
Recebemos um brinde da locadora. E, na falta de um filme que procurávamos, eu e minha esposa levamos Herói (EUA, Direção: Brian Smrz). Afinal, era grátis mesmo.
Apesar de nenhuma novidade evidente, o filme ajuda a verificar alguns valores de nosso tempo, a começar pelo título. Herói, o título em Português diz pouco. O original, Hero Wanted (Herói Procurado), mostra em toda a sua ambigüidade o heroísmo moderno: anti-institucional, fora-da-lei, propenso a agir por um senso de justiça peculiar.
O lixeiro Liam Case (Cuba Gooding Jr.) se torna alguém assim. Case fracassou ao tentar salvar a esposa grávida de um acidente automobilístico. Tempos depois, ele se arriscou a salvar uma garota de um incêndio. Agora, quando o eco dos aplausos do passado já morreu no ar, continua a ser o mesmo lixeiro, e pior: sem perspectiva. Mas ao depositar flores no túmulo da mulher, ele se depara com uma caixa bancária que se torna, a partir de então a gota de esperança em seu oceano de niilismo.
Sem saber como se aproximar da moça, Case apela a um amigo para encenar uma tentativa de assalto, apenas para impressionar a bancária em questão. Quando o assalto simulado se torna um assalto genuíno, que põe sua bem-amada em estado de coma, Liam Case se torna um Dom Quixote às avessas, que vingará implacavelmente o que fizeram com sua Dulcinéia.
A angústia pós-moderna, com sua falta de perspectiva no futuro, está lá no filme, bem verdade que talvez de forma não-intencional. A necessidade de um motivo, um propósito, aparece; para Liam Case, esta necessidade é personificada pela bancária desconhecida, inacessível.
Outra necessidade da sociedade do século XXI, a saber, o consumismo, é retratado da ótica dos excluídos: como no mundo real, adquirir bens é um imperativo, ainda que alguns não tenham como competir dentro deste sistema; a estes, o próprio sistema obriga a continuar consumindo de outra forma, a ilícita, que compreende a criminalidade em suas diversas atividades. Em Herói, desiludidos e desesperados se unem para tornar o assalto simulado em uma oportunidade para realizar seus sonhos – ou porque não têm sonhos, e nada a perder mesmo.
Mas os criminosos serão punidos. A lei personal existe. O herói faz sua moralidade, caçando seus inimigos, desafiando a ordem instituída. O excesso de violência no filme seria legitimado pela necessidade de cumprir individualmente esta justiça individual.
E a que isso leva? A alcançar um propósito final e norteador, o sonho de um consumo de nossa época, na qual tudo é mutável e, por conta desta mutabilidade, assustadoramente inseguro (a economia americana pós-Bush que o diga). “Vale a pena viver por aquilo que você acredita” é a bombástica frase proferida diante de um mundo em que o cotidiano nos obriga a mudar constantemente o que acreditamos, o que consiste em um processo exaustivo de construção de valores pessoais, sob a regência das circunstâncias instáveis.
Outro conceito que aparece anteriormente em Herói indica de forma camuflada a individualidade do homem pós-moderno. “Redenção é uma coisa engraçada: é preciso ir ao inferno para alcançá-la.” A idéia de redenção é temática recorrente em Holliwood; aliás, a cultura americana, com seu estilo de vida americano é baseada no conceito de redenção. Não se trata da redenção bíblica, mas no sentido de vencer, dar a volta por cima, superar-se. Esta acepção, distante da concepção cristã clássica de redenção, explica a figura do anti-herói americano, que se “emenda” ao longo da trama, passando de um homem abaixo da linha da mediocridade para o patamar de um vencedor.
Herói nos faz pensar em como os valores sociais, que se refletem na produção cultural, estão assumindo progressivamente características bem distintas do que antes era considerado ético e moral. Parecem faltar verdadeiros heróis hoje mais do que faltaram em outros tempos.
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