quarta-feira, 17 de setembro de 2008

PROCURA-SE UM HERÓI QUE NÃO SEJA PROCURADO


Recebemos um brinde da locadora. E, na falta de um filme que procurávamos, eu e minha esposa levamos Herói (EUA, Direção: Brian Smrz). Afinal, era grátis mesmo.

Apesar de nenhuma novidade evidente, o filme ajuda a verificar alguns valores de nosso tempo, a começar pelo título. Herói, o título em Português diz pouco. O original, Hero Wanted (Herói Procurado), mostra em toda a sua ambigüidade o heroísmo moderno: anti-institucional, fora-da-lei, propenso a agir por um senso de justiça peculiar.

O lixeiro Liam Case (Cuba Gooding Jr.) se torna alguém assim. Case fracassou ao tentar salvar a esposa grávida de um acidente automobilístico. Tempos depois, ele se arriscou a salvar uma garota de um incêndio. Agora, quando o eco dos aplausos do passado já morreu no ar, continua a ser o mesmo lixeiro, e pior: sem perspectiva. Mas ao depositar flores no túmulo da mulher, ele se depara com uma caixa bancária que se torna, a partir de então a gota de esperança em seu oceano de niilismo.

Sem saber como se aproximar da moça, Case apela a um amigo para encenar uma tentativa de assalto, apenas para impressionar a bancária em questão. Quando o assalto simulado se torna um assalto genuíno, que põe sua bem-amada em estado de coma, Liam Case se torna um Dom Quixote às avessas, que vingará implacavelmente o que fizeram com sua Dulcinéia.

A angústia pós-moderna, com sua falta de perspectiva no futuro, está lá no filme, bem verdade que talvez de forma não-intencional. A necessidade de um motivo, um propósito, aparece; para Liam Case, esta necessidade é personificada pela bancária desconhecida, inacessível.

Outra necessidade da sociedade do século XXI, a saber, o consumismo, é retratado da ótica dos excluídos: como no mundo real, adquirir bens é um imperativo, ainda que alguns não tenham como competir dentro deste sistema; a estes, o próprio sistema obriga a continuar consumindo de outra forma, a ilícita, que compreende a criminalidade em suas diversas atividades. Em Herói, desiludidos e desesperados se unem para tornar o assalto simulado em uma oportunidade para realizar seus sonhos – ou porque não têm sonhos, e nada a perder mesmo.

Mas os criminosos serão punidos. A lei personal existe. O herói faz sua moralidade, caçando seus inimigos, desafiando a ordem instituída. O excesso de violência no filme seria legitimado pela necessidade de cumprir individualmente esta justiça individual.

E a que isso leva? A alcançar um propósito final e norteador, o sonho de um consumo de nossa época, na qual tudo é mutável e, por conta desta mutabilidade, assustadoramente inseguro (a economia americana pós-Bush que o diga). “Vale a pena viver por aquilo que você acredita” é a bombástica frase proferida diante de um mundo em que o cotidiano nos obriga a mudar constantemente o que acreditamos, o que consiste em um processo exaustivo de construção de valores pessoais, sob a regência das circunstâncias instáveis.

Outro conceito que aparece anteriormente em Herói indica de forma camuflada a individualidade do homem pós-moderno. “Redenção é uma coisa engraçada: é preciso ir ao inferno para alcançá-la.” A idéia de redenção é temática recorrente em Holliwood; aliás, a cultura americana, com seu estilo de vida americano é baseada no conceito de redenção. Não se trata da redenção bíblica, mas no sentido de vencer, dar a volta por cima, superar-se. Esta acepção, distante da concepção cristã clássica de redenção, explica a figura do anti-herói americano, que se “emenda” ao longo da trama, passando de um homem abaixo da linha da mediocridade para o patamar de um vencedor.

Herói nos faz pensar em como os valores sociais, que se refletem na produção cultural, estão assumindo progressivamente características bem distintas do que antes era considerado ético e moral. Parecem faltar verdadeiros heróis hoje mais do que faltaram em outros tempos.
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terça-feira, 16 de setembro de 2008

PHELPS, O ROMÂNTICO


David Phelps é um fenômeno. Ele era um ilustre ninguém até figurar como um dos componentes do Gaither Vocal Band, o badalado quarteto pop-country que influencia quarteteiros abaixo da linha do Equador (gente do quilate do Arautos do Rei e Cânticos Vocal). Em pouco tempo, Phelps, o figurante, tornou-se Phelps, a estrela de primeira grandeza.

Quando o palco começou a ficar pequeno para ser dividido com outros três cantores, David Phelps deixou seus companheiros do Gaither e partiu para a carreira solo. Lançou o surpreendente Legacy of Love, com um repertório bem mais pop (em algumas faixas, praticamente tecno-pop). O DVD é aberto com a eletrizante Vituoso, onde não se sabe se o destaque cabe ao Deus Virtuoso (de quem trata a letra) ou ao virtuosismo técnico do próprio Phelps.

Como em se tratando de David Phelps surpreender é rotina, o novo lançamento do astro gospel é o CD The Voice, composto de canções românticas de todas as épocas, de Nessun Dorma a Unchained Melody (a melosa canção-tema do filme Ghost, já gravada pelo grupo The Platters e por Elvis Presley). Como pode alguém usar uma incomum habilidade técnica para o que for conveniente, seja o ato de louvar a Deus ou ganhar alguns milhares de dólares cantando para corações partidos?

