sábado, 16 de janeiro de 2010

ADVENTISTAS FANÁTICOS: ALGUMAS REFLEXÕES


Já dizia um ex-professor meu no seminário que o fanatismo é uma parte da verdade que ficou louca. Esse aforismo consegue expressar com genialidade duas ideias-chaves sobre o fanatismo:
1.Sua identificação com a verdade: se o fanatismo é uma parte da verdade, ele se opõe, a princípio, e na maior parte dos casos, à heresia, que consiste em uma – ou mais – doutrina espúria, a qual concorre com a verdade. O fanático nasce a partir de uma motivação antagônica: o herético odeia a verdade; o fanático ama tanto a verdade que idealiza, segmenta e, por fim, distorce.
2.Sua peculiaridade perniciosa: o fanatismo se sobressai em relação ao conjunto doutrinal de que se origina pela tendência de manter certas ênfases, em detrimento do conjunto. Eis a peculiaridade do fanatismo. Também não podemos igualar fanatismo a uma mera excentricidade religiosa, já que ele toma certa carga de virulência, infectando tudo e todos ao redor, implícita ou explicitamente. Eis sua perniciosidade.
Embora o fanatismo não esteja restrito ao Cristianismo, é relevante o número de cristãos fanáticos. Geralmente, o fanático inverte o zelo autêntico do testemunho cristão – enquanto um genuíno servo de Deus estaria disposto a morrer pela verdade, o fanático, em contrapartida, dispõe-se a matar por aquilo que considera como a vontade divina. Dessa forma, o fanático abandona o posto de súdito do Reino do Céu, condição na qual se acata a legislação do Evangelho, e se torna, ele próprio, o legislador agindo coercivamente sobre outros, a fim de acatarem seu dogmatismo.
Entre os adventistas do sétimo dia, o fanatismo achou um campo vasto. E por uma razão bem simples: sendo o Adventismo uma fé abrangente, reunindo sob os auspício de “Verdade Presente” um conjunto bem concatenado de postulados bíblicos, não se torna difícil o surgimento daqueles que se apaixonem loucamente por umas poucas dessas verdades. Levando em conta que se o aforismo inicial reza ser o fanatismo uma parte enlouquecida da verdade, pode-se definir um fanático como aquele que se apaixona loucamente por uma parte da verdade.
Passo a expor algumas ideias a respeito do fanatismo no Adventismo (em muitos aspectos, bem similar ao dos fanáticos de outros arraias). Não proponho que todos os fanáticos entre nós sejam iguais – uns se revelam mais apaixonados, outros menos, mas sempre existe a equivalência entre a paixão deles com a loucura que desenvolvem a curto, médio ou longo prazo. Dito isso:

1.Adventistas fanáticos assumem o posto de pilares da ortodoxia: em meio às marés de relativismo, a ilha-igreja quer se sentir segura. Os fanáticos surgem como indivíduos capazes de sustentar a verdade, às vezes sob os próprios ombros, tal qual Atlas na mitologia. Entretanto, sua atitude de resistência, na maioria das situações, exclui as vozes que divergem da deles em assuntos secundários, como se as opiniões contrárias representassem um desvio da fé correta. Fique claro que admito discordâncias em questões de somenos importância. Uma coisa é afirmar que existe verdade absoluta; outra, bem diferente, é pretender acesso a toda verdade absoluta, em todos os detalhes – conhecimento que apenas Deus, em última instância, é capaz de alcançar. A verdade é absoluta, não os que creem nela, havendo espaço para a atitude inquiridora, a pesquisa e o crescimento de compreensão acerca do que é verdadeiro. Logo, mesmo a ortodoxia saudável não exclui a liberdade de diálogo sobre pontos da verdade que ainda não foram completamente compreendidos, e isso dentro de um espírito largo e humilde. Quando assumo que somente eu esteja certo, e em todos os aspectos, está assassinada a possibilidade para qualquer diálogo e até, por que não dizer, de aprendizado concreto (essência do verdadeiro diálogo humano). Temos que advogar uma ortodoxia sólida, apta intelectualmente para defender e expor os principais artigos da fé adventista. Ninguém se ache autorizado a ter a palavra final sobre a interpretação dos 144 mil ou de Daniel 11, para sacar dois exemplos. Por vezes, o “ortodoxismo” – algo distinto da ortodoxia viável – não passa de uma forma mais sutil do “achismo”, acrescida de intolerância desproporcional e autoritária.

