositora do ministério “Hillsong”, Darlene Zschech, autora do conhecido hino “Shout to The Lord”, traduzido e cantado em várias línguas ao redor do mundo.[11] Embora expresse em seu livro que não concorda que a adoração apenas trate de “provocar emoções nas pessoas para prepará-las para um culto guiado pela emoção”[12], Zschech descreve como utiliza o grito nos momentos em que “dirige o louvor”, não “para tentar fazer as pessoas ficarem empolgadas, nem ‘estimuladas’’, mas de maneira a incentivar “as pessoas a por a fé em ação, a clamar e mudar a atmosfera que envolve a vida delas.” Por isso, ela descreve seu grito como “um grito de fé”.[13] O mais curioso são as expectativas de Darlene Zschech para o futuro:

“Tenho uma convicção pessoal a respeito de criar a próxima geração de músicos adoradores nas coisas de Deus […] fornecer-lhes uma plataforma espiritual rica de onde se lancem, vendo-os explorar o que jamais ousamos.” [14]

Dado o número de versões que os músicos adventistas têm feito de hinos modernos, de outros segmentos cristãos, não estamos, mais do que nunca, correndo o risco de assimilar a cultura religiosa de nossa época, esquecendo-nos de que temos uma identidade singular, da qual, caso abramos mão, não teremos condições de reclamar as bênçãos de Deus para cumprir a nossa comissão? A música, aos poucos, vai sendo responsável pela mudança paradigmática no culto adventista. Como eu havia observado em LG:

“Parece incrível, mas veremos em nossas igrejas uma operação maligna, desvirtuando o propósito do próprio culto, tornando-o em uma experiência emocionalmente histérica, bastante parecida com a que encontramos em alguns cultos pentecostais. Fico me indagando se a influência da Black Music, originária das tradições pagãs da África, aonde a experiência de transe faz parte do culto, não pode estar envolvida com a mudança de paradigma musical que já vem ocorrendo, e que levará à confusão dos ‘sentidos dos seres racionais’.”

É claro que, olhando os eventos dentro do contexto de um grande conflito cósmico, entre Cristo e Satanás, a compreensão adventista das profecias nos leva a pensar na relação de toda essa mudança com o fortalecimento do movimento ecumênico. Creio que Wolfgang H. M. Stefani, melhor do que ninguém, observou esta relação já insinuada e que continua em crescente marcha:

“Parece evidente que a fim de unir socialmente todas as nações para seu engano final, nosso arquiinimigo não pode depender unicamente de ideologias políticas, acordos econômicos e mesmo de interpretações teológicas. Pode ser que ele esteja cuidadosamente planejando e desenvolvendo um ‘aderente social’ em forma de música, algo que propicie condições para unir e organizar socialmente os habitantes do mundo – comprimindo-os em um molde.

"Será que, ao se promover um estilo musical global homogeneizado – estilo cada vez mais visível na cultural musical cristã – não estaria sendo preparado um palco para uma reação de identidade religiosa global? Tal reação permitira que pessoas de todas as nações, de todos os antecedentes religiosos, viessem a dizer: ‘Sim, esta é a minha música, assim sou eu... esta é a minha música pelo fato de ela me tornar feliz e religioso, e sou parte dela; agora me sinto em casa’”[15]

A única salvaguarda para os adventistas (e para todo adorador sincero) será apegar-se à Revelação; do contrário seremos “engolidos” pelas tendências globais da música cristã. Mas, infelizmente, em muitas áreas, incluindo a música, a Revelação é relativizada, produzindo um efeito tal que beira ao ceticismo ou a negação de seu caráter normativo para a experiência do crente. Essa preocupação será abordada em nosso próximo tópico.


[1] Gino Stefani, “Una teoria della competenza musicale. In: Il segno della musica” (Palermo: Sellerio Editore, 1987), p. 15-35. [Versão em inglês publicada no mesmo ano como “A theory of musical competence”, Semiotica, 66-1/3 (1987): 7-22, publicado em http://www.musicaecultura.ufba.br/artigo_stefani_08.htm. Stefani fala de competência musical em termos de “um conjunto de níveis de códigos [dentro dos quais são analisados os eventos sonoros com o que se relaciona a eles ]”.[2] Beatriz Ilari, “A música e o desenvolvimento da mente no início da vida: investigação, fatos e mitos”, disponível em http://www.rem.ufpr.br/REMv9-1/ilari.html, acesso: 21 de Agosto de 2007. A mesma autora observa que “[…] a música e a linguagem compartilham algumas propriedades acústicas como altura, ritmo e timbre, que podem ser traçadas no decorrer de toda a vida.”[3]Falando sobre a influência do reggae na sociedade soteriopolitana, a partir da década de 70, Cunha afirma: “Mas foi principalmente com o advento do reggae na cidade[Salvador, BA] - tocado em bailes da periferia, feiras, reuniões e ensaios de blocos afro desde o final da década de 70 - que tudo começou. A música reggae tem se caracterizado, conforme Nettleford (apud Owens,1989:xi), por ser uma espécie de ‘púlpito secular’. Todavia, o reggae não se resume a tematizar as pregações acerca da fé no Messias Negro e na África/Etiópia como lugar da redenção: ele fala dos ‘sentimentos’ do rasta. Ao mesmo tempo, a música funciona como elemento ‘sugestivo’, ao suscitar a adoção de práticas a ela relacionadas no imaginário da juventude.”, Olívia Marinha Gomes da Cunha, em “Fazendo a coisa certa”.[4] Wolfgang H. M. Stefani, “Música: Força Ecumênica?”. (Tatuí, SP, Casa Publicadora Brasileira, Revista Adventista, ago, 2000). Também na internet: http://www.musicaeadoracao.com.br/artigos/adoracao/musica_ecumenica.htm. Ele está citando Deanna Campbell Robinson et. Al., “Music at the Margins: Popular Music and Global Cultural Diversity” (London: Sage Publications, 1991), X – XI.[5] Vanderlei Dorneles, “Cristãos em busca do êxtase” (Engenheiro Coelho, SP: UNASPRESS, 2006), 3ª Ed, p. 9. O trabalho de Dorneles é, muito provavelmente, a mais rica contribuição na área da adoração de um autor nacional.[6] Para maiores detalhes, consultar Wolfgang Stefani, “Música sacra, cultura e adoração”.[7] Não apenas os cristãos pentecostais partilham desta concepção. Os católicos carismáticos também fundamentam sua experiência na busca do êxtase. Note o seguinte relato: “Aqui me refiro, mais especificamente, a um episódio que pude observar durante reunião promovida pelo grupo de oração carismático ‘Glória a Ti Senhor’, da Paróquia de São Francisco Xavier, em bairro da periferia de Belém (PA). De 3 a 4 de julho de 1999, participei de uma ‘Oficina de Dons' promovida por esse grupo de oração, que se realizou num fim de semana, no auditório de uma escola de primeiro grau no bairro onde se situa a paróquia. A oficina se constituía de pregações realizadas por um jovem, pertencente a outro grupo carismático, especialmente convidado, destinando-se, sobretudo, ao núcleo do ‘Glória a Ti Senhor’ e a um pequeno grupo de recém-ingressos. Estes últimos há poucas semanas haviam participado de outra reunião, chamada ‘Querigma', ou ‘1o Seminário de Vida no Espírito’, durante a qual os mesmos foram selecionados como pessoas que ou receberam os chamados ‘dons do Espírito’ ou demonstraram ser propensas e estar desejosas de recebê-los. Muitas partes da oficina eram especialmente destinadas a esses neófitos e visavam, sobretudo, ensinar-lhes técnicas corporais capazes de propiciar ou facilitar a chamada ‘efusão do Espírito'. Chamou-me atenção, sobretudo, a técnica que foi denominada pelo jovem pregador de ‘bailar no Espírito’, ensinada na tarde do segundo dia do encontro. Tocando ao violão uma música suave, o mesmo sugeriu que todos, de pé, cada um por si e de olhos fechados, começassem a dançar, ‘entregando-se ao Senhor’, até que a maioria dos participantes, inclusive os neófitos, entrou em êxtase e ficou, então, bailando com o Senhor, de modo que, em pouco tempo, vários caíram ao solo – o que também se chama de ‘repouso no Espírito’.” Raymundo Heraldo Maués, ''Bailando com o Senhor'': técnicas corporais de culto e louvor (o êxtase e o transe como técnicas corporais) (São Paulo, SP: 2003), revista de Antropologia, vol. 46, n° 1, disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0034-77012003000100001&script=sci_arttext&tlng=en, grifos supridos. Mais a frente, Maués afirmará que a glossolalia (ou o falar em línguas), praticada pelos carismáticos (e, acrescentaríamos, pelos pentescostais) é “um fenômeno muito mais amplo”, usado inclusive na música “profana”; ele faz aproximações entre os carismáticos e pentecostais e o xamanismo.[8] Dorneles, p. 87.[9] Não nos deteremos neste assunto, mas os interessados encontrarão ampla documentação sobre as comparações entre cultos pentecostais e africanos na obra de Dorneles.[10] Relatório de S. N. Haskell a Sara McEntenfer, 12 de Setembro de 1900, citado em Ellen White, “Música: Sua influência na vida do cristão”, p. 37. No mesmo contexto, há esse outro relato: “Eu assisti à reunião campal em setembro de 1900, que se realizou em Muncie, onde presenciei em primeira mão o excitamento fanático e as atividades destas pessoas. Havia numerosos grupos de indivíduos, espalhados pelo acampamento, ocupados em discutir, e, então, quando os fanáticos conduziram os serviços em um grande pavilhão, envolveram-se em um alto grau de excitamento pelo uso de instrumentos musicais, tais como: trompetes, flautas, instrumentos de corda, tamborins, um órgão e um grande surdo. Eles gritavam e cantavam suas músicas ritmadas com o auxílio de instrumentos musicais. Muitas vezes, após essas reuniões matinais, ao se dirigirem para a tenda-refeitório, eu os vi tremerem completamente como se tivessem contraído paralisia.” Relatório de Burton Wade a A. L. White, 12 de janeiro de 1962, idem, p. 38. O Exército da Salvação, citado no primeiro depoimento, surgiu na Inglaterra, sendo, até a atualidade, uma das mais tradicionais igrejas pentecostais.[11] “Shout to The Lord” recebeu uma versão, “Cante ao Senhor”, e foi incorporado ao CD do Ministério Jovem de 1999 e continua fazendo parte de coletâneas adventistas até o presente.[12] Darlene Zschech, “Adoração Extravagante”, p. 122[13] Idem, p. 57 e 58, grifos meus.[14] Idem, p. 156.[15] Wolfgang H. M. Stefani, “Música: Força Ecumênica?”. Se a prórpria “modernidade religiosa“[…] leva a um ecumenismo de valores, na medida em que respeita todas as religiões” (Carlos Eduardo Sell e Franz Josef Brüseke, “Mística e Sociedade” pp. 190), não poderíamos esperar que as músicas religiosas modernas expressassem o tipo de atitude respeitosa o suficiente a ponto de promover ideais ecumênicos, como, por exemplo, a ênfase na espiritualidade subjetiva preferida a uma religiosidade mais concreta, apoiada em uma tradição objetiva?