Em tempo: David Phelps, após uma turnê brasileira patrocinada por um empresário adventista, será a atração no aniversário do IPAE, no ano que vem. Vai saber em que David Phelps estará até lá usando a sua voz…

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

O EQUILIBRISMO DE QUEM VIVE

(PASSOS NO ARAME)
a Michelson Borges & Joêzer mendonça

Olhar para baixo é que não! Passos pacientes,
De Geometria seca, espaço expresso em lesto
Andar, fração de força a caber em um gesto,
Na hora em que os braços, com volteios recorrentes,

Dão a entender que ante a volúpia das correntes
Buscam no Vento Certo um apoio. De resto,
Abaixo a expectativa é algo manifesto
Na atenção dedicada aos pés por sobre as gentes.

Enquanto o olhar mensura a chegada, corrija
Um pé ao outro. Embora árduo o que de mim se exija,
Viva ao nível do que hoje o espetáculo abrange.

Para se manter no alto, o movimento breve
Que estende a vocação – deste o público deve
Gravar a solidez sobre o fio que range.

DO JEITO QUE O DIABO GOSTA

Os absolutos bíblicos são mais do que nunca desacreditados. Se muitas pessoas negam a existência de um Deus, maior é o números daqueles que negam a existência do diabo. Em sua edição dessa semana, a revista Veja comenta o lançamento de dois livros que desacreditam a imagem tradicional de um diabo expulso do Céu por iniciar uma rebelião.[1]

Para Henry Ansgar Kelly, autor de “Satã – uma biografia” os trechos bíblicos que aludem a Satanás seriam equivocadamente interpretados pela tradição cristã. Para Kelly, o diabo não estava no Éden; o que existia ali era uma serpente “muito, muito esperta”.[2]

Na verdade, a palavra Nahash (cobra, serpente), que aparece cinco vezes em Gênesis 3 (vs. 1, 2, 4, 13, 14), só poderia referir-se estritamente a um animal caso partíssemos de uma “teologia naturalista”, e assim, seria forçoso admitir que há em Gênesis uma fábula, não a Verdade que a Bíblia diz ser (Jo 17:17). No entanto, o que está implícito em Gênesis, é esclarecido no Novo Testamento: Satanás é o responsável pelo engano, e a serpente seu mero agente (2 Co. 11:3; Ap. 12:3).[3]

Kelly também discorda do entendimento de que Satanás seja o sujeito da profecia de Isaías 14. Basta lembrar-nos de que o nome Lúcifer significa “portador de Luz”, e o profeta se refere à queda da estrela da manhã.

É claro que temos aí uma profecia de dupla aplicação: o texto é um prenúncio da derrocada da Babilônia, em primeira instância; mas a Babilônia serve para simbolizar o seu instigador, Satanás, assim como o rei de Tiro, em Ezequiel 28, passa a representar igualmente Satanás. Os elementos de ambos os capítulos extravasam a descrição de meros reis mundanos – ou como explicar como o rei do Tiro estava no Éden e era um “querubim da guarda ungido”(Ez. 28:13,14) ou que o rei da Babilônia pudesse assentar-se no trono de Deus (Is. 14:13)?

Outro engano de Kelly é afirmar que o poder do diabo seria “instigado por Deus”. Ele parece desconhecer a mentalidade hebraica que atribui a Deus o que Ele permite, como se Ele fosse o responsável. Para ele, um Satanás caído do Céu devido ao orgulho e rebelião, teria sido uma invenção do teólogo Orígenes. Nada mais longe dos fatos.

Quem quer que analise o que os escritores bíblicos dizem sobre Satanás, reconhecerá que ele era um anjo caído, que se afastou de sua posição por orgulho, instigou outros anjos a fazê-lo e hoje vive com o propósito de desvincular os homens de seu criador, mesmo sabendo que para si mesmo o fim está próximo (cf.: Zc. 3:1 e 2; Lc. 10:18; Jo. 16:11; II Co. 11:14; Ef. 6:11 e 12; I Pe. 5:8 e 9; Jd. 6, Ap. 12; 20).

Além do livro de Kelly, as páginas de Veja dão destaque a outro lançamento – “Anjos caídos”, do afamado crítico literário Harold Bloom. Autor do polêmico cânone ocidental, Bloom é um obcecado pela superioridade de Shakespeare entre os autores ocidentais, que conquistam seu lugar ao sol se impondo através de sua “individualidade realizada”, na forma de seu produto final, o “valor estético”. Para entrar no Cânone, um autor tem de se impor pelo “domínio da linguagem figurada, originalidade, poder cognitivo, conhecimento, dicção exuberante.” Não há uma ideologia por trás destes escritores, para concepção de Bloom, nem é possível “formar nossos valores morais, sociais, políticos ou pessoais” a partir da Literatura, muito menos “salvar algum indivíduo” ou “melhorar qualquer sociedade”; isto porque o valor estético não pode ser transmitido aos ineptos, tão somente aos iniciados e com propensão à arte.[4]

Ocorre que, para Bloom, a Bíblia é uma literatura como qualquer outra. Javé seria apenas uma personagem egoísta, Mateus teria inventado Jesus e coisas do gênero. Na sua visão crítica, Bloom segue sua interpretação peculiar dos textos bíblicos, sem levar em conta os estudos críticos mais recentes sobre a matéria bíblica, além de ignorar o que a Blíblia afirma ser seu propósito maior salvar, e não fazer parte de uma lista de grandes obras literárias (Rm. 15:4; II Tm. 3:16 e 17; I Pe. 1:10-12; II Pe. 1:19).

