quarta-feira, 14 de abril de 2010

DO "SUMMUM BONUM" PARA "O MEU BEM MAIOR": E DEUS PERDE TERRENO!

Regis Danese: o milagre ficou menor!


A expressão religiosa perdeu seu impacto modificador em detrimento de sua compartimentalização. Não se trata mais de uma busca pela Verdade, mas de seguir algo, desde que aquilo me faça bem. A sociedade valoriza o lado social da igreja e sua orientação no que tange aos problemas próprios à juventude (incentivo ao trabalho honesto, afastamento dos vícios, prevenção da gravidez na adolescência, etc); entretanto, restrito a essas e outras contribuições menores, o papel da igreja tem relevância reduzida e quota zero de imprescindibilidade (alguém pode, afinal, não se envolver com entorpecentes, ainda que não seja adepto de uma determinada denominação cristã).

Obviamente, o Cristianismo tradicional é algo muito maior do que esse tigre de unhas podadas e acostumada a pratos de leite que se vê por aí. Pensemos na contribuição fundamental dos grandes pensadores cristãos, como Agostinho, bispo de Hipona (norte da África). Quem era Deus para Agostinho? Na concepção do teólogo ocidental mais influente, Deus é o summum bonum, o bem supremo, ao qual procuramos “por si mesmo, e não por causa de outra coisa, e uma vez conseguido esse bem não procuramos mais nada para ser felizes.” [1] Logo, partindo-se de semelhante conceito, viver alheio em relação a Deus é alienar-se de sua própria felicidade.

Para marcar o sinal da mudança quanto ao paradigma de Agostinho, usarei um exemplo da cultura popular. Assistimos atualmente ao advento de músicas evangélicas que repercurtem na mídia secular. Uma delas é a composição Faz um milagre em mim, interpretada pelo cantor Regis Danese. No refrão se diz “Entra na minha vida/Mexe com minha estrutura/Sara todas as feridas/Me ensina a ter Santidade/Quero amar somente a Ti,/Porque o Senhor é o meu bem maior,/Faz um Milagre em mim.”

Curioso notar o uso da expressão “meu bem maior”, que revela a mentalidade dos religiosos, em consonância com o pensamento da época. O summum bonum de Agostinho não vem acompanhado de pronomes possessivos, embora o teólogo afirme a possibilidade de tal bem ser “conseguido”. A diferença, portanto, envolve a ênfase: dizer que Deus seja o bem maior implica, para Agostinho, a necessidade de se adquirir tal bem, o que traduz uma busca fundamental, respondida por um Objeto Absoluto e Insubstituível.

Na letra de Danese, Deus agora é “o meu bem maior”, ou seja, aquilo que de mais importante eu tenha, objeto de minhas afeições e certeza de que meus problemas (“feridas” e aquilo que envolva a “minha estrutura” pessoal) serão solucionados. É mais um Deus para ser experimentado em nível pessoal do que o Deus Absoluto que responde anseios universais. Não quero dizer que não se possa obter uma experiência com Deus (Agostinho mesmo o sugere com a metáfora da busca/fruição); a questão é a qualidade da experiência e sua legitimação, não somente como opção entre outras, mas como a Opção.

Enquanto Deus for mostrado como somente uma opção útil em nível pessoal, e o Cristianismo se permitir vitimar pelo vigente relativismo, não poderemos clamar por um milagre dentro de um contexto maior, mas teremos que dizer – baixinho, cada vez mais baixinho – “Faz um milagre em mim”.

6 comentários:

Pr. Solon Diniz Cavalcanti disse...

Caro Douglas, a paz. Você está desenvolvendo com maestria o seu ministério literário, mas permita que eu discorde deste post. Não se pode medir doutrinariamente uma canção, ela nunca tem esta finalidade, mesmo quando na Bíblia. A canção tem licença poética, Moisés cantou, está registrado na Bíblia algo muito parecido com a música em epígrafe no seu blog. Sobre um Deus particular, um Deus de experiência, a quem Moisés chama de "meu Deus" pelo fato de Ele o ter livrado e não pelo fato de Deus Ser (Êx 15:2). Esta também é a forma de tratamento utilizada por Davi, para se referir ao Deus que trabalha de forma particular em sua vida, que é reconhecido como Deus pela Sua ação e não pelo que Ele é (2Sm 22:3). Estariam Moisés e Davi errados? Não seria Deus mesmo que não os socorresse? Isaías diz que exaltaria e o chamaria de "meu Deus" por causa dos feitos DELE (Is 25:1). Deveríamos arrancar da Bíblia estas e inúmeras outras citações, em que o reconhecimento da Divindade é associado não à "ousia", mas a "hipóstasis"? A doutrina é para pensar e obedecer! A canção é para sonhar e imaginar!