A MÚSICA SACRA DENTRO DA COSMOVISÃO ADVENTISTA: INTERPRETANDO E APLICANDO CONCEITOS DE ELLEN WHITE - Parte 1



Durante meu processo de aceitação do adventismo, em nenhum momento fui informado a respeito de como deveria me servir da música. Lembro-me de que mantive minha preferência pelo rock de bandas como Led Zeppelin, Beatles, Engenheiro do Havaii, além de ouvir a música eletrônica que tocava nas FMs na década de 90. Jamais imaginei que o conjunto de crenças que eu aceitara incluía uma nova percepção do mundo, englobando todas as áreas da vida. Isso certamente, conforme percebi mais tarde, exigia uma transformação de meus gostos musicais.

Desde que me tornei adventista, tenho acompanhado a mudança de paradigma musical dentro da igreja. Percebo que boa parte da produção fonográfica denominacional tem sofrido influência de músicos cristãos de outros segmentos, que, obviamente, não são orientados pelos mesmos princípios que os adventistas. Esta constatação não intenciona ecoar as velhas queixas quanto ao uso da bateria no acompanhamento dos play-backs. Costumo me referir à bateria como a “ponta do iceberg”. O que está oculto às vistas é a questão da cosmovisão adventista.


Como denominação cristã, os adventistas acreditam ter recebido “luz especial” para o “tempo do fim”, período que antecede a segunda vinda de Jesus à Terra. O objetivo do Senhor, ao revelar de forma especial Sua vontade antes do Advento, é preparar um povo e, através dele, o mundo, para o evento derradeiro da História como a conhecemos.
[1] Ou seja, a luz que Deus tem nos dado objetiva formar nossa visão de mundo, o que se reflete em nossa identidade como povo de Deus.

Caso percamos nossa identidade singular, não poderemos sustentar a insígnia de povo santo, escolhido de acordo com Sua vontade. Tampouco, poderemos cumprir nossa missão, de anunciar a queda de Babilônia, a advertência aos sinceros que a deixem e o convite a adorar ao Deus verdadeiro. Existimos como adventistas para cumprir esta missão.

Ocorre que a música se relaciona com a adoração. Se quisermos chamar outros à adoração correta, o que está incluso na primeira mensagem angélica (Apoc. 14:7), nós mesmos precisamos conhecê-la e praticá-la. Do contrário, se continuarmos a ser influenciados em nossa música e refletirmos a cultura religiosa dominante, no que diz respeito à nossa adoração, não podemos reclamar nossa identidade singular e, muito menos, cumprir a nossa comissão (Mateus 5:13).

Teríamos critérios claros e específicos para nos orientar na escolha e execução de músicas adequadas com nossa cosmovisão adventista? Creio que resposta seja “sim”. Dada a importância deste assunto, Deus não Se olvidaria de comunicar princípios-guia para o Seu povo na época pré-advento.

Infelizmente, assim como em minha experiência de recém-converso, muitas pessoas jamais foram informadas de que nossa visão de mundo deve selecionar e produzir música que reflita nossa identidade singular. Tais pessoas acabam, com o tempo, formando critérios pessoais sobre o que envolve a música (como música para a adoração, para entretenimento, para a devoção pessoal, etc), baseando-se em sua própria experiência (anterior ou posterior à conversão),e nos padrões de algum tipo de mídia (secular ou cristã). Nota-se que tais influências acabam originando critérios bastante subjetivos
[2] e, portanto, incompatíveis com o modo de Deus agir. Se ao longo da História, o Senhor tem sido bem específico ao revelar Sua vontade para cada área da vida humana[3], fica evidenciado que há uma verdade específica no que tange à música.

Tenho considerado essas questões há algum tempo, escrevendo sobre aspectos da música cristã moderna passíveis de crítica, com o objetivo de, pelo contraste, destacar a dicotomia entre o que nossos princípios prescrevem e como temos agido em relação à música. Um de meus artigos, “Leonardo Gonçalves: Expectativa do novo CD e análise de sua influência musical” (daqui para frente referido como LG) recebeu recentemente uma resposta. Escrita pelo Pr. André Gonçalves, irmão do cantor, revela muito a respeito de como os adventistas brasileiros encaram a música, em geral e na adoração, em nossa época. Eis um trecho escrito por André Gonçalves:

“[…]Deus se agrada do nosso louvor não porque é esteticamente aceitável, mas porque é sincero e de coração. É isso que vale para Deus quando o louvor é individual, sem a presença de outras pessoas. A partir do momento em que outras pessoas estão envolvidas como ouvintes e participantes, Ele se agrada da música que eleva, que testemunha das maravilhas que Ele fez e faz, que toca, que motiva e que, acima de tudo, exalta e engrandece o nome dEle. Utilizar as palavras que a irmã White usou após uma experiência de arrebatamento para o Céu para nortear a música em termos específicos e técnicos é descontextualizar completamente o que ela escreveu.”
[4]

Uma vez que o assunto da adoração é vital para mantermos nossa identidade e, consequentemente, cumprirmos nossa missão, consideramos como apropriado analisar criticamente a resposta de André Gonçalves a LG. Fazemos isso apenas com o propósito de prestar esclarecimentos sobre um assunto importante, entendendo que um debate aberto promoverá crescimento neste campo doutrinário. Portanto, não se trata de uma “disputa” ou um ataque à pessoa do Pr. André, o qual cremos ser um sincero servo do Senhor, que, como eu, preocupa-se com o avanço da mensagem adventista nesses últimos dias.