O que de mais positivo aparece na matéria de Veja é uma citação do simbolista francês Charles Baudelaire, para quem “o maior truque do diabo” seria “nos convencer de que ele não existe”. Enquanto as idéias sobre a figura de Satanás são revistas e os conceitos bíblicos descartados, podemos estar certos de que há alguém diabolicamente feliz por toda esta confusão a camuflar sua intensa atividade…

[1] Jerônimo Teixeira, “Quem diabos é o diabo?”, publicado em Veja, ed. 2078, ano 41, nº 37, 17 de Setembro de 2008, pp. 140 e 141.
[2] Idem, p. 141. Daqui por diante, as demais citações se reportam a mesma página.
[3] R. Laird Harris, Gleason L. Archer, Jr e Bruce K. Waltike, “Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento” (São Paulo, SP: Vida Nova, 2005), 4ª reimpressão, p. 952.
[4] Harold Bloom, “O cânone ocidental” (Rio de Janeiro, RJ: Editora Objetiva, 1994), pp. 31, 36, 38 e 25.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

PRATOS


Dois pratos. Em um, as glórias de um cenário sem estertores. O salmodiar de seres imáculos,
Cordial júbilo, cordial
Amor sem suspeita, e tudo
Erupcionando em agudo
Palco, na ausência do mal.
Entre as pessoas. O passo deficiente de um homem que perdera a perna lutando contra invasores. O buço canceroso de uma mulher logo adiante. Olhos esmaltados de horrores de um órfão.
Um anseio, de oferecer, num incenso de toque, a aceitação. Seu coração revive a escolha que os séculos caducos testemunharam.
Dois pratos.
Anda mais um pouco pelo pátio de um templo, onde o culto aos filactérios e às longas orações soterra a esperança. Atrás de um pilar, um menino cego quer ver o pássaro que canta.
As glórias de um mundo sem estertores.
À noite, ajoelha-Se contrito. A aflição íntima intimida o Céu, pela exatidão de sua pureza.
Quanto mais Seus filhos terão de ser enganados pelos agentes rebeldes? Ao cobrir as eras em Sua meditação, pensa naqueles que ainda sofrerão por Seu nome:
Por acharem a vida de menor importância
Do que a fé que possuem, a fé que não abjuram;
Que resistem ao potro, que enfrentam mesmo a forca,
Mulheres e homens, todos dispostos a sofrerem
As labaredas sobre seus corpo em agonia…
A prece os inclui, e aos que fraquejam em seu ritmo de submissão, e aos que são vítimas do orgulho imanente.
O outro prato. E algo mais poderoso que as riquezas acumuladas pelos soberanos. Com um peso que excede as glórias de um mundo sem estertores. Um peso comovente.
Aqui está Ele. Orando ao Pai, pedindo as forças de um pássaro alvejado pelo caçador e que se mantém em vôo. Solicitando o martelo que, com golpes de fogo e pedra, rompa os grilhões de seus irmãos caídos.
Amanhece. Jerusalém se banha melancólica ao sol de outro dia. E outro sol, o da Justiça, ergue a mão de homens opressos pelo fardo da malignidade ancestral, e as crianças sorriem como pétalas.
E isso porque a primeira lágrima de Adão pesou mais na balança.


quarta-feira, 10 de setembro de 2008

MENOS ESTUDO, MAIS CÂNCER


Uma nova pesquisa, realizada pelo Instituto Nacional de Saúde e Pesquisas Médicas (Inserm), da França, mostra uma interessante relação da incidência de câncer com nível social e intelectual das vítimas. A seguir, os melhores trechos de uma repostagem recente sobre o assunto:

"A pesquisa é resultado da análise cruzada de dados relativos às mortes por câncer e à condição social dos falecidos de 1968 a 1996, fornecidos pelo principal instituto de estatística francês, o nsee. A coordenadora do estudo, Gwenn Menvielle, pôs a mão sobre as informações de nada menos do que 1% da população francesa, o que torna o seu estudo inédito pela abrangência.""[...] Entre 1968 e 1974, o risco era 1,52 maior, em relação aos diplomados. Mas na década de 90, essa diferença passou para em média 2,29, dependendo do tipo de tumor. "

"Os trabalhadores sem diploma teriam mais do que o dobro de chances de morrer de câncer por duas razões fundamentais, aponta Menvielle. Em primeiro lugar, porque os homens de classes inferiores consomem mais álcool e tabaco do que os mais ricos. A segunda razão diz respeito às condições de trabalho de uma classe e de outra. '"Enquanto o empresário trabalha em uma sala confortável, o operário freqüentemente passa o dia em ambientes onde está exposto a materiais cancerígenos. Em um canteiro de obras ou em uma mina, por exemplo, ele aspira o tempo todo substâncias provocadoras de câncer', explica Menvielle."

"O câncer que mais demonstra a diferença de classes é o das vias aéreas, especialmente boca, faringe, laringe e esôfago, em que os não-diplomados têm 5,21 vezes a mais de chances de morte do que um homem diplomado. O dado comprova ao menos uma das hipóteses da estudiosa para explicar a desigualdade social da ocorrência da doença, uma vez que esse tipo de câncer é provocado pelo consumo abusivo de álcool e cigarro. "

"A pesquisadora explica que o fator qualidade dos produtos tem pouca influência sobre a ocorrência de câncer − pelo menos na França, ressalva. 'Em países como a Rússia, onde se bebe destilados fortes, a qualidade das bebidas tem comprovadamente uma relação com a incidência de câncer. Mas na França, onde a bebida mais consumida é o vinho, a qualidade é um problema secundário. O fator determinante é a quantidade.'" [ênfase suprida].

"Um terceiro ponto que deve ser considerado é o acesso à informação sobre a doença. Os homens com mais estudos procurariam auxílio médico desde os primeiros sintomas, enquanto que os menos letrados demorariam mais tempo para se tratar."

"O atraso no início do tratamento intensifica o câncer e dificulta a cura, o que também explica o número mais elevado de mortes entre os mais pobres. Além disso, os ricos têm acesso a tratamentos mais qualificados e, portanto, morrem menos em decorrência da doença, afirma Menvielle."