E a música do Regis tem uma unção especial de Deus, e faz o Brasil sonhar, revolve a terra, abre espaço, para que homens como você, com profundidade bíblica possam mais facilmente semear a Palavra doutrinária da Salvação. O cristianismo é um triângulo de retidão: Ortodoxia, ortopraxia e ortopatia. Deus utiliza os mestres para nos dar a Ortoxia. Deus utiliza os pastores para nos dar a Ortopraxia. Deus nos deu os poetas para que tenhamos a Ortopatia.
Que o Senhor continue te dando a sabedoria que tanto tem ajudado o povo de Deus através do seu blog. Um seu admirador, Pr. Solon.

douglas reis disse...

Pr. Solon,

Desejo ao irmão a paz igualmente. Agradeço pelos seus elogios e reconhecimento. Fique tranquilo quanto à opinião que você expressou: não espero que os leitores concordem ou pensem exatamente como eu; o texto tem a inteção de causar reflexão, e esse processo envolve diálogo, às vezes entre pessoas de perspectivas diferentes.

Não creio que as Artes sejam neutras, e incluo a música no bojo. É claro que podemos avaliar a música, seja sua letra, seja sua forma. Também compreendo que a letra tenha conexão com a doutrina (e deva ter!), embora nenhum músico resolvesse criar uma versão musical da Teologia Sistemática de Strong! Alguns estudiosos sugerem que em alguns trechos de suas cartas, Paulo citava trechos de hinos cristãos para expor alguma doutrina (C.f.: Fl 2:5-11). Os Salmos, apesar de serem o hinário de Israel, são extremamente dogmáticos.

Também não fiz ressalvas ao fato de a música sugerir relacionamento íntimo com Deus, mas porque ela, em meu entender, se limita a isso, apresentando um tônus emocional, que parece constituir a expressão religiosa contemporânea. Logo, a postagem é mais uma denúncia contra essa postura religiosa do que uma resenha mal-humorada do trabalho de Regis Danesse.

No demais, não creio que podemos avaliar positivamente uma música, um ministério ou um líder apenas levando em conta o seu sucesso. Até os maus reis de Israel tinham sucesso, porque influenciavam massissamente o povo, o que não serve para legitimá-los. Em todo caso, os comentários do amigo serão sempre bem vindos!

Abraços,

Douglas Reis

Ro Araujo disse...

Sou Adventista, mas não vi em momento algum que a música citada tenha uma postura errônea, tem tantos assuntos que podem ser abordados, que ao meu ver não precisa citar nomes e hinos de outros para criar celeuma.
É muito melhor eu estar ouvindo e cantando "o meu bem maior" do que está cantando as músicas seculares.Nossos jovens andam tão contaminados por músicas mundanas, mas aí a gente percebe, se surge algum cantor evangélico e faz sucesso logo chovem criticas para apagar. Que pena!!!!

douglas reis disse...

Há adventistas e adventistas...

Iranise Fialho disse...

É melhor escutar uma música realmente sacra do que ouvir músicas "meio termo", parecidas com o "balanço do mundo"... é só minha opinião!

Pr. Heber Toth Armí disse...

Apreciei o artigo acima. Nuca devemos aceitar qualquer coisa sem fazer uma avaliação (I João 4:1) mesmo no cristianismo. O que o Douglas fez foi importante para aquele que abosorve tudo impensadamente e é influenciado sutilmente pela mensagem (2 Pedro 2:1-3.
Gostei, embora possa ser analisado de outros ângulos também. Por exemplo, o milagre em Zaquel foi sua salvação não suas feridas, libertação do pecado e restauração financeira, relacionamento, etc.
"Aqueles que esperam em Jesus apenas nesta vida são os mais infelizes de todos os homens" (1 Coríntios 15:19). O maior milagre está no futuro, não no presente!