A despeito do que foi dito, na resposta do Pr. André a LG percebemos três premissas recorrentes, e difundidas popularmente entre os adventistas, a saber: a) a subjetividade de critérios filosóficos/teológicos para nortear a música cristã contemporânea, b) a dissociação entre a escolha da música e seu efeito sobre os adoradores e c) o reducionismo, tanto na abordagem histórica do contexto cultural no qual Ellen White estava inserida quando escreveu sobre a música, quanto na aplicação atual do que ela escreveu.

No presente artigo, discuto de forma sucinta cada um dos três aspectos citados acima e, a seguir, ocupo-me em responder às 9 observações do autor sobre meu artigo supra-citado. Na conclusão, procuro demonstrar a premente necessidade de um estudo comparativo das tendências musicais adventistas com as orientações inspiradas de Ellen G. White.

De antemão, esclareço que o presente artigo não tem a intenção de causar celeuma ou agitar os ânimos; tecemos considerações que nos parecem, além de informativas, cabíveis, sem perder o respeito por aqueles que pensem diferentemente. Convidamos a todos que amam a causa do Senhor a refletir sobre a música dentro da cosmovisão adventista. Já passa o tempo de unirmos nossa mente para que a música na igreja deixe de ser “terra-de-ninguém”.

a) A subjetividade de critérios filosóficos/teológicos para nortear a música cristã contemporânea

Em toda espécie de arte
[5], a forma tem geralmente refletido o conteúdo. Revoluções no pensamento e filosofia humana têm originado novas correntes artísticas, com preocupações estéticas distintas das correntes anteriores.

Para citar um exemplo: de 11 a 18 de Fevereiro de 1922 ocorreu a semana de Arte Moderna no Teatro Municipal de São Paulo. Os maiores poetas da época eram neo-parnasianos e simbolistas menores, influenciados pela poesia européia, notadamente a francesa. A proposta dos novos poetas era substituir o formalismo na poética pelo experimentalismo das correntes vanguardistas da Europa. O público ficou chocado com as paródias, os poemas-piadas, os versos-livres (não metrificados) e a algazarra modernista. Isso porque a concepção artística do que era um poema passara por uma transformação. E a revolução não atingira apenas o conteúdo (tema), mas igualmente a forma. Em arte, geralmente forma e conteúdo se integram.

Falando da música, temos que entender que, como forma de arte, produto da cultura humana, ela reflete a cosmovisão de um indivíduo ou grupo de pessoas.
[6] Para os grupos religiosos, o culto em geral, e o tipo de música em especial, é conduzido de acordo com a visão que se tem da divindade.[7]

Um exemplo disso temos na música entoada por um muezim, chamando os fiéis à prece vespertina. Mulçumanos são extremamente formalistas em seu culto, recitando textos árabes e “decorando” orações, porque vêem a Deus quase que como um Ser impessoal, um Absoluto distante do homem. O tipo de hinos cantados em uníssono numa espécie de cantochão, que lembra uma “ladainha” solene, está em conformidade com a forma muçulmana de enxergar Alá, seu Deus.[8]


Vejamos outro caso: a música reggae surgida na Jamaica, era uma expressão mística do rstafarianismo, movimento político-religioso, também de caráter étnico, surgido na Jamaica, que a partir de sua luta contra a “estrutura escravista britânica” reinterpretou a promessa bíblica da Terra Prometida, localizada agora na “Etiópia/África”. O reggae está profundamente ligado com substâncias alucinógenas, produtoras de “estados de consciência”, que, por sua vez “são ao mesmo tempo fonte de conhecimentos e comunicação com o sagrado, provocados não só pela música como pela erva, pelo contato com elementos da natureza, pelos sonhos e pelas visões.” Não à toa, o cantor de reggae Peter Toshem entrevista à revista High Times em 1981 afirmou que “[a] espiritualidade e a inspiração são decorrentes da capacidade do reggae de ‘hipnotizar’ e fazer o ouvinte ‘sair de si’, isto é, a música é capaz de provocar no ouvinte o acesso a outros ‘estados de consciência’.”
[9]

Entendemos que os exemplos dados reforçam o conceito, que nos será caro, de que a cosmovisão, seja qual for, molda a expressão artística.

Não há um divórcio entre forma e conteúdo, o que garante a eficácia de determinada escolha musical para um fim específico. A adoração deixa transparecer que conceitos foram internalizados pelo adorador. Ou em outras palavras: “Aquilo com que você se deleita transparece quando dirige o louvor.”
[10]

A música cristã tem sofrido muitas alterações ao longo da História, haja visto que a cultura ocidental é mais passível de mudanças. E, uma vez que as correntes filosóficas têm, principalmente desde o Iluminismo até o presente, se oposto à cosmovisão bíblica, as mudanças, em termos de ética e princípios, não são positivas.[11]

Em decorrência das mudanças na música cristã, é recorrente o debate Forma x Conteúdo, sendo que alguns tendam a restringir toda manifestação musical a uma (ou a algumas) determinada(s) forma(s), ao passo que outros argumentem que a forma não é importante.[12] Geralmente, a música cristã moderna segue a segunda tendência, se valendo da premissa de que “todo louvor seja aceitável a Deus”.


Realmente toda forma de adoração seria válida? Se encararmos a adoração como um reconhecimento do caráter amoroso de Deus e uma homenagem sincera a Seus atributos, seríamos levados a reconhecer que a adoração tem de agradar-Lhe. É dever do adorador apresentar algo agradável ao ser adorado. Costumo exemplificar isso de uma forma simples: se alguém quiser me presentear, não me dê uma roupa da cor vermelha! Por questão de gosto pessoal, não conseguiria sentir-me bem usando uma roupa vermelha. Na experiência humana, quando queremos presentear a alguém, levamos em conta o gosto da pessoa, não o nosso. Na adoração, devemos levar em conta o “gosto” divino.

O próprio Jesus disse à mulher samaritana que Deus, o Pai, busca aqueles que o adorem em “espírito e verdade” (João 4:23). A que o Mestre se referia? Para Jesus, a adoração é tanto um fenômeno espiritual – e, portanto, independente do local (e a dúvida da interlocutora estava relacionada com qual seria o correto: adorar no templo em Jerusalém ou no monte Gerizim), do ambiente, dos objetos cúlticos, etc – quanto algo coerente com a Revelação, ou, nas palavras dEle, com a “Verdade”. Daí se conclui que há uma verdade a respeito da adoração que todo adorador deveria conhecer e praticar, para estar entre os adoradores daquela espécie que Deus-Pai busca.

