sexta-feira, 21 de maio de 2010

É HORA DE TROCAR DE ROUPA

O inverno ainda ensaia seu desfile, mas a chuva recorda as pessoas do desconforto do frio. Sob a lona de uma loja, Algelino treme irremediavelmente, com as roupas coladas ao corpo gélido. O guarda-chuva? Ficou no escritório. Mas basta que a força da tempestade recue para que o rapaz se arrisque a sair na rua, enfrentando a lama das calçadas e o jato de água que os carros apressados derramam sobre os pedestres. Em poucos minutos, ele chega no apartamento. Sem ter tempo para mais nada, Algelino corre para o banheiro e experimenta o prazer reanimador de um banho quente. Em seguida, ele se troca, colocando roupas limpas e capazes de manter seu corpo aquecido.

Quem já não passou por isso? Quão agradável a sensação de tomar um banho e se trocar, seja depois de uma chuva intensa ou mesmo após um dia cansativo de trabalho. Vestir algo roupas limpas não se resume à questão de higiene; trata-se de usufruir algo simples, porém prazeroso.

Semelhantemente, na vida espiritual, somos convidados a trocar de roupa. Explico: a impressão que temos sobre alguém se dá através de sua aparência, o que inclui suas roupas. Comumente, cometem-se injustiças ao se analisar o caráter de alguém pela maneira como a pessoa se veste. Todavia, ao mesmo tempo, a maioria das pessoas usa roupas de acordo com o gosto, a personalidade, os valores, a comunidade, entre outros fatores. Nossas roupas falam um pouco sobre quem somos. Talvez por isso, na Bíblia as roupas são usadas como símbolo do caráter da pessoa.

Sendo assim, quando Deus ou um de Seus servos diz, metaforicamente, a respeito de troca de roupas, isso se refere à mudança de caráter. Claro que ninguém tem um cabide com todo o tipo de caráter à disposição, para vestir-se com um deles conforme a ocasião. Não é simples mudar quem somos. E, muitas vezes, nos perguntamos por que temos de mudar. Entretanto, a verdade é que Deus sabe qual a melhor vestimenta devemos usar e Ele oferece a roupa (o caráter) de Jesus para com ela nos cobrirmos. O apóstolo Paulo escreveu sobre isso na carta aos habitantes da antiga cidade de Colossos, localizada na Ásia Menor (Colossenses 3:3-17).

Convém notarmos que em sua carta, Paulo reforça o que é a vida cristã, uma vez que falsos mestres rondavam Colossos, ensinando práticas místicas e ascéticas. À certa altura, o apóstolo começa a comparar a vida dos cristãos antes e depois de sua conversão. Para tornar didática a apresentação do conteúdo do que o maior escritor do Novo Testamento proferiu, vamos dividir seus ensinos em duas seções.

I - Tire a roupa suja: Paulo começa seu assunto no versículo 5 de forma dramática: “Assim, façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês […]” (NVI). Há uma ligação entre o “façam morrer” desse verso com o “morreram” do verso 3, indicando que a “morte do eu” na vida espiritual é um evento que já aconteceu, mas que tem de ser continuamente renovado [1]. Parafraseando, teríamos algo assim: “‘Que vosso próprio-eu antigo, vossa vida pagã, que morreu no batismo, permaneça morto.’” [2] Por que nosso eu precisa morrer? “É por causa dessas coisas que vem a ira de Deus sobre os que vivem na desobediência.” (v.6, NVI).

Paulo fala de “fazer morrer a natureza terrena” ou, em outra tradução, “os vossos membros [gr.: μελη] terrenos” (BJ). O uso do termo “membros” serve de metonímia para os pecados praticados por eles [3]. A expressão também ressalta o quão intimamente entretecido se acha o pecado “com todas as fibras de nosso ser.” O pecado, nosso inimigo, é “uma parte integral de nós mesmos”; logo, combatê-lo é “uma luta contra nós próprios.” [4]. Contudo, penitências, clausura, peregrinações, longos jejuns ou a prática de “pagar promessas”, vistas na religião popular, são insuficientes para lutar contra a nossa “segunda pele”, chamada pecado. O processo de mortificação dos membros que aparece na carta aos Colossenses é algo ético, não físico [5].