2.Adventistas fanáticos preterem a pesquisa teológica às interpretações pessoais: o fanático é, por natureza, um profundo teimoso! Não espero que ninguém conclua com isso que todo teimoso seja um fanático, sequer potencialmente; mas pensemos: o fanatismo dos escribas e fariseus os levava a fechar os ouvidos para a presença da verdade, ou seja, do próprio Jesus. No colóquio de Marburg (1529), Lutero debateu com Zuínglio acerca da presença de Jesus no pão da ceia. A despeito dos argumentos diversos usados pelo reformador suíço com o fito de convencer o alemão, a teimosia de Lutero impediu-o de aceitar que o pão apenas simboliza a carne de Jesus. “Este é o meu corpo”, repetia Lutero à exaustão, a tal ponto que Zuínglio asseverou que a discussão não estava mais em um plano racional. O fanático não quer provas, não importa quão qualificadas se apresentem. Em parte, a ênfase na interpretação pessoal da Bíblia legada pelo protestantismo abriu as portas para abusos, o que, em parte, foi equilibrado pela elaboração de credos – os protestantes davam liberdade individual de interpretar livremente a Bíblia, mas dentro de certos limites, procurando respeitar, inclusive, a própria Bíblia. Atualmente, a livre interpretação dentro do Adventismo constitui um problema. Um dos fatores que contribui para uma falta de limites quanta às interpretações é a confusão em nosso meio entre conhecimento bíblico e conhecimento teológico. Não importa o quanto uma pessoa conheça a Bíblia, sem treinamento teológico ela não pode discutir teologia. Que ninguém pense, pelo que disse, que acredito na salvação pela teologia. Em verdade, Deus não tornou necessário o conhecimento teológico essencial à salvação. Aliás, muitos renomados teólogos profissionais não são verdadeiros crentes – independe da boa qualidade de sua teologia. Ao mesmo tempo, para alguém ser teólogo precisa de muitas competências para além da mera habilidade de fazer ligação temática entre textos bíblicos (o que se aprende dando estudos bíblicos). Para ilustrar: recentemente vi um panfleto criticando um artigo do Pr. Marcos De Benedicto sobre a Trindade. O autor zombava o fato de Benedicto citar teólogos afamados, à semelhança de Karl Barth, o qual admitia sequer ter ouvido falar! Em virtude disso, alcunhou o articulista de “Marcos De Eruditos”. Ora, veja! Como discutir Teologia sem conhecer o suíço Karl Barth, um dos maiores nomes da teologia do século XX? Seria como tratar de Pedagogia sem mencionar Piaget ou discorrer sobre Psicologia, sem Freud. Embora um psicólogo discorde de pontos da teoria freudiana, ou um pedagogo recuse-se a seguir a linha que propôs Piaget, não podem ignorá-los por completo. Os adventistas – bem como cristãos tradicionais – têm muito a questionar nos trabalhos de Barth e dos seus seguidores, neo-ortodoxos, mas não se pode fazer teologia no vácuo. Como área do conhecimento, a teologia possui grandes nomes e importantes contribuições. Um teólogo adventista age a partir da Verdade Presente, da qual extrai sua teologia e avalia as demais. Um leigo adventista necessita estudar a Bíblia e conhecer a Verdade Presente. Também não pode minimizar ou desprezar o auxílio disponível através dos escritos com certo conteúdo teológico (encontrados na lição da Escola Sabatina e alguns livros) produzidos pela denominação adventista.

3.Adventistas fanáticos são mais propensos à infecção de heresias: Observamos anteriormente a distinção entre hereges e fanáticos. Sucede, no entanto, desse converter-se naquele, para o pasmo geral. Frequentei uma igreja adventista na Penha (SP) na qual um dos anciãos, uma diaconisa e a diretora de Ministério Pessoal se desligaram da igreja para formar um grupo anti-tinitrariano. Por que cada vez mais líderes abonam as fileiras adventistas para aderirem a grupos heréticos? Uma das possíveis razões é que esses ex-membros já haviam aderido a posicionamentos fanáticos. O fanatismo se inaugura nas percepções sobre o disfarce de um zelo pelo correto; desenvolve-se com um apego a verdades específicas; passa a advogar uma atitude legalista, que transparece em ações discriminatórias contra os que não concordam ou não compreendem as verdades enfatizadas pelo fanático; e, finalmente, o desequilíbrio do próprio fanático põe tudo a perder, uma vez que desperta nele o desejo de reformar aquilo que se considera como apostatado. Nesse ponto, o farisaísmo pode conduzir à assimilação de heresias, e até as verdades antes admiradas são rejeitadas diante da nova concepção de crenças.