Em LG, usei textos do Espírito de Profecia para mostrar que o louvor agradável a Deus, em qualquer esfera (quer pessoal, quer pública), é o que está coerente com Sua Revelação(portanto, fora da competência de sentimentos e intenções meramente humanos).
[13] Gostaria de acrescentar mais um texto, que trabalha com os conceitos fundamentais da resposta de Jesus à samaritana (o binômio “espírito/Verdade”):

“Quando os seres humanos cantam com o espírito e o entendimento, os músicos celestiais apanham a harmonia, e unem-se ao cântico de ações de graças. Aquele que nos concedeu todos os dons que nos habilitam a ser coobreiros de Deus, espera que Seus servos cultivem sua voz, de modo que possam falar e cantar de maneira compreensível a todos. Não é o cantar forte que é necessário, mas a entonação clara, a pronúncia correta, e a perfeita enunciação. Que todos dediquem tempo para cultivar a voz, de maneira que o louvor de Deus seja entoado em tons claros e brandos, não com asperezas, que ofendam ao ouvido. A faculdade de cantar é um dom de Deus; seja ela usada para Sua glória.
[14]

Gostaria de salientar que o texto desdobra o conceito de adorar em “espírito e verdade” em algumas ações específicas, como a entonação “clara”, “branda”, sem “asperezas”, apenas para destacar algumas; tendo essas características citadas em mente, alguém dificilmente poderia concluir que, em matéria de música, “Deus aceita tudo”. O conteúdo do louvor musical deve ser considerado tanto quanto a sua forma. É claro que estamos falando de princípios revelados, mas não podemos criar um “índex” catalogando as músicas ou os cantores “corretos”.[15] A Revelação deve ser aplicada de forma coerente pelo adorador individual, a medida em que ele cresce em sua compreensão da Verdade, rendendo sua individualidade ao controle do Espírito Santo; não ser trata de uma “anulação” do indivíduo, como propõe a filosofia chinesa, mas de submeter-se a Deus, expressando individualmente o quanto Ele representa para nós:


“Nossa confissão de Sua fidelidade é o meio escolhido pelo Céu para revelar Cristo ao mundo. Temos de reconhecer-Lhe a graça segundo nos é dada a conhecer através dos santos homens da antiguidade; mas o que será mais eficaz é o testemunho de nossa própria experiência. Somos testemunhas de Deus, ao revelar em nós mesmos a operação de um poder que é divino. Cada indivíduo tem uma vida diversa da de todos os outros, uma experiência que difere essencialmente da sua. Deus deseja que nosso louvor a Ele ascenda, com o cunho de nossa própria individualidade. Esses preciosos reconhecimentos para louvor da glória de Sua graça, quando corroborados por uma vida semelhante à de Cristo, possuem irresistível poder, eficaz para salvação de almas.”
[16]

Muitos, ao se depararem com o texto acima, poderiam argumentar que, se o que vale é o “testemunho de nossa própria experiência” e se essa experiência “difere essencialmente” da de outros, então somos “livres” para usar critérios pessoais e subjetivos em nossa maneira de louvar a Deus através da música. No entanto, o contrapeso a essa conclusão imediata está nos outros dados da Revelação sobre o assunto. Se aceitarmos que a Revelação não pode se contradizer, então forçosamente admitiremos que o testemunho de uma experiência iluminada por Cristo se aproximará em cada ponto das ações específicas mencionadas nos diversos textos que abrangem o assunto.


Deus julga a cada ser humano pela luz que recebeu. O senhor aceitou quando Miriã “tomou na mão um tamboril, e todas as mulheres saíram atrás dela com tamboris, e com danças” (Êxo. 15:20), porque a sua cultua era egípcia, e não havia luz maior sobre a adoração naquela situação vivencial (sitz in libem). Como adventistas, entendemos que o cabedal de conhecimento que temos hoje relacionado ao assunto não nos permitiria uma prática análoga a de Miriã.
[17] Os adventistas entendem que há diretrizes divinas que provêem parâmetros musicais.

Em contrapartida, a posição dos evangélicos em geral difere completamente do que as citações do Espírito de Profecia que acabamos de ler nos sugerem. Um dos mais influentes líderes evangélicos, o Pr. Rick Waren, reconhece que o poder da música leva a mensagem “diretamente para o coração”. Por isso, segundo ele, temos a oportunidade de utilizar a música contemporânea, com seu poder de alcance, para espalhar “valores de Deus”; do contrário, utilizando o mesmo tipo de música, “satanás vai ter acesso a uma geração inteira”.


Embora Waren reconheça que o tipo de música determine a identidade da igreja e seu posicionamento na comunidade em que estiver inserida, ele alerta os cristãos de que têm de “admitir que não existe um estilo de música em particular que é ‘sagrado’”. Segundo o seu parecer, “O que faz uma música sagrada é a sua mensagem [letra]. A música não é nada mais do que um arranjo de notas e ritmo. […] Não existe música cristã, mas sim, letras cristãs. Se fosse tocada uma música sem palavras, você não saberia se é cristã ou não.”
[18]

Esta opinião é bem aceita nos círculos evangélicos[19], mas não é unânime. Berit Kjos, analisando a perspectiva de Waren questiona a tendência “liberal” de aderir à adoração contemporânea. Kjos observa que “A escolha do pastor Warren na área da música está de acordo com as principais tendências atuais de mudança – na cultura, nos negócios e também nas igrejas.” Ele ainda afirma que isso faz parte de uma estratégia de marketing voltada para as “‘necessidades sentidas’ das massas.” “Assim, quando Rick Warren ofereceu a música que a maioria das pessoas queria, elas se arrebanharam para a igreja.” Mas esse “sucesso” não prova, como Kjos ainda observa, que Deus tenha aprovado determinada escolha musical.
Usando de lógica irrefutável, Kjos pergunta:


“Quando o pastor Warren nos diz que ‘Deus ama todos os tipos de música’ e que ‘Deus ama a variedade’ você pode imaginar onde ele traçaria a linha? Essa linha divisória vital curvar-se-ia de acordo com nossa cultura mutável? Ou com a crescente tolerância a todos os tipos de variações espirituais e escriturais? Essas são questões cruciais, pois a música se tornou uma força motriz no Movimento de Crescimento de Igrejas.”
[20]

Acredito que essa seja a “chave da questão”. Qual a linha divisória, se Deus ama todos os tipos de música? Do Rock ao Axé, qualquer gênero é aceitável! Mas se a variação musical é uma das conseqüências da mutabilidade da Filosofia Ocidental, estaria a adoração sujeita a tanta mudança, sendo que ela se fundamenta na Revelação de um Deus que não muda? Ou estamos tentando acompanhar as tendências seculares para agradar os não-cristãos? Em LG, eu havia escrito:


“Alguns poderiam afirmar “Música é questão de cultura”. É verdade que toda expressão artística (música, artesanato, artes plásticas, etc) parte de uma cultura. Mas os valores é que moldam a cultura. Se os princípios da Palavra de Deus moldam nosso coração, não nos afastaremos totalmente da nossa cultura de origem – no meu caso, e no da maioria dos leitores, a cultura brasileira – , mas ela será transformada, e seus aspectos contrários ao Evangelho serão sublimados.[…]”

Até que ponto um culto contemporâneo realmente atrai pessoas preocupadas em servir a Deus e lhes provê instruções suficientes para promover um crescimento espiritual coerente com a Revelação, em todos os seus variados matizes? Será que fazer “concessões” quanto à adoração não nos leva a “amenizar” os demais mandamentos e orientações das Escrituras? David Fisher conta a história que, em conversa com seu filho, um cristão “afastado”, ele lhe sugeriu que freqüentasse uma igreja próxima, que possuía cultos no estilo “tradicional” e “contemporâneo”. Seu filho retrucou, afirmando não estar interessado em cultos “modernos”, nos quais os cristãos tentam parecer “amenos”. “O cristianismo”, afirmou o rapaz, “não é ameno. Ele tem de ser diferente.”
[21]

Quando oferecemos música secular com letra religiosa, estamos desfocando a adoração, que consiste em oferecer algo santificado a um Deus Santo. Deus deve estar no centro da adoração para que ela seja bíblica. Notemos o que o Espírito de Profecia afirma sobre o impacto da adoração em “espírito e Verdade” sobre os não-cristãos:

Vi que todos devem cantar com o espírito e com o entendimento também. Deus não Se agrada de algaravia e dissonância. O correto é sempre mais agradável a Ele que o errado. E quanto mais perto o povo de Deus se puder aproximar do canto correto, harmonioso, tanto mais é Ele glorificado, a igreja beneficiada e os incrédulos favoravelmente impressionados."
[22]

Deus se agrada do “correto”, com aquilo que está relacionado com o “entendimento”; perceba que o binômio que mencionamos anteriormente, referindo-nos a João 4:24, “espírito/ Verdade”, encontra um correspondente neste novo binômio “espírito/entendimento” – sendo o aspecto espiritual, como já o afirmamos, ligado ao próprio fenômeno da espiritualidade, enquanto o “entendimento” relacionado à apreensão da Revelação, ou seja, da “Verdade” bíblica objetiva. Quando temos a preocupação de ser coerentes com a Revelação, além de glorificar a Deus, somos beneficiados como povo e impressionamos os “incrédulos”.
[23] Em outro texto, lemos o seguinte:

“Quando os professos cristãos alcançam a alta norma que é seu privilégio alcançar, a simplicidade de Cristo será mantida em todo o seu culto. As formas, cerimônias e realizações musicais não são a força da igreja. No entanto, estas coisas tomaram o lugar que deveria ser dado a Deus, tal como se deu no culto dos judeus.

