quarta-feira, 9 de abril de 2008

ESPERANÇA, PROPÓSITO E VIDA: A ENCÍCLICA “SPE SALVI” VISTA DE UMA PERSPECTIVA ADVENTISTA - parte 1


No dia 30 de Novembro de 2007 o Papa Bento XVI promulgou a segunda encíclica de seu pontificado. Intitulada Spe Salvi[1], a carta apostólica versa sobre a esperança cristã e seus efeitos na vida da comunidade da fé, em face de um mundo materialista e, conseqüentemente, alienado de Deus. Os adventistas têm acompanhado as declarações papais na expectativa de que o quadro profético em que crêem (Apoc. 13) continue a se cumprir. Nesse sentido, a mais comentada encíclica foi, sem dúvida, a Dies Dominis, na qual o papa anterior, João Paulo II, argumentava com os cristãos no sentido de fortalecer a observância do domingo.

Entre a Dies Dominis, datada de 31 de Maio de 1998, e a Spe Salvi o cenário católico mudou. À frente da Santa Sé não temos mais o carisma de João Paulo II. Carol Wojtyła, nome de nascimento do pontífice morto em 2 de Abril de 2005, notabilizou-se por suas peregrinações internacionais e seus diálogos com chefes de estado. Rapidamente, João Paulo tornou-se respeitado no mundo, inclusive por líderes de outras religiões, fato que impulsionou o ecumenismo. Após sua morte, muitos se perguntavam quem estaria à altura para substituí-lo. Quando a fumaça branca foi vista na praça de São Pedro, em 19 de Abril de 2005, o cardeal Joseph Ratzinger havia se eleito papa, escolhendo ser chamado de Bento XVI.

Embora sem o talento natural de seu antecessor para as relações públicas, Ratzinger, ao assumir o trono de Pedro, tratou de impor sua versão tradicionalista do Catolicismo, tanto por seus pronunciamentos, como por seus escritos. Enquanto na Dies Dominis João Paulo II escrevia de forma doce, imitando propositadamente o tom carinhoso do apóstolo João, Bento XVI disserta na qualidade de um teólogo.

O atual pontífice sustenta algumas bandeiras (sem se importar de que estejam em contramão com a Modernidade ou com os preceitos bíblicos), entre as quais poderíamos mencionar o apoio à volta do Latim na celebração da missa, as restrições ao movimento carismático, as polêmicas declarações sobre o Islã e a respeito da Igreja Católica como única igreja verdadeira – são estas algumas das marcas do breve apostolado de Bento XVI.

Apesar de ganhar notoriedade em boa parte da mídia como um ataque ao secularismo e ao ateísmo, Spe Salvi foca suas considerações no viver cristão; poderíamos definir o assunto da encíclica como um dos temas essenciais ao cristianismo. Bento XVI analisa diversos textos bíblicos, principalmente escritos pelo apóstolo Paulo, a respeito da natureza, significado e propósito próprios à esperança que Cristo nos trouxe. “É na esperança que fomos salvos” (Rom. 8:24), eis o texto introdutório usado pelo papa.

Uma visão geral sobre a nova carta-encíclica pode sugerir o exercício de uma teologia mais bíblica por parte do dito sucessor de Pedro. De fato, Víctor Figueroa, por ocasião do diálogo entre católicos e luteranos, já observava: “Parece que os católicos desejam aparecer diante dos protestantes como mais fundamentados e orientados biblicamente, mas sem realizar nenhuma mudança substancial.”[2] Prova de que “as aparências enganam” é que, ao longo de sua argumentação, o papa não deixa de citar os teólogos católicos mais importantes, como Agostinho, Tomás de Aquino, Ambrósio, entre outros; não poderia ser diferente, uma vez que, para os católicos, a revelação especial (ou sobrenatural) inclui os livros escritos (a Bíblia) e a tradição da própria igreja, sendo esta concepção oficializada no Concílio Vaticano I (1869-1870).[3]

Outro detalhe que salta aos olhos é a valorização de mártires de países sem a maciça presença católica, com a provável intenção de fortalecer o Catolicismo nesses territórios. Ratzinger cita a freira africana Josefina Bakhita (canonizada por João Paulo II) e Paulo Le-Bao-Thin, mártir vietnamita.

Com sua retórica temperada, entre a erudição e o apelo devocional, Bento XVI discorre sobre pontos comuns aos cristãos, conduzindo com habilidade seu tema até introduzir posicionamentos e dogmas católico-romanos. Queremos, num primeiro momento, deter-nos numa breve análise de suas declarações sobre temas geralmente aceitos para, em seguida, considerar aquilo que é particularmente católico.

AFETANDO O PRESENTE

Por mais surpreendente que a seguinte constatação pareça, muitas das afirmações da pena de Ratzinger não destoam completamente do pensamento evangélico, em geral, ou mesmo da visão adventista, em particular. Em sua dissertação sobre a esperança, “graças a qual podemos enfrentar o nosso tempo presente”, Ratzinger aponta para o seu propósito; os cristãos sabem que “sua vida não acaba no vazio”. Mesmo entre os primeiros cristãos, que viviam no contexto da escravidão durante o primeiro século, a esperança era tal que, ao invés de fomentar uma revolução social, “transformava a partir de dentro a vida e o mundo”. [4] Enquanto o “racionalismo filosófico tinha relegado os deuses para o campo do irreal”, o cristão têm a convicção de que não “são os elementos do cosmo, as leis da matéria que, no fim das contas, governam o mundo e o homem, mas é um Deus pessoal que governa as estrelas, ou seja, o universo”. Um Deus, que Se auto-revelou como sendo Amor, conduz a humanidade.