Uma vez que todos somos pecadores, nosso modo de encarar a vida tende a desagradar a um Deus Santo, que expressa Seu justo julgamento (chamado de Ira) contra toda forma de desobediência à Sua vontade. Para ilustrar: imagine uma secretária entrando intencionalmente no escritório com roupas mal cheirosas, sujando o carpete com a lama de seu sapato e borrando documentos importantes com as mãos sujas. O que seria de se esperar que o seu superior fizesse? Ele, de alguma forma, não chamaria sua atenção? Em certo sentido, é o Deus faz. Ele ainda oferece a oportunidade de nos lavarmos espiritualmente (através do batismo) e trocarmos as roupas imundas que temos. Mas que tipo de roupas sujas nós usamos antes de conhecer a Cristo? Há dois tipos:

(1) Roupas de baixo sujas: A primeira lista de erros (v.5) contém pecados mais detestáveis, vulgares, baixos. Fazem parte dessa listagem os seguintes delitos:

(a) Imoralidade sexual: tem-se em vista aqui qualquer tipo de comportamento sexual inadequado, tanto que a palavra pode ser traduzida por “fornicação” (BJ);

(b) Impureza: a raiz da imoralidade é a impureza [6], ou “indecência” (NTLH), que se refere mais a uma tendência do comportamento;

(c) Paixão: a paixão parece se referir ao impulso nato do homem, o qual distorce suas afeições e, sem que ele peça ajuda a Deus, o domina (1 Ts 4:5; Cl 3:7);

(d) Desejos Maus: qualificam a perversão dos desejos naturais dos seres humanos;

(e) Ganância: também traduzida por “cobiça” (NTLH) ou “cupidez” (BJ), o termo (gr.: πλεονεξιαν) se refere ao desejo de ter mais, adquirindo sentido sexual, devido ao contexto.

(2) Roupas comuns suja: A segunda lista (v.8) possui pecados aparentemente menos graves, mas igualmente ofensivos a Deus; são eles:

(a) Ira: a raiva humana, ao contrário da chamada Ira divina, jamais é justa ou mesmo equilibrada, produzindo sempre amargor;

(b) Indignação: o sentimento de revolta ou descontentamento geralmente conduz à insubordinação;

(c) Maldade: o substantivo usado por Paulo (gr.: κακιαν) indica “maldade, depreciação, malignidade.” [7];

(d) Maledicência: apesar de que “a palavra ‘blasfêmia’ está praticamente limitada à linguagem difamatória acerca da majestade divina” [8], ela é empregada aqui com o sentido de falar mal de outrem, de forma generalizada;

(e) Linguagem indecente ao falar: o apóstolo reforça o cuidado com a linguagem quando, a seguir, ordena que os cristãos “não mintam uns aos outros” (v.9).

O que fazer com toda esta roupa suja grudando em nosso corpo? Paulo diz que os cristãos “já despiram do velho homem com suas práticas” (v.9). Despir-se (gr.: απεκδυσαμενοι) significa “abandonar, despojar-se, desfazer-se” de algo; em outras situações, pode aperecer com o sentido de “desarmar, despojar” [9]. Entretanto, não basta tirar a roupa suja - é preciso colocar a roupa limpa.

II – Vista a roupa limpa: Paulo fala que o novo homem, do qual devemos nos revestir, está “sendo renovado em total conhecimento, segundo a imagem do que o criou, onde judeu e grego, circuncisão e incircuncisão, bárbaro, cita, escravo, livre não têm lugar; antes o Messias é todas as coisas em todos.” [10] Reunidos em Cristo, usando o seu caráter para cobrir a nossa vergonhosa nudez, podemos viver sem distinções e preconceitos! Uma nova vida está à sua disposição, basta que você troque as roupas imundas do pecado e aceite os finos trajes da Justiça.

(1) Como são as novas roupas: O que o escritor da carta aos Colossenses tem a nos dizer sobre esses trajes? Paulo nos apresenta uma lista de virtudes cristãs (v.12), como se segue:

(a) Compaixão: (gr.: οικτιρμων) essa palavra expressa “piedade, compaixão, misericórdia” [11] e mostra que agora a pessoa passa a refletir o caráter de um Deus, que é Misericórdioso;

(b) Bondade: a bondade também era uma virtude para os filósofos pagãos; mas, na perspectiva do Cristianismo, ela ganha um alcance universal, fruto de atitude desinteressada, que leva a fazer o bem sem esperar nada em troca;

(c) Humildade: Se a bondade era até certo ponto aceitável, os pagãos viam a humildade como uma fraqueza; porém, no escopo da religião da cruz, ser humilde é imprescendível para começar uma nova vida;

(d) Mansidão: a verdadeira mansidão implica em ser gentil, cortês, amoroso, mesmo em face das pressões e dissabores;

(e) Paciência: pressupõe um ânimo redobrado, que leva o sujeito a não desistir diante de provações ou provocações.

(2) O que vai sobre as novas roupas: Paulo recomenda o perdão (v. 13) como um adorno necessário para o convívio com outras pessoas cristãs. Em seguida, o apóstolo menciona o amor, chamado por ele de “o elo perfeito” (v. 14, NVI). Conforme Grenz, “[…] Das várias dimensões da vida moral, o amor é que é central para o todo, uma vez que só ele permite vislumbres da nova realidade. De fato, o amor é a real qualidade da era futura.” [12] Aliás, quando Paulo escreve “acima de tudo […] revistam-se do amor”, a expressão “‘acima de tudo’ pode transmitir o pensamento de ‘por cima de todas as demais roupas’” [13], como se o amor fosse uma espécie de sobretudo. Para muitos estudiosos a expressão “vínculo da perfeição” significa que o amor é o que une as demais características citadas e nos conduz à perfeição, ou seja, “à obtenção de [nosso] ideal” [14].