O Senhor revelou-me que, se o coração está limpo e santificado, e os membros da igreja são participantes da natureza divina, sairá da igreja que crê a verdade um poder que produzirá melodia no coração. Os homens e as mulheres não confiarão então em sua música instrumental, mas no poder e graça de Deus, que proporcionará plenitude de alegria. Há uma obra a fazer: remover o cisco que se tem trazido para dentro da igreja. ...”
[24]

Não devemos estar tão preocupados em ser conhecidos como uma “potência musical” quanto em “alcançar a norma mais alta”. Isso se torna real quando “a simplicidade de Cristo” é mantida, e “os membros da igreja são participantes da natureza de Cristo”. Se estamos em comunhão com Cristo e mantemos obediência à Sua Revelação, vamos apresentar uma adoração cujo impacto criativo atingirá os corações, não porque essa seja a preocupação principal, mas porque a presença de Deus produzirá impressão duradoura nos corações. Quando analisarmos a interpretação de Ellen White, abordaremos mais detidamente os aspectos normativos de sua compreensão da música na adoração.


Outro fator que explica a mudança na música é o fato de que a modernidade tem contribuído para a construção de um novo paradigma religioso, o da “modernidade religiosa”, cuja marca de identificação é “a tendência geral para a individualização e a subjetivação da vida religiosa.” Embora este paradigma afete as “religiões tradicionais”, “não cancelou as formas de crer, que são cada vez mais individuais, subjetivas, dispersas e feitas de diversas combinações, ou, em uma única palavra, fluidas.”
[25] Esse cristianismo mais “fluido”, não revela, em sua adoração, uma preocupação com a forma, mas com a experiência subjetiva em níveis pessoais.[26]

Tão fundamental quanto reconhecer que a concepção de mundo e do Ser adorado exercem papel decisivo no tipo de adoração e na música empregada durante o momento cúltico, é admitir que a música tem efeito direto em nossa mente – assim, ou a música favorece a atmosfera de reverência, entrega, submissão, louvor, gratidão e compromisso durante o processo de adoração ou deturpa a adoração, comunicando uma mensagem independente, não-correlacionada com os princípios de verdadeira adoração. Esse é o ponto de que trataremos no próximo tópico.