A ciência, um elemento poderoso e influente da Modernidade, “pode contribuir muito para a humanização do mundo e dos povos”, tendo, porém, potencial destrutivo, “se não for orientada por forças que se encontram fora dela.” A ciência não oferecer soluções ao anseio da humanidade por redenção, coisa que só o amor é capaz de realizar.

Para o pontífice, a fé, definida em Hebreus 11:1 nos concede “agora algo da realidade esperada, e esta realidade presente constitui para nós uma ‘prova’ das coisas que ainda não se vêem”. A substância das coisas futuras fica ainda mais confirmada por intermédio de Cristo. Por isso, o “Evangelho não é apenas uma comunicação de realidades que se podem saber, mas uma comunicação que gera fatos e muda a vida.”[5]

Respondendo a Umberto Eco, o cardeal italiano Carlo Maria Martini define três aspectos da visão cristã-católica da História – para ele 1) a História não é simples “acúmulo de fatos absurdos e vãos”, mas tem um sentido; 2) o sentido da História se “projeta além dela”, sendo, assim, alvo de nossa espera; 3) tal visão “solidifica o sentido dos eventos contigentes”.[6] Essa concepção se harmoniza com o sentido da esperança cristã conforme expresso por Bento XVI. E o fato de a esperança cristã ser singular, conduzirá a um estilo de vida igualmente singular, coerente com a nossa “soberana vocação” (Fp 3:14). Com efeito, Paulo nos conclama a andar como “filhos da luz”, imitando “a Deus como filhos amados” (Ef 5:1 e 2; cf. 1 Ts 4:1, Fl 1: 27). Uma vez que não vivemos apenas para nós, de forma egoísta, exercemos influência no mundo, vivendo para o Senhor, a quem pertencemos (Rm 14:7 e 8).

O apóstolo Pedro nos conclama ao empenho para sermos achados em paz, sem culpa ou mancha, uma vez que estamos vivendo no contexto em que o juízo começou “pela casa de Deus” e tendo em vista que esperamos “novos céus e nova terra” (II Pedro 3:13, 14; I Pedro 4:17). Assim, faz sentido que Bento afirme: “A imagem do Juízo final não é primariamente uma imagem aterradora, mas de esperança […] é uma imagem que apela à responsabilidade.”[7] É inevitável aceitar que nossa esperança afeta o presente, a forma como vivemos, nossas atitudes, opiniões, critérios de julgamento e relacionamentos.

Apesar de muito do que o papa afirma ser compatível, até certo ponto, com a mensagem bíblico-cristã, há outras considerações feitas por Bento XVI altamente questionáveis, principalmente quando ele aborda a esperança da vida eterna. Vamos analisar essas declarações controversas.

Este texto é a versão integral de um artigo homônimo publicado pela revista Ministério Adventista, Março de 2008.


[1] O texto da encíclica está disponibilizado na íntegra em: http://www.zenit.org/article-16906?l=portuguese .
[2] Víctor Figueroa, “Reflexiones sobre el dialogo luterano-catolicorromano: La autoridad magisterial y La infabilidad em la iglesia”, Theologika, revista bíblico-teologica, vol. VII, nº 2, p. 179 e 180, 1992.
[3] Miguel Luna, “Un estudio comparativo sobre el tema de la Revelacion em el Concilio Vaticano I y el Concilio Vaticano II”, Theologika, revista bíblico-teologica, vol. VIII, nº 1, p. 58 - 62, 1993.
[4] Cf.: Douglas Reis, “Como viver biblicamente de verdade”, disponível em http://questaodeconfianca.blogspot.com/2007/11/como-viver-biblicamente-de-verdade.html . “[…] o tratamento dado ao escravo […] mostra como Deus se lembrou de exigir de Israel justiça para com as classes mais baixas. A evolução natural do relacionamento entre o povo e Jeová traria revoluções na estrutura social. Embora, certamente, Deus não instituíra a escravatura, Ele sancionou justiça no trato dos senhores com seus escravos, e o princípio por de trás dessas normas evoluiriam a ponto de abolir o próprio sistema de escravidão.”
[5] Bento XVI, “Spe Salvi”.
[6] Umberto Eco e Carlo Maria Martini, “Em que crêem os que não crêem?”, (Rio de Janeiro, RJ: Record), 6ª ed., 2001, pp. 22 e 23.
[7] Bento XVI, idem.

2 comentários:

raniery disse...

Esse meu comentario vai ser pequeno.Não concordo com a igreja Catolica em algumas coisas mas quero deixar claro que nasci catolico mas nãqo morrerei catolico Apostolico Romano para min é a igreja mas mentirosa do mundo,e volto a deixar bem claro que sou catolico.Bensão a todos cristoes

Anônimo disse...

Meu comentário será sobre o texto: "Misticismo para crianças". Nós crianças e jovens são os principais alvos daqueles que querem desencaminhar as pessoas das leis de Deus, um exemplo é essa nova promoção da Elmachips, por isso temos que estar sempre atentos e bem informados sobre os princípios e propósitos de Deus.
Richard Metzler.