4.Adventistas fanáticos são fortes candidatos à apostasia: outro caminho para o fanático que não o da heresia passa a ser o abandono da fé. Por que fanáticos apostatam? Por não fruírem da plenitude do evangelho da Graça, presos que se acham em concepções legalistas e infrutíferas. Lutar contra velhos hábitos de caráter pela fé nunca foi desafio leve. Lutar contra hábitos errados apenas da perspectiva do esforço pessoal não se trata de algo inviável – é impossível, com todas as letras! Em seu empenho pela doutrina pura, o fanático acaba sozinho no final das contas, e percebe-se até mesmo sem Deus. E, quando se abandona a comunhão com o Senhor, uma religião árida dificilmente manterá alguém no convívio com outros cristãos. As críticas que o fanático desferiu contra os cristãos “menos zelosos e pios” do que ele, acabam se tornando as setas que ferem seu próprio coração de Saul, suspenso entre o Céu e Terra, parado justamente no meio do caminho entre os dois.

Contra o fanatismo, a solução começo por buscar a “multidão de conselhos”, na qual há sabedoria. Ninguém se isole, como se fosse o único Elias injustiçado que Jezabel persegue pelos quatro cantos da Terra. Uma vida comunitária sadia é um bom passo contra uma postura desequilibrada. Uma devoção sólida pode igualmente favorecer o crescimento simétrico da espiritualidade, desde que a Bíblia seja estudada ponto a ponto, sem a atenção demorar-se apenas naquilo que é de preferência pessoal (cada um tenha a sua, o que é legítimo, a partir do momento em que nossas passagens ou doutrinas favoritas nos impeçam de ver o todo da mensagem). O estudo da história da igreja também favorece uma análise de como certas tendências se mostraram danosas e precisam ser evitadas. Enfim, todos podemos amar a verdade lucidamente e de forma integral.

7 comentários:

joêzer disse...

amigo douglas, quer ver outro exemplo do que você soube tão bem descrever?
o artigo 'a música que agrada a Deus', permeado de asserções exageradas e desprovidas de fundamento musicológico (quando não, teológico).
a maneira como muitos irmãos estão defendendo o seu gosto musical (assumidamente sacro, o dos outros é contrafação), usando argumentos da fisiologia (quando a música também é um evento cultural, sociológico) e distorcendo passagens bíblicas é algo que não pode ter outro nome senão o do fanatismo.
o artigo está disponível no blog 'literalmente verdade', na seção dos links aqui do seu blog.

douglas reis disse...

Joêzer,

vi e não li, por isso não tenho opinião. Pessoalmente, acredito que existe uma música sacra adequada, ao mesmo tempo que admito a evolução da música, enquanto manifestação cultural. Acredito que as ideias bíblicas de adoração devem ser expressadas da melhor forma no contexto cultural do adorador. Isso implica em um refinamento da cultura, excluido até mesmo elementos culturais contrários ao evangelho. Também reconheço que muitos estão mais preocupados em saber de que material era feita a harpa de Davi do que em buscar os preceitos gerais e as formas de aplicá-los relevantemente em nossa cultura.

Abs,

André Reis disse...

Olá Douglas,

Devolvo a visita ao nosso blog www.AdoracaoAdventista.com!

Tenho encontrado muitos desses adventistas na questão da música e adoração. Pretendem fazer da música o centro da adoração como suposta defesa da adoração verdadeira e acabam destronando a Cristo.

Gostei do seu post, sinto que ele é um sensível progresso comparado a outras abordagens que vi por aqui no passado.

Um abraço!

armaduraadventista disse...

Olá, Douglas

Esse artigo faz muitos de nós - pra não dizer EU - nos darmos à séria reflexão sobre a essência de nossas motivações religiosas e adventistas, bem como, de forma transparente propõe uma solução, ainda que implícita, mas inteligente.
Confesso que é refrescante quando propõe-se uma solução dentro da qual pode-se interagir consigo mesmo de modo inteligente...

