terça-feira, 26 de agosto de 2008

DEUS CONSCIENTE OU MERO SÁBIO?

“Novas descobertas trazem à tona um homem simples, talvez analfabeto, difícil de ser rastreado e longe de se sentir uma entidade poderosa e onisciente. Como ficam as crenças cristãs diante desse Jesus Histórico?” Com palavras assim desafiadoras, inicia-se a reportagem “CSI: Jesus”, publicada na última edição da Revista Galileu.[1] Como sempre acontece com relação às matérias de teor semelhante, algum tipo de desafio às crenças cristãs é inevitavelmente feito. No entanto, nenhuma crítica lançada fica sem deixar no ar uma sensação de deja vu.


“Não há nada novo debaixo do sol”. A sentença repetida ao longo do livro bíblico de Eclesiastes bem poderia se aplicar às críticas atuais ao Cristianismo. Cada vez que uma reportagem sobre Jesus ou Seus ensinamentos aparecem nas principais revistas do país, tem-se certeza de que se trata de mera reciclagem da Alta Crítica do século XIX ou dos Ciclos liberais cristãos do primeiro quarto do século XX. A questão sobre o Jesus Histórico, que fustigou os ânimos de eruditos em outras épocas, estaria superada, se não fosse freqüentemente assunto de capa e tema de reportagens de publicações nacionais. Em benefício daqueles que possam se impressionar com as insinuações destas matérias, ainda vale apresentar argumentação contrária às suas pretensões.


JOGO DOS ERROS E ACERTOS

A seu favor, a matéria de Galileu tem a refutação da historicidade de conturbados achados arqueológicos recentes, o ossuário de Tiago (encontrado em 2002, supostamente pertencente ao irmão de Jesus e considerado uma fraude) e um segundo ossuário, identificado como sendo de Jesus, filho de José, Maria e Mariamne, que erroneamente pensou-se tratar de Maria Madalena (nomes comuns na época, mas houve polêmica causada por um documentário sobre o artefato dirigido por James Cameron).[2]

Outro modismo, quando se pesquisa a respeito de Jesus, está na supervalorização dos evangélicos apócrifos, que incluem narrativas com elementos mitológicos e místicos sobre Jesus, cuja autoria é incerta, uma vez que o verdadeiro escritor usa uma personagem histórica ligada a Jesus, pretendendo adquirir credibilidade (por exemplo: “O Evangelho de Tomé”, “O Evangelho de Pedro”, “Atos de Paulo e Tecla”, etc.). Galileu acertadamente descarta os evangelhos apócrifos como fonte de pesquisa, mostrando que são dependentes do material canônico (os quatro evangelhos que constam na Bíblia) e orientados pelo Gnosticismo (seita cristã, bastante influenciada pelo Neo-Platonicismo e pelo misticismo judaico).[3]

A despeito de seus pontos positivos, a matéria de Galileu oscila muito de direção, adotando uma postura liberal a princípio, e tornando-se mais conciliatória à medida que avança para o fim. Isto se deve a consulta de especialista de diferentes confissões. O leitor comum não é avisado de que não há consenso entre muitos estudiosos do texto sagrado – enquanto alguns teólogos aceitam completamente a inspiração do texto recebido, outros assumem pressupostos críticos, influenciados pela teologia liberal. Falta um esclarecimento sobre as visões diferentes, o que faria o leitor perceber que muitas das afirmações feitas no texto de Galileu não são inquestionáveis, muito menos representam a “última palavra sobre o assunto”.

[1] Reinaldo José Lopes, “CSI:Jesus”, publicado em Revista Galileu, Setembro de 2008, nº 206.
[2] Idem, pp. 47 e 48.
[3] Idém, quadro “Apócrifos: muito barulho por nada”, p. 55.

3 comentários:

André disse...

A meu ver deve haver menos dessa busca desenfreada pelo Cristo histórico e mais pelo Cristo invisível, sobrenatural. Adventistas não deveriam estar à frente desses movimentos pois Deus só nos deu suficientes provas de que Jesus existiu nos Evangelhos e talvez nos apócrifos como documentos históricos; passar disso é mera especulação e torna-se uma busca de evidências para uma fé baseada apenas em fatos e não no sobrenatural.

Por outro lado, será que não são as próprias dúvidas sobre o Cristo histórico que me fazem me apegar mais à fé que agrada a Deus, a fé dos que "não viram e creram"? (Jo 20:29).

André
www.igrejaadventista.com

Deyvi Stecker Santos disse...

Descordo de você André, não são os evangelhos as únicas provas "documentais" da existência de Cristo, Temos citacões importantes da época feitas por historiadores não cristãos como Josefo e outros e evidências claras como a morte dos discípulos pela causa, ou morreriam por uma mentira que eles mesmos inventaram? mas o que se espera achar como prova da existência de alguém que já viveu em carne e osso aqui?,Citações em documentos. Para um exemplo mais claro, como provar a existência de Um Faraó qualquer? se não por documentos da época, e nimguem questiona que tais documentos foram criados pelo escriba oficial do Império. Como provar a existência de Sócrates?
A igreja primitiva e sua perpetuação são grande evidências da verdade sólida da existência de Cristo.
A verdade é que o Cristo histórico é exatamente o Cristo que Ele é nos evangelhos ou quais dos personagens históricos da humanidade possuem quatro biografias com riqueza de detalhes como possue Jesus?
O interessante é que ao acharem um crânio simeo supoem até o estilo de vida, mas ao acharem páginas e páginas falando sobre Cristo negam sua existência.

André R. disse...

Deyvi,

Veja que não questionei o Cristo histórico como fato real e sim o basear a fé ou a descrença em evidências históricas apenas. Ou seja, não devemos "necessitar" de provas para crer, pois como o próprio Cristo afirmou, "Bem aventurados os que não viram e creram."

Os incrédulos teriam muito mais razões para crer em Jesus se a Igreja fosse uma expressão perfeita da imagem de Cristo, uma comunidade unida pelo amor, e não um grupo de argumentadores.

"Deus não precisa de advogados, e sim de testemunhas."

Abraço
André
www.igrejaadventista.com

PS.: Uma das cartas do primeiro século mais famosas sobre Cristo afirmava que ele tinha olhos azuis, o que é fictício.