Fonte: portal Terra Colaboração: Adilson Câmara

Entre muitos pontos importantes da pesquisa, quero salientar a conexão entre o câncer e o consumo de álcool. Como bem frisaram os pesquisadores, mesmo uma bebida alcoólica, tida como de boa qualidade, pode levar ao aparecimento da doença.

ITAJAÍ IMPACTADA


Nem mesmo uma manhã surpreendente chuvosa foi capaz de interromper a bravura e disposição do povo adventista de Itajaí, cidade do litoral de Santa Catarina. Saindo do Clube Atiradores, ao lado do Campus Central da Univale, o pelotão de adventistas invadiu as ruas do centro da cidade. Munidos da revista “Viva com esperança”, a marcha ia chamando a atenção de transeuntes e curiosos, à medida que os hinos do carro de som se faziam ouvir e as espectadores percebiam o tamanho o movimento.



Jovens, mulheres, crianças, líderes de igreja, clube de desbravadores e aventureiros, irmãos mais experientes, enfim, a igreja tornou inesquecível o dia 6 de Setembro. Cada membro vestia uma camiseta especialmente confeccionada para o evento.


À tarde, uma carreata contemplou os principais bairros de Itajaí. Enquanto os carros iam passando, estampavam o adesivo do vidro traseiro, contendo a mensagem da Segunda Vinda de Cristo, em um período no qual adesivos com propaganda política são mais comuns. Em alguns pontos do trajeto, membros da igreja ou desbravadores distribuíam as revistas da campanha para as pessoas que saíam de suas casas para ver a carreata. Ao todo, foram mais de 3 horas de carreata.


Cada vez mais, podemos estar certos, eventos como o Impacto Esperança servirão para despertar as pessoas para o maior de todos os acontecimentos: a volta de Jesus a esta Terra!

terça-feira, 9 de setembro de 2008

O JOGO EVOLUCIONISTA QUE AJUDA A ENTENDER O DI

Will Wright, criador de jogos badalados como SimCity e The Sims, lançou seu mais novo projeto: Spore. Em Spore, o jogador começa como uma bactéria e vai evoluindo, evoluindo até construir sua própria nave espacial e conquistar outros mundos. O jogador pode, inclusive, montar seus próprios bichos e testar sua sobrevivência (caso opte pelo nível fácil).[1]

Um processo evolutivo dirigido por uma inteligência externa, como o que vemos em ação no Spore, não soa como o mecanismo da Seleção Natural do modelo darwiniano, definido como algo aleatório. Na verdade, uma inteligência superior por trás do desenvolvimento da vida se assemelha à proposta do DI (Desing Inteligente).

Em tempo: na edição de 1988 do livro “O relojoeiro Cego”, do biólogo evolucionista Richard Dawkings, havia um brinde: um disquete Apple Macintosh contendo um programa que simulava a evolução. O usuário selecionava espécies e as submetia a uma Seleção Natural a seu gosto. Se a idéia do disquete era ilustrar as premissas do evolucionismo, o tiro saiu pela culatra: como no jogo Spore, as mutações ocorrem porque são programadas por uma inteligência externa, que lhes faz funcionar (“[…]mesmo um simples programa como esse requer todo o trabalho e inteligência para a criação de um computador como o Apple Macintosh, bem como para elaborar o programa […]”)[2].

Pouquíssima semelhança guardam, portanto, tanto o Spore, quanto o disquete de Dawkins, com a concepção de um processo impessoal, aleatório e casual como seria a evolução darwiniana.

[1] Extraído de Pedro Burgos, “Agora você é Deus”, publicado em revista Superinteressante, ed. 256, Setembro de 2008, p. 98.
[2] Timothy G. Standish, “Vinte anos após o Relojoeiro Cego”, disponível em http://dialogue.adventist.org/articles/19_1_standish_p.htm.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

CONVOCAÇÃO DE OCEANOS


Que sabia ela da vida,
Dos assimétricos lances
Que regem as circunstâncias,
As mesmas que a vitimaram?
Sabia, no mais, falar
E, evidente, que correr;
Constatou o amor nos pais
(Amor natural, de estirpe
Tal que acompanhava a de astros);
Tinha a experiência do Gozo,
Quanto apertava a boneca
Junto ao corpo diminuto
(Comunhão com fantasias);
Em plena tangência com
A pessoa mais sagrada,
Deposito a sombra, a dor…
Coloco o caudal de lágrimas
No copo que meu Senhor
Conserva em Suas mãos firmes.
Atenua-se a revolta
Quando o hálito que há milênios
Partiu de um homem na cruz
Chega ao meu campo auditivo,
Sofrido em suas minúcias,
Como o meu próprio resfôlego
– O que sabia ela, meu Deus?,
E estremeço, porque a pergunta
Volta-se a mim: o que eu sei?
Meu alqueive de certezas,
Vejo a angústia estorricá-lo!
Estou rica em pesadelos…
Num abraço conivente,
Meu esposo e eu entre os vergéis,
Ermos, onde a morte vígil
Grácil vagido emudece.
Desolada, ainda sobra
A última folha da copa
A hastear a esperança sóbria
Tendo em foco a manhã próxima,
Quando o alarido do Arcanjo
Insuflar vida aos sepulcros;
A mão do homem ao meu lado,
Tomando a minha com força,
Fremirá igual ao mar,
Um mar cuja maré ouve
A voz da lua e sobe a ela.
No seio lúcido do anjo,
Pousa a fronte da menina
Que Deus nos devolve viva!
Feliz manhã! Corre a morte
Para junto dos descrentes,
E a vida estará conosco,
Estará sempre conosco,
Que adoramos o Cordeiro.
Em Seu Reino de surpresas,
Nascerão oceanos, muitos;
Até que Ele seque as lágrimas
Em definitivo, o encontro
Na hora da ressurreição
Fará do primeiro gesto
De nosso louvor ser uma
Convocação de oceanos!…

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

A VOLTA


As mulheres estarão estendendo as roupas no varal. Os homens acelerando os motores de seus carros. O trânsito nas grandes cidades amanhecerá caótico. Alguém no ônibus olhará para o relógio, enquanto duas estudantes revisam a matéria para a prova.