[1] Houve um período de desenvolvimento doutrinário, em torno da compreensão da doutrina do santuário, bem como das três mensagens angélicas de Apocalipse 14. Um excelente trabalho sobre este assunto é Alberto R. Timm, “O Santuário e as três mensagens angélicas: Fatores integrativos no desenvolvimento histórico das doutrinas adventistas” (Engenheiro Coelho,SP: Imprensa Universitária Adventista, 2002).[2] No Mato-Grosso do Sul, conheci uma professora recém-conversa, que vinha do sul do país. Como havia freqüentado uma igreja adventista de tendências liberais, ela não achava errado assistir shows de cantores seculares e, infelizmente, na nova cidade, associou-se a membros da igreja que também não viam problemas nessa prática. Quando minha esposa conversou com ela e expôs as orientações bíblicas e o pensamento denominacional sobre a questão, foi um choque para aquela professora ver que estava agindo de forma equivocada – não por desobediência aberta, mas por desinformação![3] “A Bíblia não foi escrita para os doutos unicamente. Ao contrário, destina-se ao povo comum. As grandes verdades indispensáveis para a salvação, nela se acham reveladas com a clareza da luz meridiana; e ninguém errará nem perderá o caminho a não ser os que seguirem seu próprio juízo em vez da vontade de Deus, claramente revelada.” Ellen G. White, Caminho a Cristo, p. 89. Cf.: Conselhos Professores, Pais e Estudantes, p. 463, Conselho sobre Mordomia, p. 38.[4] André Gonçalves, em comentário ao artigo.[5] De fato, temos de considerar a arte do ponto de vista da estética cristã. Wolfgang H. M. Stefani chama a atenção para as artes como “[…] um aspecto do estilo de vida adventista no qual a comunicação e a transmissão de valores característicos são fracas.” Ele advoga que deveríamos nos preocupar com esta omissão. O artigo “Música: Força Ecumênica?”, da autoria de Stefani, pode ser encontrado em http://www.musicaeadoracao.com.br/artigos/adoracao/musica_ecumenica.htm[6] “[…] a música carrega traços de história, cultura, e identidade social, que são transmitidos e desenvolvidos através da educação musical.” Beatriz Ilari, “A música e o desenvolvimento da mente no início da vida: investigação, fatos e mitos”, disponível em http://www.rem.ufpr.br/REMv9-1/ilari.html, acesso: 21 de Agosto de 2007. “ Antes de tudo, existe alguma razão para pensar que a atividade musical, desconsiderando sua variedade, tem algumas características em comum que nos permitem vê-la como um todo unitário. Além do mais e em conexão com isto, assumimos que existe alguma habilidade de fazer e/ou comunicar com sons que é comum a todos os membros de uma cultura, embora distribuída ou exercida de várias maneiras e papéis. Ambas as afirmações não são exclusivas à música, mas são também válidas para outros tipos de expressão social, tais como gesto, pintura etc.” Gino Stefani, “Uma Teoria de Competência Musical”, disponível em http://www.musicaecultura.ufba.br/artigo_stefani_01.htm, acesso: 21 de Agosto de 2007.[7] As reflexões sobre como as cosmovisões religiosas, variando entre os extremos de transcendência (um Deus Superior e distante) e Imanecência (um Deus que interage com Sua criação, e, que Se nivela a ela) é magistralmente expresso em Wolfgang Stefani, “Música sacra, cultura e adoração” (Engenheiro Coelho, SP: UNASPRESS, 2002)[8] É interessante como Pearcey relaciona a expansão do Império Muçulmana, nos séculos VII e VIII, durante os quais territórios da Espanha à Pérsia foram anexados, com a influência que o pensamento grego (Neoplatonismo) passou a exercer sobre o Islamismo; para o Neoplatonismo, assim como para as religiões místicas orientais, Deus é uma “essência não-pessoal”. Para Percey, tal concepção de uma divindade impessoal, que se tornou predominante no pensamento muçulmano, explicaria “por que os muçulmanos expressam sua fé em rituais quase mecânicos[…]”. Para maiores detalhes, ver o apêndice 2, “O Islamismo Moderno e o Movimento da Nova Era”, em Nancy Pearcey, “Verdade Absoluta: Libertando o Cristianismo de seu cativeiro cultural” (Rio de Janeiro, RJ: Casa Publicadora das Assembléias de Deus, 2006), 1ª ed, pp. 431 a 435. Mansour Challita, em seu livro “As mais belas páginas da Literatura Árabe” (Rio de Janeiro, RJ: Associação Cultural Internacional Gibran, sem indicação de data da publicação), endossa o que vimos anteriormente quando afirma: “Graças às conquistas que se estenderam em todas as direções, a língua árabe é adotada pouco a pouco por países que vão do Iraque até a Espanha, formando o que desde já podemos chamar o Mundo Árabe. Um mundo em plena vitalidade, em plena efervescência criadora.
“A mistura das raças, o intercâmbio com civilizações e literaturas estrangeiras, orientais e mediterrâneas, a vasta tradução de livros antigos (notadamente gregos) abrem horizontes para a cultura árabe. Até o século XII, as grandes obras se multiplicam em toda parte. É a idade de ouro da literatura árabe.” p. 23.
[9] Olívia Maria Gomes da Cunha, “Fazendo a “coisa certa”: Reggae, rastas e pentecostais em Salvador”, emhttp://www.anpocs.org.br/portal/publicacoes/rbcs_00_23/rbcs23_09.htm, acesso em 28 de Agosto de 2007.[10] Darlene Zschech, “Adoração Extravagante” (Belo Horizonte, MG: Editora Atos, 2006), 2ª reimpr. Da 2ª Ed, p.83.[11] Wolfgang Stefani, em “The Pscho-Physiological Effects of Volume, Pitch, Harmony and Rhythm in the Development of Western Art Music Implications for a Philosophy of Music History” (MA Doctrinal Dissertation: Andrews University, 1981), [posteriormente publicado em português como “Música sacra, cultura e adoração” (Engenheiro Coelho, SP: UNASPRESS, 2002)], dá o seguinte veredito: "Todas as evidências consideradas indicam que, a partir de uma perspectiva cristã, existem razões esmagadoras para interpretarmos a história do desenvolvimento da arte musical ocidental em termos de um processo gradual de degeneração e deterioração." p.273, citado em Adrian Ebens “A Música na Adoração: Fontes para um modelo cristão de música na adoração”, publicado em http://www.musicaeadoracao.com.br/livros/musica_adoracao/index.htm, acesso: 10 de Agosto de 2007. É interessante um contraste entre esta constatação, de um ponto de vista cristão, feita Stefani sobre a decadência cultural no Ocidente e a opinião similar expressa em Harold Bloom, “O Cânone Ocidental” (Rio de Janeiro, RJ: Objetiva, 1995). Bloom, tido como um dos críticos literários mais importantes em atividade, defende os valores estéticos da literatura clássica e dos escritores mais importantes do Ocidente contra o relativismo literário, responsável pela decadência na produção contemporânea . “O mundo experimenta uma degradação do conhecimento por causa da conversão da cultura em produto. Apesar de todas as vantagens que trouxeram, computadores, internet e televisão estão levando os jovens a se desacostumar dos livros. A longo prazo, a cultura como conhecemos hoje vai desaparecer. Por causa do mundo digital, as pessoas estão perdendo até a capacidade de compreender um texto a fundo. E ainda não inventaram veículo melhor que o texto escrito em papel.” Harold Bloom, em entrevista a Luis Antônio Giron, em http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT1044475-1666-2,00.html. Bloom também escreveu “The american Religion: the Emergence of the post-christian nation” (New York: Simon & Schuster, 1992). Ali qualifica a forma de cristianismo tipicamente americana como “altamente emocional, individualista e ‘gnóstica’”, entendendo o gnóstica como focada “na alma individual e em sua relação imediata com Deus”. Citado em Nancy Pearcey, Verdade Absoluta, nota 60 da página 327.[12] Em nossa opinião, a primeira perspectiva é incompleta, e, portanto, limitada, correndo o perigo de dar a determinado gênero musical o caráter de uma Revelação normativa, o que se aplica apenas aos cânticos bíblicos, escritos por homens inspirados por Deus, e jamais a nenhum hino de hinários cristãos; quanto a segunda posição, além de ignorar a coerência entre forma e conteúdo, ignora os efeitos da música sobre o nosso cérebro, efeitos esses que independem da letra da música.[13] Os textos foram Ellen G. White, Testemunhos Seletos,vol. I, p. 45 e Ellen G. White, Testemunhos Seletos, vol. I.[14] Mensagens aos Jovens p. 294, grifos supridos.[15] Nos comentários que os leitores deixaram em LG, alguns sugeriram, ironicamente, que aquilo que pretendíamos fazer era “rotular” os bons e os “maus” cantores, músicas, etc. Trabalhamos com princípios de uma perspectiva adventista, convidando outros a refletirem dentro de suas realidades, quer em nível denominacional, quer em pessoal.[16] Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações, Página 347[17]“O fato de Deus ‘desejar que nosso louvor ascenda a Ele levando o cunho de nossa própria individualidade’ [o livro “A Ciência do Bom Viver”, p. 80 como fonte da citação, porque se trata de outra reprodução do mesmo texto] não justifica que adotemos para uso na igreja aqui o que foi, talvez, aceitável para um escravo americano, ou um havaiano, ou um canibal no sul do Pacífico, ou um índio asteca. Seria deliberadamente fechar os olhos às orientações divinas para Laodicéia [silepse, o símbolo pelo que ele simboliza, para a igreja adventista do sétimo dia].” Dario Pires de Araújo, “Música, Adventismo e Eternidade” (são Paulo, SP: Impressões Gráficas Alfa Ltda; Londrina, PR: Gráfica e Editora Líder Ltda: 1994), 2ª ed.,p. 60. O trabalho de Araújo é, sem dúvida, o mais relevante de sua época publicado por um adventista brasileiro.[18] Rick Waren, “Uma igreja com Propósito” (São Paulo, SP: Editora Vida, 2002), 2ª Ed., 7ª reimpressão, pp. 272 e 273.[19] “A verdadeira música crista, a música que identifica o povo de Deus, é a musica profética, a música que declara as Escrituras Sagradas. Se a musica cristã tem como identidade a pregação da Escrituras Sagradas, esta música tem de ser coerente: coerente com as Escrituras Sagradas, pois ‘o que faz uma musica sagrada é a sua mensagem. A música não é nada mais do que notas e ritmos. São as palavras que fazem uma música espiritual’". Jairo de Souza Santos Júnior, “A música evangélica de adoração: uma análise de sua identidade” (Revista Teologia Hoje, 2003), vol 1, núm 2, artigo 4. Também disponível em http://www.ftsa.edu.br/revista/TeologiaHoje.htm. Acesso: 3 de Agosto de 2007. Note que a declaração final é uma citação de Waren, que revela o quanto ele tem influenciado os pensadores evangélicos no que diz respeito à adoração.[20] Berit Kjos, “Igreja Dirigida pelo Espírito ou Orientada por Propósitos? - Parte 1 Análise do livro Uma Vida com Propósitos, de Rick Warren”, disponível em http://www.jesussite.com.br/PurposeDriven1.asp, originalmente: http://www.crossroad.to/articles2/006/pd-deception.htm.[21] David Fisher, “O pastor do século XXI” (São Paulo, SP: Vida, 2001), 3ª reimpressão, p. 254.[22] Ellen White, Evangelismo, p. 508.[23] Usando a mesma citação, segui raciocínio semelhante em meu artigo “Shows cristãos: culto, entretenimento ou mundanismo?”, disponível em http://questaodeconfianca.blogspot.com/2007/07/shows-cristos-culto-entretenimento-ou.html.[24] Ellen G.White, Evangelismo, p. 512.[25] Carlos Eduardo Sell e Franz Josef Brüseke, “Mística e Sociedade” (Itajaí, SC: Universidade do Vale do Itajaí; São Paulo, SP: Paulinas, 2006), pp. 190 e 189. Os autores estam sintetizando as idéias de Daniéle Hervieu-Leger.[26]Ambos os fatores, a preocupação em atingir os descrentes, como a subjetividade inerente ao cristianismo moderno, podem ser reponsáveis pelo esvaziamento de conteúdo doutrinário da música evangélica hodierna.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

POEMA DENUNCIA FRAUDES EVOLUCIONISTAS




Achei oportuno publicar este poema, que equilibra informação científica com certo viés satírico; claro que, ao traduzir um poema, temos algumas decisões complexas a tomar; eu optei pela tradução em versos (e não em prosa), e escolhi o alexandrino (12 sílabas) alternado com o alexandrino galego (13 sílabas, mais raro, mas ainda assim empregado por alguns poetas de nossa língua).

Procurei ser fiel a estrutura do original (estrofação, rimas). O mais importante é a mensagem do texto. Está na hora da mídia mostrar a que ponto alguns estão dispostos a mentir e apresentar resultados fraudulentos apenas com o intuito de justificar uma teoria que não tem como se manter mais em pé.

