sábado, 24 de julho de 2010

O RISCO DE UM CRISTIANISMO PÓS-MODERNO: O CASO DE LEONARDO BOFF



O ideal de normatização, segurança e conhecimento por meio de técnicas que proporcionem o domínio da natureza marcou a Modernidade. Quando o desenvolvimento tecnológico se revelou dúbio (na ocasião das duas grandes guerras mundiais) e a Ciência ineficaz para solucionar todos os dilemas, a Modernidade entrou em colapso. A partir de então, entramos no período Pós-Moderno. O secularismo (perda do sentido religioso) cedeu lugar a uma espiritualidade difusa. A busca pela Verdade se tornou a tolerância entre muitas verdades (regulamentadas por comunidades interdependentes). O prazer pessoal passou a ser um modelo de vida, substituindo a antiga moral social.[1]
Neste âmbito, o Cristianismo enfrenta o desafio de perder sua relevância. Diversas abordagens evangelísticas são propostas para os novos tempos. Ao mesmo tempo, corre-se o risco de sofrer a influência da mentalidade pós-moderna, a qual, inevitavelmente, prevalece sobre certas denominações e indivíduos cristãos.
No presente artigo, abordaremos o risco de nos tornarmos cristãos pós-modernos, exemplificando a questão com o caso do teólogo Leonardo Boff, ex-frei franciscano e um dos proponentes da Teologia da Libertação. Tomamos com base entrevistas dadas por Boff a setores da imprensa e seu mais recente livro, Ética da Vida.[2]

ENGAJAMENTO CONTRA O CRISTIANISMO “ACIDENTAL”
                                                                                                                              
Leonardo Boff permanece como um dos mais influentes teólogos latinoamericanos contemporâneos. Juntamente com Gustavo Gutiérrez e demais pensadores católicos, Boff contribuiu para a criação da Teologia da Libertação, conforme ele próprio depõe: “[…] Foi na ebulição latinoamericana, na década de 1970, depois de assumir a cátedra de teologia em Petrópolis, e nesse contexto que junto com outros elaboramos a teologia da libertação.” Para o ex-frade, a Teologia da Libertação (TL, doravante) teria “um olho na realidade conflitiva” (injustiça social) e outro na “reflexão crítica moderna”.[3]
No centro dessa teologia, se acha o pobre, que luta e sofre, elemento que constitui, na avaliação de Guilherme Vilela Ribeiro de Carvalho, o seu caráter “pré-teológico”. Carvalho chama a atenção para o aspecto revolucionário da TL, uma vez que a única forma de romper a opressão (e “libertar o pobre”) se dá com a ruptura do sistema opressor.[4] Um reflexo disso no Brasil está na íntima relação entre a TL e o Movimento dos Sem-Terra (MST). “[…] O MST nasceu da Igreja[Católica] [,] mas hoje tem um curso próprio. É importante que a Igreja tenha lhe dado uma mística e que continue como aliado leal, mas é independente.” [5]
Por sua forte influência marxista e seu ativismo político-social, a TL foi condenada pela igreja Católica e Leonardo Boff, em virtude da imposição do “Silencioso Obsequioso”, renunciou seu ministério em 1993. Na época, o coordenador do processo contra o ex-franciscano foi Joseph Ratzinger, eleito papa em 2005. Atualmente, Boff continua a lecionar, escrever, dar palestras e participar de comunidades de base. Ele explica seu engajamento divisando dois fazeres teológicos: o primeiro, preocupado em aprofundar as questões da fé e o segundo, que se ocupa com as questões do mundo. Em sua visão, a Teologia deve “pensar os problemas humanos e sociais, sempre, lógico, à luz da pertinência da fé.” Caso contrário, se a Igreja Ocidental “não se preocupar em adaptar-se às transformações do mundo, ela ficará cada vez mais acidental.”[6]