Mas então surge a pequena nuvem. De alguma maneira, a núvem rouba as atenções. Todos se esquecem de seu caminho para observar a rota da núvem, que cresce e passa a brilhar.

É solene o acorde de trombetas. É magnífico o brilho dos cavaleiros celestiais, anjos invadindo o céu de trivialidades atmosféricas.

Bem no centro, assentado em algo semelhante a um trono, o Verbo-Deus segura o Seu cetro. Todo o mais pára. O mundo não se importa com rotinas, compromissos, programações, nada. Porque tudo perde o frescor de seu sentido. O que existe é Jesus vindo. Jesus! O Príncipe do Universo e da História. O Salvador e Juiz. O Homem e Deus.

De hoje em diante, o que era comum não existe. Tudo acaba para ser refeito. E somente alguns estarão entre aqueles que desfrutarão do Novo Governo: homens e mulheres que aguardaram a núvem trazer o Salvador de suas vidas.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

PROSELITISMO OU REFORÇO À ÉTICA: O DEBATE EM TORNO DO ENSINO RELIGIO


Nos estados Unidos há anos se arrasta o debate em torno do Ensino Religioso nas escolas públicas e sobre a prática da Oração Comum. No Brasil, uma reportagem publicada pela revista Época desta semana mostra que a polêmica americana[1] já começa a se insinuar em território tupiniquim.

Alguns benefícios da implementação de preceitos religiosos nas escolas são citados na matéria: a prática da oração antes da aula (que em determinada escola recebeu o nome de “acolhimento”) traria equilíbrio além de aquietar o ambiente, de acordo com a diretora Patrícia Bonília, da escola Walter Carretero, Sorocaba (no interior de São Paulo). Para a advogada Maria Lúcia Amary autora do programa que orienta como trabalhar valores cristãos nas escolas, é perceptível uma mudança de comportamento nas crianças que freqüentam as aulas de Ensino Religioso, que, para ela, pode ser constatada “[…]no modo como [os alunos] tratam os professores, a família e os amigos.”
[2] Claro que existe quem argumente em outro sentido.
Para o sociólogo Luiz Antônio Cunha, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e criador do Observatório da Laicidade do Estado, o Ensino Religioso é dispensável, uma vez que, segundo sua visão, não há modelo aceitável – todas as diversas abordagens da matéria escolar seriam doutrinárias, ou seja, influenciadas pela religiosidade do próprio professor. Para Roseli Fischmann, da USP, a Religião em sala é nosciva porque atrasa o pensamento crítico e favorece o argumento do “Deus das lacunas”
[3].
A respeito do primeiro argumento, é claro que é impossível, de forma concreta, ensinar Religião de forma absolutamente neutra. No que se refere à Religião como responsável pelo atraso da mentalidade crítica, esta crítica é infundada. No período em que o ensino positivo da Bíblia foi mais bem disseminado, na época subseqüente à Reforma Protestante, ocorreu um avanço da cultura geral e não um atraso. Certo estudioso do período afirmou:

“A noção comum entre poetas, literatos, cientistas e filósofos do século XVII sobre cultura é a de que ela compreende atividades que objetivam a anulação das conseqüências do pecado, ou seja, concebe-se nesta época um aspecto redentivo à cultura.
“[…] Nos próprios anos da Revolução Científica, esse esquema teológico constitui não o simples resíduo de um distante medievo, mas uma força real e operante, que age sobre a vida e as atitudes, fornece à cultura uma série de orientações, um conjunto de pontos de referência, uma direção real, uma terminologia.”
[4]
Sob a égide da Reforma Protestante houve um progresso em diversos campos do conhecimento. Lutero, entre outros reformadores, possuía a visão de que tudo deveria estar sujeito à Revelação das Escrituras. Aliás, a reportagem equivocadamente atribui a fundação da igreja protestante a Martinho Lutero, e em uma data tão recuada quanto 1517[5], quanto tudo o que o monge alemão mais queria é cumprir seu dever como bom católico que ainda era!

A história de Lutero é citada por Época para reforçar a tese do Estado Laico. Não estou bem certo de que Lutero concordaria com o moderno conceito de Estado Laico, que no século XXI está mais para “Estado Ateu”. O que o trabalho dos reformadores proporcionou foi uma abertura para a Liberdade Religiosa como um princípio do Estado. Neste contexto de Liberdade Religiosa, a própria reportagem questiona a certa altura como a educação religiosa deveria lidar com os não-religiosos: “Como trazer Deus para a sala de aula de forma respeitosa a todas as linhas religiosas – incluindo os ateus e agnósticos?”
[6]
Por trás desta pergunta, existem os maiores conflitos ideológicos envolvendo as aulas de Ensino Religioso nas escolas públicas nacionais. Conforme o pesquisador em direito Salomão Ximenes, o Ensino Religioso no Brasil estaria funcionando em um dos 3 possíveis modelos a seguir:

Modelo interconfessional : norteada por uma determinada visão religiosa, o que, na prática, tende ao catolicismo, principal fatia do Cristianismo no Brasil. Não é incomum que haja o proselitismo (tentativa do adepto de uma dada religião de converter outrem) na sala de aula.

