segunda-feira, 16 de novembro de 2009

QUANDO O DESERTO SE APROXIMA


O pó se juntara aos seus poros. Suava, muito, a fronte abaixada, em perceptível exaustão. Foi quando achou uma pedra na qual se apoiar. O descanso era despretensioso, quase uma parada à toa, rápida. O corpo pedia um leito, mas a mente decidira-se a prosseguir. Poderia ser que o sol abaixasse, e a poeira vermelha não enfeitiçasse a vista, com contornos de mistério repetido, ironia de um cenário entediante.

Ainda assentado, levantou os olhos. Antes, sozinho, mas a presença se apresentou sem vir, surgida sabe-se de que ponto remoto do espaço-tempo. A contemplação do estranho exigiu que uma mecha do cabelo saísse de sobre os olhos, exprimidos diante da figura bem composta, impressionante até - um corpo longilíneo, que se movia com disposição e exprimia um ar seguro de nobreza e preocupação. A testa larga, olhos que ora se abriam, ora cintilavam de azul cerúleo. Um minuto durou o silêncio entre eles, algo sem estudo ou reticência. Apenas a impressão do contraste.

A primeira frase quebra a rotina de calor. A voz de carnaúba vinda do intruso chega aos ouvidos do caminhante, como uma promessa de regresso ao lar, uma sinfonia rica e delicada. A voz lhe lembrava de sua identidade. Ainda que fosse agradável, era promíscua, ambivalente em suas exigências. Propunha um desafio velado – tornar pedras em pães. Calmo em sua fadiga, o jovem judeu se ergue, como que possuidor de nova energia, saído de algures. Sua resposta iniciava um colóquio sutil e carregado de perigos. Duas forças contrastavam, para além das aparências. E o sol queimava apenas ao viajante que deixara o Jordão na certeza de Sua filiação.

As três dúvidas: Podes fazer de pedras pães? Por que não te atiras e exiges que anjos venham em teu socorro? Abra mão de teu suplício e me reconheças como Teu superior. Havia um quê onírico e cósmico no confronto, ambientado em meio ao deserto, para de repente conduzir-se no imprevisível teto do templo e, enfim, oferecer um panorama esmagador da História, com suas conquistas e prazeres humanos. Quanto durou a viagem? Quem sabe...

Os requícios do duelo ficam entrelaçados em um rosto ainda mais erodido. A cútis sulcada, gelada até, olhos arroxeados e laços. Mal se equilibra, tal o desgaste ao qual o Galileu submetera-Se. Somente na suficiência do Pai pudera equilibrar-Se. A jornada de volta ao Jordão se abria como senda de celeumas. Sua vida estivera sempre em risco e Ele terminaria com ela dali a poucos anos. Disso, nãoduvidava.

Mas agora, anjos descem do Infinio e O acolhem em braços potentes. A Palavra de Deus, que Ele usou para Se defender, é dita nos céus, para servir o Filho sofredor.

3 comentários:

Elisa Maria disse...

Intrigante e original. Agradeço a leitura, Jesus era um exemplo de como um filho de Deus, deve dizer não às vaidades e tentações da vida, para ser verdadeiramente abençoado!

Romulo disse...

Bom Sábado, Douglas e Noribel, é o que desejamos. Romulo,Katia e Sofia.

Anônimo disse...

Emocinante seu jeito de nos recontar as histórias que já conhecemos, Deus o abençõe sempre!
Sonineca