CRISTIANISMO SEM VERDADE

Boff reconhece que há “uma mudança de paradigma civilizacional”. O novo período, que a mídia tem inaugurado com seu papel “quase messiânico”, é a “fase planetária”. Enquanto a cultura ocidental “homogeneizou toda a humanidade” com violência (o que, diríamos, corresponde à Modernidade), surgiram desigualdades. A solução? “[…] A saída é uma democratização da democracia. […] Fazer participar o mais possível todo mundo em todas as coisas que interessam a todos. A consequência é mais igualdade e mais satisfação geral.”
Para a igreja participar positivamente deste processo, ela tem de aprender a dialogar. “[…] Ou nos abrimos e dialogamos, com os riscos inerentes, ou então nos fechamos seremos condenados à fossilização, ao dogmatismo, e novamente ao fundamentalismo e às guerras religiosas e ideológicas.”[7]Aqui, com maestria, o teólogo define o dilema do Cristianismo, em geral, perante os desafios do Pós-Modernismo – ou dialogar ou contentar-se com a irrelevância; porém, se o enunciado do problema ficou claro, o que dizer da resolução apontada?
Antes de respondermos à pergunta, devemos entender os termos que Boff propõe para o diálogo religioso. Ele defende que o “cristianismo tem que ser uma coisa boa para os seres humanos e não só para os cristãos.” [8] Perguntado pela revista Veja sobre a questão do aborto, o teólogo responde que a “Igreja não tem o monopólio da ética e da verdade.” [9]Em outro momento, Boff declara ser “preciso que a Igreja abdique do monopólio da verdade, que ela não tem.” [10]Como, então, conhecer a verdade religiosa, se não através da mensagem cristã? [11]
Em seu livro, Ética da Vida, Boff faz afirmações semelhantes, mas de uma forma mais generalizada, aplicando o que havia dito sobre o Catolicismo ao Cristianismo como um todo. Ele argumenta que, “renunciando à sua pretensão de deter o monopólio da verdade religiosa”, o Cristianismo pode dialogar com “outras tradições religiosas”, o que servirá para “perseverar o que há de mais sagrado nos seres humanos, isto é, seu sonho para cima, sua transcendência, sua abertura para Deus.” Esse diálogo é fundamental porque “cada cosmologia, como produz uma imagem do ser humano, produz também uma imagem de Deus”, [12] o que, em última análise, compreende a resposta para o homem pós-moderno, aquele que “procura uma cultura espiritual na qual o ser humano em sua subjetividade e gratuidade ocupe um lugar mais central.” [13]
E quanto a Deus? DEle “não se pode dizer nada, porque todos os nossos conceitos e palavras vêm depois e derivam do universo. E queremos falar Daquele que é antes do universo. Como?” [14] Em outro artigo, o tema é ampliado: o escritor afirma que o Ser Supremo “não pode ser tão transcendente, pois se assim fosse, como saberíamos Dele? […] Anunciar um Deus sem o mundo [i.e., sem ter qualquer relacionamento com o mundo criado] faz, fatalmente, nascer um mundo sem Deus”; por outro lado, a imanência absoluta é descartada. “[…] Se Deus existe como as coisas [do mundo físico] existem, então Deus não existe. Ele é o suporte do mundo, não porção dele.” Resta então conceber a realidade de Deus como transparência, a qual “afirma que a transcendência se dá dentro da imanência, sem perder-se dentro dela […]”. Em síntese, Deus continua “uma realidade concreta, mas sempre para além de qualquer concreção.”[15]
Em meio à uma releitura do Cristianismo, sob lentes místicas, que se apropria de elementos de outras religiões, Boff cita o trecho de uma conversa que teve com o Dalai Lama, para dizer que a religião verdadeira é a que nos faz melhores, a “que nos faz compassivos, abertos, sensíveis e expostos à vulnerabilidade de todas as coisas. A que nos faz mais descentrados do nosso eu.” [16]Com isso, se conclui que alguém não precise ser particularmente um cristão a fim de atingir a espiritualidade “onienglobante” [17]defendida por Boff.