Divisão dos alunos por credos: empregando profissionais indicados por entidades religiosas (como nas escolas públicas do Rio de Janeiro, nas quais 94% dos profissionais contratados para ensinar a disciplina nas escolas eram católicos e evangélicos). Grupos religiosos de expressão menor e lares agnósticos ou não-religiosos são os maiores insatisfeitos com esta divisão, por não se sentirem devidamente representados.

Ensino da religião como fenômeno social: defendido por Anísia de Paulo Fiqueiredo, assessora da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB – órgão ligado à cúpula católica) e Afonso Soares, presidente da Sociedade de Teologia e Ciências da Religião do Brasil.Dentro desta abordagem, o Ensino Religioso passa a tratar do fenômeno religioso, como diversidade cultural e dentro de um desenvolvimento histórico. Procura ser uma abordagem neutra – e moralmente relativista, poderíamos acrescentar.
[7]
Pessoalmente, creio que o Ensino Religioso funcione dentro de escolas confessionais com maior propriedade do que na rede pública, haja visto que a estrutura das escolas confessionais permite ao professor trabalhar com maior liberdade o pensamento religioso de uma perspectiva que equilibre teoria e prática.

Por outro lado, uma vez que as aulas de Religião se tornem obrigatórias pelo Governo nas escolas municipais e estaduais, o movimento ecumênico, que visa a integração das denominações religiosas, irá diluir os verdadeiros princípios bíblicos, porque em nome de uma tentativa de agradar a todos e não desrespeitar nenhuma religião, a versão do Cristianismo apresentada não será baseada no ensino das Escrituras. Vamos ver até a controvérsia envolvendo o Ensino Religioso irá nos levar.

[1] Ana Aranha e Martha Mendonça, “Jesus vai à escola”, publicado na revista Época, nº 537, 1º de Setembro de 2008.
[2] Idem, p. 109 e 110.
[3] Idem, p. 114 e 112.
[4] Paolo Rossi, “A ciência e a filosofia dos modernos: aspectos da revolução científica” (São Paulo, SP: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1992), p. 61 e 62.
[5] Idem, p. 114.
[6] Idem, p.110.
[7] Idem, p.111 e 112.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

DISTINÇÃO

Templo de Hur dos Caldeus, onde Abrão vivia

Desde o início, houve esta distinção: entre os que ainda O adoravam e os que Lhe ignoravam os ditames.
Para uns, Seu perfume vinha no orvalho que o Céu despedia matutinamente.
Para os demais, o mundo tinha aspecto monturamente desprezível devido à Sua atuação despótica.
Os primeiros ofereciam ofertas pacíficas na esperança de que o Pai lhes enviasse a Oferta Definitiva.
Queriam a contemplação devolvida, o toque de um amor ausente em sua integralidade, cópias querendo um encontro com o original.
Haviam outros… viviam dissonâncias vulgares, arregimentando adornos e fruindo fortalezas. Seu tempo era desordem. Sua fuga, a vida.
O túnel se estreitando. Mais definidos ficavam ambos os seguimentos quando da passagem das épocas. Cresciam os maus costumes, alastrando-se. As tentações espreitavam pelas árvores, pelas latrinas, frestas de muros, pedrarias das construções, peles dos casacos, marfim dos brincos, couro dos coturnos, cume das lanças – a tentação!
Quem resistia a ela? Quem escapava dos golpes de ondas que seguiam vitoriosas? A semente do bem eclodia em decréscimo.
Das trevas, Deus escolheu um coração para suplantar a noite.
Ele queria um campeão, que erguesse a norma e O exaltasse por Seu caráter.
Entre os adoradores do deus-Lua, dos súditos de Shubat, Deus achou alguém, na populosa metrópole de Hur.
E Abrão Lhe fez sorrir contetemente alegrecido.



quinta-feira, 28 de agosto de 2008

MUDANÇA DE PERSPECTIVA – E A FÉ VAI PARA GAVETA




No pensamento contemporâneo, a religiosidade é um elemento da vida responsável pelo consolo (apoio psicológico), esperança (na acepção de crença em algo futuro) e fundamento místico (provendo uma ligação com os aspectos irracionais, não-empíricos da existência).
Esta maneira de encarar a religião a torna distante de algo verificável, que possa ser entendido em termos de certo ou errado; não há uma crença melhor, ou mais correta. Há simplesmente um determinado tipo de credo que sirva melhor a um paladar e não a outro.
Cada vez mais aparecem exemplos que comprovam haver um reducionismo no papel da religião para o homem do século XX. Foi-se o tempo em que a herança judaico-cristã formava a base do pensamento social e da própria cultura.
A religião ganhou a sua própria gaveta – ela não passa de uma pequena esfera incapaz de influenciar a vida como um todo. Quase não se pode apresentar o que se crê em pontos lógicos, porque a crença é difusa, ilógica, utilitária e circunstancial. Tão enfraquecida como está, não é à toa que a religião seja relegada a um papel sem importância, e apenas em nível particular para a maioria das pessoas.
Eventualmente as pessoas se unem em passeatas ou fóruns religiosos, eventos de caráter humanitário capazes de convergir elementos e indivíduos oriundos de culturas religiosas diferentes em uma massa guiada pelos mesmos objetivos.
Assim, enquanto crenças tradicionais perdem seus referenciais na mente de indivíduos no século XXI, torna-se mais comum que ocorram esforços no sentido de reunir todos sobre uma fé comum, na qual crenças tradicionais são diluídas em alguns poucos valores aceitos por quase todos: amor/tolerância pelos diferentes, concepção de Deus como sendo Amor (mas sem o senso de Justiça que a Bíblia Lhe atribui), fazer bem ao próximo (causas humanitárias) e a busca da satisfação imediata de problemas de várias áreas da vida através da comunhão mística com Deus (proporcionada pela forma contemporânea de culto, com seus apelos emocionais, discursos subjetivos e o emprego de música popular com a qual as pessoas se identifiquem). 
Dentro do quadro descrito acima, não choca mais que algumas pessoas afirmem crer em Deus, conquanto não pautem sua conduta pessoal pelo entendimento tradicional do Cristianismo. Quero destacar um caso que exemplifique a premissa pós-moderna da fé como sendo independente da conduta da pessoa.
Recentemente, a cantora Katy Perry, com 23 anos, passou a ser uma das mais populares cantoras de sua geração. A moça, filha de pastor, começou como cantora gospel, mas já declarou em uma de suas músicas sentir-se atraída por uma garota (a canção chama-se I Kissed a Girl, ou “eu beijei uma garota”).
A própria Perry afirma: "Já cantei músicas gospel, sim. Tenho fé, acredito em Deus, acredito que haja algo muito maior do que nós, mas minha perspectiva mudou um pouco." [1]

