terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

HERÓIS ANTI-CATACLISMÁTICOS E O FIM INEVITÁVEL




Em meados de Janeiro, em uma das minhas costumeiras visitas à Livraria Curitibas, tive acesso ao lançamento The Umbrella Academy: Suíte do Apocalipse. Li toda a obra, com curiosidade, por saber de sua fama ainda antes de ser publicada por estas bandas. Trata-se de uma premiada HQ, com roteiros do estreante Gerard Way e arte do brasileiro Gabriel Bá.
Apesar de não ser um nome desconhecido, tanto no mercado nacional quanto no exterior, Bá não está no seu terreno costumeiro, pois costuma desenhar história de outros gêneros. Ele próprio admitiu que essa sua primeira incursão pelo gênero Super-Herói se deve às características peculiares de Umbrella. Na verdade, o enredo toma como premissa o relacionamento familiar nada saudável de sete garotos que nasceram com poderes especiais, adotados por um inventor inescrupuloso. Na prática, como o tema de relacionamentos entra na pauta entre uma cena e outra de ação despropositadamente violenta, Bá achou conveniente aceitar participar da série.
Apesar das expectativas de que o tratamento psicológico se aprofunde com o tempo, confesso que o roteiro me decepcionou em muitos pontos. Além das concordar com algumas resenhas que apontavam paralelos de Umbrella com X-men e Heroes, senti falta de uma ação mais amarrada e menos óbvia. Os diálogos me pareceram tão profundos como os que costumam povoar obras de ficção pop – e todos sabemos que nem George Lucas, nem James Cameron ficaram famosos por sua habilidade de botar frases na boca de personagens!
A arte de Bá é um caso à parte. O desenhista foge do lugar-comum de homens musculosos e mulheres curvilíneas. Seu traço está mais para o de artistas europeus, daí causar alguma surpresa em quem está habituado aos enfants terribles do porte de Jim Lee e Frank Miller (antes dele “rabiscar” aquela baboseira chamada Cavaleiro das Trevas 2).
Por outro lado, é interessante como o tema do fim do mundo é explorado pela cultura pop. Em Suíte do Apocalipse, um membro da academia (que depois se torna a Violino Branco), descobre seus poderes e resolve se vingar de seus irmãos, além de destruir o mundo através de uma peça musical tenebrosa (está bem, vamos admitir que a ideia é completamente ridícula mesmo…). Para variar, os mocinhos são capazes de impedir a tragédia (de forma contrária ao código dos heróis tradicionais).
Na cultura de massa, sempre o fim do mundo é algo que pode ser evitado pelos esforços dos mais habilidosos, ou pelo menos, o fim nunca é total e sempre sobra um grupo para preservar a humanidade e reconstruir o mundo. De certa forma, essa perspectiva serve de contraponto à mensagem bíblica, a qual se caracteriza pelo anúncio de um Juízo inevitável (Ap 14:6). Deus será o próprio Juiz, que destruirá o mundo para poder criar novos céus e nova Terra (Ap 21:1-4), sem a participação de seres humanos.

Sendo assim, os verdadeiros heróis são aqueles que anunciam o fim e não os que o evitam. De qualquer forma, nossa geração continuará sendo bombardeada por nossos heróis anti-cataclismáticos, os quais, ironicamente, vivendo um cataclisma interior, como os torturados personagens de Umbrella.


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Um comentário:

raul disse...

excelente leitura!