NOVA EMBALAGEM, MESMA ESSÊNCIA

A proposta de Boff nos leva a questionar o quão cristão seria um Cristianismo que abrisse mão de seu exclusivismo, sendo que mesmo Jesus era um exclusivista – Ele declarou ser a “Verdade”, o Único meio de acesso a Deus (Jo. 14:6) e que a Vida Eterna seria alcançada somente por quem se relacionasse com o Deus Verdadeiro e Ele, Seu representante (Jo. 17:3). Além disso, Jesus identificou a Bíblia como a própria Verdade revelada (Jo. 17:17). Por toda a Bíblia, profetas, apóstolos e mesmo Jesus lutaram para estabelecer limites bem definidos para a Verdade, em oposição declarada às religiões pagãs, ao sincretismo religioso e a heresias dentro da fé. Seria impossível, desta forma, conciliar Cristianismo e Pós-Modernismo, porque a fé cristã reivindica possuir uma Verdade absoluta, revelada por Deus e aplicável ao qualquer ser humano em qualquer época.[18]
De que outra maneira responderíamos ao dilema levantado por Boff – ou o diálogo com a cultura ou o isolamento? Sem dúvida, os cristãos não podem se isolar. Entretanto, o diálogo não deve significar perda de identidade e consequente abandono da missão (Mt. 28:19-20). Lembremo-nos de que, ao enviar Seus discípulos ao mundo, Jesus sabia de potenciais conflitos religiosos que eles enfrentariam; mas não bastava a pregação a pessoas não-realizadas com suas crenças culturais – todos deveriam ouvir e ser persuadidos, e os que aceitassem se converteriam da autoridade de Satanás para o senhorio do Deus Único (At. 26:29). Jesus, afinal, não é Senhor dos cristãos; Ele é o “Senhor de todos” (At. 10:36).
Assim, as estratégias podem se adaptar ao momento, nunca a mensagem. “[…] Relacionamentos, amizade, amor e cuidado pelo semelhante são muitíssimo importantes para todo discípulo de Cristo, mas não são tudo o que representa o cristianismo”, escreve Aleksandar Santrac. “[…] Se utilizarmos linguagem pós-moderna ou vocabulário não ameaçador, nunca devemos fazer isso a expensas da verdade como revelada na Palavra de Deus.” Santrac continua lembrando que evangelismo da amizade não substitui o evangelismo doutrinário, porque Jesus praticou ambos.[19] Semelhante a algumas marcas que, ao renovar determinado produto, inovam apenas na embalagem, o Cristianismo do século XXI precisa de nova embalagem para o mesmo conteúdo – a Verdade de Deus, ainda necessária no mundo pós-moderno.