Katy Perry não é a única que mudou de perspectiva. O engavetamento da fé é um processo admitido por muitos cristãos, em detrimento da perspectiva bíblica. Resta saber até quanto tempo mas uma fé soft se sustentará a despeito das contradições que possui.



Leia também: A CANÇÃO E A VIDA

[1] Thiago Ney, Ex-gospel, cantora faz sucesso com beijo lésbico, disponível aqui.


quarta-feira, 27 de agosto de 2008

DEUS CONSCIENTE OU MERO SÁBIO? parte 2

Tomemos como exemplo a seguinte sentença: “[…] É possível extrair essas linhas gerais da missão de Jesus do material contido no Novo Testamento, mas é bem mais complicado afirmar se, durante sua vida terrena, Cristo considerava ser Deus encarnado, como defende o dogma cristão, ou mesmo se ele tinha consciência plena de que sua morte na cruz serviria para redimir a humanidade.”[1]

Essa afirmação é pontuada por dois questionamentos cuja resposta é facilmente encontrada na própria narrativa bíblia; a questão é se o estudioso aceita ou não a suficiência da Revelação.

Jesus está bem consciente de Sua divindade – Ele é acusado de blasfemar (fazer-se igual a Deus) porque reivindica poder de perdoar pecados (Mt. 9:2-7); o Mestre também afirma ser superior às personagens históricas, como Jonas, Salomão e Davi (Mt. 12:41 e 42; 22:42-45). O uso extensivo do título “Filho de Deus”, chamado pela matéria de Galileu de “misterioso”, é a mais clara referência à divindade, uma vez que filiação envolve compartilhar as mesmas características, e não necessariamente descendência (isto numa cultura em que os filhos aprendiam uma profissão com os seus pais, o que certamente levava a alguém a concluir que o filho de um carpinteiro era carpinteiro, compartilhando o mesmo ofício com seu pai; logo, o Filho de Deus deverá igualmente ser divino).

O Evangelho de João registra as incisivas afirmações contendo a expressão “Eu Sou” (gr. Ego Emi). Jesus é o Pão da vida (Jo. 6:35, 41, 51), a Luz do mundo (Jo. 9:7), a Porta por onde entram as ovelhas (Jo. 10:7), o Bom Pastor (Jo. 10:10, 14), a Ressurreição e a Vida (Jo. 11:25), a Verdadeira Videira (Jo. 15:1, 5).

O uso extensivo do termo tem suas origens na Septuaginta (versão grega do Velho Testamento), que o emprega para traduzir o tetragrama hebraico YHWH, um dos nomes que Deus emprega (cf.: Êx. 3:13 e 14). O tetragrama, cuja pronúncia exata se perdeu, indica a eternidade do Ser divino. O uso que Jesus fez do equivalente grego (Ego Emi) para a expressão hebraica YHWH indica que conscientemente o Mestre Se igualava ao próprio Deus. A maior prova deste fato está no uso absoluto da expressão na frase “[…] ‘Eu lhes afirmo que antes que Abraão nascer [Abraão viveu em cc. 1.500 a.C.], Eu Sou!’” (Jo. 8:58, ênfase suprida).

O mesmo pode ser dito da consciência de Jesus do propósito de Sua morte (Mt.16:21; 20:28; Mc. 8:31 e 32; Lc. 18:31; Jo. 6:37-40; 17:2 e 3, etc.). A questão não é se o Jesus apresentado nos Evangelhos sabia ser Deus ou conhecia previamente que sua morte significaria a salvação dos que cressem; a grande questão é se aceitamos ou não os registros canônicos como autênticos e dignos de crédito.

PODE-SE CONFIAR NOS EVANGELHOS?

Ao contrário do depoimento do Padre Léo Zeno Konzen, para quem na narrativa bíblica encontramos uma mistura de “elementos históricos” com “interpretações” posteriores, feitas pela comunidade cristã [2], há pontos que favorecem a credibilidade dos evangelhos, a começar pela sua antiguidade. Afinal, os melhores estudiosos apontam que o evangelho mais antigo, escrito por Marcos, veio apenas 20 anos depois dos eventos que descreve (na década de 50 d.C); este é um tempo relativamente pequeno do ponto de vista da História. Muitos que haviam visto o Jesus histórico estavam vivos para contestar qualquer fato que fosse meramente inventado. Os discípulos sabiam disto e, mesmo assim, continuavam apelando para seus ouvintes averiguarem os eventos (cf.: At. 2:22, 36; 3:15-17; 4:8-11).
As aparentes discrepâncias de dados nos evangelhos podem ser explicadas pela diferença de ênfase que o escritor sagrado dá na mensagem, de acordo com o público que intenta alcançar com sua pregação. Os dados podem, então, ser facilmente harmonizados com um estudo cuidadoso e sem preconceitos.