No entanto, pude perceber em seu texto, um certo tom irõnico ao deixar nas entrelinhas uma opinião velada - e classicamente liberalista - de que todo aquele preocupado com a santificação de vida é fanático conservador...
Nem todo o que batalha por uma vida santificada é fanático ou xiita simplesmente por rejeitar esse ou aquele estilo de música, de adoração chamada contemporânea, ou porque assumiu uma posição mais ortodoxa em relação a alimentação, vestuário, etc, só para exemplificar..
Perceba como pode ser tênue a linha que separa um contemporâneo com um liberalista extremista! O mesmo vale para um contemporâneo em relação a um conservador extremista!
De acordo com a ênfase dada em um extremo, o outro se aguça. Infelizmente é isso que os contemporâneos tem dixado escapar em sua ênfase de estabelecer o "equilibrio"...
Enquanto so chamados contemporâneos se derem ao mister de taxar todo tradicionalista de extremista, haverão excessos, acusações e defesas apaoxonadas. Para sua reflexão, são os conservadores extremistas que infelizmente detém as rédeas da administração da organização. Prova disso são o recente artigo da Revista Adventista sobre percussão, o texto do Pr Otimar Gonçalves presente no site dos JA's, e, mesmo, a postura dúbia e provocativa da cúpula da administração em relação a alguns pregadores extremistas que tem surgido...
Volto a frisar: há que se abordar essa questão de modo mais amplo e inteligente. Enquanto os contempórâneos taxares todos tradicionalistas de xiitas adventistas, haverão réplicas apaixonadas e atitudes arbitrárias administrativas! Enquanto ops conservadores alimentarem o espírito revachista, o orgulho espiritual e a excessiva ênfase comportamentalista - e não relacional - haverão respostas liberalistas e recriminação mútua...
Enquanto isso o capeta desopila o fígado às nossas custas!



Evanildo carvalho

douglas reis disse...

Evanildo (agora sim sei o seu nome!),

Não tenho a intenção de estar incluso entre os liberais, nem entre conservadores. Defendo que todo cristão deva se sujeitar à Revelação, e não à tradição ou ao liberalismo. Se você ler outros artigos que escrevi, verá que combato os liberais em muita coisa.

Também não imagino que os líderes da igreja sejam conservadores; pelo que tenho conversado com alguns, percebo que estão, em sua, maior parte, adotando uma postura de centro, muitas vezes se inclinando para um liberalismo mais "light". Mas não vamos generalizar.

Escrevi não para atacar, mas para levar à reflexão, e isto acima de todos os rótulos.

paulo veiga disse...

ola, Douglas.sou PAULO VEIGA.fanaticos,tem mais saõ poucos, porem,o que a igreja esta cheia é de liberais, e entre eles muitos lideres de pastores ancioes,etc. A serva do senhor deixa bem claro, que muitos fies estão sendo seguros pelo Senhor nas outras igreja e no mundo, por causa do testemunho dos de dentro da igreja.Que.TESTEMUNHO EM. A devi ser o comportamento, das roupas, ou quem sabe o tipo da musica, ou ainda outra a reforma de saude, que ninguem que prega, e os que querem são chamados de fannaticos, quem sabe ainda´as pinturas,defender e fala contra esssas coisas é ser conservador. Qeu é contra tudo isso e mais, essse são os liberais. Fanaticos,são aqueles que querem viver sem pecar.Não podem ter relacão, mesmo sendo casado,etc.Um tchalll.Mais antes em que ramo voc. esta. Liberais. Conservadores. ou, fanaticos,não sei.

Manuel Pinto disse...

É tudo uma questão de bom senso, de boa fé, de coerência e de humildade.
O caminho a seguir está escrito e descrito na Bíblia.
Os escritos de Ellen G. White, não substituem a Bíblia, nem se sobrepôem a ela. Antes pelo contrário, eles nos encorajam a pôr em prática os princípios divinos nela expressos. E se o que Ellen G. White escreveu, não contradiz a Bíblia, mas concorda com ela, entraremos em contradição, se os atacarmos.
Fanatismo e zêlo com entendimento não são a mesma coisa. Um é o oposto do outro.
Se o fanatismo é perigoso, o liberalismo o é igualmente.
O que está em causa é de tão grande importância, que merece ser tratado com reflexão, moderação, e sobretudo com a determinação de honrar o nome do Criador.
Não esqueçamos que a Bíblia diz que há caminhos que ao homem parecem direitos, mas são os caminhos da morte.