GIGANTOPITHECUS, nós dificilmente conheceremos vocês: em busca dos elos perdios

By Robert Voss

Com maxilar e crânio de orangutango feitos,
O homem de Piltdown surge – livros têm seus conceitos:

Dentes lixados (são como os de homens!), pintados
(Tem ar de antigos!)… Não creia em quaisquer achados.

Surge o homem de Nebraska, um decênio ocorrido,
De um mero dente de porco ele foi construído.
Quem não se lembra do medonho Homem de Java?
Enorme símio que a Ciência em vão fraudava!

Sobre "Nelly" e "Lucy" tanta coisa se diz.
Que pena! Ambas não passam de Gesso feito em Paris!
Desenhos e esculturas ambas de falsa criação,
Se de humano algo há, é muita imaginação.

Justo o contrário ocorre ao homem de Neandertal;
Dá-lhe o pincel do artista um aspecto animal.
Destinado a imprimir na mente popular
Que ele não é humano, mas bicho singular.

Não só homens-macacos se forjou vez por vez
"Galinhas de Piltdown", mini-eqüinos com pés.
Em alguns textos ficam, do olhar o mais distante,
Os desenhos de embriões de Haekel, o farsante.

Peixe extinto há milhões, espalhavam aos ventos;
Lança-o a Tsunami da água, e oh! Morto há alguns momentos.
E o celacanto, mesmo entre os muitos rumores,
Samba vivo na rede em que o põem pescadores.

Algumas fraudes, muitas sinceras, mas em tudo,
A intensa devoção à idéia vence o estudo.



Leia o poema original (na sessão "poetry")

Leia também "O Fôlego", outro poema criacionista


Mais poemas




quarta-feira, 1 de agosto de 2007

TEM QUE SER DO MEU JEITO!



Sulivan era o inferno!

Agressivo. Quando não concordava com alguma atividade, tinha o costume de arremessar os objetos da sala nos professores. Sem ao menos falar, gritava ou exprimia resmungos indignados. Aos poucos, minha esposa, que na época cumpria um estágio do Magistério em uma APAE, no Rio Grande do Sul, aprendeu a lidar com Sulivan.

Havia a necessidade de muitas atividades, uma vez que o poder de concentração do menino de 8 anos era pequeno. Mesmo assim, ele se indignava em ter de realizar algumas coisas (como pintar, por exemplo); depois que Noribel, minha esposa, ganhara a confiança de Sulivan, ele arremessa objetos no chão, e não mais nela.

Nenhum diagnóstico explicava o porquê do temperamento irrascível de Sulivan. Duas vezes por semana, ele estudava na APAE, recebendo cuidados especiais e aprendendo a se conter.

Você pode se sentir chocado com o caso extremo de Sulivan. A verdade, porém, é que, em menor ou maior grau, todos temos problemas em dominar nosso temperamento.

Será que mesmo os cristãos, nascidos de novo, passam por algum tipo de dificuldade quanto a conter suas emoções? Com certeza! Pense em situações diárias, quando você é esmagado pelos prazos, apertado pelas trivialidades, soldado pelas pressões e colorido pelas circunstâncias adversas. O que sai desta linha de montagem (chamada rotina) não é exatamente um exemplo de calma celeste!

O maior desafio é vencer nossos impulsos e conseguir equilibrar nossas emoções, de maneira que, através da graça de Deus, seja possível atingir o domínio próprio, um aspecto importante do fruto do Espírito Santo (Gálatas 5:22). Diariamente, somos tentados no sentido de ceder a impulsos naturais, que corroem nossos relacionamentos – tanto em nível interpessoal como espiritual.

Reflita comigo a respeito das conseqüências de agirmos seguindo nossos impulsos. Vamos analisar juntos o relato bíblico e tentar perceber alguns erros que também cometemos para evitá-los no futuro.

Faça um retrospecto e note: auto-controle não era com ele! Sansão já deixou claro, como já vimos anteriormente, que não leva desaforos para casa. Por causa de uma trapaça, seus convidados responderam o seu enigma, e ele teve de pagar a aposta. Essa situação o obrigou a engolir o orgulho. Mas a irritação levou o jovem noivo a se afastar por alguns dias da própria festa de casamento (Juízes 14:12 – 19).

Passada a raiva, Sansão voltou para ver sua esposa. Preste atenção no que diz o texto:

“Alguns dias depois disso, durante a ceifa do trigo, Sansão, levando um cabrito, foi visitar a sua mulher, e disse: Entrarei na câmara de minha mulher.[…]” Juízes 15:1.

Não, não imagine que Sansão pôs gel no cabelo, tomou um “banho” com alguma colônia importada e saiu da melhor floricultura de Timna com um buquê de rosas.Ele não queria reconciliação. Não lhe passava pela cabeça que sua atitude auto-centrada afetara a sensibilidade de sua esposa. Sansão dificilmente consultava livros sobre relacionamentos.

Na verdade, o texto diz que Sansão tomou a decisão de voltar porque queria entrar “na câmara” de sua esposa. Em outras palavras: ele estava indo à procura de sexo.

Sei que o que as mulheres estão pensando a esta altura: “Os homens são todos uns machistas nojentos e calculistas!”. E é verdade. Temos de reconhecer que ser movido por impulsos sexuais não era um problema restrito a Sansão. Repare no que dois conhecidos autores dizem sobre os impulsos sexuais no homem:

“O problema espiritual mais freqüente enfrentado pela média dos homens cristãos diz respeito aos pensamentos. O impulso sexual masculino é tão forte, que muitas vezes o sexo parece ser o pensamento predominante em sua mente […]”

“Embora a natureza agressiva dos homens os leve a empenhar-se em atividades as mais diversas, muitas delas emocionais – conhecemos esquiadores, motociclistas, pilotos de jato, pára-quedistas e jogadores de futebol profissionais – todos concordam em que o sexo é a mais emocionante”[1]

Não que o sexo seja algo ruim – concordo que seja a coisa “mais emocionante”; sem dúvida, Deus o criou para proporcionar felicidade integral ao homem e à mulher. Há muito estudiosos têm apontado que, por alguma razão, os impulsos sexuais são mais fortes no homem. Ok. Nada disso, porém, serve de pretexto para que o sexo seja a força motriz das decisões, regulamentando nosso comportamento.

A revolução sexual da década de 60 trouxe resultados muito negativos para a sociedade ocidental, afetando homens e mulheres. Aumento da taxa de divórcio. Aumento de pessoas que contraíram doenças sexualmente transmissíveis. Alto índice de adolescentes grávidas. Crescimento no casos de infidelidade conjugal. Até onde isto nos levará?

Será que toda esta super-ênfase moderna no sexo tem trazido algum benefício, ao menos na própria área da sexualidade?

Parece que não. Em recente artigo, publicado no Observatório da Imprensa, Lígia Martins de Almeida afirma que a satisfação sexual não tem crescido entre os brasileiros, por mais que as revistas femininas invistam tanto em “testes, dicas, matérias com truques para que suas leitoras obtenham mais prazer”.

Ela utiliza os dados de uma pesquisa, apontando que os brasileiros mantém uma média de 145 relações sexuais por ano, sendo esta a segunda maior média entre os países pesquisados. Porém, segundo a autora, enquanto “79% dos entrevistados disseram que sexo é muito importante” e “64% consideram sua vida sexual muito excitante”, “apenas 42%, tanto os homens como as mulheres, se declaram satisfeitos. Segundo a pesquisa, um resultado ruim, já que a média mundial de satisfação é de 44%.” Lídia então conclui:

“Se, apesar do orgulho nacional de praticar tanto sexo, o nível de satisfação é tão baixo, tem algo de muito errado. E a imprensa feminina, que aposta na imagem de sexualidade da brasileira e que insiste tanto em ensinar técnicas de conquista e de prazer, deveria parar e procurar descobrir onde está errando.”[2]

Não é equilibrado, nem lógico, superdimensionar o sexo, uma área importante do comportamento humano, como se vivêssemos em função dele. A visão distorcida do sexo tem levado a relacionamentos distorcidos. O impulso sexual, quando se torna todo-absorvente, é algo nocivo.

