sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

QUEM ESCREVEU [COM TANTA IMPROPRIEDADE SOBRE] A BÍBLIA? - parte 1


É lugar-comum a Bíblia receber críticas por parte de setores da mídia tupiniquim. Em uma sociedade na qual os trabalhos intelectuais aportam com décadas de atraso, não chega a ser surpreendente que tais críticas estejam desatualizadas – sem exagero. Os debates que polarizavam acadêmicos com questões de interpretação bíblica em fins do século XIX e início do século passado, refletem-se somente agora em nosso país. Pior do que o atraso: o alardear de que tudo é novo e revolucionário, a ponto de transtornar a leitura tradicional do livro sagrado dos cristãos. Dentro deste espírito, saiu a reportagem de capa da revista Superinteressante, "Quem escreveu a Bíblia?”[1]. As afirmações “revolucionárias” da revista fariam rir qualquer conhecedor mediano dos princípios de exegese literária. Ainda assim, vamos nos demorar revendo alguns erros conceituais da matéria da Super.

Um dos primeiros pressupostos errôneos a despontar nas linhas do articulista é o de que os judeus foram altamente influenciados pelos povos cananeus.[2] Aliás, a base da teoria liberal estabelece a quase completa incapacidade dos judeus de produzir algo original, como se toda produção cultural dos filhos de Abraão necessariamente dependesse dos vizinhos mais evoluídos. No entanto, essa noção esconde a verdadeira base conceitual pela qual opera o criticismo moderno em sua leitura da Bíblia: o preconceito contra o sobrenatural baseada em premissas naturalistas.

Desde o surgimento da hipótese documental dos estudiosos Graf, Kuenen e Welhause (ainda no século XIX), os exegetas liberais consideram o Pentateuco como proveniente de múltipla autoria, em contraste com a posição judaico-cristã da autoria mosaica (exceto em lugares que esta autoria seria impossível, como a narrativa da morte do próprio Moisés). Quem seria, então, o autor dos cinco primeiros livros bíblicos?

Na verdade, segundo a hipótese documental, haviam alguns documentos que foram editados, depois de produzidos por pelo menos quatro tradições distintas: Javista (com ênfase no nome Jeová para a divindade e descrevendo a aliança relacional entre Deus e o homem), Eloísta (utilizando o nome Elohim para a divindade, concebida com majestosa e distante do homem), Deuteronômico (derivado do movimento profético, estritamente monoteísta e politicamente centralizador) e Sacerdotal (preocupada com regulamentos e leis).A sigla, formada pelas iniciais de cada documento (em alemão e inglês) ficou: JEDP, seguindo a suposta ordem em que as tradições foram se desenvolvendo.

Longe de ser unânime, a hipótese documental é criticada por sua arbitraeridade em dividir o Pentateuco, sua inconsistência (afinal, os diversos sustentadores da teoria não chegam a um consenso exato sobre que tradição escreveu qual parte do Pentateuco), sua incompatibilidade com os dados (a harmonia dos cinco primeiros livros da Bíblia se encaixa perfeitamente com uma autoria única, além de remontar a c. de 1500 anos antes de Cristo, período em que Moisés viveu) e seu pressuposto reducionista de que a mudança de Estilo requer necessariamente uma mudança de autor (seria como alegar que Machado de Assis não poderia ter sido autor do livro de poemas "Panóplias", do romance "Memórias Póstumas de Brás Cubas", do livro de contos "Papéis Avulsos", além de peças de teatro, crônicas e extensa epistolografia, por apresentar em cada um destes gêneros, e dentro dos próprios gêneros, diversidade de estilo!). [3]

Ou por desinformação ou por preconceito, "Quem escreveu a Bíblia?" não apresenta os argumentos que, ao longo de mais de 100 anos, estudiosos vêm apresentando contra as teorias liberais. José Francisco Botelho, que assina a matéria, não recorre a nenhum pesquisador bíblico que creia na Inspiração da Bíblia, porque parece que não há espaço para a divulgação deste tipo de opinião na revista. Às favas com a idoneidade jornalística!