Outro aspecto que torna os evangelhos críveis é o “Critério do Constrangimento”[3], ou seja, algumas coisas na vida de Jesus são tão constrangedoras que só poderiam ser incluídas por alguém que estivesse disposto a falar toda a verdade, porque não contribuem para reforçar a boa imagem de Jesus Cristo, uma vez que são informações que desafiam os padrões sociais, éticos e religiosos da época. Apresentar postulados sobre os últimos serem os primeiros, que o líder deva servir os demais, aceitar homenagens de pessoas simples e de reputação dúbia, contemplar os humildes e não os instruídos com Seus ensinamentos, beneficiar pessoas imorais e advogar uma moral que ensina a não revidar aos insultos – são essas algumas das ações de Cristo preservadas nos evangelhos que são tão escandalosas quando postas em contraste com a moral de Sua época que dificilmente seriam inventadas pelos discípulos (a menos que quisessem denegrir a imagem de seu Mestre!).[4]
Parece-nos, portanto, que a mais confiável forma de reconstruir Jesus, no sentindo de montar as peças do quebra-cabeça espalhadas pela História é recorrendo a Bíblia, que o retrata como o Deus-Salvador que Se fez homem na intenção de resgatar a Humanidade, e que, tendo ascendido ao Céu, após a Ressurreição, vive para interceder por nós (Hb. 7:25).


Leia também:

NOVAS PÉROLAS DE CROSSAN NA SUPERINTERESSANTE - parte 1

Como viver biblicamente de verdade?

RECONSTITUIÇÃO DA MORTE DE JESUS NA REVISTA ISTO É


[1] Idém, PP. 52 e 54.
[2] Idem, p. 44.
[3] Idem, p. 54.
[4] Rodrigo P. Silva, “Um desconhecido Galileu: uma abordagem histórico-científica da vida e obras de Jesus de Nazaré” (Engenheiro Coelho, SP: Imprensa Universitária Adventista de São Paulo, 2001), ver gráfico na p.45.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

DEUS CONSCIENTE OU MERO SÁBIO?

“Novas descobertas trazem à tona um homem simples, talvez analfabeto, difícil de ser rastreado e longe de se sentir uma entidade poderosa e onisciente. Como ficam as crenças cristãs diante desse Jesus Histórico?” Com palavras assim desafiadoras, inicia-se a reportagem “CSI: Jesus”, publicada na última edição da Revista Galileu.[1] Como sempre acontece com relação às matérias de teor semelhante, algum tipo de desafio às crenças cristãs é inevitavelmente feito. No entanto, nenhuma crítica lançada fica sem deixar no ar uma sensação de deja vu.


“Não há nada novo debaixo do sol”. A sentença repetida ao longo do livro bíblico de Eclesiastes bem poderia se aplicar às críticas atuais ao Cristianismo. Cada vez que uma reportagem sobre Jesus ou Seus ensinamentos aparecem nas principais revistas do país, tem-se certeza de que se trata de mera reciclagem da Alta Crítica do século XIX ou dos Ciclos liberais cristãos do primeiro quarto do século XX. A questão sobre o Jesus Histórico, que fustigou os ânimos de eruditos em outras épocas, estaria superada, se não fosse freqüentemente assunto de capa e tema de reportagens de publicações nacionais. Em benefício daqueles que possam se impressionar com as insinuações destas matérias, ainda vale apresentar argumentação contrária às suas pretensões.


JOGO DOS ERROS E ACERTOS

A seu favor, a matéria de Galileu tem a refutação da historicidade de conturbados achados arqueológicos recentes, o ossuário de Tiago (encontrado em 2002, supostamente pertencente ao irmão de Jesus e considerado uma fraude) e um segundo ossuário, identificado como sendo de Jesus, filho de José, Maria e Mariamne, que erroneamente pensou-se tratar de Maria Madalena (nomes comuns na época, mas houve polêmica causada por um documentário sobre o artefato dirigido por James Cameron).[2]

Outro modismo, quando se pesquisa a respeito de Jesus, está na supervalorização dos evangélicos apócrifos, que incluem narrativas com elementos mitológicos e místicos sobre Jesus, cuja autoria é incerta, uma vez que o verdadeiro escritor usa uma personagem histórica ligada a Jesus, pretendendo adquirir credibilidade (por exemplo: “O Evangelho de Tomé”, “O Evangelho de Pedro”, “Atos de Paulo e Tecla”, etc.). Galileu acertadamente descarta os evangelhos apócrifos como fonte de pesquisa, mostrando que são dependentes do material canônico (os quatro evangelhos que constam na Bíblia) e orientados pelo Gnosticismo (seita cristã, bastante influenciada pelo Neo-Platonicismo e pelo misticismo judaico).[3]

A despeito de seus pontos positivos, a matéria de Galileu oscila muito de direção, adotando uma postura liberal a princípio, e tornando-se mais conciliatória à medida que avança para o fim. Isto se deve a consulta de especialista de diferentes confissões. O leitor comum não é avisado de que não há consenso entre muitos estudiosos do texto sagrado – enquanto alguns teólogos aceitam completamente a inspiração do texto recebido, outros assumem pressupostos críticos, influenciados pela teologia liberal. Falta um esclarecimento sobre as visões diferentes, o que faria o leitor perceber que muitas das afirmações feitas no texto de Galileu não são inquestionáveis, muito menos representam a “última palavra sobre o assunto”.

[1] Reinaldo José Lopes, “CSI:Jesus”, publicado em Revista Galileu, Setembro de 2008, nº 206.
[2] Idem, pp. 47 e 48.
[3] Idém, quadro “Apócrifos: muito barulho por nada”, p. 55.