(3) Desfrutando das novas roupas: A nova vida passa a ser vida de paz (v.15), que, assim como o termo hebraico Shalom, apresenta uma vida integral, completa, harmônica; logo, “[…] a inteireza do Messias ou sua ‘unicidade’, seu interesse, é a de ser juiz, tomar as decisões, exercer o controle e governar no coração dos crentes.” [15]

Paulo, empregando seu estilo literário característico [16],deseja que a palavra de Deus “habite ricamente” nos crentes, o que lhes moldará a vida, a qual passará a focar a instrução mútua, o louvor e a obediência a Cristo em todos os quesitos (v. 17). Sobre o louvor, é interessante que Hendriksen afirma que, enquanto as pessoas em geral se sujeitam a músicas de um “baixo padrão moral”, sendo, assim, “emocionalmente ultraestimuladas”, os cristãos, por sua vez, “fixam o interesse na palavra de Cristo que habita os seus servos, e desvia a atenção da cacofania mundana.” [17] Os cristão são diferentes em tudo: em seu comportamento, em sua comunhão e até nas músicas que escutam. Deus lhes deu roupas novas – e limpas!

Uma das piores ocasiões pela qual passei foi quando, em meus tempos de capelania, durante uma reunião, uma professora de Informática veio avisar sobre um rasgo lateral na minha calça. Eu teria de falar em poucos instantes, mas como faria isso, sem cair no ridículo? Quase ninguém naquela manhã entendeu porque o pastor novo do colégio apresentou seu planejamento sem sequer se levantar! Como é constrangedor usar roupas inadequadas, manchadas, sujas ou rasgadas em público.

Mas isso não precisa ocorrer na vida espiritual. Por que tremer de frio, quando uma boa ducha o espera? Por que ficar com uma roupa grudenta, quando há roupas limpas no armário? Troque de roupa. Deus lhe oferece uma vida digna e nova. Vestes não rasgadas. Roupas sem manchas. Bainhas feitas. Colarinhos limpos. Deus disponibiliza uma vida semelhante à de Jesus. Como recusar algo tão confortável e feito sob medida para atender nossas necessidades?


[1] William Hendriksen, Colossenses e Filemon (São Paulo, SP: Casa Editora Presbiteriana, 1993), p. 181.
[2] Ralph P. Martin, Colossenses e Filemon: introdução e comentários: série Cultura Bíblica (São Paulo, SP: Sociedade Religiosa Edições Vida Nova, 2006), 4a reimpressão da 1a ed., p. 113.
[3] Hendriksen, opus. Citado, p. 182.
[4] Guy Appéré, O mistério de Cristo: meditações sobre Colossenses (Durham, Inglaterra:Edições Peregrino, 1990), pp. 102-103.
[5] W.E. Vine, Merril F. Unger, William White Jr., Dicionário Vine: o significado exegético e expositivo das palavras do Antigo e do Novo Testamento (Rio de Janeiro, RJ: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2005), 5a ed., p. 781, verbete “membros”.
[6] Hendriksen, idem.
[7] W.E. Vine e etc., opus. citado, pp. 766-767, verbete “maldade”.
[8] Idem, p. 435, verbete “blasfemar”.
[9] Carlo Rusconi, Dicionário do Grego do Novo testamento (São Paulo, SP: Paulus, 2005), 2a ed., p. 61, verbete “απεκδυομαι”.
[10] David H. Stern, Comentário Judaico do Novo Testamento (São Paulo, SP: Editora Didática Paulista; Belo Horizonte, MG: Editora Atos, 2008), p. 663. O autor apresenta assim sua tradução literal dos versos 10b-11.
[11]Carlo Rusconi, opus. citado, p. 329, verbete “οικτιρμóς”.
[12] Stanley Grenz, A busca da Moral: fundamentos da ética cristã (São Paulo, SP: Editora Vida, 2006), p.331.
[13] Ralph P. Martin, opus. citado, p. 124.
[14] Hendriksen, idem, p. 199.
[15] David H. Stern, opus. citado, p. 664.
[16] “[…] Típico de Paulo é o uso de termos como ‘transbordar’ (perissevo), ‘abundar’ (pleonazo), ‘insuperável/extraordinário’ (hyperballo) e ‘riqueza’ (ploutos) […]”. James D. G. Dunn, A teologia do apóstolo Paulo (São Paulo, SP: Paulus, 2008), 2a ed., p. 375. Em Colossenses 3:16, Paulo emprega o termo ploutos.
[17] Hendriksen, idem, p. 204.

Um comentário:

Maria disse...

oi querido como faco para conseguir um pra mim,voce me manda pelo correio.quero ler tambem e pago bem,rsrs brincadeirinha ,parabens pela conquista,que DEUS te abencoe muito e ja e um sucesso viu?beijos saudades.maria