Leia também:


[1] José Francisco Botelho, "Quem escreveu a Bíblia", Superinteressante, edição 259, dezembro de 2008.
[2] "As histórias da Bíblia derivam de lendas surgidas na chamada Terra de Canaã, que hoje corresponde a Líbano, Palestina, Israel e pedacinhos da Jordânia, do Egito e da Síria. Durante séculos acreditou-se que Canaã fora dominada pelos hebreus. Mas descobertas recentes da arqueoogia revelam que, na maior parte doi tempo, Canaã não foi um estado, mas uma terra sem fronteiras habitadas por diversos povos - os hebreus eram apenas uma entre muitas tribos que andavam por ali. Por isso, sua cultura e seus escritos foram fortemente influenciadas por vizinhos como os cananeus, que viviam ali desde o ano 5.000 a.C. E eles não foram os únicos a influenciar as histórias do livro sagrado." José Francisco Botelho, idem, p. 60. Ver também pp. 61, 62.
[3] Uma avalição da história da teoria documental, acompanhada de uma refutação convincente pode ser encontra em Gleason L. Archer Jr, "Merece Confiança o Antigo Testamento?" (São Paulo, SP: Sociedade Religiosa Edições Vida Nova, 2000) 3ª ed., 6ª reimpressão, apêndice 3, pp. 465 - 508.

7 comentários:

Bruna K disse...

Meninoo.. comprei essa revista hoje

nunca ri tantao.. nunca vi tanta m***** junta

afffffeeee


e mt desinformado acredita!!
impressionante

Anônimo disse...

"Quem seria, então, o autor dos cinco primeiros livros bíblicos?

Na verdade, estes documentos foram editados, depois de produzidos por pelo menos quatro tradições distintas: "

Douglas, senti falta de um "de acordo com a hipótese documental" depois de "na verdade". É que, você sabe, com tanta desinformação grassando, a gente chega a pensar que daqui a uns cinqüenta anos,alguns ainda poderão copiar rapidamente esse teu trecho e citá-lo num artigo, para mais uma vez nos fazer "morrer" de rir.

Teu blog, como falam, é "só o ouro".
Abraço!

douglas reis disse...

Aceitei a sua sugestão (muito sensata, por sinal), além de fazer algumas pequenas correções no texto. Obrigado pelos elogios. Só espero ser útil.

Anônimo disse...

Sou católico de batismo e tenho um tio q é Padre. Fui criado na Igreja Católica mas hoje me pergunto, quem escreveu a Bíblia?? não foi o homem?? pq nao pode ter sido manipulada?? pq essa indignação toda? temos medo do que?? minha fé em Deus não diminuiu nem um pouco a partir do momento em que comecei a me questionar sobre a bíblia. Creio num Deus único e piedoso, Deus para mim é amor e não o q está escrito na bíblia, apesar de respeita-la, mas não concordar com tudo.... abraços a todos

douglas reis disse...

Sr. Anônimo:

Se questionarmos a Bíblia, nossa crença em Deus passa a estar edificada sobre fundamento nenhum; sendo assim, haveria maior coerência em não crer em Deus!

Anônimo disse...

realmente...

celiaoliver disse...

Eu queria saber mais. Recebi no face book hoje, uma postagem sobre este homem o Francisco Botelho e sua materia na revista SUPER (rsrs), mas como não falo do que não sei, resolvi pesquisar e achei seu blog. Eu defendo a minha fé e porisso sempre quero aprender mais e mais, para não dar legalidade e ser chamada de burra rsrs (serio!). Li por alto a materia dele e foi o bastante para ver que algo estava errado ali e achei seu blog e ainda estou lendo. Estou gostando,mas, queria que vc ou me explicasse com mais detalhes sobre a história bíblica, ou me desse um site que eu mesma pudesse estudar. Tipo ele fala que "...descobertas recentes da arqueologia revelam que, na maior parte do tempo, Canaã não foi um Estado, mas uma terra sem fronteiras habitada por diversos povos...". A Bíblia não diz isso. Mas eu quero saber mais, como posso rebater esse tipo de comentário? Aonde eu posso achar? Não tenho duvidas nenhuma sobre a Bíblia, porque falo e vejo Deus todos os dias de minha vida. Quero aprender a defender a minha fé.