Os impulsos sexuais dominavam Sansão. Não foi à toa que ele se casou com a primeira mulher bonita que viu (Juízes 14: 2)! A atitude de Sansão demonstra que não havia compromisso anterior ao casamento que o habilitasse a conhecer melhor a mulher com a qual ele se casava. Era um caso de “amor á primeira vista”. Novamente, notamos que seus impulsos sensuais estavam sendo usados como substitutos para o amor genuíno.

Um interessante comentário foi feito ao texto de Lígia Martins:

“Esses são os frutos da nossa desastrada condução da revolução sexual. Criamos uma sociedade extremamente sensual e sexual, mas pouco amorosa. A sociedade está cada vez mais carente, entretanto as pessoas não sabem mais o que fazer com o amor ao encontrá-lo. Finalizo com o pensamento de Jurandir Freire Costa: ‘Até agora, o amor era um ideal de auto-realização afetiva que acenava para um tipo de felicidade no qual o êxtase da dissolução no outro era compatível com a consciência da individualização do desejo. Atualmente, o amor vem sendo desidealizado. Estamos, pouco a pouco, aceitando que a experiência amorosa é fugaz e seu destino é a provisoriedade.’”[3]

Será que a única saída para a amor é ser uma experiência passageira e provisória? Será que o descomprometimento engolirá o relacionamento amoroso em todos os níveis de seu desenvolvimento?

A atitude “descolada” de Sansão em ter escolhido a primeira mulher que surgiu na frente, apenas por mera atração não é muito diferente do moderno “ficar”. Apesar de séculos de distância, o mesmo descomprometimento ainda existe.

Mesmo em se tratando de um comportamento social aceito, o “ficar”, se analisado de uma perspectiva cristã, não pode ser uma alternativa “aceitável”. Vamos às definições:

"Mesmo na sociedade atual, ‘ficar’ é um acontecimento efêmero com características próprias, como a busca do prazer imediato, não sexual, mas da satisfação do desejo pelo outro. Não seria gostar da pessoa, mas estar junto só para se divertir. O ‘ficar’ permite agir mais, com maior velocidade e desembaraço, porque não há a menor preocupação com o depois, com o amanhã, e o que interessa é apenas o agora. Já o namoro implica em comprometimento, formação de vínculo com o objetivo de se estabelecer uma relação mais duradoura”[4]

“Só prazer, nada de compromisso!” é o grito do adolescente numa rave, de um noivo numa festa de “despedida de solteiro” ou da quarentona divorciada. Impulsos sexuais – sansão era movido por eles! E nós, somos diferentes? Em que medida estamos permitindo que impulsos nos dominem?
Leia mais sobre a história de Sansão:


[1] Tim e Beverly LaHaye, O Ato Conjugal (Editora Betânia: Venda Nova, MG), 8ª ed, 1984, PP. 36 e 34.
[2] Lígia Martins de Almeida em 24/4/2007, http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=430JDB002 reproduzido em http://www.michelsonborges.com/ postado em Quinta-feira, 26 de Abril de 2007.
[3] Fábio Alves , Brasília-DF - Bancário Enviado em 24/4/2007 às 1:05:08 PM.
[4] Cláudia B. Schwantes, entrevista cedida a Diogo Cavalcanti, Revista Adventista, Junho de 2007, p. 6.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

NÃO ENTRE EM PÂNICO


"Se a filha de Bill Gates não consegue ligar seu computador, ela entra em pânico? Não! Você, que tem um Deus que tudo entende e tudo pode ao seu lado, também não deveria entrar em pânico!"


Max Lucado, O Salvador mora ao lado.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

INTOLERÂNCIA ESPANHOLA CONTRA O DI




Há tempos, evolucionistas têm reagido violentamente para desmoralizar os proponentes da teoria do Design Inteligente (DI). O DI é apontado como não-científico, uma vez que sua base contraria os pressupostos materialistas, nos quais as Ciências Naturais modernamente se apóiam. Para o DI, a Natureza, por sua complexidade estrutural, principalmente me organismos vivos, contêm indícios de um planejamento, o que requer a existência de um Planejador.

No blog do Discovery Institute, que reúne pesquisadores unidos em torno do DI, foi noticiado que o preconceito ao DI não se restringe à lingua Inglesa (o que nós brasileiros já sabíamos a duras penas!...); a matéria denunciava a chamada em um blog espanhol "Creacionismo Go Home" (cujo sentido poderia ser traduzido como "Saia daqui/vá embora criacionismo").

O site "El PaleoFreak" é um exemplo de como a intolerância darwinista ultrapassa as fronteiras internacionais, para demarcar outra fronteira: a do coração humano.



Leia a matéria em seu contexto original

quarta-feira, 25 de julho de 2007

GENOCÍDIO - DEUS ESTAVA NO CONTROLE?


O presente artido, do Dr. Ruben Aguilar, é uma resposta complementar ao debate iniciado com um texto que publicamos anteriormente.


Genocídio,

é um crime contra a humanidade; que consiste em matar, destruir; é também, submeter grupos sociais ou étnicos a condições de vida que causem seu aniquilamento; adotar medidas que evitem o nascimento de prole de grupos sociais. A motivação para efetuar qualquer manifestação de genocídio é de natureza ideológica, principalmente política, social e até religiosa. Ex. a matança de São Bartolomeu, contra os Huguenotes; o holocausto dos judeus na Segunda Guerra Mundial; a matança de sérvios na divisão da Iugoslávia; a matança de povos da Indonésia por forças do exército vermelho, etc.

Segundo esse conceito, também podemos admitir que alguns eventos registrados na Bíblia sejam atos de Genocídio; ex.: a destruição de Damasco, durante o reinado de Rezim da Síria. No entanto, ao considerar as matanças registradas na Bíblia, deve-se tomar em conta que existe uma princípio Divino que gera essa atitude; e que não é de natureza política, social ou religiosa. Esse princípio é o Juízo Divino.

Após a desobediência do primeiro homem, a humanidade ficou sujeita à morte; não como um evento natural, mas como um ato de Juízo: “a alma que pecar, essa morrerá...” Ez. 18:20. Mas Deus não elimina imediatamente ao desobediente; pois a este lhe concede um período de vida para o exercício do arrependimento. No entanto, essa tolerância Divina, é limitada pelo própria transgressão humana: “por três transgressões de ... e por quatro, não sustarei o castigo” Amos 1: 3,6,9,11,13. Isso significa que Deus tolera, figurativamente, três transgressões; mas na quarta, sobrevem o castigo, a morte.

O limite da tolerância Divina terá uma manifestação definitiva no Juízo final, onde toda a humanidade será julgada. No entanto, o V.T. registra que já houve manifestações pequenas desse julgamento final. Alguns exemplos: o Dilúvio, a destruição de Sodoma e Gomorra, a destruição de Samaria, a queda de Nínive, a destruição de Jerusalém, a queda da Babilônia, a destruição das nações cananitas do tempo de Josué. Esses “genocídios”, segundo o registro bíblico, foram desígnios diretos da vontade Divina, como manifestação da Sua Justiça. Em todos esses casos de destruição, a causa é a transgressão e por terem ultrapassado o limite da tolerância Divina.

Devemos notar que na execução do Juízo Divino, são usados diversos instrumentos de destruição como: água, fogo, fenômenos naturais como granizo, exércitos organizados.

No caso específico da destruição dos povos de Cancã, podem se apontar algumas razões como:


  • A pecaminosidade desses povos ultrapassou o limite da tolerância Divina;

  • Eliminar a religião do paganismo para evitar a contaminação ao povo de Deus. Os cultos pagãos eram primordialmente, práticas de sensualidade;

  • Demonstrar o poder de Deus; sendo que as batalhas entre nações eram consideradas como batalhas entre os deuses. O deus derrotado era considerado fraco. A destruição dessas nações era para que outros povos reconhecessem que o Deus de Israel é verdadeiramente Deus poderoso.

Ruben Aguilar, Ph.D.Professor de Antigo Testamento e história do cristianismo do curso de Teologia do UnaspCentro Universitário Adventista,Campus Engenheiro Coelho (SP)