sábado, 19 de novembro de 2011

DO DESEJO POR RELEVÂNCIA À COMPLETA IRRELEVÂNCIA


Sendo Deus quem a Bíblia afirma, os cristãos são responsáveis pela transmissão de conceitos corretos a respeito da divindade, ou, em caso contrário, incorrerão em idolatria (adorando uma imagem irreal acerca de Deus, em substituição a quem Ele é de fato).
A necessidade de tornar Deus relevante não pode nos fazer escolher as Suas características atrativas, ao passo que ignoramos aquelas que podem soar contrárias ao pensamento pós-moderno – como a imagem bíblica de um Deus que traz a justiça e age como um guerreiro em favor de Seu povo e que traz destruição sobre os ímpios (Dn 12:2; Ap 6; 18). Alguns pontos a serem pensados:
1) Testemunhar sobre Deus é estar sempre pronto a dar as razões da nossa fé (I Pe 3:15). Esta é a alma da apologia, atividade que os cristãos têm realizado ao longo de sua existência, confrontando o que creem com o que a sociedade ao seu redor acredita. Ser cristão, portanto, é ter uma postura crítica, não-conformista (Rm 12:2).
Alguns argumentariam que não deveríamos agir como advogados de Deus, mas, sim, ser suas testemunhas. Claro que essa opinião ignora o uso que Pedro fez da palavra grega apologia (I Pe 3:15), que significa fazer uma apresentação em defesa de algo. Se fosse errado "ser advogado", o apóstolo Paulo jamais escreveria suas cartas, nas quais há longas sessões de polêmica contra os chamados "falsos apóstolos" (cf.: I Co 4 e 9, por exemplo)!
É claro que agir de forma apologética intencional não substitui o viver para Cristo – e vice-versa. Jesus também gastou muito de seu tempo corrigindo as visões distorcidas dos líderes de sua época (Mt 23, por exemplo).
Defender a verdade com argumentos racionais faz parte de nossa comissão – é a maneira cristã de avaliar abordagens e perspectivas seculares e, ao mesmo tempo, oferecer algo melhor.
Os pioneiros adventistas, infelizmente, focalizaram seu ministério apenas em apologia. E houve considerável demora para que se buscasse um equilíbrio entre a defesa da Verdade e sua apresentação mais positiva. Penso que hoje temos invertido a problemática: tentamos ser simpáticos, assimilando aspectos culturais na tentativa de soar "palatáveis", mas deixamos de pensar de forma cristã sobre os valores de uma sociedade que se corrompe a cada instante.
2) O diálogo com a cultura pós-moderna inclui estratégias para alcançar as pessoas com a mensagem cristã, sem rebaixar os nossos princípios. Aliás, foi isto que Paulo fez, em diversas ocasiões. No entanto, Paulo não transigia princípios.
Um exemplo disto é seu discurso no Areópago (At. 17), totalmente adaptado a uma audiência pagã. Agora, mesmo ali, Paulo pregou sobre o modo de Deus agir na História, apresentando os tópicos da Criação, Adoração, Redenção, Juízo e Ressurreição. É claro que o auditório que o ouviu mostrou-se dividido, e alguns chegaram a hostilizar o apóstolo. Por quê?
Será que se Paulo não fosse tão incisivo poderia ter sido mais popular? Se ele concentrasse seu discurso na apresentação de um Deus que aceita as pessoas do jeito que elas são não teria sido convidado a falar outras vezes naquele ambiente pagão?
A verdade deve ser apresentada. De formas diferentes, é certo. Mas sem máscaras ou distorções. Se adicionarmos algo a ela ou diluirmos sua mensagem, a Verdade deixa de ser o que é e perde o seu poder.
3) Alguns querem nos fazer crer que qualquer forma de evangelizar é válida. Para endossar isso, apresenta o resultado em número de conversões. O argumento do sucesso é o mais banal que pode existir, principalmente se analisarmos o tipo de músicas ou filmes que fazem sucesso hoje nos meios cristãos, muitos dos quais bastante incompatíveis com o caráter de Deus. Não basta atrair pessoas a Jesus de forma ilegítima, caso contrário, estaríamos desonrando Seu nome e rebaixando Suas santas exigências.


Um comentário:

PriMMartinelli disse...

E depois do discurso no Areópago, segundo EGW, Paulo chega a conclusão de que o ser "popular" não era tão vantajoso como ele pensou que fosse.

"A experiência do apóstolo Paulo ao defrontar-se com os filósofos de Atenas encerra uma lição para nós. Ao apresentar o evangelho no Areópago, Paulo enfrentou a lógica com a lógica, ciência com ciência, filosofia com filosofia. Os mais sábios de seus ouvintes ficaram atônitos e emudecidos. Suas palavras não podiam ser controvertidas. Pouco fruto, porém, produziu seu esforço. Poucos foram levados a aceitar o evangelho. Daí em diante Paulo adotou uma diversa maneira de trabalhar. Evitava os argumentos elaborados e as discussões de teorias e, em simplicidade, encaminhava homens e mulheres a Cristo como o Salvador dos pecadores." - A Ciência do Bom Viver - p. 214