[1] Para um resumo do desenvolvimento do Pós-Modernismo e suas consequências sobre a espiritualidade contemporânea, ver: (a) Douglas Reis, Paixão Cega: o herói que precisou perder a visão para enxergar (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2010), especialmente as pp. 8-20; (b) idem, O que há de errado com a máquina do mundo (e porque o mundo passou a ser visto como uma máquina)?, primeiro capítulo de Marcados pelo futuro: vivendo na expectativa do retorno de nosso Senhor (Niteroi, RJ: Editora ADOS, no prelo).
[2] Leonardo Boff, Ética da Vida: a nova centralidade (Rio de Janeiro, RJ: Editora Record ltda, 2009).
[3] Apolinário Ternes, “A igreja é autoritária, se recusa a ouvir o seu povo”, entrevista com Leonardo Boff, A Notícia, 29 de Setembro de 1997, p.G3.
[4]Guilherme Vilela Ribeiro de Carvalho, O dualismo natureza graça e a influência do humanismo secular no pensamento social cristão, em Cláudio Cardoso Leite, Guilherme Vilela Ribeiro de Carvalho, Maurício José Silva Cunha (org.), Cosmovisão cristã e transformação: espiritualidade, razão e ordem social (Viçosa, MG: Ultimato, 2006), pp. 144, 151. Para uma análise mais completa da TL, ver Amin, R. Rodor, The impact of Liberation Theologies on the church, Kerigma, Ano 4 - Número 2, 2º. Semestre de 2008, pp.42-75, disponível em http://www.kerygma.unasp-ec.edu.br/artigo8.03.asp .
[5]Márcia Feijó, Metáforas de Leonardo Boff, Diário Catarinense, 27 de Agosto de 1997, Variedades, p.5, box Opiniões de um cidadão engajado.
[6]Apolinário Ternes, Op. cit., p. G2.
[7]Idem, G3, G2.
[8]Márcia Feijó, Op. cit, p. 4.
[9]Ernesto Bernardes, Teologia da colisão, entrevista com Leonardo Boff, Veja, 16 de Agosto de 1995, p.8.
[10]Apolinário Ternes, Op. cit., p. G2.
[11]Vale lembrar que, para a Igreja Católica, a Verdade religiosa se relaciona com, pelo menos, três elementos: as escrituras, a Tradição, e a autoridade do Papa. Indiferente disso, Boff parece criticar não apenas a pretensão católica à verdade, mas à própria definição cristã de verdade, como ficará claro a seguir.
[12]Leonardo Boff, Op. cit, pp. 113, 81.
[13]Apolinário Ternes, Op. cit., p. G3.
[14]Leonardo Boff, Op. cit., p. 95.
[15]Leonardo Boff, Transcendência e transparência, A Notícia, 15 de Dezembro de 2007, p. A2.
[16]Apolinário Ternes, idem.
[17]Leonardo Boff, Ética da Vida, p. 83.
[18]Para uma análise crítica mais ampla, ver Douglas Reis, A verdade ou a vida, capítulo quinto de Marcados pelo futuro: vivendo na expectativa do retorno de nosso Senhor(Niteroi, RJ: Editora ADOS, no prelo).
[19]Aleksandar S. Santrac, Evangelismo além da amizade, Ministério, ano 79, no 2, Março/Abril de 2008, p.23.


3 comentários:

Anônimo disse...

Essa é a forma contemporânea de um velho adágio dos desenhos animados e filmes hollywoodianos:
"Não pode vencê-los? Junte-se a eles!"

È a religião de Cristo colocada ajoelhada!

Tem de haver alguma voz que combata esse pensamento que, disfarçado de modernidade, não passa do velho modo católico romano de coagir pela diplomacia...

Evanildo F. Carvalho

Malton Fuckner disse...

Parece que o problema começa quando é dito: “[…] Ou nos abrimos e dialogamos, com os riscos inerentes, ou então nos fechamos seremos condenados à fossilização, ao dogmatismo, e novamente ao fundamentalismo e às guerras religiosas e ideológicas.”
Fica impossível ao ser humano manter qualquer princípio de argumentação racional ou filosófica, quando simplesmente se descarta um texto bíblico como base de fé da vida espiritual cristã (sobretudo da hermenêutica), que dirá uma instituição que se diz o berço do cristianismo permitir a um teólogo seu, desenvolver uma teologia individual que entre outras coisas prega um diálogo democrático social/religioso como solução para as mazelas humanas. Nós sabemos bem onde isso vai dar! Em responsabilização das minorias "fundamentalistas" pelos entraves a um entendimento planetário para o bem comum.
Malton de Oliveira Fuckner

Mug disse...

Como se pode considerar teólogo alguém que em momento algum em suas considerações cita se quer um texto bíblico alusivo ou conclusivo àquilo a que se propõe. Bem como o desuso de termos próprios de um verdadeiro teólogo cristão como: amor, fé esperança, perdão, perseverança, oração, paciência etc. A união inter denominacianl entre os cristãos pretendida pelo catolicismo romano, nada mais é do que o velho desejo do domínio absoluto das nações, povos e indivíduos para forçá-los a aceitarem seus dogmas doutrinários, mesmo que para isso recorra ao uso da força seja ela qual for: argumentação, tortura, guerra, e principalmente a mentira.
Manoel José de Oliveira
Ponta grossa, 3 de março de 2015.