segunda-feira, 30 de junho de 2008

CHAMADO PARA TER UMA IDENTIDADE - parte 2



A história de Malika é a luta para ser livre e ter sua identidade. De certa forma, todos lutamos para saber quem realmente queremos ser. Para o cristão, apenas Deus pode dar essa resposta.
E isso nos leva a uma outra história: Tudo começa com ela, lutando para equilibrar a bacia de roupas sobre a cabeça; pelo menos desse modo, não havia risco de insolação. Os passos se desenham lentamente, porque não existe mais a leveza e graça da juventude. A meia-idade chegou e algumas rugas já descompõem o rosto desta senhora, com seus poucos fios prateados se destacando na vasta cabeleira ruiva. Ainda permanece bonita, embora exiba um ar triste, que contrasta perfeitamente com a manhã ensolarada.
 “Você é estéril.” Virou-se – como alguém teria coragem de lhe expor a pior das humilhações que sofria? Virou-se, antes pela curiosidade, nem tampo pela indignação. Tinha diante de si um desconhecido. Era alto e de modos gentis. Suas palavras continuavam a fluir, em um tom verdadeiro e contido: “Você não possui filhos, mas saiba: a boa nova é que você engravidará! Imagine-se segurando um bebezinho, como você sempre sonhou.” Seus olhos diluíam-se, comovida.
O estranho tinha mais do que um sonho realizado para presenteá-la. Trazia uma missão para desafiá-la:

Todavia, tenha cuidado, não beba vinho nem outra bebida fermentada, e não coma nada impuro; e não se passará navalha na cabeça do filho que você vai ter, porque o menino será nazireu, consagrado a Deus desde o nascimento; ele iniciará a liberdade de Israel das mãos dos filisteus. Juizes 13:4 e 5, NVI.

Era muita informação para um primeiro encontro. A mulher correu para casa (quantas roupas não devem ter caído daquela bacia devido à pressa dela!). Claro que Manoá, seu marido, logo soube das notícias. Estavam ansiosos com tudo aquilo. Resolveram-se por orar. Queriam maiores esclarecimentos sobre o plano de Deus para sua família.

Atendendo a oração do casal, o mesmo mensageiro apareceu novamente àquela mulher. Desta vez, entretanto, ela pediu tempo ao misterioso interlocutor com o intuito de convidar o esposo para a conversa.

Manoá se levantou e seguiu a mulher. Foi até onde estava o homem e perguntou: - Você é o homem que falou com a minha mulher? - Sim! - respondeu ele. Então Manoá disse: - Quando acontecer o que você falou, como é que o menino deverá agir? O que deverá fazer? Juízes 13:11 e 12, NTLH.

O casal percebera que seu filho tinha sido escolhido para uma missão e, devido às responsabilidades que adviriam, sua identidade estaria comprometida com esta missão.
Antes de assistirmos o desfecho deste encontro entre, gostaria de explorar com você a relação entre identidade e missão – somente desta forma poderemos nos posicionar conscientemente como cristãos diante dos desafios de nossa própria época.
Nossa época favorece o senso da perda da identidade pessoal. A chamada “sociedade da informação”, na qual vivemos, maravilhada e dependente dos diversos avanços tecnológicos, e vivendo a redução das distancias em virtude do desenvolvimento dos meios de comunicação, acarreta, no aspecto negativo, inúmeras perdas, entre as quais, a perda “de controle sobre a vida pessoal e o mundo circundante; e do sentido da identidade, associado à profunda intimidação pela crescente complexidade tecnológica.” [1]
Todas as culturas e tradições tem sofrido com a dinâmica das mudanças tecnológicas – “a crise de identidade é geral em todas as sociedades, à medida que a exclusão, a insegurança e a incerteza quanto ao futuro se tornam o destino comum da grande maioria.” [2] Em grande parte, a crise está na visão fragmentária da realidade.
O homem moderno vive dividido entre os campos completamente antagônicos dos valores e da razão [3], como se a crença servisse apenas como um consolo, sem necessariamente corresponder à realidade, ao que é fato, e que pode ser aceito racionalmente. [4] Essa fragmentação do mundo[5], presente em nossa época, é aceita pelas pessoas, mesmo por cristãos – a consequência, para os últimos, é que a fé fica restrita a uma esfera e não interfere nos assuntos do dia a dia. Entretanto, com muita propriedade, Nancy Pearcey argumenta:

Temos de insistir em apresentar o cristianismo como uma cosmovisão abrangente e unificada, que trata de todos os aspectos e áreas da vida e da realidade. Não é somente verdade religiosa, mas verdade absoluta. [6]

No demais, é preciso reconhecer três fatores: em primeiro lugar, somos sujeitos às mais diversas influências, que potencialmente podem afetar nossa maneira de encarar o mundo. Desde os círculos que frequentamos às leituras que fazemos, de nossos hábitos alimentares ao tipo de entretenimento que escolhemos. Um conhecido músico declarou recentemente: “Ao revolucionar nossa maneira de ouvir, a música eletrônica pode revolucionar nossa maneira de viver.” [7] Essa afirmação pode ser feita com respeito a todo tipo de música, ou mesmo a outra expressão cultural, sem prejuízo. Somos afetados pela cultura ao redor.
Em segundo lugar, é necessário que se tenha em mente que, ao mesmo tempo que somos influenciados também influenciamos o mundo por meio de nossa mente, porque ninguém é “mero produto das forças a seu redor”. Ocorre que temos, cada um, nossos próprios pressupostos, e vivemos “do modo mais coerente possível com estes pressupostos”, até de forma inconsciente. Por sua vez, os pressupostos são sustidos por aquilo que consideramos “verdade acerca de tudo quanto existe”. Daí são formados nossos valores, nos quais nos baseamos ao tomar quaisquer decisões. [8]
Finalmente, se nossos pressupostos estiverem desalinhados com o que a Bíblia ensina, ou se ainda a própria Bíblia não for encarada como uma explicação confiável da realidade, nossa participação no mundo será confusa e incapaz de revelar o plano dos Céus. Allan Bloom traça a derrocada histórica da valorização da Bíblia nos seguintes termos:

Para efeitos práticos, nos Estados Unidos, a Bíblia era a única cultura comum, a qual unia os simples e os requintados, os ricos e os pobres, os jovens e os velhos e – como verdadeiro modelo de uma visão de mundo, chave para o resto da arte do Ocidente, cujas maiores obras de uma forma ou de outra derivavam da Bíblia – contribuía para dar seriedade aos livros. Com seu desaparecimento gradativo, inevitável, a própria ideia de um livro tão completo, a possibilidade e necessidade de uma explicação do mundo estão igualmente desaparecendo. […] sem o livro a própria ideia da ordem do conjunto está perdida. [9]


Essas considerações nos mostram que precisamos da visão correta para garantir uma atuação correta no mundo. A missão que Deus nos confia exige o reconhecimento de que temos uma identidade preciosa – a de filhos e filhas do Pai Criador, remidos pelo amoroso sacrifício de Jesus no Calvário e revestidos pelo Espírito, que nos garante a herança eterna. Se a confusão pós-moderna nos engolir, nossa identidade será devastada; sem conseguir reconhecer nosso rosto ao nos depararmos com o espelho, será impossível pretender servir a Deus. 


Retirado do livro Paixão Cega. Para adquirir o volume no site da CPB, clique aqui.http://www.cpb.com.br/produto/detalhe/11488/paixao-cega



[1] Fernando Leal, “ Ethics is fragile: goodness is no”, em: S. Gill Aramjit (Ed.). Information Society: new media, ethics and postmodernism. (London : Springer, 1996), citado em Jorge Werthein, “A sociedade da informação e seus desafios”, disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-19652000000200009&lng=en&nrm=iso&tlng=pt.
[2]Henrique Rattner, “Cultura, Personalidade e Identidade”, disponível em http://www.lead.org.br/article/view/189/1/87.
[3] Francis Schaeffer, “Como viveremos?” (São Paulo, SP: Editora Mundo Cristão, 2003), p. 111.
[4] “A ciência não oferece o consolo emocional que a religião oferece a tantos, do mesmo modo que a religião não provê uma explicação racional dos fenômemos naturais”, Marcelo Gleiser, “O fim da terra e do Céu: o apocalipse na ciência e na religião” (São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2001), p. 33. curiosamente, o mesmo autor havia se declarado, em trecho anterior, contra a divisão da realidade em compartimentos: “Não acredito que seja possível apreciar os frutos de nossa criatividade em compartimentos isolados, sobretudo quando examinamos questões que transcendem uma única área do pensamento humano.”, p. 11. Em entrevista à revista Veja, o conhecido biólogo ateu Richard Dawkins foi perguntado se um cientista poderia ser religioso; sua resposta foi: “Pode, e muitos cientistas são. Mas eu não consigo entender suas razões. Talvez seja um tipo de cérebro repartido: eles mantêm suas crenças [valores] em um nicho, e a ciência [fato] em outro.” Edição 1907, ano 38, nº 22, 1º de Junho de 2005, p.14, grifos supridos.
[5] “[…] A modernidade já nasceu no bojo de uma crise, que levou à fragmentação da cultura em três esferas independentes – ciência, a moral e a arte […]”, Sergio Paulo Rouanet, “As razões do Iluminismo” (São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2004), 8ª impressão, p. 23. o mesmo autor advoga a primazia da razão sobre os valores “[…] Ela [a razão] submete à sua jurisdição o reino dos valores e avalia a maior ou menor racionalidade das normas.”, p. 12.
[6] Nancy Pearcey, “Verdade Absoluta: Libertando o Cristianismo de seu cativeiro cultural” (Rio de Janeiro, RJ: Casa Publicadora das Assembléias de Deus, 2006), 1ª ed., p.125.
[7] Sérgio Martins, “A vanguarda sou eu”: entrevista de Karlheinz Stocokhausen à revista Veja, Edição 1705, ano 34, nº 24, 20 de Junho de 2001, p.15.
[8] Shaeffer, idem, pp. 11 e 12.
[9] Allan Bloom, “O declínio da cultura ocidental” (São Paulo, SP: Ed. Best Seller [Ed. Nova Cultural], 1989, 4ª), pp. 72 e 73, citado em Douglas Reis, “Conquistando o mundo: a reponsabilidade por trás da missão”, disponível em http://questaodeconfianca.blogspot.com/2008/06/conquistando-o-mundo-responsabilidade.html.

2 comentários:

joêzer mendonça disse...

parabéns pelas fontes utilizadas e pelo discernimento no tocante à contradição de marcelo gleiser.

Nancy disse...

Mais palavras que nos ajudam a refletir de maneira mais eficaz sobre a nossa identidade. Neste mundo tão relativista é super importante sabermos quem somos e para onde vamos...que Deus continue te usando amigo Douglas! !!